segunda-feira, novembro 27, 2006

Motor da criação

"Super Star" by Zena El-Khalil

Foi capa da revista Pública ontenzinho, Domingo pacato por estas bandas não fossem as chuvadas e as cheias que fazem o mundo ao contrário e põem os peixes a passear nas praças das cidades e os barcos a ignorarem as estradas, lá em baixo, no fundo e não nos falecesse esse tal Cesariny que é agora alvo de todas as setas que a aljava do elogio fácil trazia para gastar e tardavam em ser disparadas. Zing, zuuuut, poc! Na mouche! Ele era o poeta genial, o pintor que não podia deixar de o ser por já ter sido aquilo mesmo e o mais que o mármore das virtudes humanas possa suportar de tão polido e mais lambido. Ai Cesariny, guardado estava o bocado e bem sabias que o havias de comer! Que te faça bom proveito na viagem e não te falte o imprescindível óbulo para que o taciturno barqueiro te leve onde haverás de ficar.
Regressando ao árabe sorridente, em stencil rosa sobre fundo techno-pop, temos a reportagem de Alexandra Prado Coelho nas páginas da dita revista, ontenzinho mesmo, Domingo cá na paróquia, sobre um evento extra mas ordinário. Uma exposição de jovens criadores, artistas plásticos (coisa ordinária) cujas obras foram realizadas em Beirute ao som dos tambores da recente guerra que deixou a cidade com as tripas ao pé da boca (coisa extra). http://electronicintifada.net/v2/article5868.shtml
A imagem é banal e quase pueril mas, também ela, igualmente extraordinária. À ordinarice da forma e da técnica teremos de somar o extra de se tratar de um retrato de Nasrallah, gerado na urgência que traz ao gesto mais banal a grandeza artística que tantas vezes por estas bandas discutimos sem lhe encontrar motivo nem destino.
Diz o mestre Gombrich na sua História da Arte (logo a abrir para aclarar as águas) que essa coisa que chamamos Arte (com "A" grande) não existe. De facto não será mais que uma falácia inventada pelos guardiões do templo da Academia, uma corja de senhores afundados nos fatos complexos com que vestem os seus bonequinhos que gostam de imaginar inquestionáveis, os cânones eternos de uns quantos princípios muito estéticos mas pouco éticos. Para Gombrich o que existe de assinalável e interessante serão os artistas, esses sim, merecedores de atenção e objecto de reflexão. A obra de arte depende sempre de um tempo e de um espaço, uma certa conjuntura que envolve o artista e determina os contornos e o âmbito do seu trabalho.
Este Nasrallah cor-de-rosa, irmão quase gémeo da Marylin de Warohl, ultrapassa a banalidade mais abjecta a que estaria condenado pelo facto de ser criado e olhado sob os clarões das bombas que explodiram (e decerto voltarão a explodir) nas ruas de Beirute. Tivesse sido um dos meus alunos de Oficinas de Arte a fazê-lo (muitos usam a mesma técnica nos seus trabalhos) e estaria condenado à indiferença dos olhares.
Este pink-pop-terrorist está a correr mundo por fazer a ponte entre um conflito lá longe e as formas artísticas que nos são próximas. Podemos olhar esta imagem e compreender qualquer coisa uma vez que a forma nos é familiar e faz do sujeito representado algo mais perceptível. Um herói para um número considerável de árabes e de libaneses, um terrorista aos olhos de muitos de nós, ocidentais aborrecidos com o preço dos DVD e o excesso de gorduras nas refeições do Mc Donald's.
Não é por nada, mas uma guerrazinha havia de pôr muito artista cá da praça a bolir doutra maneira, mais com o coração e menos com as mãos, mais com Fé na grandeza do Ser Humano e menos com a petulância de quem se compraz com a redondeza jeitosinha da respectiva pancinha.
Estarei a ser moralista? E depois? Estou-me bem a cagar! De tanto fugirmos da Moral abrimos a porta a toda a espécie de filhos-da-puta e agora bem que nos fornicam o juízo e ainda por cima temos de lhes pagar para nos deixarem em paz.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Alembrança


O mundo tem crescido a olhos vistos. O mundo de hoje é constituído em grande parte por informação, já não é o mundo físico e mensurável do século XX, é o mundo virtual e verdadeiramente infinito que se abre num precipício aos nossos pés e ameaça tragar-nos caso não sejamos capazes de dominar a vontade de o compreender. O mundo sempre foi grande mas agora abusa!

Onde vai o tempo da leitura preguiçosa, com tempo para saborear as palavras descobrindo o prazer da frase, a alucinação da imagem que se vai formando na caverna craniana? Esse era o tempo em que o tempo dava voltas sobre voltas, agarrado aos ponteiros do relógio no mostrador circular, num movimento de eterno retorno, ordenador.

Hoje o tempo segue desenfreado na linha contínua dos dígitos luminosos, segundo sobre segundo, dissecado à cagagésima parte, sem um momento de respiração, fugindo sempre para a frente e nós atrás, feitos carroça desengonçada, demasiado pesados para a força com que nos puxa e nos leva para lá do sol posto. É um tempo que dispensa quem lhe dê corda, um tempo verdadeiramente eterno e digital, um tempo sem tempo histórico, tudo moído e amassado como um croquete comido antes de ser frito.

Veio isto a propósito do texto que Pacheco Pereira dedica hoje no Público à memória de Sottomayor Cardia e à voragem do tempo que engole os seres humanos deixando deles uma sombra à guisa de recordação.

Sottomayor Cardia... lembras-te dele?

Visão


Adão e Eva de Jan van Eyck, pormenores

Ver é diferente de olhar. Acreditamos que a capacidade de ver, assim com olhos de gente, não estará ao alcance de toda a bicharada. Já o simples acto de olhar é modo de vida tanto para a galinha como para o elefante e demais criação divina que, por ora, vai povoando este planeta.

Do mesmo modo poderemos distinguir viver de existir. Mais uma vez queremos crer que a partezinha da divindade suprema que calha em sorte a cada um de nós nos permite compreender de forma particular o mundo que nos rodeia.

