terça-feira, maio 31, 2016

Nojo

Já nem se nota. Morreram mais umas mãos cheias de pessoas afogadas no Mar Mediterrâneo mas os jornais já quase não ligam. As pessoas já quase não ligam. É uma fatalidade, uma nova lei da natureza. Que se há-de fazer?

A comunidade ocidental já se fartou de chorar por estes mortos. A comunidade europeia já mostrou que não está disposta a recebê-los vivos. Até é preferível que morram no caminho. Assim poupam-se à desilusão dos campos de refugiados improvisados, aos insultos xenófobos, à angústia de estarem tão perto do sonho e perceberem que, afinal, é apenas um outro pesadelo... enfim, resta-lhes a consolação de morrerem esperançados num futuro melhor.

Isto mete nojo.

sábado, maio 28, 2016

Os porcos triunfam sempre

Não parece ser possível fazer grande coisa. Os porcos triunfam sempre.

Os mentirosos, os poderosos (a mentira é uma forma de poder e o poder é uma forma de mentira), os belos, os bem nutridos, os bem parecidos, os fortes, os atléticos, os bem falantes, os altos e os loiros, os de olhos azuis, todos os perfeitos, os de sorriso alinhado, os de dentes brancos, os bem vestidos, todos estes, todos eles, triunfam sempre pois é a imagem o factor fundamental.

Muito antes desta era estupidamente mediática, já dizia o povo que "quem vê caras não vê corações". A sabedoria popular é feita pelos que estão por baixo, pelos defeituosos, pelos baixotes e gorduchos, de beiça gordurosa, malga de tinto vazia a pender na mão titubeante. Este ditado é profecia.

Vivemos num mundo dominado por dentições ofuscantes. Os que têm dentes podres e barbela nunca poderão confrontar os limpinhos, dificilmente poderão refutar uma afirmação exalada num suspiro enfadado de um Ken, muito menos poderão contestar a autoridade luminosa de uma Barbie. Vivemos num mundo dominado por princesas Disney.

Poucas vezes a "tradução" de um título do inglês teve tão grande sublimidade quanto a de "Animal farm" para "O triunfo dos porcos". Houvesse Orwell tido o lampejo genial desse título para a sua fábula intemporal e, talvez, o mundo fosse um pouco diferente. Os porcos triunfam sempre.

quinta-feira, maio 26, 2016

Bom feriado

Esta 5.ª feira mais parece ser um Sábado. É estranha a forma como os dias da semana ganham personalidades próprias quando vivemos uma vida de rotinas. Os dias entram-nos no corpo e o corpo adapta-se aos dias como eles vão sendo.

Hoje o meu corpo não percebeu de imediato que era 5.ª feira pois não teve de obedecer ao relógio. O meu corpo deambulou pela casa um tanto confuso. Quando saiu para rua percebeu um ritmo diferente e, talvez por isso, deslocou os quadradinhos do calendário e passou a comportar-se em desacordo com a realidade.

Levei algum tempo a ligar o cérebro em modo autónomo. A partir daí fui construindo o sentido deste dia.

Bom feriado.

sexta-feira, maio 20, 2016

Zombie King

Cada povo tem o bandido que merece e cada bandido encontra o lugar que lhe compete no meio do povo a que pertence. Alguns bandidos acabam por ser amados outros impõem-se pelo temor que inspiram. Há mesmo aqueles que nunca chegam a ser identificados como tal; são os maiores de todos os bandidos.

Quando um bandido se torna demasiado mau e se transforma em monstro é hora de deitar as mãos à cabeça. Muitos bandidos são tolerados, apaparicados, levados em ombros pelo povo que finge não perceber a profundidade das burlas, dos logros e dos pequenos roubos com que o bandido vai marcando o seu percurso social.

Bem vestidos, bem lavados e perfumados, penteadinhos como se estivessem constantemente à porta de casa da tia, prontos para o chá das cinco antes de irem tratar de uns assuntos muito importantes, os bandidos podem ser ou não ser muito perigosos. É como no Hamlet.

O problema é conseguirmos perceber o que é que define um bandido, onde é traçada e quem traça a fronteira da bandidice? Entre nós, cá em Portugal, não nos temos preocupado muito com esta questão e acarinhamos indefinidamente os nossos bandidos e, até, mesmo alguns grandes filhos da puta. É como se eles fossem aquilo que gostaríamos de ser mas que não temos coragem para assumir a não ser defronte ao espelho.

