domingo, dezembro 17, 2006

A pescada

"O que é que antes de ser já o era?" Esta adivinha que partia a cabeça às criancinhas de outras eras volta à actualidade pela mãozinha marota das personagens acima retratadas. Hoje a resposta correcta já não se limita à pescada, agora temos também o Rivoli. Antes de a gestão do Rivoli ser entregue a Filipe La Féria já o era. Ou não?
O grande Rio (o Rui) está decerto mais inchado que um sapo fumador por poder mostrar a toda a corja de intelectuais desonestos que o têm acusado de ser um palonço que, afinal, é um homem de Cultura, assim mesmo, com "C" dos grandes.
La Féria garante Arte de primeira água e, sempre que possível, vai empregar nas suas produções técnicos e criadores lá de cima. Sempre que a equipa sulista estiver ocupada? Terá este aspecto pesado também na decisão do Grande Rio?
Não há dúvidas que La Féria vai encher o Rivoli de gente e ganhar rios de dinheiro e aliviar os cofres da Câmara (isto aqui já não sei bem...). O Porto ganha um tumor cultural semelhante ao que Lisboa já tem vai para uma boa mão-cheia de anos que é para não se ficar a rir. Mas é um tumor benigno que não mata nem amolenta, mais ou menos como o velho Melhoral: não faz bem nem faz mal.
Um espaço daqueles é demasiado grande para grupos independentes e produções alternativas. O que é necessário é que existam espaços adequados para esse tipo de artistas menos dados a salas cheias de gente feliz com prozac nas têmporas e o Correio da Manhã debaixo do braço. A diversidade garante a Democracia. É no contraste que a forma se define. A uniformidade gera burros sonolentos sentados defronte ao palco. Que acordam apenas para bater os cascos e zurrar de contentamento sempre que o espectáculo acaba.
Resumindo, a Cultura da Pescada vence mais uma vez e está aí para durar. A outra, a Cultura Alternativa, lá terá de fazer pela vida. Como sempre foi e continuará a ser. Há certas coisas que, para serem ditas, necessitam de Liberdade absoluta. Uma Liberdade que dinheiro e subsídios nem sempre garantem. Mas lá que ajudam...

sábado, dezembro 16, 2006

O Futuro


"Nos tempos futuros a obra de arte será substituída pela realidade imediata do mundo que nos rodeia realizado em expressão criadora pura. Mas para o conseguir é necessário que nos orientemos no sentido de uma ideia universal e que nos libertemos da tirania da Natureza. Então já não teremos necessidade de quadros nem de esculturas porque viveremos dentro da arte tornada realidade. A arte desaparecerá à medida que a própria vida ganhar em equilíbrio. Por agora a arte ainda é de importância superior porque, por uma via directa e isenta de ideias individuais, demonstra de um modo criador as leis do equilíbrio."

Piet Mondrian, Plastic Art and Pure Plastic Art (ensaios 1937-1943), Nova Iorque, 1947,
retirado de Documentos Para a Compreensão da Pintura Moderna de Walter Hess, ed. Livros do Brasil


Bem vistas as coisas, Mondrian ficou longe de ser profeta credível.
A menos que o Futuro seja aquela tal coisa que nunca mais chega e foge sempre que nos aproximamos dela. Sim, porque se algum dia vivermos o futuro ele será imediatamente transformado em presente e, num piscar de olhos, será já o passado.
Se assim for, a profecia de Mondrian sobre o destino da arte nunca se concretizará por não ser possível a ninguém viver o Futuro.

Paraíso incómodo

O facto de os exames nacionais de Filosofia para os 10º e 11º anos do Ensino Secundário deixarem de existir em 2008 e de a disciplina passar a ser opcional no 12º ano está a provocar alguma apreensão entre as elites do pensamento indígena.
As orientações do Ministério da Educação são, mais uma vez (já cansa!), postas em causa tanto pelo senso comum como pelo senso menos comum e mais elaborado.

Talvez as cabeças falantes do Ministério tenham chegado à conclusão que pensar menos diminui o sofrimento.

Um parvo despreocupado e trabalhador parece ser mil vezes preferível a um pensador, eventualmente torturado pela visão de um mundo cada vez mais obviamente injusto e pouco democrático o que lhe poderá provocar um défice de produção.
Um parvo acredita facilmente que vive em democracia desde que alguém, vestido de fato e gravata, lho garanta com o rigor próprio de um tom de voz adequado. Já um cidadão habituado a questionar a mais simples evidência terá dificuldades em engolir toda a merda que lhe queiram enfiar goela abaixo pelo funil dos meios de comunicação de massas.

O mundo está a mudar. No futuro não será melhor nem pior do que alguma vez já foi. Será diferente. Se for um mundo habitado por cidadãos que pensem menos do que os de hoje, haverá menos sofrimento para os que sofrem e menos remorso para aqueles que provocam esse sofrimento. Isso é potencialmente bom, embora à primeira vista possa parecer uma coisa má e cruel. É o ovo de Colombo do economicismo neoconservador, a porta que se entreabre para o Paraíso dos mongas em que estamos a transformar a nossa sociedade. Um paraíso incómodo.



quinta-feira, dezembro 14, 2006

Uma visão com futuro

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Uma sociedade de robots daria muito menos problemas!
Devidamente programados, os robots nunca faltariam ao trabalho nem se esquivariam aos seus deveres fiscais pagando a tempo e horas os impostos (sem a necessidade das habituais filas intermináveis no último dia do prazo).
Robots bem educados não haviam de conduzir como labregos nem estacionariam o veículo no meio da rua para irem tomar uma bica e comer um pastel de nata deixando outros robots à beira de um ataque de nervos.
Um robot seria incapaz de abandonar os animais de estimação quando rumasse à praia no Verão com a família. Outra coisa que um robot nunca faria: escarrar na rua!
A lista das vantagens que uma sociedade de robots teria sobre a nossa actual sociedade de seres de muita carne e pouco osso é interminável. Essas vantagens são tão evidentes que há quem, no silêncio e na penumbra, já venha trabalhando nesse sentido.
A formatação social globalizada é um objectivo meritório e tem chancela divina.
Agora que começamos a assistir aos primeiros sinais evidentes da falência da Democracia tal como a imaginávamos estamos precisadinhos de uma alternativa fiável. É aqui que entra a robotização dos indivíduos enquanto caminho a seguir.
Tenho cá a impressão que já metemos os pés à estrada.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Comidinha!!!

Entrar no mundo espelhado do criacionismo é uma manobra arriscada. Desde um radicalismo tacanho até um discurso contido e sedutor, encontra-se uma imensidão de falinhas mais ou menos mansas, ora feitas de uma fé amanteigada ora fruto de árvore proibida com raízes de plástico.
Em português, a mensagem escrita soa quase sempre a Brasil, terra violada pela gula católica por almas simples e desprotegidas. O resultado da evangelização forçada do indígenas lá do sítio é o que se sabe: uma fusão religiosa e cultural emocionante e bronzeada, capaz de tirar do sério o mais circunspecto dos puritanos.
As abstrusas lucubrações criacionistas devoveram-me à memória um livro que li já vai para uns anitos, O Pão dos Deuses de um tal Terence McKenna, obra estranhamente lúcida e divertida que propõe uma revisão da evolução humana sob a luz das relações pecaminosas entre o homem e as drogas. (Notas breves sobre o autor e excertos do livro em) http://www.viaoptima.online.pt/pag.php?ref=DU2S1
Se há quem possa dar crédito às teoria criacionistas porque não levar a sério McKenna quando afirma que descende do macaco "sim, mas de um macaco pedrado!!!" A questão profunda por ele colocada tem a ver com a razão que poderá ter levado um macaco a articular sons capazes de o conduzirem à fala. Sim, o que poderá ter provocado tão radical evolução? Para McKenna só mesmo a utilização de uma droga alucinogénica, a psilocibina, encontrada em certos cogumelos (mágicos?) consumida pelos nossos antepassados peludos. O racicínio deste etno-biólogo é absolutamente delirante. Para ele a evolução não resulta de um processo de acumulação gradual de experiências mas sim de cortes radicais, saltos abruptos, provocados por acontecimentos extraordinários. Nem mete ao barulho deus ou outras enormidades do género, a responsabilidade seria desses cogumelos bondosos, resultando numa simbiose perfeita entre os seres vegetais e os animais. Uma eterna aliança entre a Natureza e uma emergente espécie humana, assinada para povoar e preservar o planeta através do desenvolvimento de uma coisa nova e espectacular: a inteligência.
Um livro a ler e a consultar, agora que os criacionistas pretendem reler os fundamentos da ciência com base numa fé inabalável nas linhas mais tortas da bíblia.
Experimenta, leitor, vai dar uma voltinha ao Pão dos Deuses e, quando regressares, diz qualquer coisinha.


terça-feira, dezembro 12, 2006

Santa Carolina


Carolina Salgado em pose de santinha barroca exibindo as marcas de uma alegada agressão por parte de Pinto da Costa e dois ajudantes assim narrada em notícia do Record de 7 de Abril de 2006: “O Afonso tentou esganar-me e a minha irmã (Ana), grávida de 3 meses e meio, veio socorrer-me e ainda levou um pontapé na barriga do Nuno Santos. Depois, ainda se virou para mim e mandou-me duas vezes ao chão. Como se não bastasse, e depois de olhar em volta a ver se estava a ser observado, o Jorge Nuno também me deu dois estalos.”

