sábado, março 31, 2007
Estranhíssimo
Andava eu em pachorrento passeio pela net em busca de imagens de Bosch quando fui parar a este sítio http://www.alessandrobavari.com/ e dar de caras com esta personagem que desconhecia em absoluto.
Um artista com diferentes meios de expressão plástica à mão de semear e que semeia ventos terríveis e lhes vai colhendo tempestades. As fotografias (!!!???) são, talvez, o que de mais curioso se nos oferece observar, se bem que uma visita a todas e cada uma das capelinhas deste sítio tenha sempre algo de interessante reservado ao olhar do incauto internauta.
Fica a sugestão: visita a fazer com alguma disponibilidade de tempo e mente aberta.
Deixá-los falar e falar com eles

A maior e principal herança da Revolução de 25 de Abril de 1974 foi, sem sombra para qualquer dúvida, a total liberdade de expressão de hoje gozamos. Pensar livremente e livremente expressar o pensamento, eis o paraíso intelectual em que vivemos.
Esta liberdade só faz sentido se for total, se todos, mesmo aqueles que com ela convivem mal, tiverem espaço para fazer ouvir e sentir as suas opiniões. De outro modo não passará de liberdade parcial que é, a meu ver, uma máscara para a sua ausência, mera fachada.
Isto a propósito do "tal" cartaz do PNR a desejar boa viagem de regresso aos emigrantes que habitam em Portugal. Não vejo razão para se pretender proibir a afixação da mensagem. Não há um incitamento directo à violência nem imagens ofensivas, não vejo ali nada de especial a não ser a brutalidade habitual e a rasteirice do costume a que nos tem habituado o PNR. Mas brutalidade e rasteirice não são exclusivos desse partido. Antes fossem!
Na verdade, os auto designados "nacionalistas", tentam jogar com os sentimentos do povão. Demagogia barata é uma táctica utilizada por quem não pode (ou não consegue) argumentar em debate aberto. Uma pesquisa superficial na NET com o nome do líder do PNR leva-nos a blogs fechados, só para "sócios". http://insilencio.blogspot.com/ ou http://portugalpuro.blogspot.com/ são exemplos de lugares onde as conversas são secretas e, decerto, plenas de elevação. Evidentemente que estamos perante outro direito que assiste aos cidadãos "nacionalistas", as conversas em circuito fechado não são proibidas por lei (acho eu), mas gostava de poder perceber um pouco melhor quem são e o que querem. O facto de se esconderem desta forma configura uma atitude pouco saudável e a busca das sombras para trocar opiniões não augura nada de bom. Antes pelo contrário. Enfim, cada um vive como quer e, desde que não atente contra a liberdade dos outros, não está a violar nenhuma lei, embora este secretismo gere desconfiança.
Penso que a melhor forma de lidar com os "nacionalistas" é debater com eles à luz do dia as suas e as nossas ideias se bem que, por norma, um "nacionalista" seja uma espécie de fundamentalista e todos sabemos que fundamentalismo é sinónimo de fanatismo, o que dificulta qualquer diálogo.
Com tudo o que se tem dito sobre o "tal" cartaz já vem José Pinto Coelho, o líder do PNR, afirmar-se vítima de perseguição política. Isto é coisa que não interessa, já que ninguém persegue o rapaz, isso era o que ele queria!
Nem o "tal" cartaz tem importância suficiente para tanto alarido, nem o PNR parece muito interessado em nenhum tipo de debate democrático. Enfim, resta a todos os que prezam a liberdade de expressão acima de tudo deitar esta historieta para o caixote do lixo que é onde ela está bem e fica aconchegada. Que não seja pretexto para exercer repressão nem censura de opinião. Demagogia não é realidade, mas apenas a sua manipulação com o objectivo de fornecer ao mundo uma imagem distorcida para iludir os pobres de espírito onde quer que eles andem.
sexta-feira, março 30, 2007
O orgulho que resta à nódoa
Com a devida vénia dou-me ao luxo de copiar o texto "O orgulho que resta à nódoa" de Rui Tavares, publicado em "Pobre e mal agradecido" pela editora Tinta-da-China no ano de 2006.O orgulho que resta à nódoa
Vejo na televisão uma manifestação de racistas. Um porta-voz diz aos jornalistas, com as poucas competências linguísticas que conseguiu desenvolver até à idade adulta, que «tem orgulho em ser branco».