Seremos um povo de bandidos? Talvez sejamos e talvez isso seja motivo de esperança.

Cada povo de bandidos tem o herói que merece e cada herói encontra o lugar que lhe compete no meio do povo a que pertence? Continuamos à espera de Dom Sebastião que, caso regresse na tal manhã de nevoeiro, será já pouco mais que um zombie.

terça-feira, maio 17, 2016

Angústia?

Por vezes um gajo tem a incómoda sensação de que as coisas estão a ficar bolorentas. Percebes o que quero dizer, leitor amigo? As coisas ganham, de súbito, mais uns gramas de peso, parecem ficar pastosas, a colarem-se aos ponteiros do relógio, as coisas ficam mais feias, menos belas, enrolam-se em papel manteiga engordurado... não sei explicar bem mas talvez estejas a compreender o que quero dizer.

Há dias em que as coisas ficam assim.

Para mim isto está a acontecer desde ontem. As pessoas notam o fenómeno estampado na minha cara; "isso não está bem" ou " estás com cara de caso", dizem-me. E eu acredito. Acredito que o meu corpo e a minha imagem deixam transparecer essa estranheza incomunicável por palavras.

Penso que é a isto que chamamos "angústia". Neste caso uma leve angústia mas, ainda assim, uma sensação capaz de transformar, de limitar, capaz de aprisionar o espírito numa espécie de teia tecida por uma inominável aranha.

domingo, maio 15, 2016

Ai, caramba!!!

Apercebo-me que sou incapaz de imaginar uma coisa que não esteja contida noutra coisa. A alma contida no corpo; a galáxia contida no universo; Deus contido no espírito humano; etc. e tal, por aí fora, por aí adiante... a noção de infinito, a possibilidade da ausência de limites é algo muito para lá da minha compreensão.

Isto traz-me uma angústia fundamental: o que é a Liberdade? Não é a Liberdade, por definição, uma ausência de limites?

 A Liberdade tem limites? Como pode a liberdade ter limites? Significa isto que a Liberdade está contida em alguma coisa? Não é isto uma tenebrosa contradição?

Ok, isto está ficar descontrolado, demasiado confuso. Um prisioneiro é livre de se movimentar no espaço da prisão que o confina? Uma pessoa que é livre de se deslocar num determinado espaço não encontrará um limite, uma fronteira que a impeça de ser totalmente livre?

Totalmente livre... ao dizer isto estarei a admitir a hipótese de que existe a possibilidade de sermos mais ou menos livres. Isto faz algum sentido? Como pode alguém ser mais livre ou menos livre? A Liberdade admite uma escala de valor?

Ai, estou a ficar nauseado!

Talvez a questão da Liberdade só possa ser colocada num plano ideal; talvez a questão da Liberdade não faça sentido no mundo real. Talvez a Liberdade seja possível apenas num mundo onírico. A Liberdade não cabe neste mundo em que nos cruzamos e somos aquilo que somos.

Como diz a canção dos GNR: "Horrorosa Natureza, pseudo-mãe, até há fronteiras na selva".

Por vezes penso que nunca saí da adolescência.

sexta-feira, maio 13, 2016

Magia

Tentar compreender o mundo que nos rodeia é tarefa impossível de concretizar. Sempre foi. Os grandes pensadores oferecem-nos lampejos clarividentes, iluminam por instantes o negrume universal.

Quando reflectimos sobre a imensidão percebemos que somos menos que um átomo no corpo frágil de uma formiga. Além disso, condenados que estamos à extinção, podemos sentir a angústia infinita de não sermos nada. Mas, no entanto, estamos aqui. Temos esta vida para viver e este universo para compreender.

É com estes pensamentos que entro no dia que se segue. Não posso dizer que esteja particularmente entusiasmado. Sei que, mais logo, terei esquecido esta deprimente reflexão. Quando der a primeira gargalhada do dia tudo se iluminará, como que por magia.

terça-feira, maio 10, 2016

Monstros

Perguntas:
- Quem nos protege dos monstros que assolam este mundo? Quem consegue impedir a brutalidade absoluta desses monstros? Quem tem força para derrotar os monstros?

Respostas:
- Outros monstros. Outros monstros. Outros monstros.


segunda-feira, maio 09, 2016

Vison

Um homem de cabeça branca passeia no palco com uma gola circular, reflectora, gola que lhe dá uma volta completa ao pescoço. A luz cai sobre a gola num gracioso ângulo de, mais ou menos, não sei  quantos graus e faz com que o homem, vestido de negro, se transforme numa cabeça planante (como a do Rei da Lua nas Aventuras do Barão Munchausen).