Como se previa o livro "Eu, Carolina" é já um best-seller com a 1ª edição à beira do esgotamento.
A ex-mulher do presidente mais célebre de todos os presidentes portugueses (é mais certo que o cidadão comum se lembre com maior rapidez do nome do presidente do FCP que do presidente da república!) veio botar a boca no trombone fazendo revelações bombásticas que deixam Pinto da Costa nos piores lençóis em que jamais se encontrou.
Se metade das histórias narradas pela pena leve de Carolina forem verídicas Jorge Nuno estará frito, cozido e grelhado, caso a coisa venha a ser esmiuçada pela Polícia Judiciária.
O que irá acontecer? Melhor que qualquer novela, brasileira, portuguesa ou mesmo venezuelana, o enredo deste caso de amores desavindos irá alimentar toneladas de papel coberto por rios da mais negra tinta. Basta ver o destaque dado à coisa no Público de hoje, onde mereceu foto a cores na capa e as duas primeiras páginas deste diário, considerado um jornal de referência. Se foi assim no principezinho dos diários portugueses como irá o assunto ser tratado no pouco lavado Correio da Manhã ou no ranhosito 24 Horas?
Até poderia ser divertido não fosse a gravidade de certas acusações, capazes de fazer corar um cadáver. A mais tenebrosa de todas prende-se com a agressão a um vereador da Câmara de Gondomar por ter feito acusações que estiveram na base do lançamento do já meio estafado Apito Dourado que, com uma sopradela deste calibre, irá decerto regressar em forma e em força.
Carolina assume mesmo o papel de contacto entre o malvado Pinto da Costa e os arruaceiros que desancaram o dito vereador tendo mesmo efectuado o alegado pagamento do prémio por um serviço bem feito (o vereador foi parar ao hospital). Chiça penico, a coisa ferve!
Tudo isto vem mostrar como o arrependimento compensa já que o vereador agredido perdoou a Carolina a sua suposta participação no alegado espancamento, ele quer mesmo é entalar o Presidente... mas, em tribunal, não sei se a agora Santa Carolina se safará sem castigo caso venha a ser provado que as coisas se passaram conforme ela as conta. Seria grotesco mas, na verdade, por enquanto tudo isto existe apenas em forma de livro, no limbo da ficção e a precisar de provas substanciais que dêm crédito a tanta coisa bombástica.
É que uma mulher capaz de fazer coisas como aquela pode muito bem estar a mentir com quantos dentes tem na boca... ou não!
Aguardam-se os próximos episódios desta novela que já está no coração dos portugueses.
Apaixonante!!!


domingo, dezembro 10, 2006

Valha-nos Deus!

O criacionismo está a chegar!
Lá por estarmos no cú da Europa não nos livramos desta. Vinda lá dos confins do Novo Mundo esta teoria ridícula está aí e há mesmo quem a leve a sério. Há mesmo quem acredite que o planeta tem menos de meia dúzia de milhares de anos e que foi Deus quem criou Adão e Eva (esta a partir de uma costela daquele) e que isso é um "facto" incontestável. Há mesmo quem acredite em todas as histórias da bíblia e faça profissão de fé em cada patranha ali contida, esteja ela escrita em aramaico, em polaco ou em mandarim, não importa como nem por quem.
Há quem pretenda contestar a ciência com "factos" que têm como única prova a fé que professam.
Sim, porque primeiro que tudo será necessário acreditar em deus uma vez que continuamos à espera de uma prova da sua existência.
A fraqueza maior desta "teoria" reside precisamente no facto de ser preciso ser um grande macaco para acreditar nela. Logo, está bom de ver, cada macaco criacionista está a confirmar os postulados maiores do avô Darwin.
Valha-nos Deus!

Felicidade!

Finalmente morreu o carniceiro chileno!
Se ainda houvesse dúvidas sobre a hipotética existência de um Deus criador, bonzinho e protector que anda algures sobre as nuvens a passar multas aos pecadores, o facto de um fiho-da-puta do calibre de Augusto Pinochet ter andado sobre a Terra durante 91 anos pulveriza definitivamente essa ideia taralhouca.
O Diabo foi visto amiúde a cirandar por aí, principalmente durante a Idade Média. Mais recentemente o chifrudo vai iludindo a vigilância por tomar forma humana, disfarçado mas sempre com o rabo de fora. Pinochet foi uma das peles que a Besta envergou para nos tentar envergonhar de sermos humanos. Quase que ia conseguindo, mais do que uma vez, mas, finalmente, o cão chileno patinou. Aleluia!!!
O dia de hoje deverá ser celebrado no futuro com honras especiais por termos a humanidade um pouco mais limpa.

sábado, dezembro 09, 2006

Outras coisas

O debate sobre a questão do aborto está aí. Começam a definir-se os contornos da discussão e, como seria de esperar, de ambos os lados da barricada os argumentos, os métodos e as perspectivas não mudam grandemente. Quem estivesse à espera de alguma transformação na forma como a coisa vai ser equacionada bem pode tirar o cavalinho da chuva: está tudo na mesma... como a lesma!
A igreja católica chegou a dar a sensação de que iria colocar-se sabiamente à margem mas não é capaz, não tem maturidade suficiente para acreditar na maturidade dos indivíduos pelo que, mais uma vez, avança com infernos e demónios tentando inquinar uma discussão já de si bem envenenada. Tudo velho.
Cada vez mais se ouve falar do problema da obesidade (infantil ou nem por isso), havendo mesmo quem lhe chame "epidemia", nome feio que talvez não se ajuste ao caso vertente mas que já dança nalgumas cabeças pensantes.
Segundo uma tal de Ana Rito, doutorada em Saúde Pública na área da nutrição infantil (ver entrevista na Visão nº 718), combater esta "epidemia" (o termo é dela) "só é possível tendo por base parcerias com todos os intervenientes - media, Governo, escola, família, profissionais de saúde e indústria alimentar." Se for assim, se é necessário concertar esforços, conceitos e princípios envolvendo esta maralha toda lamento, mas não há hipóteses de vencer a batalha. Para conseguir congregar esforços de tão diferentes agentes e instituições teríamos de operar uma revolução social mais radical que aquela que saíu da Revolução Francesa.
Pedir aos industriais da alimentação que abdiquem de uma margem dos seus lucros em nome da saúde das criancinhas é o mesmo que pedir ao diabo que desfaça os negócios de compra e venda de almas que lhe garantem a subsistência. Tão grande inocência da parte desta senhora mostra bem que o exército não tem generais à altura desta guerra. Está perdida. Resta-nos a guerrilha nem que seja com pedras na mão. A coisa pede mesmo é uma intifada contra a obesidade. Estamos entregues a nós próprios.

A literatura não deixa de nos surpreender. Anuncia-se para breve um livro da autoria de Carolina Salgado. "Quem é essa senhora?" perguntarão os mais distraídos rebuscando nas prateleiras da memória outras obras com tal assinatura. Não se cansem, é livro de estreia e certamente único. Carolina Salgado é a senhora que viveu com Pinto da Costa durante uns tempos e que, agora que separaram os trapinhos, tem dado muitas dores de cabeça ao velho lobo dos futebóis. A publicação de tal obra-prima aguça já o apetite dos mais marotos prevendo com gozo antecipada um camião de roupa suja a lavar na praça pública com água de fonte luminosa.
Depois de Vítor Baía e Ricardo, de José Mourinho, Jorge Costa e o próprio Pinto da Costa terem brindado o mundo das letras com obras de primeira água porque não poderia também esta cidadã tentar a sua sorte nos escaparates?
Coisa linda, conforme se verá.

Enfim, o Natal aproxima-se a galope, as dietas e o bom senso vão fazendo as malas e em breve entrarão de férias para os lados do Havai. Nós, por cá, vamos andando. Com a cabeça entre as orelhas, como convém.

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Mais coisas boas

"Portugal é o segundo maior consumidor de benzodiazepinas (tranquilizantes) na Europa. Estima-se que 23% da população adulta recorra regularmente a estes medicamentos, revela estudo divulgado por Bruxelas."
A coisa, dita assim, soa a banalidade. Qual é o problema? Sim, na realidade não estou a ver que seja tão grave que necessite de investigação policial e auto de ocorrência. Normal.
É normal ver velhinhas com passo de zombie a cirandar no corredor do super-mercado, cidadãos sorridentes encostados ao balcão prontos a aceitar a vida tal como ela lhes parece ser, se estão mais felizes... qual é o problema?
Olhando bem os olhos destas pessoas avançamos um passinho na direcção da possibilidade de compreendermos os que fumam charros ou consomem outro tipo de drogas menos propícias a prescrição médica? Haverá uma distância assim tão grande entre emborcar um prozaczinho ou enchaminar um charuto de skunk?
Afinal de contas andamos todos à procura de um espaço de felicidade onde encaixar a alminha. Há quem se dedique a Deus em igrejas de vão-de-escada, quem plante legumes na horta das traseiras escondendo uma parte do mundo da ferocidade urbana, criando um jardim mais próximo do Éden, para si e para os seus.
É isso, como diz a canção: "Eu já só quero é ser feliz..." então que seja, porque não, que diabo!?
Seja com play station, prozac ou cannabis, evadamo-nos rumo ao pôr-do-sol com um sorriso nos lábios.

terça-feira, dezembro 05, 2006

Coisas boas


O Natal também tem coisas boas! Uma das melhores que nos trouxe nos últimos anos (1993 neste caso) foi o filme de animação The Nightmare Before Christmas, uma realização de Henry Sellick a partir de uma história de Tim Burton. http://nightmarebeforechristmas.net/, http://www.timburtoncollective.com/nmbc.html, etc., etc., etc....

Haverá alguém que não tenha ainda visto este clássico do cinema de animação? E, quem já viu, resistiu a revê-lo? Por muitos anos continuará a ser um dos melhores filmes de animação jamais produzidos (será "o" melhor?) obrigatório para a formação artística e pessoal de qualquer criancinha e respectivos adultos.

Além da qualidade inexcedível da técnica de animação e de um argumento a todos os títulos espectacular, tem ainda uma banda sonora excelente fazendo com que seja dos poucos filmes em que as cantiguinhas não são apenas verbo de encher e acrescentam qualquer coisa de muito interessante ao produto.

Este é mesmo obrigatório. Vejam-no, revejam-no, ofereçam a quem não tem, difundam a coisa.
Mil estrelas!!!

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Ambições

"Não passa um mês sem uma candidatura portuguesa ao livro das bizarrias [Guiness]: se não é a feijoada mais comprida em cima de uma ponte é a do maior clube do mundo que não chega aos "oitavos" da Liga dos Campeões. (...) Querer ser muito esquisito é um sintoma de não sei o quê, mas parece-me grave."

