segunda-feira, fevereiro 29, 2016

Lamentosos

Ok, a mensagem parece meio parva e, sobretudo, descabida. O cartaz é fraquinho e vem fora de tempo. Mas as reacções que vai provocando estão de acordo com a qualidade do objecto: a igreja não encaixa, os PáFes tentam cavalgar o bicho e, pasme-se, até dirigentes do Bloco de Esquerda criticam com algum azedume o aspecto da coisa. Fico com a sensação de que os lamentosos, todos eles, pretendem lucrar algo com o respectivo lamento.

Os argumentos apoiam-se numa suposta falta de respeito pelos sentimentos dos crentes e provocação à igreja e, quem sabe, provocação à própria divindade (tema-se a Sua ira e não a dos seus representantes na terra).


Na minha óptica, as reacções de repúdio e censura ao cartaz do “Jesus também tinha 2 pais” são do mesmo género das que motivam os crentes islâmicos que matam e trucidam em resposta a semelhantes faltas de respeito à sua visão do sagrado, variando apenas no modo como se materializam. Uns matam outros lamentam mas, a vítima, num e noutro caso, é o direito à liberdade de expressão; morta a tiro ou apenas esbofeteada, é ela quem sofre com tanta parvoíce.

domingo, fevereiro 28, 2016

O tempo da Geringonça

Para quem se lembra do modo como vivia a maioria dos portugueses antes da Revolução: os elevadíssimos níveis de analfabetismo, a falta de saneamento básico, as taxas de mortalidade infantil, a baixa esperança de vida, a guerra colonial, a ausência de liberdades cívicas, mesmo na sua mais básica expressão… quem se lembra disto pode facilmente constatar que as “conquistas de Abril” não foram mera poesia esquerdista, foram uma inevitabilidade histórica. O salto civilizacional proporcionado pelo derrube do regime salazarista, então na sua versão primaveril, representado pelo Marcelo de serviço, foi gigantesco.

Passaram 40 anos e a coisa tem andado para a frente e para trás. A integração europeia trouxe mais democracia no início mas, nos tempos que correm, a democracia anda pelas ruas da amargura. O paradigma económico transforma-se em ditadura com o apoio político do Partido Popular Europeu.

Agora, em Portugal, temos um governo improvável, a já célebre Geringonça. É uma coisa esquisita que tenta, pela primeira vez em muitos anos, torcer a lógica do poder imposta pelo “arco da governação”. Com o apoio dos partidos de esquerda, a Geringonça tenta meter travões ao desvario direitista do “bom aluno” da Europa. O “bom aluno” que, numa lógica cavaquista, se destacava por obedecer em tudo à mestra, por não ter opinião nem o mínimo lampejo de rebeldia, por copiar tudo direitinho do quadro para a sebenta e, sempre que questionado, repetir palavra por palavra, sem se atrever a substituir uma vírgula que fosse, a lição mecanicamente decorada. Mudou o aluno mas a mestra mantém-se vigilante. Isto pede inteligência e engenho.

A Geringonça promete-nos uma outra Primavera. Num ambiente confuso e hostil, com Passos Coelho a prever todos os dias uma nova desgraça sempre que a desgraça anterior não se concretiza, Cavaco a desvanecer-se no nevoeiro de onde nunca saiu e Portas a fazer de conta que é um anjo da guarda a precisar de reforma, é tempo de repensar o que podemos fazer na recuperação do espírito democrático que animou a nossa sociedade nos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974. Com a Geringonça no poder, parece reanimar-se o debate político.


É tempo de fazermos um debate sério sobre aquilo que estamos dispostos a prescindir enquanto indivíduos em favor daquilo que precisamos realmente de ganhar enquanto comunidade.

segunda-feira, fevereiro 22, 2016

A Europa definha

A União Europeia vai-se esboroando aos olhos de todos. O alargamento a Leste trouxe para a União uma mão-cheia de países onde a tradição democrática é encarada na ponta de um cacete. Velhos aliados enganam-se mutuamente, interessados apenas em manter os privilégios das classes dominantes. A globalização "amerdalhou" tudo. A Europa perdeu empregos e perdeu trabalho. As fábricas e os capitalistas fogem do centro da União em direcção à periferia e à Ásia em busca de mão-de-obra barata, quando não escrava. Por aqui restam a especulação financeira e um desemprego galopante.

Não há ideal que aguente. Vendemos a alma a troco de patacos. Imagino que seja a marcha da História. A Europa definha, a China e a Índia parecem emergir do "merdalhal", apesar das incomensuráveis legiões de pobres e explorados que pululam nos respectivos territórios.