O homem sorri, arreganha os brancos lábios. Tem os dentes vermelhos. Acho que esteve a comer tomate. Molho de tomate. A beber sumo de tomate. O tomate é um estranho fruto.

Depois há aquele malabarista vestido com um fato de escamas de peixe que salta como um sapo ou como um coelho (não parece nada um canguru a saltar), que salta por ali e por acolá, que dá pinotes e pinotes, atirando objectos ao ar: um guarda-chuva, um telemóvel esperto, um tijolo cor de laranja e um ursinho de peluche ao qual está quase, quase, a saltar um dos olhos (que já é um botão de gabardina há bastante tempo).

Olha, agora é uma ave transparente que entra em cena. Tem rodinhas no lugar dos pés e rola sobre o palco com suavidade. A ave comeu uma rosa vermelha ao pequeno almoço, vê-se bem que foi isso o que comeu.

Mais atrás um casal flutua sobre o negrume do palco, equilibrando-se num esquife de metal. Uma das figuras encontra-se protegida por um pano azul que a cobre da cabeça aos pés (presumindo que tenha cabeça e que tenha pés).

Finalmente, um cavalo cujo corpo já é mais uma armadura que aquilo que deveria ser o corpo de um cavalo, passa em primeiro plano com um corneteiro incrustado no lombo, como um artilheiro enfiado na tampa aberta de um carro de combate.

sexta-feira, maio 06, 2016

Da vaidade

Folheio as páginas do suplemento cultural do "meu" jornal. Leio aqueles títulos em letras mais gordas que a vénus de Willendorf, frases magníficas, sugestões enigmáticas, descrições com elevado teor poético elogiam escritores, músicos e outros artistas, disparam-nos em direcção à categoria de pequenos deuses neste Olimpo de papel impresso. E sinto inveja, confesso que sinto inveja.

A inveja que arranha o interior do meu peito faz-me sentir que não sou digno daquele panteão da cultura. Um deus, mesmo um deus de papel impresso, decerto é superior a sentimento tão mesquinho, tão pequenino, tão provinciano, como esta inveja que aqui exponho. Inquieto-me, roo as unhas: não sou um artista? Sou um mero professorzeco, não sou um intelectual, sou um... nem sei o que sou.... um Joseph Merrick, na melhor das hipóteses.

Oh, como eu gostava de um dia ser página de suplemento cultural (página dupla levar-me-ia ao Paraíso!), como eu gostava de ver o meu nome elogiado por alguém com o dom da escrita e argúcia suficiente para ver nos meus trabalhos aquilo que nem eu serei capaz de perceber. Oh, como seria feliz se, por uma vez, pudesse despejar na gamela onde a minha vaidade chafurda e se alimenta substância suficiente que lhe saciasse a fomeca.

Foi em Narciso e Goldmund, de Herman Hesse, que li, há largos anos, uma frase que nunca esqueci (decerto a transformei, a memória é traiçoeira). Numa das conversas entre as personagens centrais deste romance, uma dizia à outra qualquer coisa como "a arte arrisca-se a ser apenas uma expressão de vaidade individual". Se não é isto, peço desculpas a Hesse, mas foi isto que me ficou gravado a ferro e fogo nos recessos do cérebro.

Hesse é bem capaz de ter ali fixado um ponto importante, digno de profunda reflexão.

quarta-feira, maio 04, 2016

Contrários

Não estar zangado não é o mesmo que estar feliz. Não estar morto não significa que se esteja vivo. O contrário do branco não é o preto. Nem o céu é o contrário da terra. O contrário de ser bom não é ser mau. O cão não é o contrário do gato. O contrário de contrário é, precisamente, o contrário.

Ok, estou a registar uma série de ideias controversas, parvoíces, admito. Acabo de escrever e fico imediatamente suspenso na dúvida.

Quero apenas notar que entre coisas aparentemente opostas existem outras, existem coisas intermédias. O contrário de alguma coisa pode ser mais ou menos evidente, mais ou menos vincado. O contrário de uma coisa pode ser apenas um bocadinho o seu contrário. O contrário absoluto não é mais que o extremo de uma escala.