Assim, a existência estará para o olhar do mesmo modo que viver está para ver. Os bois olham o palácio, os seres humanos (mais afortunados) vivem nele. Tudo estaria bem caso estas capacidades fossem inatas no ser humano. Ver e viver.

O problema reside no facto de sermos demasiados os que nos comprazemos com a bovinidade de olhar e existir, pastando imagens que ruminamos com a placidez de qualquer quadrúpede mais pacífico, incapazes, sequer, de vislumbrarmos lá no fundo daquilo a que chamamos alma, o tesouro da visão que caracteriza a possibilidade de vivermos o mundo plenamente.
A aprendizagem da visão dura o tempo de uma vida. Nem todos parecemos interessados ou avisados para tão excelente trabalho. Estou em crer que reside na visão a possibilidade de sermos mais humanos e que, caso todo o ser humano tivesse acesso a uma educação visual mínima o planeta seria bem diferente.
Para melhor, é bom de ver, até as vacas e os bois teriam a possibilidade de serem mais felizes!

terça-feira, novembro 21, 2006

Grande animação!

Quem nunca viu não sabe o que está a perder. Esta peculiar série de animação saída da Aardman Animations tem a mãozinha marota de Nick Park, o criador dos imortais Wallace and Gromit e também do supersónico Chicken Run. Tudo material da primeiríssima qualidade!

Em http://www.creaturecomforts.tv/ pode o feliz leitor estabelecer um encontro imediato do 1º grau com os habitantes deste universo genial e avaliar a possibilidade vir a conhecê-los melhor.
O DVD (capa na imagem) está a bom preço no mercado (7€ mais coisa menos coisa) e contém dois discos com 13 episódios e making of ao longo de, aproximadamente, 140 minutos.
Como é para maiores de 6 anos até dá para ver com a pirralhada por perto sem temer um susto violento ao dobrar da esquina.

A série baseia-se na curta-metragem homónima de Nick Park que lhe valeu um Oscar em 1990 (ele já ganhou outros). A série é realizada por Richard Goleszowski responsável pelo abstruso Rex the Runt http://www.aardman.com/rextherunt/window.html .

Nick Park http://www.britmovie.co.uk/biog/p/006.html merece todos os elogios e ainda mais um tal a qualidade e originalidade do trabalho que se atreve a produzir e acaba por inspirar outros criadores mundo adiante como se pode verificar fazendo uma pesquisa no YouTube.
5 estrelas.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Quase um ano


No dia 28 deste mês faz um ano que surgiu este "100 Cabeças".
Em jeito de comemoração (ahahahah) aqui fica o primeiríssimo post da coisa.
Note-se como se mantém perfeitamente actual dada a intemporalidade do tema.

Questão de contexto

"A Fonte" foi eleita como a mais significativa obra de arte do século passado.O princípio consiste em retirar um objecto do contexto com o qual nos habituámos a relacioná-lo, dar-lhe um nome diferente e... aí está! Uma obra de arte completamente inesperada.

Mas... será esta atitude assim tão extraordinária?Quando passeamos a carcaça por entre as paredes de um qualquer museu, Europa adentro, admirando as obras expostas, estaremos tão longe do urinol de Duchamp quanto imaginamos?

O que diria um egípcio fabricante de sarcófagos ao ver a sua obra exposta sem pudor aos olhos de toda a gente?

E Bosch, ao ver a sua obra numa sala do Museu Nacional de Arte Antiga, junto a outras, igualmente retiradas do contexto para o qual foram criadas e ali espetadas para espanto do pessoal e demais papalvos?

Os museus são, na verdade, imensos depósitos dos mais variados readymade cuja principal qualidade é terem o condão de sossegar os visitantes quanto à grandeza do passeio que efectuam.

Tal como a montra do talho expõe o corpo retalhado da vaca, também o Museu expõe pedaços das criações de artistas e quejandos, roubados aos locais de origem, esvaziados de magia e significado, banalizando o acto criativo ao nível da bola de Berlim com um copo de água morna.

Talvez fosse melhor mijar no urinol de Duchamp.

domingo, novembro 19, 2006

Viva nós!

http://www.cristinasampaio.com/ quem não conhece as excelentes ilustrações de Cristina Sampaio?


Andamos às voltas com o melhor e o pior português, o melhor e o pior de ser português e outras bizantinices do género. Alguém nos chamou os latinos tristes, outros incluiram-nos no tristemente célebre eixo dos PIGS (Portuguese, Italians, Greeks and Spanish), os habitantes do ensolarado sul da Europa, mais lentos e desleixados que os nossos irmãos limpinhos do Norte, mais por causa do Sol que de outra coisa qualquer. Verdade, verdadinha, a quem pode isto aproveitar uma nesga que seja? Quer-me cá parecer que a ninguém! Fica, no entanto, o exercício sempre apetecível de dizer mal de fulano e endeusar sicrano, lembrar beltrano que tinha tanto para dar mas que a morte ceifou demasiado cedo. Contas feitas limpamos o sótão de alguns macaquitos mais sujos e cabeludos, abrimos as janelas e arejamos a coisa.

Amanhã iremos lembrar-nos de outros heróis e vilões que lhes correspondam e havemos de experimentar novas frases e novas comparações bombásticas entre pessoas e coisas, ou animais e pessoas, ou entre coisas e animais que parecem pessoas e nos fazem lembrar dessas coisas, o que for necessário ao eterno desporto nacional que o povo prefere e a nação acarinha: o Escárnio e Maldizer! É disto que eu sei, é disto que o meu povo gosta!