Claro que tem «orgulho em ser branco»: quando não se pode ter orgulho em ser inteligente, em ter talento, em ter aumentado a sua cultura e educação, em ser boa pessoa, em ter-se aperfeiçoado, em ter ajudado pessoas, em ter feito o mundo melhor ou em ter sido um exemplo para os outros. Quando não se pode ter orgulho em ser apreciado por pessoas de proveniências e culturas diferentes, em ter estado num país estrangeiro, ter feito amigos e ter deixado saudades. Quando não se pode ter orgulho em saber cozinhar, falar, dançar, tocar um instrumento, pintar, amar e ser amado por uma pessoa que admiramos, trabalhar no duro, ter boa caligrafia, aprender um idioma, ser autor de um invento, conhecer a história do seu país, ter criado filhos e netos, ser um bom marceneiro, ou um bom professor, ou um bom servente de pedreiro. Quando não se pode ter orgulho em saber alinhar duas ideias, saber compreender uma única ou ter tido nenhuma.
QUando não se pode ter orgulho de nada, tem-se orgulho em «ser branco». É o que resta ao destituído total. Também a nódoa no pano, coitada, deve ter orgulho em «ser nódoa», o buraco em «ser buraco», a bosta em «ser bosta».
No entanto, o que esse imbecil ainda não entendeu é que ele nem sequer teve responsabilidade em ser branco. É só branco por acaso.
Tem, de facto, muito pouco de que se orgulhar.
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quinta-feira, março 29, 2007
Telefonicamente

Caraças. Acabei de responder a um inquérito telefónico sobre hábitos consumistas. Quem já teve esta maravilhosa experiência de responder sem pensar a um conjunto de questões feitas para isso mesmo sabe do que estou a falar. Nem o entrevistado está com pachorra para responder, nem o entrevistador está interessado em respostas ponderadas. As questões chovem metódicas e geladas, como chuva em noite invernosa, as respostas saem sem chama nem fulgor, são mais reflexos que outra coisa qualquer.
Mas este inquérito, em particular, foi uma coisa estranha. As questões andavam à volta de nomes de centros comerciais e quantas vezes lá vou. Por mês. Por semana. O que faço por lá? Se como, se compro comida, se bebo café ou tomo o pequeno-almoço. Que não, que sim, que talvez ou quase nunca, ou mesmo de todo e absolutamente impossível! Uma pergunta me soou especialmente estranha. Qualquer coisa como: "Considera mais importante ir ao centro comercial ou estar com um grupo de amigos?"
!!!???
A partir daqui as minhas respostas nem sempre terão sido coerentes. Quem poderá ter imaginado semelhante questão? Onde quererão chegar com uma pergunta deste calibre? Quando desliguei o telefone senti-me estúpido. Mas que raio de merda tinha sido aquela? E que raio de merda de lugar é este?
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terça-feira, março 27, 2007
A Personagem
Personagem, s. f. (fr. personnage). Pessoa considerável, ilustre: uma alta personagem. Pessoa que toma parte na acção de uma obra literária. Figura dramática: as personagens de Shakespeare.
É assim que vem no Dicionário Prático Ilustrado que costumo consultar. "Personagem" é um substantivo feminino! Ouço dizer tantas vezes "o" personagem que até me salta a tampa! Ainda hoje em entrevista televisiva, a propósito da peça que estreou no Maria Matos em Dia Mundial do Teatro, Diogo Infante, uma personagem do meio teatral que muito prezo e admiro, falou "do" personagem que interpreta, um sacerdote. E anda a passar uma série de programas em que Diogo coloca questões relacionadas com a arte de bem falar português...
Estará a escapar-me alguma coisa? Personagem poderá dizer-se no masculino? Não me consta. Quer-me mais parecer uma daquelas situações em que a asneira é tantas vezes repetida que acaba por tornar-se quase a forma correcta. Há personagens masculinas e personagens femininas mas são todas personagens. Mesmo numa cena com 500 camionistas barbudos teremos que referir as 500 personagens, ponto final.
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Teatro, teatro, teatro...
Comemora-se hoje mais um Dia Mundial do Teatro. Com tantos dias especiais amontoados no calendário mais um menos um não parece nada de especial. Este, no entanto, sempre tem o condão de nos pôr a pensar um pouco sobre o que se vai passando entre nós com esta arte maior.Será impressão minha ou o espectáculo teatral tem vindo a esmorecer nos últimos tempos em terras de Portugal? Será impressão minha ou as produções de um certo circuito off desapareceram do mapa? Sem este circuito, que conheceu algum incremento e implantação ao longo dos anos 90, não estará o teatro a perder influência e capacidade de captação dos tão falados "novos públicos" para as salas das companhias institucionalizadas? Não sei, não sei, falo mais por impulso, é uma sensação, uma impressão indefinida que me leva a esta reflexão. Não tenho dados objectivos que a sustentem. Se calhar é apenas impressão minha, nada mais.