Até quando tudo isto irá continuar neste equilíbrio precário, antes de desabar com estrondo e poeirada? Haverá uma guerra no fim destes tempos?

sábado, fevereiro 20, 2016

"Os mercados"

De que são feitos "os mercados" que se assustam e enervam com algo tão inofensivo como o governo de António Costa num país insignificante como é Portugal e parecem impávidos e serenos com a cavalgada heróica de Donald Trump na corrida à candidatura do partido republicano para a presidência dos EUA?

Que aspecto terá essa coisa, "os mercados", qual o contorno do corpo que encerra a sua alma? Todos sabemos qual o aspecto de Deus, mostram-no inúmeras obras de arte, moldou-O a imaginação dos artistas. É um velhote enxuto, de longas barbas e cabelos brancos. Tem o aspecto devido ao que imaginamos que Ele é.

E "os mercados" que se sentem confortáveis com as guerras, com a miséria, com o enriquecimento selvagem dos vampiros, que não têm sentimentos, nem nada que se assemelhe a bondade? Quem lhes faz o retrato?

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Dúvida essencial

Liberdade de expressão, liberdade de deslocação, liberdade de escolha, liberdade religiosa... assim, de repente, lembro-me de todas estas liberdades como sendo evidentes dentro das nossas fronteiras, características do nosso modo de vida.

Mas, ainda agora, vi um gajo a remexer num contentor de lixo. Ainda ontem, ao andar nas ruas da cidade, ouvi e vi pessoas com aspecto pouco próspero a arrastar os passos na calçada. Farrapos de conversas deprimentes chegaram-me aos ouvidos. Aquelas liberdades aplicam-se a quem não tem meios de subsistência dignos?

A riqueza é cada vez pior distribuída. Os ricos mais ricos, os pobres mais pobres, a história de Robin Hood ao contrário. E as liberdades...

segunda-feira, fevereiro 15, 2016

Sonambulismo

Continuo a sentir uma emoção particular quando a questão é o meu povo. Refiro-me ao povo que conheci na minha infância, ao povo de que ainda faço parte. O povo da minha aldeia. Um povo medroso, petrificadamente religioso, um povo que por não compreender nada aceitava Deus como finalidade absoluta da sua existência.

Na minha meninice tinha pesadelos terríveis nos quais o Diabo me perseguia e eu corria, desenfreado, fugia sempre em frente com quanta força tinha, com a força que só somos capazes de encontrar nas profundezas do sonho, quando o sonho se transforma em pesadelo.

O mundo mudou, o meu povo transformou-se e o Diabo deixou-me em paz no dia em que deixei de acreditar nele. Agora vivemos todos num mundo melhor.

O Diabo deixou-nos em paz mas não morreu. O cabrão está bem vivo. Ele come tudo e não deixa nada.

Andamos adormecidos; a miséria deu lugar a alguma folga, já não andamos descalços no Inverno nem comemos batatas todos os dias acompanhadas por uma cabeça de sardinha meio apodrecida. Agora temos McDonald's e Coca-cola, temos centros comerciais e carros a prestações mas continuamos a ser os mesmos.

É urgente despertar.

domingo, fevereiro 14, 2016

Domingo

Os últimos dias têm sido complicados. A chuva cai furiosa acompanhada por ventos doidos como gatos com cio. Portugal está meio submerso; cheias, derrocadas, árvores que resolvem ir passear sem avisar ninguém, o mar que parece querer entrar terra dentro.

Hoje resolvi ir ao cinema ao centro comercial. Fui à sessão das 12h45m ver os "Oito Odiados" de Quentin Tarantino. Filme estiloso, duraço, com sangue q.b., diálogos cheios de humor e um argumento razoavelmente imaginativo. Enfim, um filme de Tarantino no registo seguro a que o cineasta nos tem habituado.

Quando o filme acabou (por volta da 16 horas) saí da sala com a intenção de passar pelo supermercado e comprar umas provisões que me fazem falta na despensa. Assustei-me! As filas para entrar nas salas de cinema tinham dimensões bíblicas, a quantidade de gente que serpenteava nos espaços de circulação deixou-me ansioso.

Desci a escada rolante decidido a sair dali para fora, as compras podiam esperar... tanta gente! Lá fora o sol surpreendia pelo vigor do seu brilho. Desloquei-me rapidamente me direcção ao meu carro e vim embora. Que susto.