Ferreira Fernandes. Correio da Manhã, 3 de Dezembro de 2006

Quer-me parecer que esta sequência de recordes batidos no nosso país mostra como o povo português tem potencialidades extraordinárias só não sabe muito bem como aplicá-las. Revela algo sobre o nível cultural e uma certa infantilidade latente. Quem não gosta de surpreender os seus parceiros com um feito extraodinário? Os putos estão constantemente a discutir na tentativa de mostrarem aos outros capacidades inultrapassáveis e surpreendentes. Há sempre um pai que é mais forte ou um tio que tem uma espingarda maior. A competição está-nos na massa do sangue, é necessário libertar as energias correspondentes!

Penso que queremos ser muito esquisitos porque encontramos aí uma possibilidade de mostrar capacidades extraordinárias que, de outro modo, não teriam expressão visível.

Claro que poderíamos bater-nos por ser o povo mais inteligente da Península Ibérica ou com o maior número de cérebros capazes de brilhar no campo da Matemática. Mas isso levaria demasiado tempo a alcançar e não teria êxito garantido. Assim sendo resta aos portugueses encontrar o respectivo nicho de bizarria no qual possam evidenciar-se e bater toda a concorrência sem apelo nem agravo.

Somos mais ou menos célebres pela nossa capacidade de desenrascar soluções mirabolantes perante situações de difícil aperto (veja-se a História dos Descobrimentos, por exemplo) e no Guiness encontramos campo fértil para uma sementeira de loucuras capazes de germinar em glória garantida se bem que efémera ou até inconsequente. Não há grande mal nisso!

Poderíamos investir esforços em assuntos mais sérios ou ambicionar algo que possibilitasse maior conforto geral e mais riqueza produtiva, mas não nos dá para aí! Resta o grotesco Guiness Book of World Records. Apostemos na bizarria, sejamos malucos ao ponto de tentar as coisas mais absurdas por sistema. Quem sabe não viremos um dia a criar uma categoria inovadora nas páginas do citado book: o povo mais abstruso, primeiro da Europa, depois do Mundo e, um dia que virá, de todo o Universo!

Com um pouco de esforço temos esse título ao alcance de um desejo colectivo.


domingo, dezembro 03, 2006

Preocupações

A Educação no nosso país continua a ser fonte inesgotável de preocupações para muitos de nós. Ontem Rui Tavares e hoje António Barreto, vêm, nas páginas do Público, dar disso mesmo notícia, lavrando informados textos nos quais propõem algumas panaceias para acalmar tão efervescente maleita.


Tentando dar da tenebrosa TLEBS uma imagem menos animalesca, Rui Tavares alvitra a possibilidade de dividir o estudo do Português em duas áreas tão distintas quanto complementares; de um lado a Gramática, vetusta arte estudada com denodo nas universidades medievais, do outro lado a Literatura, expressão requintada do pensamento humano, arte bem mais liberal, fresca e completa que a sua irmã feia (a invejosa Gramática, está bom de ver).


Proposta interessante e salomónica, como o próprio Tavares a classifica, mas que esbarra, pelo menos para já, num problema de difícil resolução: o número extraordinário de disciplinas existentes nos currículos do ensino básico (à volta de 14) e do ensino secundário (variando conforme o nível e o curso). Para encontrar um espacinho destinado às duas manas teríamos de deitar fora qualquer outra coisa. Talvez não fosse má ideia mas, para já, afigura-se mais racional tentar deitar qualquer fora sem trazer nada para o seu lugar, reduzindo o estapafúrdio número de disciplinas que atravancam os horários escolares dos nossos esforçados estudantes.
Os textos de Rui Tavares podem ser lidos em http://ruitavares.weblog.com.pt/ embora hoje ainda não estivesse disponível aquele a que aqui me refiro.


António Barreto, mais velho mas não menos lírico, propõe reformas bem mais profundas e revolucionárias. Lembrou-se da possibilidade de serem chamadas à liça universidades, faculdades, institutos e outros centros produtores e difusores do saber para que, em articulação com escolas básicas e secundárias, estabelecessem currículos, programas e manuais adequados a situações específicas. Se bem compreendi, Barreto propõe que a tão badalada autonomia das escolas passasse a ser uma realidade dinâmica num modelo de parcerias até hoje nunca imaginado entre nós. Neste modelo o Ministério da Educação passaria a ocupar uma posição menor, de mera gestão global do processo educativo, coisa que não me parece estar num horizonte perceptível.


Assim, às primeiras, é uma proposta bem interessante e que poderia trazer muita novidade à educação que é coisa que tem minguado. O problema é que tal caminho iria mexer com o monstro demasiado instalado na Educação, obrigando a um esforço olímpico que não me parece realista esperar que venha a ser aceite pelas instituições implicadas.


Resumindo, é reconfortante saber que há quem se preocupe com a coisa ao ponto de propor medidas que mexam com o dito monstro. Se lhes dermos atenção e começarmos a discutir tais propostas estaremos a tempo de mudar alguma coisa durante o tempo que nos resta para viver?

sexta-feira, dezembro 01, 2006

Gozar com Cristo


Jerónimo Bosch, Christ Mocked (Crowning with Thorns)1495-1500Oil on wood, 73 x 59 cmNational Gallery, London
O gajote à esquerda, com a barbicha branca, é um turco (note-se o pormenor na aba da cobertura da cabeça). Teremos de retirar esta obra-prima da parede por ofender a nação turca? Ai, ai, e ainda falam da crise dos cartoons...

Afinal o Papa ama os turcos e os turcos amam-no a ele. Tal reviravolta nos sentimentos que animam as alminhas das pessoas mostra com clareza a natureza humana e a forma como os mass media nos moldam com mais facilidade que uma criança a brincar com plasticina.

As notícias mais recentes da visita do Papa (Ratzinger ficou em casa e não o acompanhou à Turquia) falam de uma paixão inesperada entre o Sumo Pontífice e a nação turca. "Amo os turcos" era ontem título de capa de um diário lá da terra. Um cronista pró-islamista no jornal Posta chegou muito longe ao escrever, delirante de paixão: "Adoro este Papa e desejo-lhe as boas-vindas de todo o coração: bem-vindo irmão" segundo a AFP.

Tanto amor súbito estará relacionado com o apoio do Papa à adesão turca à União Europeia? Talvez sim , talvez não. Convém lembrar que a Comissão Europeia se manifestou, já depois da chegada do Papa à Turquia, no sentido de recusar a adesão deste país à União caso não seja alterada a sua posição relativamente a Chipre no que toca a reconhecimento de regime e abertura das fronteiras sem restrições. Os turcos não querem ceder e os europeus contrários a este alargamento encontram aqui o pretexto ideal para aferrolharem o portão à quinta.

Analisando estas cabriolas pânicas dadas pelo Papa sou levado a imaginar que Ratzinger ficou em casa propositadamente, para que a igreja católica possa aparecer aos olhos dos turcos como uma espécie de amiguinha, ao contrário da comissão europeia que será vista como uma gaja arrogante, invejosa da formosura turca, incapaz de a aceitar a viver no mesmo prédio. Se assim fosse, a igreja católica ganharia uma imagem bem positiva aos olhos da opinião pública turca passando o ónus de um eventual falhanço na tentativa de adesão exclusivamente para a esfera da política, deixando de lado a questão religiosa. Perverso, não? Mas isto sou eu a pensar, é claro, o Papa é muito mais inocente nas suas intenções e nunca poderia ir tão longe em termos de calculismo cínico. Evidentemente.

Além do mais há a questão da suposta revolta do povo turco e da sua oposição à visita do Papa. Todos pudemos ver até à exaustão imagens de manifestações de rua com cartazes e palavras de ordem vulcânicas, invectivando o Papa e o mundo ocidental, imagens essas apimentadas com declarações assoberbadas de velhinhas histéricas e turcos barbudos cuspindo ódio para os microfones. Tanta animosidade esteve na origem das excepcionalíssimas medidas de segurança que envolvem a figura papal nas suas deslocações em solo, a bem dizer, infiel. O homem, mesmo que especialmente protegido por Deus por ser quem é, teve de ser corajoso para avançar com a visita. Se não fosse Papa poderíamos mesmo dizer que "foi preciso ter tomates!"

Agora, após as declarações de mútua paixão atrás referidas, sou levado a imaginar a possibilidade tudo isto ter sido manipulação mediática lançando uma cortina de fumo sobre as verdadeiras motivações da ida do Papa à Turquia. O gajo, cá pra mim, foi fazer o velho número de cordeiro com lobo voraz debaixo da pele e ninguém está a reparar no tamanho desmesurado dos dentes nem na extensão pouco usual das suas santas orelhas. Nem nós, nem os turcos.

Há certas ocasiões em que nos faz falta o Capuchinho Vermelho. Alguém que faça as perguntas incómodas na altura certa.

quinta-feira, novembro 30, 2006

Vítimas do conforto


Carta de Istambul

Europa restringe publicidade a alimentos calóricos destinada a crianças
quinta-feira, 16 de Novembro de 2006 Por: Lusa
Ministros e altos funcionários do sector da Saúde de 48 países europeus assinaram hoje, em Istambul, uma carta que fixa princípios comuns contra a obesidade, tais como a criação de leis que impeçam a publicidade de alimentos calóricos destinada a crianças.

(...)Em Portugal, segundo o vice-presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, Davide Carvalho, mais de metade da população (52,4 por cento) sofre de excesso de peso ou obesidade. O país regista uma das mais elevadas taxas de obesidade em crianças com menos de onze anos da União Europeia.