Seja como fôr é um facto que o poder central tem vindo a desinvestir progressivamente nos apoios concedidos às chamadas produções pontuais. Estas produções foram sempre o espaço principal para a experimentação e o risco. Uma companhia (se é que ainda as há!) arrisca menos, produz espectáculos mais convencionais e dirigidos a um público que vai conquistando com dificuldade e pretende manter interessado muitas vezes oferecendo mais do mesmo, recorrendo a "receitas" de sucesso mais ou menos garantido. Isso é perfeitamente legítimo mas corre-se o risco de uma certa estagnação criativa.
A novidade, a capacidade de reflectir sobre a contemporaneidade através de produções que reflictam sobre o mundo que nos rodeia aqui e agora, são papéis importantes a atribuir ao teatro. A insistência na produção de clássicos é imprescindível mas não pode ser tudo! Corremos o risco de transformar o teatro em tradição quando uma das suas vocações mais apaixonantes é a de olhar o mundo actual e representá-lo em palco.
A Sociedade das Flores - Cena 9
9. Cena - A Mulher-Terra diz coisas terríveisA Mulher-Terra fala com uma frieza cortante. Não eleva a voz nem fala em tom de censura. É mais um desprezo gélido que a anima.
Devem pensar que não tenho mais que fazer senão aturar-vos nas vossas horas de lazer, angustiados, com medo que a vida não seja mais do que aquilo que ela é.
Não!
Não há nada mais para possuir, nada mais para ver ou ouvir do que aquilo que vocês possuem, viram, vêem e vão ouvindo.
Acham pouco?
Paciência!
Vivem no melhor dos mundos e ainda querem mais?
Não há entre vós fome, nem sede, nem guerra, nem nada que se compare.
Dêem-se por felizes, encafuados na vossa cidade barulhenta.
Alegrem-se com o sorriso dos vossos filhos, com a comida de plástico, os vossos sofás e as vossas televisões porque é o melhor que alguma vez terão, o auge da civilização.
Nada mais!
Contentem-se com a podridão da vossa paz e não pensem demasiado naquilo que a sustenta nem na massa de que ela é fabricada.
Termina fumando placidamente o seu cachimbo.
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segunda-feira, março 26, 2007
O cú da Europa

FINAL DE DO PROGRAMA "OS GRANDES PORTUGUESES" O NOSSO AGRADECIMENTO A TODOS OS QUE PARTICIPARAM
No passado Domingo, dia 25 de Março os telespectadores escolheram entre os 10 finalistas o "Grande Português". E foram os seguintes os resultados da votação:
1º António de Oliveira Salazar - 41,0%
2º Álvaro Cunhal - 19,1%
3º Aristides de Sousa Mendes - 13,0%
4º D. Afonso Henriques - 12,4%
5º Luís de Camões - 4,0%
6º D. João II - 3,0%
7º Infante D. Henrique - 2,7%
8º Fernando Pessoa - 2,4%
9º Marquês de Pombal - 1,7%
10º Vasco da Gama - 0,7%
A fazer fé nos resultados da votação para o programa de TV "O Maior Português de Sempre" só posso concluir que o triunfo de Salazar enquanto déspota batoteiro e mal intencionado deu frutos de tal modo envenenados que a maioria da população ainda não recuperou, não havendo clínica de recuperação nem desintoxicação que lhe valha.
Não deixa de ser irónico que a "eleição" de Salazar tenha coincidido com a comemoração do 50º aniversário da assinatura do Tratado de Roma, momento fundador da União Europeia. O Botas de Santa Comba, que tudo fez para fazer de Portugal o olho do cú da Europa e alcançou plenamente esse objectivo, deve estar a rir-se com os demónios que o vão torturando no Inferno.
Um gajo que aniquilou sistemática e doentiamente todos os adversários políticos, que falseou resultados eleitorais com a sobranceria dos que sabem estar acima da Lei por serem intelectualmente corruptos , acaba incensado no altar mediático de uma sociedade democrática como uma espécie de santidade profana talhada no mais carunchoso dos paus infectados pela podridão da maldade. É de força.