A chuva regressou, com ela o vento dançante. O céu escureceu tremendamente. No centro comercial decerto continua tudo na mesma. As pessoas parecem ter ido todas para dentro daquele lugar, as ruas estão quase desertas e brilhantes de água que escorre pelas costas do mundo.

terça-feira, fevereiro 09, 2016

Momento (quase) bucólico

A paisagem tem tantos tons de verde! Verde-quase-esmeralda, verde-quase-preto, verde que é silhueta de árvore a recortar-se no céu, a recortar-se no cinzento majestoso de um céu carregado de nuvens que chovem devagarinho na paisagem.

A paisagem tão bonita, tão repleta de verde e do brilho de cores que não têm nome. A paisagem está tão triste e, no entanto, tão bonita.

sexta-feira, fevereiro 05, 2016

Nuvem

É estranha a sensação de haver nuvens escuras a tapar-te o futuro. A sensação de que o frio morde a tua garganta infectada pela mentira. Baixas a cabeça mas ela teima em olhar para cima, a tua cabeça não te obedece. É estranha esta sensação de que o mundo é como um bicho e que o mundo está agachado, à espera. E, enquanto espera, caga.

É estranha a sensação de que as mulheres são o animal mais belo de toda a Criação e que Deus terá errado em muita coisa mas não quando enterrou as unhas no lombo de Adão para lhe sacar a tal costela.

Desvias o olhar mas os teus olhos rodam sobre as órbitas do Mundo e colam-se a ver o que preferias evitar saber que existe. Abanas a cabeça mas as imagens não sofrem nada, as imagens estão fixas; uma imagem vale mais que mil palavras mas mil palavras raramente valem mais que nada.

É estranha a sensação de haver nuvens tão escuras a sobrevoar-te o espírito. Quase tão estranho quanto essa extraordinária sensação de seres nuvem.

terça-feira, fevereiro 02, 2016

Valores europeus

Alarme, alarme!!! O investimento captado pelos "vistos gold" caiu a pique no último ano. A diminuição do investimento no nosso país por parte de estrangeiros podres de ricos que compram o direito a habitar-nos incomoda todos aqueles que fazem disso um negócio lucrativo.

Por outro lado, não há motivo para alarme, são poucos os refugiados que procuram o nosso país deliberadamente. Ninguém se preocupa com isso. Para miseráveis chegam bem os que por cá já temos.

Ou seja: quem tem dinheiro é bem-vindo, quem não tem pode bem ir pregar para outra freguesia. É esta a Europa de Valores que gostamos de sacar da cartola quando queremos ludibriar papalvos de outras culturas?

domingo, janeiro 31, 2016

Domingo, na paz do Senhor

Andamos a bater mal da cabeça. A Europa parece, cada vez mais, um bicho imundo. A esquerda confunde-se com a direita e vice-versa. A economia é uma coisa porca, a civilização é "civilização".

Não sei se por excesso de informação, a coisa má agiganta-se e mostra-se furiosa, fora de controlo. Diz o povo que "olhos que não vêem, coração que não sente" e a igreja abençoa os pobres de espírito, talvez a ignorância seja, afinal de contas, uma benesse para a alma.

O tempo cinzento e pouco luminoso acentua a sensação de desgraça permanente. Uns raiozinhos de sol talvez animassem esta merda.

sexta-feira, janeiro 29, 2016

Cultura amestrada

Li uma pequena entrevista com Don Letts onde ele afirma uma coisa muito interessante que, apesar de óbvia, precisa de ser dita.

Diz ele: "Tens a cultura que mereces. Possivelmente as aspirações dos jovens de hoje são muito diferentes das dos jovens quando eu estava a crescer. Entrámos na música para ser contra o estabelecido. Agora, muita gente entra na música para ser parte do establishment. No século XXI, a cultura ocidental tornou-se muito conservadora. Parece que o punk nunca aconteceu. (...)" (ler aqui toda a entrevista)

Isto dá que pensar. Vivemos num mundo de artistas amestrados? Haverá ainda espaço para a revolta cultural, para o manifesto, para a afirmação de visões colectivas através da criação artística? Deixámos que a cultura se transformasse numa coisa anódina, lisinha e liofilizada?

domingo, janeiro 24, 2016

Uma manhã qualquer na ex-capital do império


Os livros são caríssimos! Puta que pariu.

O povo frequenta o Centro Comercial com um fervor apenas comparável ao que me recordo de presenciar na Igreja, quando era puto.

Gostava de comprar meia-dúzia de livros mas vou ficar-me, apenas, por um.

Este sol de Inverno é uma coisa magnifica. O ar está friozinho e o sol não chega a aquecer. Gosto disto.

O meu povo é um tanto macambúzio.

Dizem alguns que se prepara uma crise económica mundial capaz de fazer estragos definitivos neste mundo globalizado. Não vejo ninguém preocupado com isso.