Pois é, é um fenómeno consumista aparentemente incontrolável. Nos dias que correm há putos gordos a dar com um pau e cada vez há mais!
Hábitos alimentares destrambelhados aliados a um sedentarismo bovino estão a distorcer a imagem das nossas crianças até à caricatura. A ironia desta situação é que a obesidade infantil está relacionada, em larga escala, com aquilo que poderia designar por "excesso de conforto". Quem não gosta de se esparramar em frente a um écran comendo umas guloseimas enquanto vai vendo um filminho? Na boa, não há mal nenhum em semelhante actividade. O problema é que, nos dias que correm, as crianças têm demasiados écrans nas suas vidas e uma estrondosa falta de vida ao ar livre.
Jogar futebol ou correr aos gritos com quanta velocidade se possa são coisinhas para fazer na escola. Os tempos de lazer da maioria da pequenada são ocupados nas consolas de jogos, em frente aos 500 canais de televisão por cabo e coisas do género. Como se isso não bastasse, a leitura é uma bicho de sete cabeças. Se ao menos engordassem a ler umas coisas...
Como não podia deixar de ser as "autoridades" já começaram a olhar para esta questão com olhos reguladores. A publicidade, mãe de todos os vícios na sociedade de consumo, é apontada a dedo como tendo grandes culpas no cartório. Os putos raramente bebem água, substituem-na por sumos e outras bebidas açucaradas. Comem fast food à velocidade da luz e ainda fecham a refeição com um chocolatinho, para desenjoar. É complicado evitar tais desmandos alimentares já que as campanhas publicitárias são engendradas com uma eficácia assombrosa. TV, outdoors, revistas, flyers, imagens perfeitas de hamburgers, garrafinhas de sumo coloridas e outras iguarias e beberagens, inundam o horizonte e o pessoalzinho debate-se para se manter à tona. Comendo e bebendo como se isso fosse o objectivo primordial da existência humana.
Em Istambul (doce ironia turca) um grupo de responsáveis europeus tentou dar os primeiros passos no sentido de restringir a liberdade criativa dos publicitários quando se trate de vender porcarias às criancinhas. Louvável iniciativa. Será?
Na verdade o nosso modo de vida europeu baseia-se no consumo desenfreado. Não há produto que nos aconselhe um consumo moderado (só na publicidade a bebidas alcoólicas e com o seu quê de cinismo, convenhamos).
Crianças ou adultos, somos constantemente bombardeados com anúncios capazes de nos criarem as mais estranhas necessidades e temos as prateleiras cobertas de merdices inúteis. Mas isso já se tornou um modo de vida. Tentar contrariá-lo irá gerar situações complicadas de atentados à liberdade, em sentido lato. Temo que estejamos a entrar num beco sem saída... com uma porta de um restaurante da McDonald's ao fundo.


quarta-feira, novembro 29, 2006

Questões de pele

Ratzinger, o homem, discorda da entrada da Turquia para a União Europeia. Disse-o abertamente antes de vir a ser eleito Papa.
Ratzinger, o Papa, Bento XVI tem uma opinião radicalmente diferente e apoia a pretensão turca. Esta diferença de opiniões mostra como a mudança de pele pode contribuir para a mudança de discurso. Isto leva a algumas questões curiosas.

1º Estará o Papa a mentir? Ou será que a obrigatoriedade de veicular um discurso que não coincide com a sua opinião pessoal não pode ser considerado mentira?

2º É o Papa infalível? E, caso esteja a mentir, não será legítimo pôr em causa o dogma católico da infalibilidade do sumo-pontífice? E, mesmo que não seja considerado uma mentira à luz das intrincadas vias do Senhor, a dita infalibilidade não cairá por terra qual Golias estupidificado pela surpresa de levar com uma pedra na testa?

3º Isto não é política? Bento XVI tem vincado bem que a natureza da sua visita à Turquia é pastoral e não política. Mas as razões que justificam esta cabriola no discurso não serão de ordem política? Se não forem a coisa ganha contornos menos precisos e poderemos mesmo ser levados a pensar que há aqui hipocrisia e intriguice, coisas bem pouco santas e indignas de um homenzinho que não se cansa de afirmar ter como missão espalhar a Verdade.

4º Ai, ai, ai... Se o Papa se permite embrulhar tão facilmente a Verdade na necessidade de adaptar as suas opiniões às circunstâncias o que pensar então de certos dogmas e outras "verdades" religiosas? Por exemplo, quanto à virgindade da mãe de Cristo. Não será fruto de uma necessidade narrativa? Como poderia um Deus, cujos ministros chegam mesmo a fingir que não possuem órgãos sexuais, fecundar uma mulher se não fosse por magia? É que, caso houvesse contacto sexual ou busca de prazer neste processo, o Deus católico estaria a comportar-se ao nível de Zeus que, como é sabido, era um devasso e deixou prole espalhada por esse mundo sendo Hércules o exemplo mais mediático. Porque aparecem sempre, nas imagens da Anunciação, o anjo e uma pomba, o anjo lânguido e respeitoso, a pomba em vôo picado sobre o ventre de Maria? Não estarão os pintores a representar a sedução masculina e, simultâneamente como era tradição, o avanço sexual? E a confusão que é a Santíssima Trindade, alguém percebe essa cena? Três em um, Pai, Filho e Espírito Santo, que coisa! Cada vez que a narrativa religiosa se complica, catrapunfas, transforma-se em dogma. Quando não se pode compreender deixa de se discutir e estabelece-se a lista de ameaças para potenciais prevaricadores. Mas há ainda quem tema as chamas do Inferno?

Chega de perguntas. Isto é como quando somos crianças, cada "porquê" traz mais 50 urgentes e escondidos e cada resposta é apenas capaz de gerar mais e mais perguntas. Sim, porque as questões religiosas fazem de nós criancinhas sedentas de saber como é o mundo que está por detrás deste mundo, "and so on", até percebermos que o Infinito é um conceito impossível de abarcar. Mas isso já não é uma questão de pele. É outra coisa... impossível saber que coisa!

terça-feira, novembro 28, 2006

1 ano


Max Ernst (French, born Germany, 1891–1976)The Blessed Virgin Chastises the Infant Jesus Before Three Witnesses: A.B., P.E. and the Artist, 1926Oil on canvas; 77 1/4 x 51 1/4 in. (196 x 130 cm)Museum Ludwig, Köln

Faz hoje precisamente 1 ano que dei início ao 100 CABEÇAS.
No início não sabia muito bem o que isto iria ser.
Hoje, 232 posts depois com este incluído, continuo mais ou menos na mesma embora tenha mais umas ideias sobre o alcance da coisa que é próximo do centímetro e meio.
A vontade de continuar é inversamente proporcional à necessidade de ir ali e voltar num instantinho que o arroz está quase pronto.
Ao longo deste ano morreu muita gente e nasceu muita criança, embora as notícias continuem a falar mais dos que se vão que daqueles que chegam, embora o contrário mostrasse mais saúde mas muito menos interesse.
Resumindo e concluindo: o 100 CABEÇAS está por estes lados, mais ou menos diariamente, mais ou menos interessante ou pedante ou arquejante, mas está. No dia em que deixar de estar será motivo para perguntar "O que se passa?".
A pergunta anterior é vivamente recomendada a todo e qualquer momento que se mostre à esquina da rua um rabo de gato a contorcer-se naquele seu jeito sedutor e hipnótico. O gato pode não estar escondido mas o mais provável é que queira passar despercebido.
Feliz desaniversário 100 CABEÇAS!

segunda-feira, novembro 27, 2006

Educando


Com TLEBS ou sem TLEBS, com estes secretários de estado ou outros quaisquer, com esta ministra ou com aquela senhora que esteve à frente do Ministério da Educação quando Santana Lopes foi 1º ministro, há um factor determinante para o desempenho escolar dos estudantes que nem sempre é trazido a debate. Refiro-me ao apoio familiar, o interesse que existe (ou não) no enquadramento educativo extra-escolar da criançada e que é da maior relevância. Os encarregados de educação, antes de se preocuparem com a possibilidade de virem a contribuir para a avaliação dos professores, deverão meter mão na consciência avaliando o seu próprio desempenho no acompanhamento da evolução da situação escolar dos seus educandos.
Basta olhar para os números relativos a presenças em reuniões de encarregados de educação com os directores de turma ou para as percentagens de sócios inscritos nas associações de pais para ficarmos, na esmagadora maioria dos casos, um tanto apreensivos. A participação nestas assembleias é, normalmente, reduzida, quase ridícula. Argumentando que os horários são desajustados ou que as reuniões têm ordens de trabalho pastosas e enfadonhas, a verdade é que se verifica uma baixa taxa de participação efectiva por parte dos encarregados de educação. Isto é reflexo da fraca cultura democrática do povo português que com frequência prefere dizer mal do que arriscar agir.
Mais importante do que barafustar contra a marcação de trabalhos de casa é perguntar aos nossos filhos, quando chegam a casa vindos da escola, se têm trabalhos para realizar. Mais importante do que dizer que os professores são isto ou aquilo será inquirir os miúdos sobre a forma como se desenrolou o seu dia de trabalho na escola, marcar as datas dos testes, da entrega de trabalhos e das visitas de estudo num calendário exposto em local visível para que toda a família tenha consciência plena dos compromissos estabelecidos. Mesmo que a cabeça pese e o corpinho esteja a pedir noticiário ou novela, fazer o esforço de pegar nos manuais escolares e dar-lhes uma vista de olhos com os catraios.
Não há nada que substitua os pais na educação das crianças. A escola pode ser um complemento mas nunca um substituto. Os alunos levam para o recinto escolar a experiência de vida que aprendem no espaço familiar e ali a confrontam com outro tipo de necessidades e comportamentos adequados a circunstâncias específicas. O que se verifica demasiadas vezes é que os encarregados de educação vêm reclamar à escola aquilo que deveria ser da sua responsabilidade. Se um aluno é mal-educado e tem um comportamento a raiar a delinquência não podem ser assacadas responsabilidades à escola! Grande parte das vezes estão apenas carentes de atenção e mostram-no, sem o saberem, insultando a inteligência e as regras de convivência mais básicas. Em questões de educação e comportamento o espaço escolar deveria ser bem mais consensual e menos conflituoso.
Quando as famílias conseguirem constituir-se em núcleos básicos de aprendizagem a todos os níveis, talvez a qualidade do ensino possa melhorar. Quando os pais e mães por esse país fora forem menos corujas e exigirem mais respeito aos seus rebentos por aquilo que eles e a escola representam, talvez o nosso sistema educativo se fortifique e seja menos vulnerável a tropelias e deslizes ministeriais, a falhas e irresponsabilidades de alguns professores e, talvez, não tenhamos que ouvir tantas vezes uma das frases mais usados pelo cidadão médio português: “Eu não tenho culpa!”