sábado, novembro 18, 2006

Fábula contemporânea

O governo do nosso país já foi como um bébé numa incubadora. Ainda por cima os irmãos mais velhos, os tios e os primos, que deveriam zelar pelo bem estar do pimpolho, divertiam-se a apontar-lhe os defeitos e iam profetizando desgraças que nem a bruxa má da Cinderela foi capaz de inventar.
Cada visita dos familiares era um risco para o bébé. É que não se limitavam a dizer mal. Não. Aproximavam-se ameaçadores, com sorrisos malévolos e davam uns abanões à coisa e puxavam os fios e riam-se das maldades que lhes passavam pela cabeça.
Esse governo era protegido por um menino muito corajoso, um pequeno campeão da saudade e da justiça. Alguns comparavam-no ao célebre Rambo, outros diziam que ele não prestava para grande coisa, mas acabou conhecido como sendo um menino guerreiro.
Apesar dos esforços do menino os familiares levaram a melhor e o pobre governo finou-se ainda antes de ter rastejado para fora da incubadora. Foi pena porque o menino cresceu e agora é que estava capaz de proteger um governo como deve ser mas parece que já ninguém confia nele o suficiente para lhe dar outra vez a responsabilidade de encabeçar uma vara ministerial.
O menino/homem regressou para se mostrar e contar as peripécias do tal governo franzino e enfermiço. Regressou para atormentar os maus e dar esperança aos bons.







quinta-feira, novembro 16, 2006

Maquinação

Posso estar a ficar paranóico, pode ser mera alucinação, mas tenho uma suspeita a bater-me na cabeça como um tambor à maneira dos Sex Pistols: estão a lixar a Escola Pública... de propósito!!!
Rais parta se não está tudo a convergir para que esta ideia meio destrambelhada ganhe sentido a cada dia que passa. Aliás, não será apenas a Escola que está a perder terreno, são demasiados sectores que vêem a ratazana do estado a fugir antes que as barcaças se afundem. Ele é a saúde, ele é a agricultura, as pescas, até a soldadesca se agita reclamando do Orçamento de Estado. Mas que raio de merda é esta? O que se passa?

No sector do ensino a tramóia já vem de longe. Desde há demasiado tempo a esta parte que os ministros que sentam o cú nesta pasta têm desinvestido forte e feio. A actual ministra então, abusa, como todos podemos ver. Menos dinheiro, anuncia o Ministro das Finanças e do Ensino nem um pio. Silêncio canino, obediente. Asneiras inacreditáveis cometidas a um ritmo alucinante e sem consequências de maior para tantos assassinos da escola pública, a impunidade é total. Ainda têm direito a louvores e carreira política. Cheira mal.

O caos está instalado. O cerco aperta sobre os professores, sobre os bons, sobre os maus, sobre os mais ou menos, levam todos pela medida grossa. Até parece que querem fazer-nos desistir da profissão. Quantos menos melhor. Mais se poupa em ordenados, piores são as condições nas salas de aula, a abarrotarem de criaturinhas com mochilas do tamanho de tanques de guerra. O ambiente está cada vez mais pesado. Dentro de meia dúzia de anos será insuportável.

De vez em quando há umas vozes habilitadas a reclamar o direito de os encarregados de educação poderem escolher livremente as escolas onde vão matricular os rebentos. Privadas incluídas. É claro que os filhos das classes médias também têm o direito de frequentar esses oásis de disciplina (tanga!) e com uma qualidade de ensino superior. É aí que se fala nos célebres cheques-ensino e ninguém treme. O Estado desinveste nas escolas mas investe no subsídio para engordar os lucros das privadas. Lindo! Os pobres terão de se contentar com escolas próximas da dissolução, com livros caríssimos, instalações decrépitas e professores desmotivados. O Destino está traçado.

Os filhos das classes mais favorecidas cumprirão o seu fado. Com um enquadramento familiar favorável e ambiente de trabalho muito superior, lá se vão preparando para ocuparem os cargos de direcção e governação, perpetuando a voracidade da sua condição social.
Cá para baixo, na base da pirâmide, acotovelam-se os mongas, destinados à servidão, ao trabalho precário e a uma existência baseada num desejo impossível de cumprir.

Têm razão os que garantem que não faz sentido falar em luta de classes. Não é uma luta, na verdade é mais uma guerra que aí vem.

terça-feira, novembro 14, 2006

Exposição

Está marcada para amanhã a inauguração da exposição Diálogo de Vanguardas que reúne obras de Amadeo e de uma série de ilustres vanguardistas seus contemporâneos. Será decerto uma exposição empolgante.
Quando ouço falar deste extraordinário pintor vem-me sempre à memória a primeira sessão da cadeira de Pintura do 3º ano, a que assisti na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Enquanto enumerava a sequência de trabalhos que teríamos de apresentar ao longo do ano lectivo, o professor Lima de Carvalho ia avisando os jovens alunos de que ali não seriam admitidas "picassadas" e elucidava-nos que Amadeo havia sido um "doentinho" que vivera demasiado tempo enfiado na sua quinta de Manhufe. Gil Teixeira Lopes estava calado e de cara fechada aterrorizando o pessoalzinho com o seu silêncio, pelos vistos concordando com as doutas palavras do colega. Isto passou-se para aí em 1984 e dá bem uma imagem da qualidade do ensino na ESBAL dessa época.
Sempre gostaria de saber se aquelas palavras eram verdadeiras ou se tinham apenas como objectivo encaminhar os nossos trabalhos num determinado sentido. Seja como for acredito que os meus "mestres" de então se contem entre os visitantes desta exposição que promete vir a ser um êxito.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Cazaquistão

Na próxima 4ª feira defrontar-se-ão em Coimbra (se Deus quiser) as selecções nacionais de futebol de Portugal e do Cazaquistão.
O acontecimento até poderia passar despercebido da maioria da população (onde é que o Cazaquistão fica no mapa?) não fossem as recentes broncas com a estreia do filme Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan http://www.imdb.com/title/tt0443453/.
Sacha Baron Cohen criou esta personagem mirabolante e tem conhecido um êxito tão extraordinário quanto inesperado. Agora, sempre que surge o nome Cazaquistão, toda a gente tem uma ideiazinha qualquer acerca do país. É certo que a imagem criada por Borat não será a mais lisonjeira mas este é o preço a pagar pelo estrelato alcançado.
4ª feira no Estádio Cidade de Coimbra haverá muitos sorrisos e bocas parvas, quem sabe se espectadores mais atrevidos não irão levar cartazes com Borat ou até mascarar-se para poderem gozar um bocadinho?
Não posso deixar de lembrar que este estádio foi um dos muitos reciclados ou construídos de raíz para o Euro 2004 disputado no nosso país. Este, como a maioria dos restantes, está sempre às moscas por falta de público deixando a céu aberto a falta de bom senso com que o referido campeonato foi encarado pelos diferentes poderes da nossa gloriosa nação tão necessitada de saneamento básico. Fala-se mesmo na necessidade de cortar os apoios à cultura para poder financiar a criação de esgotos. Tristonho, não?
Os vários mastodontes brancos que foram semeados por aí fora (o que pensar, por exemplo, do estádio do Algarve? O que é feito dele?) mostram bem o provincianismo atávico que caracteriza o portugalzinho das sandes de couratos regadas com belas cervejas "mines".
4ª feira lá estaremos, nódoa de gordura na camisa e arrôto à porta da boca, prontinhos a gozar com os cazaques graças aos destempêros de Baron Cohen e vamos rir. Mas, verdade, verdadinha, vamos rir de quê, exactamente?