Será? 

terça-feira, maio 03, 2016

Esfera

Podemos virar uma esfera ao contrário que ela não deixará de ser uma esfera. Podemos olhá-la de diferentes ângulos; parecer-nos-à idêntica. Será por isso que a esfera é considerada uma forma perfeita, por ser, aparentemente, incorruptível? 

sexta-feira, abril 29, 2016

Matina

                Matina
Temos necessidade de defender com unhas e dentes os nossos mais pequeninos. O papão multiplica-se, como hidra de corpos malévolos, leva-os o vento e os espalha pelos quatro cantos da realidade e da memória virtual. As crianças ficam melhor quando restam em casa, protegidas das bestas que por aí andam à solta, livres e alegremente largadas neste mundo e no outro; as bestas estão sempre prontas a fincar o dente em algum pedaço de carne mais tenrinha. São gulosas, as putas. As filhas-da-puta das bestas nunca ficam de barriga cheia: devoram tudo o que apanham a jeito e, pelo jeito que levam, logo digerem o que antes paparam e cagam de imediato o que ainda há pouco digeriram; vivem num estado de infinita caganeira, o que é incomodativo e contribui fortemente para as tornar ainda piores do que más. Assim cresce uma besta, filha e mãe do papão, e este mundo fica mais perigoso, mais parecido com o outro, o ar que respiramos acordados a misturar-se no que expiramos quando adormecidos e esquecidos das agruras da coisa. Os nossos pequeninos precisam de nós. Estejamos atentos.
                O menino deixava-se ir no colinho do pai que tinha cara de bruto e semblante sombrio, vincado de rugas ou simplesmente indisposto pelo facto de ser manhãzinha tão cedo. O sol, aquela hora, fazia ainda alguma falta. Mais tarde haveria de sobrar em calor e suor. A verdade é que nunca estamos satisfeitos com a meteorologia ou, então, precisamos apenas de um pretexto para não emudecermos quando encontramos outro ser vivo semelhante a nós e ficamos face a face, como o boi e o palácio. A mãe ia mais atrás, a fazer sons carinhosos e a dizer coisinhas fofas em direcção à cabecinha do menino que se encostava de forma comovente ao ombro bruto do pai com rugas e preocupação antecipada pelo suor que o sol haveria de multiplicar mais tarde, quando a manhã avançasse sobre as montanhas e o Monte Olimpo.
O pai do menino não dormira descansado. Talvez por isso levasse aquela cara de cú a postar bosta da grossa. Sonhara com o papão a fazer mal à criança. Um daqueles sonhos lixados nos quais sentimos tudo e não vemos quase nada. Um sonho daqueles onde os nossos medos são apenas sombras gelatinosas que teimam em não fazer sentido. A única imagem sólida fora a do filho a chorar, a berrar, a espernear, a gritar como um cabrito desmamado, o filho envolto em sombras, ameaçado por nuvens informes, como se aquele mundo fosse o interior de uma garrafa translúcida repleto de fumo soprado por um deus drogado com uma droga impossível de conceber por um simples mortal; e as drogas já são o que são!
 O homem despertara profundamente incomodado. Acordara antes que a ameaça se tivesse concretizado, sem perceber que ameaça era aquela, sem saber se preferia dormir ou mergulhar de novo na realidade; ele não se apercebia de que a sua dúvida era se ao acordar adormecia e ao adormecer acordava, ou talvez fosse o contrário e estivesse tudo de pernas para o ar. Estas coisas podem contribuir seriamente para a perda de juízo, caso não sejamos capazes de compreender que raio de dúvida nos mordisca a sanidade mental, como rato a roer pacientemente as folhas de uma enciclopédia, ao longo de anos. Tal como o rato não fica mais inteligente por comer páginas de conhecimento, também a loucura não fica igual a nós por nos devorar a imaginação e as ideias mas é assim que nós ficamos loucos. O homem acordou violentamente depositado na cama por uma onda de pesadelo monstruosa, o corpo torcido, encharcado em suor. Os lençóis empapados mostravam-lhe como tinha sido longa a árdua luta, Camões a salvar a sua obra, Ulisses amarrado ao mastro, exemplos pequeninos quando comparados com o que o homem havia acabado de viver no outro mundo.
O menino não parecia particularmente seguro de si. Talvez aquela expressão um tanto desligada, um pouquinho estúpida, até, talvez aquela fosse a cara de todos os dias do menino ou apenas a cara que o menino costumava ter pela manhãzinha, impossível afirmar o que quer que seja com segurança de doutor catedrático. A cabecinha encostada, as sobrancelhazinhas arqueadas, a boquinha húmida e um fiozinho de baba que continuava a ligar o menino ao sonho de que fora arrancado pela mão suave da mãe. O menino não tinha ainda desenvolvido percepção exacta (quem a desenvolveu?) que lhe permitisse distinguir este mundo do outro.
O pai abriu a porta do carro. A mãe fez mais uma festinha, repenicou outro beijinho. O menino a viajar na confusa sensação de que os monstros estão por todo o lado. Mais um abracinho, mais uma ternurice, “adeus meu tesouro, até mais logo”, os bracinhos esticados num gesto de desespero infantil. O beijo seco dos pais pôs fim ao momento que viviam, selado pelo bater da porta. O pai, ao volante, haveria de recordar uma última vez toda a confusão que enforma o mundo a que chamamos “realidade”. Arrancou a passo de caracol, levando o filho preso no banco de trás, para segurança geral. A mãe ficou em terra, a ver partir os seus amores, docemente enleada por um ser gigantesco que não via mas que sabia estar ali, com ela, a dizer adeus, a secar-lhe a garganta, tudo amalgamado, pernas, pelos, ossos, sangue, verdade e mentira feitas mundo, o mundo todo a que ela pertencia e continua a pertencer.