Argumento de peso

Anda ainda tudo eriçado à conta das incautas palavrinhas do Papa teólogo em Ratisbona que, ao citar um confuso filósofo meio perdido nas brumas do tempo, trouxe o fanatismo a gritar para as ruas e para as nossas salas de estar via TV. Mete dó ver multidões de turcos a fazerem figura de ursos gritando tolices contra um homem cujo pecado principal é não passar disso mesmo e ter de fingir que acredita ser mais do que aquilo que todos já percebemos que ele é. Pouca coisa, de facto.
Ao argumento anti-islâmico (que Ratzinger jura a pés juntos ter sido mais inocente que beijo em bochecha de recém-nascido) gostaria de contrapôr uma passagem de Voltaire (o figurino na imagem acima) retirado da sua obra Carlos XII de 1730. Ele expressa a sua "terrível condenação" do facto de a igreja cristã ter dado origem a que, "durante tantos séculos, houvesse derramamento de sangue provocado por homens que proclamavam o deus da paz. O paganismo não conheceu sanha semelhante. Cobriu o mundo de trevas, mas praticamente não derramou uma gota de sangue, a não ser de animais". "O espírito dogmático fez medrar a loucura das guerras religiosas no espírito dos homens".
Não sou advogado do diabo nem me foi encomendado este sermão. Quero apenas demonstrar, com a singeleza que me é permititida pelo entendimento limitado que está ao meu alcance, como a um argumento se pode e deve responder com outro e levar para a estrada do diálogo e da discussão uma luta que não deve ser travada à paulada.
Um gajo vai andando e dando uns calduços no toutiço do parceiro, esquivando-se o mais que possa à previsível tentativa de resposta.

Motor da criação

"Super Star" by Zena El-Khalil

Foi capa da revista Pública ontenzinho, Domingo pacato por estas bandas não fossem as chuvadas e as cheias que fazem o mundo ao contrário e põem os peixes a passear nas praças das cidades e os barcos a ignorarem as estradas, lá em baixo, no fundo e não nos falecesse esse tal Cesariny que é agora alvo de todas as setas que a aljava do elogio fácil trazia para gastar e tardavam em ser disparadas. Zing, zuuuut, poc! Na mouche! Ele era o poeta genial, o pintor que não podia deixar de o ser por já ter sido aquilo mesmo e o mais que o mármore das virtudes humanas possa suportar de tão polido e mais lambido. Ai Cesariny, guardado estava o bocado e bem sabias que o havias de comer! Que te faça bom proveito na viagem e não te falte o imprescindível óbulo para que o taciturno barqueiro te leve onde haverás de ficar.
Regressando ao árabe sorridente, em stencil rosa sobre fundo techno-pop, temos a reportagem de Alexandra Prado Coelho nas páginas da dita revista, ontenzinho mesmo, Domingo cá na paróquia, sobre um evento extra mas ordinário. Uma exposição de jovens criadores, artistas plásticos (coisa ordinária) cujas obras foram realizadas em Beirute ao som dos tambores da recente guerra que deixou a cidade com as tripas ao pé da boca (coisa extra). http://electronicintifada.net/v2/article5868.shtml
A imagem é banal e quase pueril mas, também ela, igualmente extraordinária. À ordinarice da forma e da técnica teremos de somar o extra de se tratar de um retrato de Nasrallah, gerado na urgência que traz ao gesto mais banal a grandeza artística que tantas vezes por estas bandas discutimos sem lhe encontrar motivo nem destino.
Diz o mestre Gombrich na sua História da Arte (logo a abrir para aclarar as águas) que essa coisa que chamamos Arte (com "A" grande) não existe. De facto não será mais que uma falácia inventada pelos guardiões do templo da Academia, uma corja de senhores afundados nos fatos complexos com que vestem os seus bonequinhos que gostam de imaginar inquestionáveis, os cânones eternos de uns quantos princípios muito estéticos mas pouco éticos. Para Gombrich o que existe de assinalável e interessante serão os artistas, esses sim, merecedores de atenção e objecto de reflexão. A obra de arte depende sempre de um tempo e de um espaço, uma certa conjuntura que envolve o artista e determina os contornos e o âmbito do seu trabalho.
Este Nasrallah cor-de-rosa, irmão quase gémeo da Marylin de Warohl, ultrapassa a banalidade mais abjecta a que estaria condenado pelo facto de ser criado e olhado sob os clarões das bombas que explodiram (e decerto voltarão a explodir) nas ruas de Beirute. Tivesse sido um dos meus alunos de Oficinas de Arte a fazê-lo (muitos usam a mesma técnica nos seus trabalhos) e estaria condenado à indiferença dos olhares.
Este pink-pop-terrorist está a correr mundo por fazer a ponte entre um conflito lá longe e as formas artísticas que nos são próximas. Podemos olhar esta imagem e compreender qualquer coisa uma vez que a forma nos é familiar e faz do sujeito representado algo mais perceptível. Um herói para um número considerável de árabes e de libaneses, um terrorista aos olhos de muitos de nós, ocidentais aborrecidos com o preço dos DVD e o excesso de gorduras nas refeições do Mc Donald's.
Não é por nada, mas uma guerrazinha havia de pôr muito artista cá da praça a bolir doutra maneira, mais com o coração e menos com as mãos, mais com Fé na grandeza do Ser Humano e menos com a petulância de quem se compraz com a redondeza jeitosinha da respectiva pancinha.
Estarei a ser moralista? E depois? Estou-me bem a cagar! De tanto fugirmos da Moral abrimos a porta a toda a espécie de filhos-da-puta e agora bem que nos fornicam o juízo e ainda por cima temos de lhes pagar para nos deixarem em paz.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Alembrança


O mundo tem crescido a olhos vistos. O mundo de hoje é constituído em grande parte por informação, já não é o mundo físico e mensurável do século XX, é o mundo virtual e verdadeiramente infinito que se abre num precipício aos nossos pés e ameaça tragar-nos caso não sejamos capazes de dominar a vontade de o compreender. O mundo sempre foi grande mas agora abusa!

Onde vai o tempo da leitura preguiçosa, com tempo para saborear as palavras descobrindo o prazer da frase, a alucinação da imagem que se vai formando na caverna craniana? Esse era o tempo em que o tempo dava voltas sobre voltas, agarrado aos ponteiros do relógio no mostrador circular, num movimento de eterno retorno, ordenador.

Hoje o tempo segue desenfreado na linha contínua dos dígitos luminosos, segundo sobre segundo, dissecado à cagagésima parte, sem um momento de respiração, fugindo sempre para a frente e nós atrás, feitos carroça desengonçada, demasiado pesados para a força com que nos puxa e nos leva para lá do sol posto. É um tempo que dispensa quem lhe dê corda, um tempo verdadeiramente eterno e digital, um tempo sem tempo histórico, tudo moído e amassado como um croquete comido antes de ser frito.

Veio isto a propósito do texto que Pacheco Pereira dedica hoje no Público à memória de Sottomayor Cardia e à voragem do tempo que engole os seres humanos deixando deles uma sombra à guisa de recordação.

Sottomayor Cardia... lembras-te dele?

Visão


Adão e Eva de Jan van Eyck, pormenores

Ver é diferente de olhar. Acreditamos que a capacidade de ver, assim com olhos de gente, não estará ao alcance de toda a bicharada. Já o simples acto de olhar é modo de vida tanto para a galinha como para o elefante e demais criação divina que, por ora, vai povoando este planeta.

Do mesmo modo poderemos distinguir viver de existir. Mais uma vez queremos crer que a partezinha da divindade suprema que calha em sorte a cada um de nós nos permite compreender de forma particular o mundo que nos rodeia.

Assim, a existência estará para o olhar do mesmo modo que viver está para ver. Os bois olham o palácio, os seres humanos (mais afortunados) vivem nele. Tudo estaria bem caso estas capacidades fossem inatas no ser humano. Ver e viver.

O problema reside no facto de sermos demasiados os que nos comprazemos com a bovinidade de olhar e existir, pastando imagens que ruminamos com a placidez de qualquer quadrúpede mais pacífico, incapazes, sequer, de vislumbrarmos lá no fundo daquilo a que chamamos alma, o tesouro da visão que caracteriza a possibilidade de vivermos o mundo plenamente.
A aprendizagem da visão dura o tempo de uma vida. Nem todos parecemos interessados ou avisados para tão excelente trabalho. Estou em crer que reside na visão a possibilidade de sermos mais humanos e que, caso todo o ser humano tivesse acesso a uma educação visual mínima o planeta seria bem diferente.
Para melhor, é bom de ver, até as vacas e os bois teriam a possibilidade de serem mais felizes!

terça-feira, novembro 21, 2006

Grande animação!

Quem nunca viu não sabe o que está a perder. Esta peculiar série de animação saída da Aardman Animations tem a mãozinha marota de Nick Park, o criador dos imortais Wallace and Gromit e também do supersónico Chicken Run. Tudo material da primeiríssima qualidade!

Em http://www.creaturecomforts.tv/ pode o feliz leitor estabelecer um encontro imediato do 1º grau com os habitantes deste universo genial e avaliar a possibilidade vir a conhecê-los melhor.
O DVD (capa na imagem) está a bom preço no mercado (7€ mais coisa menos coisa) e contém dois discos com 13 episódios e making of ao longo de, aproximadamente, 140 minutos.
Como é para maiores de 6 anos até dá para ver com a pirralhada por perto sem temer um susto violento ao dobrar da esquina.

A série baseia-se na curta-metragem homónima de Nick Park que lhe valeu um Oscar em 1990 (ele já ganhou outros). A série é realizada por Richard Goleszowski responsável pelo abstruso Rex the Runt http://www.aardman.com/rextherunt/window.html .