domingo, novembro 12, 2006

Unidos como os dedos da mão

XV Congresso do Partido SocialistaMoção de Sócrates aprovada por esmagadora maioria 12.11.2006 - 13h22 LusaA moção "O rumo do PS: Modernizar Portugal", que tem como primeiro subscritor José Sócrates, foi hoje aprovada no XV Congresso do PS pela esmagadora maioria dos 1800 congressistas, com apenas um voto contra e seis abstenções.
O único voto contra a moção de José Sócrates partiu da deputada Helena Roseta.
A moda parece estar a pegar. Depois da quase unanimidade na eleição de Luís Filipe Vieira para o cargo de presidente do Benfica; depois da eleição de Kim Jong Il como supremo líder da nação Norte Coreana sem um pio discordante, chegou agora a vez de José Sócrates mostrar ao país a importância de estar no poder e ter a coisa bem controlada.
Os congressistas mostraram o vigor do partido e a pluralidade de opiniões que sempre o caracterizaram.
Ao que parece apenas Helena Roseta (na foto) levantou a voz para contrariar a pasmaceira unanimista do congresso. Dizem as más línguas que o problema dela é, na verdade, com a sua cabeleireira e que, caso tivesse direito a um penteado menos obnóxio decerto alinharia com os restantes camaradas que continuam a ver nela um submarino do PPD que está ali com a única finalidade de aborrecer quem não merece ser aborrecido.

sábado, novembro 11, 2006

Lá vai um...

Aqui há uns tempos ouvi alguém dizer que a eleição do presidente do Estados Unidos era um assunto demasiado importante para ser da exclusiva responsabilidade dos cidadãos dos states. Todos os cidadãos do mundo deveriam ter direito a voto. De tão estapafúrdia a ideia até faz algum sentido.
Na 3ª feira passada o pessoalzinho esteve atento às peripécias da eleição para o senado e congresso americanos. A coisa acabou por correr mal aos republicanos, como se esperava. Ao que parece a desgraça iraquiana sempre tem algum eco em eleições nacionais. Em termos de publicidade negativa os democratas não precisaram de investir tanto como os seus adversários. Basta assistir a um serviço noticioso e tem-se ali escarrapachada a estupidez dos que levaram o Iraque à beira do precipício em que se encontra. Tão escarrapachada que até o eleitorado que já deu duas oportunidades a Bush de mostrar aquilo que é acabou por perceber que tinha feito merda em elegê-lo.
Bush, percebendo que a coisa está mesmo bera, tomou um medida de grande alcance político, uma daquelas coisas que mostra grandeza de espírito e largueza de horizontes: deixou cair Rumsfeld, o arquitecto da desgraça.
Bush, a partir daqui, é um fantasma.

Se fosse ano novo...

... comia uma fatia de bolo-rei. Um jornalista mais ingénuo pediu a Cavaco uma reacção à condenação à morte de Saddam. O presidente ficou incomodado, não respondeu. Precisou de 24 horas para construir uma opinião? Tenho pena que o nosso presidente confirme constantemente a sua proverbial falta de agilidade de raciocínio.
Ele, que tem sido tão opinativo nos discursos (que lê), não tem opinião sobre um assunto político tão importante? Ainda por cima levou 24 horas a descobrir que subscreve a posição da União Europeia.
É triste mas é assim mesmo.

Parece mentira

No Conselho de Segurança das Nações Unidas Estados Unidos vetam resolução que condena operação militar israelita em Gaza
11.11.2006 - 18h08 AFP, Reuters
Os Estados Unidos vetaram hoje no Conselho de Segurança das Nações Unidas um projecto de resolução árabe que condena as operações militares de Israel na Faixa de Gaza, bem como os ataques palestinianos contra Israel.

Não é por nada, mas se eu fosse palestiniano ia decerto imaginar que os EUA e os israelitas estavam combinados para me lixarem a vida (transformando-a em morte).


Se, por um acaso do destino, fosse um palestiniano com acesso a informação que me permitisse saber que numa outra votação que tem dado que falar (e que tem feito sorrir muita gente) os israelitas foram os únicos em todo o mundo a apoiarem os EUA em mais uma das suas medidas punitivas, então a suspeita daria lugar à certeza: estes dois países são governados por tipos que se apoiam mutuamente para encobrirem ou permitirem todo o tipo de crimes que pretendam levar a cabo em nome do direito internacional.


Parece mentira, parece impossível que possa haver governos saídos de eleições democráticas capazes de engendrar planos tão maquiavélicos e influenciem negativamente as vidas de milhares de pessoas em locais tão afastados no planeta como são a Palestina e Cuba. Parece mentira mas parece também que é verdade.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Cuba libre*




As imagens são actuais. As personagens são verdadeiras.
O bloqueio engana-se com imaginação e alguma dose de humor.
Nalguns casos não tem graça nenhuma, mas este "bus" às costas de um camião...


A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou esta quarta-feira uma resolução por esmagadora maioria, pedindo o levantamento do embargo económico a Cuba imposto pelos Estados Unidos, que se mantém desde 1961.
Denominada “Necessidade do levantamento do bloqueio económico, comercial e financeiro imposto a Cuba pelos Estados Unidos”, a resolução não tem carácter impositivo, apenas reflecte a opinião da comunidade internacional.
A resolução reuniu 183 votos a favor, quatro votos contra, dos Estados Unidos, Israel, Palau e Ilhas Marshall, e uma abstenção, da Micronésia.