O povo anda por aí, serenamente. Também gosto disso.

sexta-feira, janeiro 22, 2016

Declaração

Quando digo que, aos gajos do estado islâmico, era meter-lhes uma bala no focinho a cada um (para poupar munições), digo-o por mim, digo-o por ti, mas também por Strummer, por Zeca, por Bowie, por Mozart, por Amália, por todos os outros que fizeram música maravilhosa; por Camões, por Shakespeare, por Tolstoi, por Tchekov, por Calvino, por Bolaño, por Cervantes, por todos os que inventaram o mundo das palavras; digo-o por ti, pelos teus, pelos meus e também por Bosch, por Goya, por Giotto, por Bacon, por Basquiat, digo-o por todos os que encontram a liberdade a cada momento.

Digo-o por Cristo, por Maomé, por Buda, por todos os profetas mais ou menos obscuros, por todas as personagens de fábula, de lenda, de mito, pela liberdade de expressão e pelo direito a calar boca.

Quando digo que, aos gajos do estado islâmico, era meter-lhes uma bala no focinho a cada um digo-o por ser incapaz de aceitar que esta cultura de que faço parte possa alguma vez desaparecer subjugada pela força da estupidez e da ignorância.

Isto não se aplica exclusivamente aos assassinos do estado islâmico e a bala pode ser metafórica. O focinho não.

quarta-feira, janeiro 20, 2016

Pensamento matinal

As pessoas não são todas iguais mas talvez pudessem ser um bocadinho mais diferentes umas das outras. Apesar de tudo, o senso comum não me parece assim tão repelente, bem pelo contrário.

Estarei a contradizer-me? Temo bem que sim mas não tenho a certeza. Há que considerar a liberdade individual... há que ponderar os limites da estupidez e da sageza... há que tomar um café e ir trabalhar.

domingo, janeiro 17, 2016

Educação


Quando o tema é o futebol, sabemos bem, surgem milhentos “treinadores de bancada”, entendidos, capazes de engendrar as estratégias mais imprevistas e criativas que teriam impedido a derrota, que teriam potenciado a vitória à quinta casa ou seriam capazes de engalanar o empate com credenciais de feito extraordinário, o empate como sucesso último de uma inquestionável visão de futuro. Somos um país de poetas e de treinadores de futebol.

Mas, pasmemos cidadãos, há outro tema capaz de espevitar em todos nós uma inteligência adormecida, uma inteligência que aguarda indolentemente a mais leve oportunidade para espreitar a luz ofuscante de um prometido dia solarengo; falo da educação.

Quando o tema é “educação”, os especialistas, os profetas, os entendidos, saem debaixo das pedras a um ritmo próximo da alucinação. Sejam professores, catedráticos (ou nem por isso), comentadores mediáticos anquilosados, chefes de redacção sem assunto, políticos entediados, presidentes de junta, gente de maiores ou menores vistas, cidadãos anónimos chateados com a nota do seu educando no último teste realizado em contexto escolar, meros repórteres a quem foi distribuída a tarefa, ficamos confusos perante a insana capacidade de emitir opinião demonstrada pela sociedade portuguesa em tão complexo tema. Talvez por isso, a política de educação em Portugal continua a fugir para a frente de si mesma, sempre em passo acelerado, capaz das cabriolas mais estonteantes, aos saltos para trás, aos saltos para a frente, qual cabrito-montês perdido numa imensa planície.

O novo ministro da coisa veio desembestado, em sintonia com o seu predecessor, na linha de Maria de Lurdes Rodrigues: desfazer o que foi feito, fazer o que já tinha sido experimentado, numa confusão de gestos e intenções que, verdade seja dita, não traz nada de novo, apenas sublinha a proverbial confusão em que mergulham as mentes mais iluminadas quando o tema é “educação”. Acredito nas boas intenções de Tiago Brandão Rodrigues, tal como acreditei, à partida, em Nuno Crato. Mas, tal como o anterior ministro, também este tropeça nas próprias intenções, uma e outra vez, vem cambaleante ameaçando estatelar-se ao comprido.


A Educação não é coisa que se resolva de um dia para o outro. Qualquer medida implementada precisa de tempo para ser testada. Será isto difícil de compreender? Poupem os professores a esta girândola maluca que é a produção de legislação educativa. Até se me torce a língua, mas apetece dizer: “deixem-nos trabalhar”! Não façam de nós os palhaços deste vosso triste circo.

quarta-feira, janeiro 13, 2016

Feliz aniversário

O dia de aniversário é como o dia de Carnaval: um gajo tem de estar bem-disposto, prontinho a entrar em estado de euforia, cantarolar, rir, dançar, dizer alarvidades inocentes. Dias assim deixam-me deprimido.