Nick Park http://www.britmovie.co.uk/biog/p/006.html merece todos os elogios e ainda mais um tal a qualidade e originalidade do trabalho que se atreve a produzir e acaba por inspirar outros criadores mundo adiante como se pode verificar fazendo uma pesquisa no YouTube.
5 estrelas.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Quase um ano


No dia 28 deste mês faz um ano que surgiu este "100 Cabeças".
Em jeito de comemoração (ahahahah) aqui fica o primeiríssimo post da coisa.
Note-se como se mantém perfeitamente actual dada a intemporalidade do tema.

Questão de contexto

"A Fonte" foi eleita como a mais significativa obra de arte do século passado.O princípio consiste em retirar um objecto do contexto com o qual nos habituámos a relacioná-lo, dar-lhe um nome diferente e... aí está! Uma obra de arte completamente inesperada.

Mas... será esta atitude assim tão extraordinária?Quando passeamos a carcaça por entre as paredes de um qualquer museu, Europa adentro, admirando as obras expostas, estaremos tão longe do urinol de Duchamp quanto imaginamos?

O que diria um egípcio fabricante de sarcófagos ao ver a sua obra exposta sem pudor aos olhos de toda a gente?

E Bosch, ao ver a sua obra numa sala do Museu Nacional de Arte Antiga, junto a outras, igualmente retiradas do contexto para o qual foram criadas e ali espetadas para espanto do pessoal e demais papalvos?

Os museus são, na verdade, imensos depósitos dos mais variados readymade cuja principal qualidade é terem o condão de sossegar os visitantes quanto à grandeza do passeio que efectuam.

Tal como a montra do talho expõe o corpo retalhado da vaca, também o Museu expõe pedaços das criações de artistas e quejandos, roubados aos locais de origem, esvaziados de magia e significado, banalizando o acto criativo ao nível da bola de Berlim com um copo de água morna.

Talvez fosse melhor mijar no urinol de Duchamp.

domingo, novembro 19, 2006

Viva nós!

http://www.cristinasampaio.com/ quem não conhece as excelentes ilustrações de Cristina Sampaio?


Andamos às voltas com o melhor e o pior português, o melhor e o pior de ser português e outras bizantinices do género. Alguém nos chamou os latinos tristes, outros incluiram-nos no tristemente célebre eixo dos PIGS (Portuguese, Italians, Greeks and Spanish), os habitantes do ensolarado sul da Europa, mais lentos e desleixados que os nossos irmãos limpinhos do Norte, mais por causa do Sol que de outra coisa qualquer. Verdade, verdadinha, a quem pode isto aproveitar uma nesga que seja? Quer-me cá parecer que a ninguém! Fica, no entanto, o exercício sempre apetecível de dizer mal de fulano e endeusar sicrano, lembrar beltrano que tinha tanto para dar mas que a morte ceifou demasiado cedo. Contas feitas limpamos o sótão de alguns macaquitos mais sujos e cabeludos, abrimos as janelas e arejamos a coisa.

Amanhã iremos lembrar-nos de outros heróis e vilões que lhes correspondam e havemos de experimentar novas frases e novas comparações bombásticas entre pessoas e coisas, ou animais e pessoas, ou entre coisas e animais que parecem pessoas e nos fazem lembrar dessas coisas, o que for necessário ao eterno desporto nacional que o povo prefere e a nação acarinha: o Escárnio e Maldizer! É disto que eu sei, é disto que o meu povo gosta!

sábado, novembro 18, 2006

Fábula contemporânea

O governo do nosso país já foi como um bébé numa incubadora. Ainda por cima os irmãos mais velhos, os tios e os primos, que deveriam zelar pelo bem estar do pimpolho, divertiam-se a apontar-lhe os defeitos e iam profetizando desgraças que nem a bruxa má da Cinderela foi capaz de inventar.
Cada visita dos familiares era um risco para o bébé. É que não se limitavam a dizer mal. Não. Aproximavam-se ameaçadores, com sorrisos malévolos e davam uns abanões à coisa e puxavam os fios e riam-se das maldades que lhes passavam pela cabeça.
Esse governo era protegido por um menino muito corajoso, um pequeno campeão da saudade e da justiça. Alguns comparavam-no ao célebre Rambo, outros diziam que ele não prestava para grande coisa, mas acabou conhecido como sendo um menino guerreiro.
Apesar dos esforços do menino os familiares levaram a melhor e o pobre governo finou-se ainda antes de ter rastejado para fora da incubadora. Foi pena porque o menino cresceu e agora é que estava capaz de proteger um governo como deve ser mas parece que já ninguém confia nele o suficiente para lhe dar outra vez a responsabilidade de encabeçar uma vara ministerial.
O menino/homem regressou para se mostrar e contar as peripécias do tal governo franzino e enfermiço. Regressou para atormentar os maus e dar esperança aos bons.







quinta-feira, novembro 16, 2006

Maquinação

Posso estar a ficar paranóico, pode ser mera alucinação, mas tenho uma suspeita a bater-me na cabeça como um tambor à maneira dos Sex Pistols: estão a lixar a Escola Pública... de propósito!!!
Rais parta se não está tudo a convergir para que esta ideia meio destrambelhada ganhe sentido a cada dia que passa. Aliás, não será apenas a Escola que está a perder terreno, são demasiados sectores que vêem a ratazana do estado a fugir antes que as barcaças se afundem. Ele é a saúde, ele é a agricultura, as pescas, até a soldadesca se agita reclamando do Orçamento de Estado. Mas que raio de merda é esta? O que se passa?

No sector do ensino a tramóia já vem de longe. Desde há demasiado tempo a esta parte que os ministros que sentam o cú nesta pasta têm desinvestido forte e feio. A actual ministra então, abusa, como todos podemos ver. Menos dinheiro, anuncia o Ministro das Finanças e do Ensino nem um pio. Silêncio canino, obediente. Asneiras inacreditáveis cometidas a um ritmo alucinante e sem consequências de maior para tantos assassinos da escola pública, a impunidade é total. Ainda têm direito a louvores e carreira política. Cheira mal.

O caos está instalado. O cerco aperta sobre os professores, sobre os bons, sobre os maus, sobre os mais ou menos, levam todos pela medida grossa. Até parece que querem fazer-nos desistir da profissão. Quantos menos melhor. Mais se poupa em ordenados, piores são as condições nas salas de aula, a abarrotarem de criaturinhas com mochilas do tamanho de tanques de guerra. O ambiente está cada vez mais pesado. Dentro de meia dúzia de anos será insuportável.

De vez em quando há umas vozes habilitadas a reclamar o direito de os encarregados de educação poderem escolher livremente as escolas onde vão matricular os rebentos. Privadas incluídas. É claro que os filhos das classes médias também têm o direito de frequentar esses oásis de disciplina (tanga!) e com uma qualidade de ensino superior. É aí que se fala nos célebres cheques-ensino e ninguém treme. O Estado desinveste nas escolas mas investe no subsídio para engordar os lucros das privadas. Lindo! Os pobres terão de se contentar com escolas próximas da dissolução, com livros caríssimos, instalações decrépitas e professores desmotivados. O Destino está traçado.

Os filhos das classes mais favorecidas cumprirão o seu fado. Com um enquadramento familiar favorável e ambiente de trabalho muito superior, lá se vão preparando para ocuparem os cargos de direcção e governação, perpetuando a voracidade da sua condição social.
Cá para baixo, na base da pirâmide, acotovelam-se os mongas, destinados à servidão, ao trabalho precário e a uma existência baseada num desejo impossível de cumprir.

Têm razão os que garantem que não faz sentido falar em luta de classes. Não é uma luta, na verdade é mais uma guerra que aí vem.

terça-feira, novembro 14, 2006

Exposição

Está marcada para amanhã a inauguração da exposição Diálogo de Vanguardas que reúne obras de Amadeo e de uma série de ilustres vanguardistas seus contemporâneos. Será decerto uma exposição empolgante.
Quando ouço falar deste extraordinário pintor vem-me sempre à memória a primeira sessão da cadeira de Pintura do 3º ano, a que assisti na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Enquanto enumerava a sequência de trabalhos que teríamos de apresentar ao longo do ano lectivo, o professor Lima de Carvalho ia avisando os jovens alunos de que ali não seriam admitidas "picassadas" e elucidava-nos que Amadeo havia sido um "doentinho" que vivera demasiado tempo enfiado na sua quinta de Manhufe. Gil Teixeira Lopes estava calado e de cara fechada aterrorizando o pessoalzinho com o seu silêncio, pelos vistos concordando com as doutas palavras do colega. Isto passou-se para aí em 1984 e dá bem uma imagem da qualidade do ensino na ESBAL dessa época.
Sempre gostaria de saber se aquelas palavras eram verdadeiras ou se tinham apenas como objectivo encaminhar os nossos trabalhos num determinado sentido. Seja como for acredito que os meus "mestres" de então se contem entre os visitantes desta exposição que promete vir a ser um êxito.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Cazaquistão

Na próxima 4ª feira defrontar-se-ão em Coimbra (se Deus quiser) as selecções nacionais de futebol de Portugal e do Cazaquistão.
O acontecimento até poderia passar despercebido da maioria da população (onde é que o Cazaquistão fica no mapa?) não fossem as recentes broncas com a estreia do filme Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan http://www.imdb.com/title/tt0443453/.
Sacha Baron Cohen criou esta personagem mirabolante e tem conhecido um êxito tão extraordinário quanto inesperado. Agora, sempre que surge o nome Cazaquistão, toda a gente tem uma ideiazinha qualquer acerca do país. É certo que a imagem criada por Borat não será a mais lisonjeira mas este é o preço a pagar pelo estrelato alcançado.
4ª feira no Estádio Cidade de Coimbra haverá muitos sorrisos e bocas parvas, quem sabe se espectadores mais atrevidos não irão levar cartazes com Borat ou até mascarar-se para poderem gozar um bocadinho?
Não posso deixar de lembrar que este estádio foi um dos muitos reciclados ou construídos de raíz para o Euro 2004 disputado no nosso país. Este, como a maioria dos restantes, está sempre às moscas por falta de público deixando a céu aberto a falta de bom senso com que o referido campeonato foi encarado pelos diferentes poderes da nossa gloriosa nação tão necessitada de saneamento básico. Fala-se mesmo na necessidade de cortar os apoios à cultura para poder financiar a criação de esgotos. Tristonho, não?
Os vários mastodontes brancos que foram semeados por aí fora (o que pensar, por exemplo, do estádio do Algarve? O que é feito dele?) mostram bem o provincianismo atávico que caracteriza o portugalzinho das sandes de couratos regadas com belas cervejas "mines".
4ª feira lá estaremos, nódoa de gordura na camisa e arrôto à porta da boca, prontinhos a gozar com os cazaques graças aos destempêros de Baron Cohen e vamos rir. Mas, verdade, verdadinha, vamos rir de quê, exactamente?