Há coisas que não se explicam. Há outras coisas que se percebem muito bem. Se o embargo dos EUA à ilha do Fidel ditador merece uma reprovação absoluta no quadro das Nações Unidas é porque há ali porcaria da grossa. São 183 nações a afirmar que se deve pôr termo ao embargo. Os apoios dos EUA, além do eterno cão-de-fila israelita, não chegam sequer a ser ridículos.

Há quem pense que, tal como no caso do Iraque, a admnistrição americana comete, também aqui, um erro de apreciação grosseiro e mesmo contraproducente. A estratégia para acabar com a ditadura castrista tem-se revelado inadequada.
O verdadeiro problema da ditadura castrista será a abertura total ao exterior, impedir essa possibilidade de abertura é fazer um favor aos manos Castro lá daquelas bandas. Quanto mais o "animal" é acossado mais fundo se esconde na toca e mais difícil é convencê-lo a deitar o focinho de fora.
É o que dá querer caçar um rato inteligente com um elefante que sofre de atraso mental e nem sabe o que é a sua tromba.

Paradoxalmente imagina-se que uma Cuba democrática será, numa primeira fase, um perigo total para a esmagadora maioria dos cubanos. No dia em que o regime dos manos Castro vier abaixo aquela ilha vai ser devorada por uma matilha de multinacionais dos mais variados negócios e não se sabe se irá sobrar alguma coisa para, numa segunda fase, se poder construir um país verdadeiramente democrático.

Já percebemos que o pacote estratégico dos EUA com "liberdade/democracia/consumo" é para aplicar tipo supositório metálico, coisa que o "beneficiário" nem sempre está disposto a permitir que lhe metam no respectivo local.

*Rum com Coca-Cola?

quinta-feira, novembro 09, 2006

Anda, Pacheco!*


"A diferença entre um quiosque e a blogosfera" é o título de um interessante texto de Pacheco Pereira no Público de hoje, não se encontrando disponível on line para quem não for subscritor da edição virtual daquele diário resta a leitura em papel.
Pacheco Pereira tem-se distinguido enquanto um entusiasta do blogue e desenvolve neste artigo um raciocínio bem caraterístico com alguma graça e qualidade literária q.b. oscilando entre a lucidez esclarecida e uma espécie de malandrice, quase traquinice, quando passa uma ou outra rasteira mais inesperada ao leitor desprevenido.
Um texto recomendável para a generalidade dos cidadãos mas, muito particularmente, recomendável para os bloguistas mais ou menos militantes.
Defende Pacheco Pereira a ideia de que 90% da produção dos blogues é lixo e o resto aproveitável. Na próxima 5ª feira irá dissertar sobre os tais 10% nos quais O Abrupto deve ter parte de leão, imagino. A não perder, caros compinskas.

*Expressão característica da fadista Hermínia Silva como forma de incentivo para um dos seus guitarristas (ou seria o viola?) e divertimento do público.

Alguém deixou a informação num comentário anónimo: o texto referido neste post está disponível n'O Abrupto (onde mais?). Tem ainda uma série de imagens que ilustram a prosa, conferindo-lhe (aida) maior brilho. Obrigado Anónimo, obrigado Pacheco.

terça-feira, novembro 07, 2006

Subsídiodependentes


Três famosos subsídio dependentes:
Mozart, Leonardo e Moliére

Rui Rio demonstra ser uma espécie de déspota iluminado. A sua decisão de cortar os subsídios para a cultura na cidade do Porto mostra como está muito à frente da nossa época no que respeita a perspectivas de governação da coisa pública.
A arte só é Arte quando tem a caução do público. Se o povo não adere ao porjecto de um artista é prova segura que esse projecto não presta.
Parece evidente que todo e qualquer criador que não tenha público e não consiga subsistir com o resultado liquído do fruto do seu trabalho só pode ir estender a mão para a porta da igreja aos domingos de manhã. Ah, grande Ruca, se não fosses tu não teria nunca compreendido tamanha evidência que sempre esteve ali, à frente do meu nariz e eu sem perceber nada!
Mas, Rio, meu amiguinho, terá sido sempre assim? Ponho-me a pensar e o meu nariz, teimoso como uma mula, começa a tapar a evidência. Se não tivesse havido déspotas que exploravam o povo para depois erguerem pirâmides e construirem palácios (oh, Versailles...), se não tivessem existido papas mais vaidosos que a deusa da beleza (oh, Sisto e a sua capela...), se não tivesse havido tanto investimento a fundo perdido em obras de arte que, ainda por cima, eram para consumo de reduzidíssimas elites o que seria da grandiosa história da humanidade tal como hoje a conhecemos?
Leonardo teria podido explanar todo o seu génio caso não andasse constantemente de mão estendida a saltar de patrono em patrono, à procura de bem-estar pessoal? E que dizer do imortal Mozart, esse verdadeiro pedinchão?
Caramba, ouvindo o que dizes e seguindo o teu raciocínio, caro Ruca, as coisas parecem evidentes. Mas quando penso durante... digamos, trinta segundos, tudo isso me parece uma tremenda estupidez e, de repente, vejo-te apenas pequenino e rancoroso, incapaz de ganhar dimensão suficiente para desempenhares o cargo de que foste investido.
Mas, decerto, estou enganado. Tu és um gajo do caraças, nós é que não te compreendemos.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Arte, para que te quero!?

