
"A Fonte" de Marcel Duchamp é considerada a obra mais importante de toda a arte produzida na chamada "sociedade ocidental" ao longo do século XX. Um miserável urinol, igual a tantos outros!!?? Talvez seja mais correcto dizer "semelhante" e não "igual", uma vez que Duchamp inverteu a posição original do objecto ao mesmo tempo que lhe conferiu um contexto diferente transformando-o em algo que ele não era anteriormente.
Esta mera inversão do objecto permite uma singela reflexão que proponho ao leitor eventual deste
post. Imagine o leitor que podia utilizar este urinol na sua função de receptáculo. Ou seja, imagine o leitor (o do sexo masculino terá maior facilidade) que poderia mijar dentro deste urinol. O que iria acontecer?
Decerto que, dada a posição do objecto aliada ao facto de não ter tubagem, o seu mijo iria cair-lhe directo nos pés. Este pormenor não será desprezível para a reflexão que desejo propor-lhe. É que, sendo assim,
"A Fonte" não é o urinol, mas sim o próprio espectador. É do espectador que jorra o liquído e é a ele que o liquído regressa, devolvido pela acção de Duchamp de descontextualizar e alterar as características físicas (e não só) do objecto industrial.
"Pois, sim, conversa da treta!" - estará a pensar, neste momento, o leitor menos versado nos enigmas e paradigmas da arte contemporânea. Os mais avisados estarão já a perceber onde pretendo chegar com a minha proposta de reflexão.
O que Duchamp vem mostrar é que a validação do objecto artístico não depende unicamente do artista ou do crítico especializado. Duchamp vem propor ao espectador que assuma a sua quota parte de responsabilidade no acto criativo.
Ver é, só por si, um acto criativo. Logo o espectador, o
voyeur, é, também, fonte de inspiração e validação (ou não) para o próprio objecto exposto. O espectador é fonte de conhecimento e fonte de sensibilidade.
Duchamp alterou a relação do "consumidor" de arte com o objecto artístico, integrando-o na corrente de avaliação e validação estética, libertando em definitivo a arte das grilhetas do academismo e expondo ao ridículo todos aqueles que pretendem que "A Fonte" estética é algo inatingível, algo que existe para lá da nossa capacidade de entendimento. Duchamp democratizou a criação artística. Compete-nos a nós participar ou não desse processo democrático. Desde "A Fonte" que passámos a ter opção.