Se por acaso acordamos com propensão para a melancolia e não nos apetece celebrar há sempre alguém que vai ficar chateado, que mostrará decepção e tristeza. Por vezes há mesmo quem mostre irritação.

Tu estás triste quando deverias estar eufórico, derramas tristeza sobre a euforia, fazes com que as coisas amoleçam, derretam, se desfaçam.

Mas qual é o teu problema, caraças!? Feliz aniversário, mas é. Deixa-te de merdas.
Pois sim, já me tinhas dito.
Obrigado.

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Bowie

Hoje de manhã entrei no meu carro e liguei o rádio. Eram 8 horas e o noticiário na TSF abriu com  Space Oditty de David Bowie. Estranhei: "que raio de coisa, o homem edita um novo álbum e abrem o noticiário com um tema tão antigo..."

Estacionei e ouvi até ao fim para tomar conhecimento que Bowie morrera durante a madrugada (acho eu). PORRA!!!

Há pessoas que não imaginamos mortas.
Há pessoas que, imagino eu, não morrem.

quinta-feira, janeiro 07, 2016

Fraqueza genuína

Às vezes apetecia-me ser capaz de odiar com a profundidade necessária à sensação de ódio. Tenho a impressão de não ter desenvolvido essa competência.

Sempre que me imagino a odiar alguém lá vem aquele bonequito do anjinho poisar-me no ombro a sussurrar-me no ouvido coisas que me impedem de sentir um genuíno ódio, tão necessário à higiene mental de qualquer cidadão ocidental contemporâneo. O diabito recolhe-se, amuado, e não diz mais nada.

Estarei tão amolecido que nunca ultrapassei a fase "bebé", no que diz respeito à capacidade barbuda de desejar enfiar um garfo no globo ocular de qualquer óbvio filho da puta? É triste.

Ensaio olhares matadores sobre o meu reflexo no espelho da casa de banho. Cerro os punhos, ranjo os dentes mas... nada. Na verdade sinto-me a derreter a frio, sinto uma inexplicável incapacidade para rachar o espelho de alto a baixo num gesto de fúria incontida, justificada e, acima de tudo, um gesto de fúria genuína. Sou fraco.

Eu gostava de ser capaz de matar, quereria ser capaz de estropiar, cegar, esventrar e cagar em cima dos cadáveres ainda fumegantes dos meus inimigos. Mas não, nada disto é real, nada disto obedece ao mínimo sentido lógico.

Sou um fraco.

Se não tenho cuidado ainda acabo a oferecer uma outra face a um gajo que me tenha espetado uma faca no fígado.

terça-feira, janeiro 05, 2016

Autoria

Vai por aí uma certa polémica relacionada com a suspeita de que algumas obras atribuídas a Hyeronimus Bosch não serão da sua autoria. É uma questão complicada que merece, pelo menos, um sorriso.

Os argumentos apresentados por quem rebate a mão do mestre nas ditas obras baseiam-se, tanto quanto pude compreender, na observação do estilo do desenho ou na técnica da pincelada. Que são diferentes nestas obras quando comparadas com outras, assinadas. Acredito piamente.

A minha dúvida (e o meu sorriso) desprende-se da constatação de que um artista muda e evolui. Ninguém é constante ao longo do trabalho de uma vida. Outro ponto interessante é que o material acaba e, por vezes, experimenta-se outro. Ainda para mais, na época em que Bosch trabalhou, era nos ateliers que os artistas produziam os materiais com que trabalhavam, não existiam marcas de produtos artísticos à venda em grandes superfícies comerciais.

Enfim, esta treta toda para reflectir um pouco sobre a importância da autoria numa sociedade de consumo descontrolado, como é a nossa.

As obras referidas (3 que estão no Museu do Prado, em Madrid) foram, até hoje, admiradas como fazendo parte do legado extraordinário que Bosch deixou à Humanidade. Além dessa qualidade, por serem atribuídas ao Mestre, valiam milhões, o seu preço era incalculável. Convenhamos que, nos dias que correm, este é um factor determinante para a qualidade do que quer que seja. Se não é de Bosch, o valor em euros cai a pique, logo a qualidade da coisa cai ao lado.

Assim sendo, a partir do momento em que perderem o nome de Bosch, estas obras passam a ser uma merda? Estou-me bem a lixar se o trabalho é deste ou daquele. A qualidade está lá, na superfície pintada, na energia que emana da pintura, na magia do objecto. O nome, a assinatura, não passam de pormenores.