O carro desapareceu na curva. A mulher voltou para trás. O dia prosseguiu até agora.

quinta-feira, abril 28, 2016

Cansaço

Percorro o Facebook e leio mensagens que variam entre a lamechice mais enjoativa e a violência intelectual mais mesquinha. Sinto-me cansado. Precisava de algum conforto após um dia de trabalho cansativo mas não foi ali que o encontrei.

Pego num livro que estou quase a acabar de ler. Páro a duas páginas do fim. Sinto-me cansado, nem vontade tenho para chegar à última palavra daquelas quase duzentas páginas. O que se passa comigo?

Experimento o jornal... qual quê!

Tento imaginar algo para fazer e ponho-me a escrever estas linhas. Mas também a escrita me parece um peso insuportável.

...



domingo, abril 24, 2016

Hoje era Domingo

Comprei o jornal e um maço de tabaco. Paguei com o meu cartão de débito. Percorri os corredores do centro comercial até entrar na FNAC. Hoje era Domingo, dia de contar contos às crianças no palcozinho do bar. O bar repleto e barulhento (os alarmes estão sempre a apitar, estridentes como alfinetes a espetarem-se-nos no cérebro). As crianças, no palco, estão hipnotizadas, os pais, embevecidos, observam. Aquele lugar não é para mim.

Saio da FNAC e dirijo-me ao Starbuck’s. Um café e um muffin de mirtilo. Sento o cú numa poltrona confortável a abro o jornal. Hoje era Domingo. O Alentejo, a Uber, a nova temporada de A Guerra dos Tronos, vou lendo notícias e artigos até que um título capta a minha atenção: “A crise da água que está a ameaçar a Índia”. A descrição dos factos é aterradora. Crianças que morrem percorrendo territórios secos em busca de água. Populações inteiras que migram em busca de água; conflitos, refugiados…

Olho pela vitrina e vejo duas crianças a reclamar qualquer coisa. Caras feias, caras tristes, os pais, severos, esticam dedos, pregam moral. De súbito sou assaltado por uma sensação de incomodidade. Penso nas crianças do outro lado do vidro e tento imaginar as crianças que morrem na Índia, em busca de água.


Fecho o jornal, dobro-o e meto-o debaixo do braço. Saio dali meio perdido. Não me lembro bem o que ia a pensar quando entrei no meu carro e liguei a ignição. O mundo é tão grande e tão diverso… talvez não pensasse em nada. O que há para pensar?

quinta-feira, abril 21, 2016

Deus nada ex machina

Acabo de me aperceber que Deus, a existir, não deverá ter criado o Universo, em particular o nosso sistema solar. Isto porque, conforme a pregação, Deus terá criado a Terra para usufruto das suas criaturas, ou seja: nós.

Mas, sabemos agora, o Sol tem um período de vida limitado. O Sol vai morrer um dia e, com ele, toda a Criação.

Das duas uma: ou Deus estava distraído e não soube fazer as coisas, o que Lhe confere um estatuto nada condizente com a Sua suposta infalibilidade, ou então não passa de uma criação de mentes limitadas e ignorantes, como são as nossas.

Uma perspectiva mais melancólica poderá sugerir que Deus nos criou para O adorarmos sabendo de antemão que essa adoração tinha os dias contados. Oh Deus, que raio de coisas Te passam pela cabeça! És masoquista?