Tríptico da Salvação, RSXXI, acrílico sobre papel, 2005
(clicar sobre a imagem para visualização mais apropriada)

Afinal de contas para que poderá servir a pintura numa época que se reclama pós-moderna? Para reflectir sobre os seus códigos próprios e os seus limites e fronteiras? Para exposição mais ou menos apática das minudências esquemáticas do ser que a produz? Faz sentido rebuscar na tradição pictórica temas e narrativas, revestindo tudo com novas perspectivas observadas à luz da época contemporânea actual? Porra, que sentido pode ter a produção artística num contexto tão fragmentado e longínquo de si próprio como aquele em que nos movemos quotidianamente?
Correndo o risco de parecer um tremendo bota-de-elástico (que expressão mais démodée!) reclamo o regresso de uma dimensão moralista em que o discurso sobre a virtude e o vício ganha forma metafórica, à maneira dos neoclássicos, despindo-lhe o carácter académico do discurso formal. Ou, dourando um pouco a pílula, engajando o discurso pictórico a causas sociais e políticas definidas como fizeram os pintores do realismo oitocentista ou alguns expressionistas e dadaístas, lá mais para a frente e mais cá para trás.
Penso que só faz sentido pintar quando se pretende intervir. A arte pela arte, a arte sem objecto, a arte que discursa sobre questões abstractas da relação dos elementos básicos da linguagem visual com o campo limite e suporte dos materiais actuantes, parece-me uma absoluta chatice, incapaz de fazer com que o olhar do espectador ultrapasse o estado de bovinidade que atingiu por causa da indiferença relativista que a modernidade anunciou e a pós-modernidade adoptou como estratégia de artistas diletantes, mestres da pose mediática e ignorantes absolutos das técnicas e dos discursos históricos.
Reclamo então que a arte deve regressar ao campo de batalha de forma agressiva e discursando ininterruptamente sobre as questões do mundo circundante, olhando-o, criticando-o, tentando forçar a iluminação do espírito que a observa. Com brutalidade e contundência. Não há outra forma de o fazer.

domingo, novembro 05, 2006

3 notas


nota 1.Mais seis países árabes, de Marrocos aos Emirados Árabes Unidos, pretendem iniciar programas nucleares com fins pacíficos, dizem. Já agora e assim com assim, porque não? O número de dementes absolutos com acesso a armamento nuclear já é suficientemente preocupante. Mais um ou outro não virão acrescentar grande mal ao mundo. O mal já cá está e é por cá que vai ficar. A menos que uma guerra nuclear venha a ter batalhas na Lua ou coisa que o valha. Um dia a vida na Terra vai acabar, quanto mais não seja quando o Sol se extinguir. E Deus? Morrerá também?

nota 2. A campanha eleitoral para o Senado nos EUA tem mostrado até que ponto a liberdade de expressão pode ser um espelho límpido da baixeza humana. Os métodos utilizados são frequentemente deploráveis e os gastos na produção dos spots verdadeiramente astronómicos. Sendo os EUA o modelo democrático mais desenvolvido (dizem por aí) devemos concluir que mais dia menos dia teremos campanhas na Europa com o mesmo nível de devassa da privacidade dos candidatos? Se bem estamos lembrados, na campanha para as Legislativas que deram a maioria absoluta ao PS, Sócrates foi atacado por um boato que colocava Diogo Infante no centro de um argumento miserável. Resultado? Sócrates é 1º ministro e Diogo Infante director do Maria Matos. Talvez isto constitua prova de que, entre nós este género de merda mediática ainda vai levar algum tempo a vingar. Deus nos ouça...

nota 3. Rui Rio deu mais uma prova de falta de cultura democrática (estou a ser simpático e a conter-me na apreciação deste cromo) decretando o fim da atribuição de subsídios a fundo perdido com o aval do executivo camarário a que preside. Este ser vivente mostra como o sistema democrático pode falhar quando elegemos bimbos mal educados e com mais complexos que Napoleão e Hitler juntos num mesmo corpinho. Apesar do gel no cabelo e do sorriso liofilizado, Rio não passa de um pequeno ditador (baixote mesmo) que nada fica a dever aos atrás citados, apenas se distinguindo deles pela dimensão dos poderes que manipulha (este erro ortográfico não é inocente).

quinta-feira, novembro 02, 2006

Cinzento

Os Filhos do Homem
Título original: Children Of Men De: Alfonso Cuáron Com: Clive Owen, Julianne Moore, Michael Caine. Género: Dra, Thr Classificacao: M/16 2006, Cores, 109 min.

argumento

2027, os últimos dias da raça humana. O planeta caiu na anarquia total, provocada por um problema de infertilidade na população. A Humanidade enfrenta a possibilidade da sua própria extinção. Em Londres, cidade dividida pela violência de grupos nacionalistas, Theo (Clive Owen), um desiludido burocrata, torna-se no improvável defensor da sobrevivência do planeta, quando se vê obrigado a enfrentar os seus demónios e a proteger Kee, uma mulher grávida.

PUBLICO.PT
Aí está um filme daqueles que, sendo a cores, acabam por dar ao espectador a sensação de uma infindável gama de cinzentos, parecendo nunca tocar os extremos, deixando de fora o preto e o branco.
Os temas que aborda não são dos mais coloridos: o terrorismo da Internacional Bombista, a xenofobia, o estado policial, as políticas anti-migrações, o individualismo conformista versus a vertigem iluminada dos extremistas revolucionários e, por fim, o decréscimo da fertilidade levada ao extremo, num mundo em que o mais jovem dos cidadãos tem 18 anos de vida.
O filme tem alguns problemas ao nível da narrativa. Colocando a acção num futuro próximo e num mundo que nos é familiar, bate-se com a necessidade de explicar tudo e não o explicar completamente uma vez que o espectador será capaz de preencher os vazios narrativos de forma dinâmica, socorrendo-se da sua própria experiência e conhecimento da actualidade. O resultado não é lá muito eficaz.
Por outro lado as personagens acabam por não ganhar espessura suficiente, refugiando-se com frequência num certo estereotipo algo maniqueísta. Mas, por outro lado, há desempenhos interessantes, nomeadamente o de Clive Owen, um actor cada vez mais brilhante em cada filma que passa.
Assim, aos tropeções, o filme avança. A uma aturada construção visual, coroada com alguns planos e sequências de grande eficácia, opõe-se algum arrastamento narrativo, resultando num objecto cinematográfico algo desiquilibrado e cinzento como um moribundo. O tom geral é de grande sufoco e o ambiente na sala pesa como chumbo.
No final um raiozinho de esperança para desanuviar um pouco.
Enfim, caso não haja nada de muito mais interessante para fazer poderá ser um filme a ver, sabendo de antemão que não se trata de nada de extraordinário. Digamos que merece uma estrela e uma palmada na testa (sempre poderá gerar mais uma ou duas estrelas, dependendo da palmada e dependendo da testa).