Dizia Almada que "se o Dantas é português eu quero ser espanhol" digo eu que "se os portugueses são Portugal eu quero ser um país indepedente". Em boa verdade custa-me a acreditar que esta "votação" reflicta o Portugal actual mas não deixa de ser um sintoma de estupidez boçal algo preocupante. Por ali andou "mãozinha da reaça" e, mais uma vez, se percebe como a Democracia se dá mal quando abre a perna a grupos organizados de extrema direita.
Fica a imagem deplorável de haver a possibilidade de um povo acarinhar um ditador que o estropiou de forma aparentemente irremediável. Salazar cegou Portugal e Portugal agradece-lhe a cegueira. E, como é certo e sabido, "o pior cego é aquele que não quer ver"!
Temo que, na verdade, nunca deixemos de ser o cú da Europa. Um cú mal lavado, ainda por cima.
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domingo, março 25, 2007
União!
Aquilo a que chamamos actualmente União Europeia nasceu há 50 anos. Ao longo do processo de crescimento foi ganhando um aspecto diferente, ficou mais gorda, mais desconfiada, mas habituou-se ás entranhas que lhe dão vida e, no conjunto, não está mal de todo para a idade que tem. Esta Europa, velha e orgulhosa, seduz-me, apesar de tudo. Muito sinceramente penso que a Europa, tal como a vemos crescer, é a única coisa com fronteiras que tem possibilidades de fazer algum sentido. Isto porque são fronteiras que alargam e se afastam de nós e os horizontes da Europa são cada vez mais vastos. Porque podemos viajar cada vez mais longe num espaço multicultural que pretende obedecer a um conjunto de leis fundamentais semelhantes, onde a civilidade se sobrepõe tanto à barbárie como à religião. Podia ficar por aqui a tecer considerações variadas sobre as virtudes da União (ignorando olímpicamente as verrugas, a pele enrugada e mau cheiro que lhe sobe desde os fundilhos) mas estou ali a ver uma cervejinha a rir-se para mim e vou lá conversar com ela. Vamos decerto brindar à União e ao Tratado de Roma e essas cenas todas. Viva a grande nação Europeia!!!
sábado, março 24, 2007
Ressuscitar um fantasma

Peguei num post que tinha deixado por aqui há uns dias e escrevi esta carta ao Director do Público que já é quase um amigo, tantas são as que lhe escrevo!
Ressuscitar um fantasma
Saiu no Público no dia 15 de Março (página 11) uma noticiazinha assinada por Isabel Leiria com o sugestivo título: Estudos e ocupação dos pais determinam acesso ao superior. Ao longo de duas singelas colunas a jornalista cita um estudo de duas investigadoras que se deram ao trabalho de evidenciar uma evidente evidência: o acesso da juventude portuguesa ao ensino superior continua relacionado com as habilitações académicas, o rendimento e a ocupação (profissional ou outra) dos pais.Só mesmo quem tenha passado uma temporada valente a viajar pelo espaço exterior em busca de vida inteligente para lá da Colunas de Hércules poderia imaginar que a democratização, encetada após a revolução de Abril de 1974, havia esbatido em definitivo o fosso que separa o castelo dos mais ricos da rua mal calcetada dos mais pobres. Nem em sonhos.Não só temos vindo a assistir a um alargamento daquele fosso como parece estar cada vez mais profundo. A pobreza manifesta-se das mais variadas formas e a de espírito também entra nestas contas. Note-se que a simples condição económica não se traduz em elevada capacidade académica. É necessário juntar-lhe uma capacidade cultural ligeiramente superior à média (pelo menos) que entre nós nem sequer é particularmente elevada.Sendo assim, as classes dominantes continuam a dominar e as dominadas debatem-se com a ferocidade possível para saírem do buraco onde tendem a afundar-se. Se a via académica rebentar, podem sempre tentar a via mediática através de um Big Brother qualquer e aparecer nas capas das revistas chunga, mas isso é tão efémero como um peido de cão.
A sociedade que estamos a ajudar a construir não tende para o equilíbrio nem é esse o objectivo da coisa. Talvez a maioria dos cidadãos acredite na possibilidade de encontrar uma fórmula mágica que nos permita reduzir o tal fosso entre a riqueza ostentatória e a indigência vegetativa, mas, por muito que se consiga reduzir, será sempre um fosso imenso e aparentemente injusto. Anda por aí uma minoria silenciosa que vai acautelando de forma sistemática os seus interesses e mantendo a segurança dos palácios que habita.