Os desígnios do Senhor são, de facto, tão insondáveis quanto a mente de uma minhoca.

segunda-feira, abril 18, 2016

Ser criativo

Há por aí quem se questione sobre os mecanismos da criatividade, como se pode enxotá-la lá do fundo do galinheiro das nossas ideias. Há quem acredite que ela pode sair a correr, agitando as asas com estardalhaço, fazendo saltar os incautos e os distraídos à sua desvairada passagem. Há por aí quem acredite que se pode forçar a criatividade.

Talvez seja possível fazê-lo, acredito nesse possibilidade, embora esteja convicto de que espevitar a criatividade individual tem de se fazer com jeitinho, assim como quem não quer a coisa.

Um dos maiores problemas prende-se com a maravilhosa variedade que caracteriza o Ser Humano. Aquilo que me estimula pode dar-te um sono dos diabos e vice-versa. Podes mesmo ser estimulado por um sono dos diabos (isso é bonito).

Pessoalmente, estou (quase) convencido de que a criatividade é um processo caótico e, como tal, é despoletada quando menos se espera, embora possamos criar condições favoráveis ao seu despertar a horas certas. Aquilo que funcionou hoje pode não resultar amanhã e a diferença entre um dia e o outro pode ser uma unha negra ou um alarme estridente que parou de guinchar num determinado momento. Um segundo antes ou um segundo depois e nada teria acontecido.

Perguntam-me como faço quando pretendo criar alguma cisa nova. Não faço, deixo acontecer. De vez em quando funciona.

quarta-feira, abril 13, 2016

3 dos meus heróis



Após concluir a montagem da exposição que vou inaugurar na próxima sexta-feira contemplei os trabalhos nas paredes da galeria e senti aquela coisa quentinha que nos é proporcionada pela sensação de um trabalho concluído.

Sentei-me um pouco a pensar naquilo que fiz e pude constatar a forte influência de 3 artistas do passado.

Por ordem cronológica: Hyeronimus Bosch, pela delirante imaginação que muito me sugestiona; Francisco de Goya y Lucientes, pela desenvoltura no tratamento dos materiais e pela forma profunda como olhou o ser humano; Max Ernst, o glorioso Dadamax, pela inventividade extraordinária nas propostas de tratamento dos materiaise nas técnicas que trouxe à luz do espírito.

Outros haverá que me guiam a mão e a mente quando trabalho mas estes 3 são, sem dúvida, os meus maiores heróis. Os meus 3 heróis.

segunda-feira, abril 11, 2016

Tempo morto

Acabo de chegar do aeroporto de Lisboa onde fui deixar a minha filha. São seis horas e onze minutos da manhã. Ela vai voar, eu estou sentado. Tenho duas horas até começar o meu dia de trabalho, duas horas entaladas entre ainda agora e mais daqui a nada.

A quebra das rotinas cria estes espaços indefinidos durante os quais podemos fazer o que quisermos e, na verdade, a vontade de fazer seja o que for não é lá muito grande. Sinto-me um pouco fora de mim, algo desorientado. A quebra das rotinas transforma-me em algo indefinido.

O dia vai ser longo. Além das aulas tenho duas exposições para montar. Serão longas horas de algum esforço físico e concentração em níveis máximos. Longas horas em que muitas coisas vão depender da minha capacidade de mobilizar e canalizar energias. No entanto... tenho este espaço de tempo vago, sereno; é a isto que se chama um tempo morto?

domingo, abril 10, 2016

Um Mundo Pior

Deus criou o nosso mundo. Perfeito, como é apanágio de Deus. Mas até mesmo Deus comete erros de cálculo como o que cometeu ao colocar no mundo a Humanidade.

Nós encarregamo-nos de fazer deste mundo um mundo cada vez pior. Ignoramos Deus (há quem acredite que Ele morreu embora outros pensem que se foi embora, apenas) destruímos com maior ou menor grau de consciência a Sua obra.

Da parte que me toca, penso que Deus não é tido nem achado nem história. Inventámo-Lo muito mais do que Ele nos terá inventado a nós. Ignorá-Lo ou venerá-Lo não atrasa nem adianta o processo de destruição que encetámos há milénios.

A destruição da nossa própria espécie é o fim anunciado da narrativa Humana. Talvez porque temos consciência de que o Sol se haverá de extinguir e o suicídio será a melhor forma de pôr termo a esta merda.

Um Mundo Pior é uma exposição de desenhos negros (ver clicando aqui).