quarta-feira, novembro 01, 2006

Ricochete e vingança


O Haloween é uma prótese estranha no actual calendário em Portugal. Os mais jovens não se atrapalham. Para eles trata-se de mais uma festa como tantas outras. Não precisa de justificação. É como o São Valentim com o seu aberrante "be my valentine" estampado em almofadinhas com forma de coração que os namorados oferecem às namoradas e vice-versa, como se aquilo pudesse significar alguma coisa!
É nessa linha que podemos encontrar, no Haloween, rapariguinhas disfarçadas de bruxas ou Batmans fora de época.
A importação e consequente enxerto deste corpo estranho no calendário festivo do Velho Continente é mais um ricochete vindo da América. Uma espécie de vingança.
Os europeus foram para lá, colonizaram, exploraram, transformaram por completo o destino que os deuses locais tinham planeado para os respectivos adoradores e queríamos nós que tal afronta não tivesse consequências? Passados alguns séculos começamos a receber o ricochete das nossas acções. Os Espanhóis levam com as novelas mexicanas e nós com as brasileiras, os ingleses e restantes europeus têm de se haver com as estrelas de Holywood como se elas fossem uma espécie de semi-divindades, oráculos da felicidade ou coisa que o valha. Levamos também com o Haloween e com a substituição do Entrudo pelo Carnaval, com desfiles de mulheres semi-nuas em pleno mês de Fevereiro pelas ruas da Mealhada ou de Loulé, como se isto fosse um imenso sambódromo repleto de papalvos que nunca pousaram a vista num seio destapado que não fosse o da mãe quando ainda mamavam.
Não sei se é vingança dos antigos deuses americanos ofendidos pela invasão e pelas religiões evangélicas, mas lá que o resultado é grotesco...

domingo, outubro 29, 2006

4 Notas

Nota 1- Como é possível dar-se tempo de antena a gajos como Filipe Vieira, José Veiga ou Pinto da Costa? Ainda por cima deixam-nos ouvir frases inteiras saídas das beiças destes seres vivos, repletas de erros a todos os níveis, desde os mais implacáveis pontapés na gramática até às "inverdades" mais descaradas ditas umas a seguir às outras. E ali estão eles, alimentando polémicas ridículas, de uma baixeza invulgar.

Nota 2- Os gajos do Gato Fedorento cada bez estão mais espectaculares! As rábulas da nova camapanha mediática daquela cena dos telfones ultrapassa tudo o que pudessemos estar à espera. Mais que muito bom! Chega quase a ser inteligente.
A boa notícia é que está prestes a começar o novo porgama destes admiráveis saloios disfarçados de "vá-se lá saber". Gravado ao vivo e transmitido em horário fidalgo aos domingos na RTP1, com o Professor Martelo a aquecer os espíritos mais santos... estará algo a mudar no panorama cerebral dos pertugueses? COMEÇA HOJE!!!

Nota 3- Dada 2.0 o robot iconoclasta
ver video no Youtube DADA 2.0 é o mais recente robot de Leonel Moura. Tem a forma de um enorme pingo preto, com cerca de 4 metros de altura, na base do qual se encontra um braço robótico armado com um martelo e que se dedica a destruir tudo o que seja posto ao seu alcance.
Site:
http://www.leonelmoura.com

Leonel Moura continua a tentar fazer com que os robots se pareçam mais com seres humanos. Depois de mostrar como um ser artificial pode criar obras de arte experimenta aqui as suas capacidades destrutivas. O resultado não é brilhante, a destruição é causada mais pela força da gravidade que pela capacidade demolidora do Dada 2.0 (apesar da imponência da sua envergadura invulgar). Fica a intenção mas, convenhamos, os militares por esse mundo fora dispõem de robots bem mais destrutivos que este simpático Dada.

Nota 4- A equipa do Ministério da Educação entrou em parafuso total. O que tem vindo a público a propósito da negociação do Estatuto da Carreira Docente entre aquela verdadeira associação de malfeitores e a plataforma dos sindicatos de professores é matéria para argumento de filme tipo American Pie, para adolescentes alarves.
Eles andam para a frente, para trás, para os lados, andam em todos os sentidos, mas o que fica é uma imagem de total falta de conhecimento deste bazarocos relativamente a matérias básicas que deveriam dominar. Uma lástima.

sexta-feira, outubro 27, 2006

E depois?


Se este país não vive uma luta de classes então que raio de merda é esta?
Quem é que se vê nas ruas a manifestar-se? Não me parece que sejam os industriais ou os empresários, esses reunem-se em hotéis ou em salas todas catitas para dizerem de sua justiça. Outro estilo, outros lugares.
Quem é que é espremido pela cobrança de impostos? Cá pra mim são os trabalhadores por conta de outrém.
Quando é preciso resolver as coisas na justiça safa-se quem paga os melhores advogados. A mesma luta noutro recinto, as mesmas hipóteses desiquilibradas de vitória.
E por aí fora.
No dia das eleições todos votamos mas nem todos contribuímos para as campanhas eleitorais dos partidos políticos. Por isso, mesmo aí, entre os que ganham há sempre uns que ganham mais que os outros.
Eu sei que a Democracia, mesmo sendo a choldra que é, é o melhor dos sistemas políticos. Mas não nos venham com a treta de que somos todos iguais perante o Estado e perante a Lei porque isso é mentira.
A verdade é que temos esse direito mas não conseguimos usufruir dele com um mínimo de qualidade. É lixado. No entanto, se não nos metermos em merdas, podemos viver bem sossegados. É uma via, uma possibilidade de existência.
Mesmo assim espero que a Democracia consiga vingar durante mais umas décadas, um século mais, qualquer coisa do género.
Mas não sei se isso vai ser possível nem tenho paciência para ficar à espera de ver!

quarta-feira, outubro 25, 2006

Tanga da grossa


Na quarta e última versão da proposta de revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD), apresentada hoje aos sindicatos, a tutela prevê a alteração dos critérios propostos para a avaliação de desempenho, considerando que a apreciação dos pais só será tida em conta com a concordância do professor.