A Educação constitui uma via possível para encurtar tais distâncias. Os socialistas utópicos do século XIX viram na generalização do ensino público uma ferramenta decisiva para a promoção da mobilidade social e a aposta dos sistemas democráticos nesse sentido é mais que uma obrigação, é quase uma fatalidade! A utopia social democrática esbarra violentamente no muro intransponível que o capitalismo selvagem constrói em volta dos seus interesses desumanos. Ao permitirmos que a Economia fosse elevada à categoria de divindade suprema perdemos o controlo das causas sociais. É tudo calculado em função dos cifrões e dos milhares de milhões que se investem aqui e ali, como se as pessoas não contassem para nada e o dinheiro, por si só e de forma completamente autónoma, pudesse resolver os problemas que nos vão sendo colocados na vida quotidiana.
De cada vez que se fala de Educação lá vêm à baila os milhões e as percentagens e os salários e todo o habitual relambório de números para isto e para aquilo que tudo justificam e clarificam para que, no fim de contas, tudo fique na mesma ou até um pouco pior. Enquanto não assumirmos que a equidade educativa não passa de uma miragem (por muito que nos custe admitir tal monstruosidade) não conseguiremos ultrapassar o limiar da mediocridade em que nos encontramos, estáticos como avestruzes de cabeça enterrada a procurar não sabemos o quê, perdido nas profundezas da areia. Há quem consiga ultrapassar todas as barreiras e ascender na inclinada pirâmide social. O actual Presidente da República Portuguesa é um bom exemplo disso, apesar de tudo.
Talvez esteja na altura de ir ao baú buscar velhos conceitos que estão mesmo a pedir novas reflexões paradigmáticas, sem dogmas nem ressentimentos demasiado azedos. A luta de classes é um bom exemplo de um fantasma a ressuscitar. Sem armas na mão nem guilhotinas na praça pública. Só para tentarmos abrir um pouco melhor os olhos.
A sociedade que estamos a ajudar a construir não tende para o equilíbrio nem é esse o objectivo da coisa. Talvez a maioria dos cidadãos acredite na possibilidade de encontrar uma fórmula mágica que nos permita reduzir o tal fosso entre a riqueza ostentatória e a indigência vegetativa, mas, por muito que se consiga reduzir, será sempre um fosso imenso e aparentemente injusto. Anda por aí uma minoria silenciosa que vai acautelando de forma sistemática os seus interesses e mantendo a segurança dos palácios que habita.
A Educação constitui uma via possível para encurtar tais distâncias. Os socialistas utópicos do século XIX viram na generalização do ensino público uma ferramenta decisiva para a promoção da mobilidade social e a aposta dos sistemas democráticos nesse sentido é mais que uma obrigação, é quase uma fatalidade! A utopia social democrática esbarra violentamente no muro intransponível que o capitalismo selvagem constrói em volta dos seus interesses desumanos. Ao permitirmos que a Economia fosse elevada à categoria de divindade suprema perdemos o controlo das causas sociais. É tudo calculado em função dos cifrões e dos milhares de milhões que se investem aqui e ali, como se as pessoas não contassem para nada e o dinheiro, por si só e de forma completamente autónoma, pudesse resolver os problemas que nos vão sendo colocados na vida quotidiana.
De cada vez que se fala de Educação lá vêm à baila os milhões e as percentagens e os salários e todo o habitual relambório de números para isto e para aquilo que tudo justificam e clarificam para que, no fim de contas, tudo fique na mesma ou até um pouco pior. Enquanto não assumirmos que a equidade educativa não passa de uma miragem (por muito que nos custe admitir tal monstruosidade) não conseguiremos ultrapassar o limiar da mediocridade em que nos encontramos, estáticos como avestruzes de cabeça enterrada a procurar não sabemos o quê, perdido nas profundezas da areia. Há quem consiga ultrapassar todas as barreiras e ascender na inclinada pirâmide social. O actual Presidente da República Portuguesa é um bom exemplo disso, apesar de tudo.
Talvez esteja na altura de ir ao baú buscar velhos conceitos que estão mesmo a pedir novas reflexões paradigmáticas, sem dogmas nem ressentimentos demasiado azedos. A luta de classes é um bom exemplo de um fantasma a ressuscitar. Sem armas na mão nem guilhotinas na praça pública. Só para tentarmos abrir um pouco melhor os olhos.
???
E se o mundo que nos rodeia fosse apenas uma piada de mau gosto? Se tudo isto não passasse de uma tremenda ilusão criada por um demónio táo perverso que nos fez imaginá-lo como uma divindade bondosa? Com um sentido de humor inatingível, o demónio/deus criara uma interminável comédia da qual não conseguimos descortinar o enredo pela simples razão de que não existe enredo nenhum. Sem princípio nem fim que se adivinhe, o mundo vai existindo esquecido e desprezado pelo seu abominável criador. E se nós não fossemos nada?