domingo, novembro 12, 2006

Unidos como os dedos da mão

XV Congresso do Partido SocialistaMoção de Sócrates aprovada por esmagadora maioria 12.11.2006 - 13h22 LusaA moção "O rumo do PS: Modernizar Portugal", que tem como primeiro subscritor José Sócrates, foi hoje aprovada no XV Congresso do PS pela esmagadora maioria dos 1800 congressistas, com apenas um voto contra e seis abstenções.
O único voto contra a moção de José Sócrates partiu da deputada Helena Roseta.
A moda parece estar a pegar. Depois da quase unanimidade na eleição de Luís Filipe Vieira para o cargo de presidente do Benfica; depois da eleição de Kim Jong Il como supremo líder da nação Norte Coreana sem um pio discordante, chegou agora a vez de José Sócrates mostrar ao país a importância de estar no poder e ter a coisa bem controlada.
Os congressistas mostraram o vigor do partido e a pluralidade de opiniões que sempre o caracterizaram.
Ao que parece apenas Helena Roseta (na foto) levantou a voz para contrariar a pasmaceira unanimista do congresso. Dizem as más línguas que o problema dela é, na verdade, com a sua cabeleireira e que, caso tivesse direito a um penteado menos obnóxio decerto alinharia com os restantes camaradas que continuam a ver nela um submarino do PPD que está ali com a única finalidade de aborrecer quem não merece ser aborrecido.

sábado, novembro 11, 2006

Lá vai um...

Aqui há uns tempos ouvi alguém dizer que a eleição do presidente do Estados Unidos era um assunto demasiado importante para ser da exclusiva responsabilidade dos cidadãos dos states. Todos os cidadãos do mundo deveriam ter direito a voto. De tão estapafúrdia a ideia até faz algum sentido.
Na 3ª feira passada o pessoalzinho esteve atento às peripécias da eleição para o senado e congresso americanos. A coisa acabou por correr mal aos republicanos, como se esperava. Ao que parece a desgraça iraquiana sempre tem algum eco em eleições nacionais. Em termos de publicidade negativa os democratas não precisaram de investir tanto como os seus adversários. Basta assistir a um serviço noticioso e tem-se ali escarrapachada a estupidez dos que levaram o Iraque à beira do precipício em que se encontra. Tão escarrapachada que até o eleitorado que já deu duas oportunidades a Bush de mostrar aquilo que é acabou por perceber que tinha feito merda em elegê-lo.
Bush, percebendo que a coisa está mesmo bera, tomou um medida de grande alcance político, uma daquelas coisas que mostra grandeza de espírito e largueza de horizontes: deixou cair Rumsfeld, o arquitecto da desgraça.
Bush, a partir daqui, é um fantasma.

Se fosse ano novo...

... comia uma fatia de bolo-rei. Um jornalista mais ingénuo pediu a Cavaco uma reacção à condenação à morte de Saddam. O presidente ficou incomodado, não respondeu. Precisou de 24 horas para construir uma opinião? Tenho pena que o nosso presidente confirme constantemente a sua proverbial falta de agilidade de raciocínio.
Ele, que tem sido tão opinativo nos discursos (que lê), não tem opinião sobre um assunto político tão importante? Ainda por cima levou 24 horas a descobrir que subscreve a posição da União Europeia.
É triste mas é assim mesmo.

Parece mentira

No Conselho de Segurança das Nações Unidas Estados Unidos vetam resolução que condena operação militar israelita em Gaza
11.11.2006 - 18h08 AFP, Reuters
Os Estados Unidos vetaram hoje no Conselho de Segurança das Nações Unidas um projecto de resolução árabe que condena as operações militares de Israel na Faixa de Gaza, bem como os ataques palestinianos contra Israel.

Não é por nada, mas se eu fosse palestiniano ia decerto imaginar que os EUA e os israelitas estavam combinados para me lixarem a vida (transformando-a em morte).


Se, por um acaso do destino, fosse um palestiniano com acesso a informação que me permitisse saber que numa outra votação que tem dado que falar (e que tem feito sorrir muita gente) os israelitas foram os únicos em todo o mundo a apoiarem os EUA em mais uma das suas medidas punitivas, então a suspeita daria lugar à certeza: estes dois países são governados por tipos que se apoiam mutuamente para encobrirem ou permitirem todo o tipo de crimes que pretendam levar a cabo em nome do direito internacional.


Parece mentira, parece impossível que possa haver governos saídos de eleições democráticas capazes de engendrar planos tão maquiavélicos e influenciem negativamente as vidas de milhares de pessoas em locais tão afastados no planeta como são a Palestina e Cuba. Parece mentira mas parece também que é verdade.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Cuba libre*




As imagens são actuais. As personagens são verdadeiras.
O bloqueio engana-se com imaginação e alguma dose de humor.
Nalguns casos não tem graça nenhuma, mas este "bus" às costas de um camião...


A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou esta quarta-feira uma resolução por esmagadora maioria, pedindo o levantamento do embargo económico a Cuba imposto pelos Estados Unidos, que se mantém desde 1961.
Denominada “Necessidade do levantamento do bloqueio económico, comercial e financeiro imposto a Cuba pelos Estados Unidos”, a resolução não tem carácter impositivo, apenas reflecte a opinião da comunidade internacional.
A resolução reuniu 183 votos a favor, quatro votos contra, dos Estados Unidos, Israel, Palau e Ilhas Marshall, e uma abstenção, da Micronésia.

Há coisas que não se explicam. Há outras coisas que se percebem muito bem. Se o embargo dos EUA à ilha do Fidel ditador merece uma reprovação absoluta no quadro das Nações Unidas é porque há ali porcaria da grossa. São 183 nações a afirmar que se deve pôr termo ao embargo. Os apoios dos EUA, além do eterno cão-de-fila israelita, não chegam sequer a ser ridículos.

Há quem pense que, tal como no caso do Iraque, a admnistrição americana comete, também aqui, um erro de apreciação grosseiro e mesmo contraproducente. A estratégia para acabar com a ditadura castrista tem-se revelado inadequada.
O verdadeiro problema da ditadura castrista será a abertura total ao exterior, impedir essa possibilidade de abertura é fazer um favor aos manos Castro lá daquelas bandas. Quanto mais o "animal" é acossado mais fundo se esconde na toca e mais difícil é convencê-lo a deitar o focinho de fora.
É o que dá querer caçar um rato inteligente com um elefante que sofre de atraso mental e nem sabe o que é a sua tromba.

Paradoxalmente imagina-se que uma Cuba democrática será, numa primeira fase, um perigo total para a esmagadora maioria dos cubanos. No dia em que o regime dos manos Castro vier abaixo aquela ilha vai ser devorada por uma matilha de multinacionais dos mais variados negócios e não se sabe se irá sobrar alguma coisa para, numa segunda fase, se poder construir um país verdadeiramente democrático.

Já percebemos que o pacote estratégico dos EUA com "liberdade/democracia/consumo" é para aplicar tipo supositório metálico, coisa que o "beneficiário" nem sempre está disposto a permitir que lhe metam no respectivo local.

*Rum com Coca-Cola?

quinta-feira, novembro 09, 2006

Anda, Pacheco!*


"A diferença entre um quiosque e a blogosfera" é o título de um interessante texto de Pacheco Pereira no Público de hoje, não se encontrando disponível on line para quem não for subscritor da edição virtual daquele diário resta a leitura em papel.
Pacheco Pereira tem-se distinguido enquanto um entusiasta do blogue e desenvolve neste artigo um raciocínio bem caraterístico com alguma graça e qualidade literária q.b. oscilando entre a lucidez esclarecida e uma espécie de malandrice, quase traquinice, quando passa uma ou outra rasteira mais inesperada ao leitor desprevenido.
Um texto recomendável para a generalidade dos cidadãos mas, muito particularmente, recomendável para os bloguistas mais ou menos militantes.
Defende Pacheco Pereira a ideia de que 90% da produção dos blogues é lixo e o resto aproveitável. Na próxima 5ª feira irá dissertar sobre os tais 10% nos quais O Abrupto deve ter parte de leão, imagino. A não perder, caros compinskas.

*Expressão característica da fadista Hermínia Silva como forma de incentivo para um dos seus guitarristas (ou seria o viola?) e divertimento do público.