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sexta-feira, março 23, 2007
Reflexo momentâneo

As histórias são como espelhos, cada um vê nelas o reflexo daquilo que transporta dentro da alma. Umas vezes mais, outras menos e quase nunca mais do que isso.
Quem vive uma vida de insecto tende a prestar atenção ao que lhe aparentar ser uma vida de mamífero.
Para lha invejar.
Se puderem enxamear-lhe o íntimo com patinhas de uma curiosidade voraz, como formigas a tratar do canastro a um pardalito caído do aconchego do ninho, não hesitam e fingem compreender aquela vida alheia com o objectivo mórbido de a tentarem reduzir à dimensão da sua existência.
Quem vive uma vida de insecto tende a prestar atenção ao que lhe aparentar ser uma vida de mamífero.
Para lha invejar.
Se puderem enxamear-lhe o íntimo com patinhas de uma curiosidade voraz, como formigas a tratar do canastro a um pardalito caído do aconchego do ninho, não hesitam e fingem compreender aquela vida alheia com o objectivo mórbido de a tentarem reduzir à dimensão da sua existência.
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quinta-feira, março 22, 2007
Um caso gurdoroso

Sócrates, afinal, não é Engenheiro!!!
As confusões relacionadas com a creditação do Primeiro Ministro vieram mostrar, à luz do dia, que Sócrates é "licenciado" em Engenharia Civil e que a Ordem dos Engenheiros não lhe reconhece tal título (Engenheiro Civil) por ter concluído os "estudos" na Universidade Independente, instituição académica de fracos pergaminhos e muita sombra nos recantos da Secretaria.
Diz que disse e que não disse, a investigação levada a cabo pelo Público e editada hoje põe a descoberto um processo pouco claro, cheio de dúvidas, esquecimentos e algumas omissões que, ao que parece, muito irritam um indignado 1º ministro que viu alterado o seu historial de vida no portal do governo no passado dia 15 do corrente. Deixou de ser "engenheiro" passando à categoria de "licenciado" em Engenharia Civil. Bonito.
Essa alteração não diminui em nada o alcance das medidas governativas do actual Sócrates, 1º ministro. A investigação do caso vem mostrar mais uma vez que no ensino superior privado os processos de creditação dos estudantes nem sempre primam pela limpidez. Basta ver a confusão entre notas nas pautas e no processo individual de Sócrates que não coincidem e outras cabriolas dignas de registo e atenção.
Resumindo e concluindo, a partir de agora o Engenheiro José Sócrates deixa de o ser para passar a Licenciado José Sócrates, o que não significa o mesmo que licencioso, embora muitos assim o considerem.
Já se sabe que a verdade é como o azeite, acabando sempre por vir ao cimo e é igualmente gurdorosa.
segunda-feira, março 19, 2007
Fraco verniz
Segundo rezam as crónicas o Conselho Nacional do CDS/PP acabou em peixeirada. Nada que surpreenda por aí além já que, por exemplo, Paulo Portas é conhecido pela sua atracção fatal por feiras e mercados onde terá aprendido algumas das tácticas de diálogo que agora aplica com convicção.As comadres andam desavindas desde que o homenzinho (na foto) resolveu regressar ao lugar que havia abandonado quando o povo português lhe mostrou que não morre de amores por ele aplicando-lhe tremenda derrota eleitoral nas últimas legislativas. Portas parecia ter compreendido o recado e foi à sua vida. Mas este homenzinho irritante não consegue manter-se longe do poder ou, pelo menos, do perfume nauseabundo que dele exala e mais uma vez se chegou à frente, convencido que a sua simples silhueta faria tremer de alegria e prazer os militantes do "seu" partido que estariam já fartos do actual líder.
Afinal, nem 8 nem 80! Nem o seu regresso era assim tão aguardado como lhe terá dito o seu espelho, nem o líder actual será tão mal-amado como Portas imaginou. A coisa complica-se.
Ontem, em dia de meia-maratona para o 1º ministro, a reunião do Conselho Nacional do CDS foi uma maratona completa e complexa, que deixou os participantes com os nervos em franja.
Seria de esperar que um partido com gente de tão boas famílias conseguisse manter um certo low profile, afinal estará ali la créme de la créme do Portugal nacionalista, gente educada nos colégios particulares e habituada a lingerie da mais fina sêda! Está bem abelha! Quando a coisa pia fino estala e o verniz e ameaça rebentar tudo à estalada. Ainda não se sabe bem o que terá acontecido lá dentro, mas a reunião terminou com trocas de mimos nada civilizadas e acusações de insultos para trás e para diante.
Diz o povo que em "Casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão". Aqui o "pão" é o poder, o quentinho dos assentos ministeriais e dos lugares dos secretários de estado e por aí fora, onde não há actualmente nenhum rabiosque do CDS nem se vislumbra que venha a haver nos tempos mais próximos. Com o rabinho frio os militantes sentem-se irritados, traídos mesmo. Se esta direcção não lhes dá garantias de que venham a aconchegar os selectos cúzinhos nos tempos mais próximos, os ditos cujos esperneiam e querem outros ao leme da sua barcaça.
Seja como for não se entendem e mostram à nação a verdadeira face, não passam de cidadãos ansiosos e sedentos das benesses do poder. Absolutamente legítimo! Mas é preciso que alguém os queira, a começar lá pela sua própria casota.
sábado, março 17, 2007
Estranho (pelo menos)
Toda a gente sabe o que foi o Euro 2004 em matéria de esbanjamento, com a construção de uma mão-cheia de estádios de futebol entre demolições, remodelações e outros puxados das profundezas da terra. Estádios caríssimos, enormes e desajustados das necessidades. Após o Campeonato da Europa o estádio de Aveiro ou o de Leiria, para citar dois exemplos, têm uma assitência média de 1500 a 2000 espectadores para uma capacidade de 30000!!! Foram estádios construídos para fazer um ou dois jogos e depois nem sequer há capacidade fnanceira para garantir a manutenção dos monstrecos.Mas, de todos, o mais gritantemente desnecessário foi, sem sombra para dúvidas, o estádio do Algarve. Sem um clube da 1ª liga num raio de algumas centenas de quilómetros, esse estádio pura e simplesmente nunca teve quem lhe desse uso. Uma obra faraónica sem múmia para meter lá dentro é coisa que só se explica na escuridão dos negócios do betão que vão cimentando a nossa torpe economia.
Mas eis que surge a hipótese de redenção! O estádio do Algarve está a ser transformado em pista para automóveis de rali! Sim, é verdade, será palco para provas especiais do Rali de Portugal. A relva já foi revolvida, removida e tosquiada. No seu lugar está agora uma pista de terra batida, maravilhosa, magnífica, mesmo. À boa maneira portuguesa lá se desenrascou qualquer coisinha para alimentar aquele elefante branquíssimo. Anda agora muita gente satisfeita por se ter encontrado tão brilhante solução. Só pergunto se seria mesmo necessária toda esta tolice pegada?
Pergunto ainda quem foi o responsável pela aprovação e construção do dito cujo, uma vez que o dinheirinho investido saíu dos bolsos de todos nós. Com esta capacidade de planear o futuro não há passado que aguente!
sexta-feira, março 16, 2007
Objecto de tortura?
Cuidado! Acender um isqueiro descartável poderá vir a ser um gesto arriscado, apesar de toda a inocência que possa encerrar. Ainda agora estou de cigarro ao canto da boca e acendi-o com um BIC vermelhito, de aspecto inofensivo mas que, ao que parece, é na verdade um perigoso instrumento capaz de causar danos terríveis quando utilizado de forma leviana.
Pois é. Parece impossível mas é verdade, estamos prestes a ver este ícone do design contemporâneo passar para a lista de objectos proibidos por lei. Tal como a colher de pau, o isqueiro incomoda alguém com responsabilidades legislativas ao nível da União Europeia. Incomda a tal ponto que vai ser riscado do mapa dos consumos correntes.
A paranóia não tem limites. Estou para ver o que se seguirá. Ainda serão proibidos os atacadores de botas e ténis por poderem ser usados para suicídio por enforcamento ou mesmo os sacos de plástico por serem potenciais objectos de tortura. O Big Brother vela por nós, só espero que não esteja sempre a olhar! Raisparta esta merda! Ide velar pela pata que vos pôs. Da parte que me toca dispenso preocupações tão específicas e inúteis como esta. Chega a ser aviltante!
A paranóia não tem limites. Estou para ver o que se seguirá. Ainda serão proibidos os atacadores de botas e ténis por poderem ser usados para suicídio por enforcamento ou mesmo os sacos de plástico por serem potenciais objectos de tortura. O Big Brother vela por nós, só espero que não esteja sempre a olhar! Raisparta esta merda! Ide velar pela pata que vos pôs. Da parte que me toca dispenso preocupações tão específicas e inúteis como esta. Chega a ser aviltante!