Alguém deixou a informação num comentário anónimo: o texto referido neste post está disponível n'O Abrupto (onde mais?). Tem ainda uma série de imagens que ilustram a prosa, conferindo-lhe (aida) maior brilho. Obrigado Anónimo, obrigado Pacheco.

terça-feira, novembro 07, 2006

Subsídiodependentes


Três famosos subsídio dependentes:
Mozart, Leonardo e Moliére

Rui Rio demonstra ser uma espécie de déspota iluminado. A sua decisão de cortar os subsídios para a cultura na cidade do Porto mostra como está muito à frente da nossa época no que respeita a perspectivas de governação da coisa pública.
A arte só é Arte quando tem a caução do público. Se o povo não adere ao porjecto de um artista é prova segura que esse projecto não presta.
Parece evidente que todo e qualquer criador que não tenha público e não consiga subsistir com o resultado liquído do fruto do seu trabalho só pode ir estender a mão para a porta da igreja aos domingos de manhã. Ah, grande Ruca, se não fosses tu não teria nunca compreendido tamanha evidência que sempre esteve ali, à frente do meu nariz e eu sem perceber nada!
Mas, Rio, meu amiguinho, terá sido sempre assim? Ponho-me a pensar e o meu nariz, teimoso como uma mula, começa a tapar a evidência. Se não tivesse havido déspotas que exploravam o povo para depois erguerem pirâmides e construirem palácios (oh, Versailles...), se não tivessem existido papas mais vaidosos que a deusa da beleza (oh, Sisto e a sua capela...), se não tivesse havido tanto investimento a fundo perdido em obras de arte que, ainda por cima, eram para consumo de reduzidíssimas elites o que seria da grandiosa história da humanidade tal como hoje a conhecemos?
Leonardo teria podido explanar todo o seu génio caso não andasse constantemente de mão estendida a saltar de patrono em patrono, à procura de bem-estar pessoal? E que dizer do imortal Mozart, esse verdadeiro pedinchão?
Caramba, ouvindo o que dizes e seguindo o teu raciocínio, caro Ruca, as coisas parecem evidentes. Mas quando penso durante... digamos, trinta segundos, tudo isso me parece uma tremenda estupidez e, de repente, vejo-te apenas pequenino e rancoroso, incapaz de ganhar dimensão suficiente para desempenhares o cargo de que foste investido.
Mas, decerto, estou enganado. Tu és um gajo do caraças, nós é que não te compreendemos.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Arte, para que te quero!?

Tríptico da Salvação, RSXXI, acrílico sobre papel, 2005
(clicar sobre a imagem para visualização mais apropriada)

Afinal de contas para que poderá servir a pintura numa época que se reclama pós-moderna? Para reflectir sobre os seus códigos próprios e os seus limites e fronteiras? Para exposição mais ou menos apática das minudências esquemáticas do ser que a produz? Faz sentido rebuscar na tradição pictórica temas e narrativas, revestindo tudo com novas perspectivas observadas à luz da época contemporânea actual? Porra, que sentido pode ter a produção artística num contexto tão fragmentado e longínquo de si próprio como aquele em que nos movemos quotidianamente?
Correndo o risco de parecer um tremendo bota-de-elástico (que expressão mais démodée!) reclamo o regresso de uma dimensão moralista em que o discurso sobre a virtude e o vício ganha forma metafórica, à maneira dos neoclássicos, despindo-lhe o carácter académico do discurso formal. Ou, dourando um pouco a pílula, engajando o discurso pictórico a causas sociais e políticas definidas como fizeram os pintores do realismo oitocentista ou alguns expressionistas e dadaístas, lá mais para a frente e mais cá para trás.
Penso que só faz sentido pintar quando se pretende intervir. A arte pela arte, a arte sem objecto, a arte que discursa sobre questões abstractas da relação dos elementos básicos da linguagem visual com o campo limite e suporte dos materiais actuantes, parece-me uma absoluta chatice, incapaz de fazer com que o olhar do espectador ultrapasse o estado de bovinidade que atingiu por causa da indiferença relativista que a modernidade anunciou e a pós-modernidade adoptou como estratégia de artistas diletantes, mestres da pose mediática e ignorantes absolutos das técnicas e dos discursos históricos.
Reclamo então que a arte deve regressar ao campo de batalha de forma agressiva e discursando ininterruptamente sobre as questões do mundo circundante, olhando-o, criticando-o, tentando forçar a iluminação do espírito que a observa. Com brutalidade e contundência. Não há outra forma de o fazer.

domingo, novembro 05, 2006

3 notas


nota 1.Mais seis países árabes, de Marrocos aos Emirados Árabes Unidos, pretendem iniciar programas nucleares com fins pacíficos, dizem. Já agora e assim com assim, porque não? O número de dementes absolutos com acesso a armamento nuclear já é suficientemente preocupante. Mais um ou outro não virão acrescentar grande mal ao mundo. O mal já cá está e é por cá que vai ficar. A menos que uma guerra nuclear venha a ter batalhas na Lua ou coisa que o valha. Um dia a vida na Terra vai acabar, quanto mais não seja quando o Sol se extinguir. E Deus? Morrerá também?

nota 2. A campanha eleitoral para o Senado nos EUA tem mostrado até que ponto a liberdade de expressão pode ser um espelho límpido da baixeza humana. Os métodos utilizados são frequentemente deploráveis e os gastos na produção dos spots verdadeiramente astronómicos. Sendo os EUA o modelo democrático mais desenvolvido (dizem por aí) devemos concluir que mais dia menos dia teremos campanhas na Europa com o mesmo nível de devassa da privacidade dos candidatos? Se bem estamos lembrados, na campanha para as Legislativas que deram a maioria absoluta ao PS, Sócrates foi atacado por um boato que colocava Diogo Infante no centro de um argumento miserável. Resultado? Sócrates é 1º ministro e Diogo Infante director do Maria Matos. Talvez isto constitua prova de que, entre nós este género de merda mediática ainda vai levar algum tempo a vingar. Deus nos ouça...

nota 3. Rui Rio deu mais uma prova de falta de cultura democrática (estou a ser simpático e a conter-me na apreciação deste cromo) decretando o fim da atribuição de subsídios a fundo perdido com o aval do executivo camarário a que preside. Este ser vivente mostra como o sistema democrático pode falhar quando elegemos bimbos mal educados e com mais complexos que Napoleão e Hitler juntos num mesmo corpinho. Apesar do gel no cabelo e do sorriso liofilizado, Rio não passa de um pequeno ditador (baixote mesmo) que nada fica a dever aos atrás citados, apenas se distinguindo deles pela dimensão dos poderes que manipulha (este erro ortográfico não é inocente).

quinta-feira, novembro 02, 2006

Cinzento

Os Filhos do Homem
Título original: Children Of Men De: Alfonso Cuáron Com: Clive Owen, Julianne Moore, Michael Caine. Género: Dra, Thr Classificacao: M/16 2006, Cores, 109 min.

argumento

2027, os últimos dias da raça humana. O planeta caiu na anarquia total, provocada por um problema de infertilidade na população. A Humanidade enfrenta a possibilidade da sua própria extinção. Em Londres, cidade dividida pela violência de grupos nacionalistas, Theo (Clive Owen), um desiludido burocrata, torna-se no improvável defensor da sobrevivência do planeta, quando se vê obrigado a enfrentar os seus demónios e a proteger Kee, uma mulher grávida.

PUBLICO.PT
Aí está um filme daqueles que, sendo a cores, acabam por dar ao espectador a sensação de uma infindável gama de cinzentos, parecendo nunca tocar os extremos, deixando de fora o preto e o branco.
Os temas que aborda não são dos mais coloridos: o terrorismo da Internacional Bombista, a xenofobia, o estado policial, as políticas anti-migrações, o individualismo conformista versus a vertigem iluminada dos extremistas revolucionários e, por fim, o decréscimo da fertilidade levada ao extremo, num mundo em que o mais jovem dos cidadãos tem 18 anos de vida.
O filme tem alguns problemas ao nível da narrativa. Colocando a acção num futuro próximo e num mundo que nos é familiar, bate-se com a necessidade de explicar tudo e não o explicar completamente uma vez que o espectador será capaz de preencher os vazios narrativos de forma dinâmica, socorrendo-se da sua própria experiência e conhecimento da actualidade. O resultado não é lá muito eficaz.
Por outro lado as personagens acabam por não ganhar espessura suficiente, refugiando-se com frequência num certo estereotipo algo maniqueísta. Mas, por outro lado, há desempenhos interessantes, nomeadamente o de Clive Owen, um actor cada vez mais brilhante em cada filma que passa.
Assim, aos tropeções, o filme avança. A uma aturada construção visual, coroada com alguns planos e sequências de grande eficácia, opõe-se algum arrastamento narrativo, resultando num objecto cinematográfico algo desiquilibrado e cinzento como um moribundo. O tom geral é de grande sufoco e o ambiente na sala pesa como chumbo.
No final um raiozinho de esperança para desanuviar um pouco.
Enfim, caso não haja nada de muito mais interessante para fazer poderá ser um filme a ver, sabendo de antemão que não se trata de nada de extraordinário. Digamos que merece uma estrela e uma palmada na testa (sempre poderá gerar mais uma ou duas estrelas, dependendo da palmada e dependendo da testa).

quarta-feira, novembro 01, 2006

Ricochete e vingança


O Haloween é uma prótese estranha no actual calendário em Portugal. Os mais jovens não se atrapalham. Para eles trata-se de mais uma festa como tantas outras. Não precisa de justificação. É como o São Valentim com o seu aberrante "be my valentine" estampado em almofadinhas com forma de coração que os namorados oferecem às namoradas e vice-versa, como se aquilo pudesse significar alguma coisa!
É nessa linha que podemos encontrar, no Haloween, rapariguinhas disfarçadas de bruxas ou Batmans fora de época.
A importação e consequente enxerto deste corpo estranho no calendário festivo do Velho Continente é mais um ricochete vindo da América. Uma espécie de vingança.
Os europeus foram para lá, colonizaram, exploraram, transformaram por completo o destino que os deuses locais tinham planeado para os respectivos adoradores e queríamos nós que tal afronta não tivesse consequências? Passados alguns séculos começamos a receber o ricochete das nossas acções. Os Espanhóis levam com as novelas mexicanas e nós com as brasileiras, os ingleses e restantes europeus têm de se haver com as estrelas de Holywood como se elas fossem uma espécie de semi-divindades, oráculos da felicidade ou coisa que o valha. Levamos também com o Haloween e com a substituição do Entrudo pelo Carnaval, com desfiles de mulheres semi-nuas em pleno mês de Fevereiro pelas ruas da Mealhada ou de Loulé, como se isto fosse um imenso sambódromo repleto de papalvos que nunca pousaram a vista num seio destapado que não fosse o da mãe quando ainda mamavam.
Não sei se é vingança dos antigos deuses americanos ofendidos pela invasão e pelas religiões evangélicas, mas lá que o resultado é grotesco...