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quinta-feira, março 15, 2007
Lutar para quê?
Continuando a reflectir um pouco sobre a questão: A luta de classes existe? fico um pouco embaraçado por não ser capaz de pensar a direito, muito menos pensar com clareza. Não é vergonha que dure muito ou faça corar, antes uma espécie de embaraço.Verdade, verdadinha, tenho alguma dificuldade em identificar o operariado ou deslindar por onde andam os camponeses de hoje em dia. A impressão que fica é que se trata de espécies em extinção no nosso país, mais ameaçadas que o bacalhau da Noruega!
Terá sido isso que fez imaginar o pessoalzinho que a luta de classes acabou? Quero dizer, a diluição das classes trabalhadoras numa mistela sem forma nem conteúdo, uma espécie de massa aspirante à felicidade que só o dinheiro pode dar? Os capitalistas (ena pá, há quanto tempo não escrevia esta palavra!) descobriram o ovo de Colombo: "Se não os podes vencer, transforma-os em ti próprio!" Nada pior para as classes trabalhadoras poderem sonhar com virem a passar-se para a classe patronal. O sonho comanda a vida, dizia a cançoneta. Então não comanda! Quem percebeu isso melhor foram as classes dominantes que facilmente manipularam os sonhos de quem pouco ou nada tem envenenando-lhes os sonhos com os seus próprios pesadelos, até transformar o inimigo em falso amigo e vice-versa. Confuso? Também acho.
Lá no fundo, bem fundinho, uma questão vai ganhando forma e conteúdo. Se eu (trabalhador) aspiro a ser patrão ou, pelo menos, ter um modo de vida semelhante ao do meu patrão, porque hei-de lutar contra aquilo que sonho vir a ser? Não faz qualquer sentido. O Capital descobriu a forma ideal de domar as massas trabalhadoras. Permitindo-lhes o acesso a pequenas maravilhas que a tecnologia transforma em produtos baratos vai mantendo a ilusão de que todos poderão garantir um lugarzinho no paraíso do capital. Assim se vão entretendo os tolos, já não com papas e bolos mas com telemóveis e écrãs planos, calças Levis e camisas de marca. Coisas facilmente comercializadas ao preço da uva mijona, para gáudio da populaça.
Domina-se o monstro transformando-o em cordeiro, mesmo que o pêlo seja sempre de fraca qualidade e o seu balido soe eternamente como uma corneta de plástico.
A luta de classes não acabou. Apenas estamos confusos ao ponto de não percebermos a que classe pertencemos. Andamos anestesiados.
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Há luta?
Vem hoje no Público (página 11) uma noticiazinha assinada por Isabel Leiria com o sugestivo título: Estudos e ocupação dos pais determinam acesso ao superior. Ao longo de duas singelas colunas a jornalista cita um estudo de duas investigadoras que se deram ao trabalho de evidenciar uma evidente evidência: o acesso da juventude portuguesa ao ensino superior continua relacionado com as habilitações académicas, o rendimento e a ocupação (profissional ou outra) dos pais.
Só mesmo quem tenha passado uma temporada valente a viajar pelo espaço exterior em busca de vida inteligente para lá da Colunas de Hércules poderia imaginar que a democratização, encetada após a revolução de Abril de 1974, havia esbatido em definitivo o fosso que separa o castelo dos mais ricos da rua mal calcetada dos mais pobres. Nem em sonhos.
Não só temos vindo a assistir a um alargamento daquele fosso como parece estar cada vez mais profundo. A pobreza manifesta-se das mais variadas formas e a de espírito também entra nestas contas. Note-se que a simples condição económica não se traduz em elevada capacidade académica. É necessário juntar-lhe uma capacidade cultural ligeiramente superior à média (pelo menos) que entre nós nem sequer é particularmente elevada.
Sendo assim, as classes dominantes continuam a dominar e as dominadas debatem-se com a ferocidade possível para sairem do buraco onde tendem a afundar-se. Podem sempre tentar a via mediática através de um Big Brother qualquer e aparecer nas capas das revistas chunga, mas isso é tão efémero como um peido de cão.
Não querendo alongar-me demasiado na análise de tal evidência gostaria de finalizar com uma perguntinha meio inocente, meio maldosa: a luta de classes deixou de existir?
Talvez tente uma resposta noutro post, tenho cá umas ideias acerca do assunto.
Para já fico-me por aqui, com um sorrisinho cínico a dançar-me na testa.
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