Desde o primeiro dia em que ouvi falar desta ideia peregrina de pôr os pais a avaliar o desempenho dos professores que me pareceu tratar-se de tanga da grossa. Sempre fui de opinião que se tratava de uma falsa proposta, lançada para a mesa apenas para gerar confusão e, na devida altura, ser deixada caír. Assim o Ministério dá a sensação de estar a ceder, os sindicatos dão a imagem de estarem a ganhar qualquer coisa. Táctica velha de inventar um acessório farfalhudo para esconder o essencial. No essencial não haverá cedências.

Como o objectivo desta proposta de alteração ao estatuto da carreira docente é exclusivamente economicista, o Ministério está-se bem a borrifar para a avaliação dos pais ou das mães ou de quem quer que seja. Esse foi o acessório imbecil inventado para fazer cortina de fumo. Nas quotas para professores titulares ninguém toca já que esse é o aspecto essencial, aquilo que fica quando o fumo se dissipar.

"Se as organizações sindicais persistirem em manter um clima de conflitualidade e continuarem a programar acções de luta como as das últimas semanas, não haverá possibilidade de desenvolver esse trabalho", afirmou o secretário de Estado Adjunto e da Educação, Jorge Pedreira, em conferência de imprensa.

Aqui fica bem expressa a mentalidade democrática deste cromo e o seu talento negocial. O conhecimento que revela sobre as questões relacionadas com o funcionamento das escolas e respectiva organização permitem-lhe apenas balbuciar banalidades e meter os pés pelas mãos de forma confrangedora. Não admira que, dada a ignorância que normalmente exibe nos debates em que participa, o Senhor Pedreira anseie evitar a discussão. O perfil que apresenta está mais de acordo com uma atitude absolutista semi-iluminada do que com um governante de um executivo democrático.

Quando vejo este retrato animado a aparecer na TV penso de imediato "Lá vem tanga!"... da grossa.

terça-feira, outubro 24, 2006

Reflexo

Como que para provar que há sempre um outro lado, O Inimigo Público resolveu promover, em parceria com O Eixo do Mal, a eleição do Pior Português de Sempre. A coisa teria mais piada se não respondesse à alarvidade da RTP ao pretender eleger "democráticamente" o Maior Português de Sempre, como se um povo que não foi capaz de tomar uma posição que se visse num referendo sobre o aborto pudesse eleger o que que que fosse com um mínimo de credibilidade.

Para quem não passou os olhos no Inimigo do passado Sábado um saltinho a http://piorportugues.blogspot.com/ permite tomar contacto com as personalidades propostas para as listas de candidatos.

Há duas modalidades: "Que político mais contribuiu para a ruína do nosso País?" e "Quem melhor encarna as piores qualidades do povo português?". Os visitantes deste sítio podem ainda propor nomes que venham a engrossar as listas justificando com brevidade as razões da sua opção.

Na 1ª modalidade ficamos a saber que D. João V é candidato nomeado para a secção dos políticos por ter sido "O Rei Sol de pacotilha que estoirou todo o ouro do Brasil em talhas douradas e querubins de mármore." e que Egas Moniz "Representa a capacidade tão nacional de realizar feitos absolutamente inúteis. No seu caso, inventou a lobotomia, ajudando a reverter milhares de cidadãos estrangeiros ao estado mental dos portugueses. Como no caso de José Saramago, a recompensa por uma vida de asneiras foi o prémio Nobel." estando, na minha opinião, bem colocado à partida para vir a conquistar o título de retrato mais fiel das piores qualidades do povo português. Estou a pensar votar nele mas confesso que ainda não consultei exaustivamente a lista de candidatos pelo que será prematuro fazer uma declaração de voto.

Já na votação da RTP não vejo interesse em participar uma vez que, ao que parece, a coisa é levada meio a sério.

segunda-feira, outubro 23, 2006

O punho e a rosa

Ainda me lembro quando o símbolo do Partido Socialista era um punho. Só um punho esquerdo em fundo vermelho. Digamos que, em termos simbólicos, a coisa não poderia ser mais evidente! O Partido era vermelho, cor primária e bem definida, nada de misturas ou ambiguidades.
Mas um dia chegou a rosa.

Tanto quanto me lembro ainda houve campanhas em que o símbolo do PS português copiou o do espanhol, com o punho caído a segurar a flor, como se fosse uma jarrinha de louça. Foi Guterres quem trouxe essa simbologia? Não me recordo. O que fica na retina é a tentativa de adocicar a coisa. Mesmo a cor de fundo passou a rosa, mistura de vermelho e branco, a confundir os espíritos pela indefinição.

O PS passou a fazer papel de cordeirinho que rosna (ou de lobinho que bale, depende da facção) e, nos tempos que correm, é o que se vê. O símbolo que ilustra este post mostra como andam as modas. O Partido Socialista é o do punho. O da rosa é o PS. Os dois juntos são a coisa que nos governa. Nem merda nem penico, nem cú nem peido, antes o que vai sendo necessário para manter as rédeas do poder apertadas e o freio nos dentes em correria louca em direcção a... não se sabe onde nem o quê.

As medidas mais recentes em nome do Orçamento de Estado para 2007 vêm mostrar que o Partido Socialista/PS se dedica a apertar os tomates às classes menos favorecidas. Nos noticiários da SIC já começam a comparar as afirmações de Sócrates quando era líder da oposição com as de Sócrates 1º ministro evidenciando as reviravoltas no discurso.

Foram até desenterrar Santana Lopes e mostram como o homem era, afinal, bem intencionado e que Sócrates está agora a copiar ideias que anteriormente declarava serem hediondas, revelando uma falta de integridade digna de um banqueiro.

Tempos difíceis para o Partido Socialista/PS. O PPD/PSD e o CDS/PP (repare-se como estes partidos têm todos nome próprio e apelido) contra atacam alegremente e com fé na Nossa Senhora de Fátima. Pinto Balsemão parece ter decidido iniciar a Contra Reforma já hoje. Terá isto algo a ver com o referendo do aborto que se avizinha? Quererão os inimigos do ministro com nome de filósofo grego aproveitar a campanha desse referendo para tentarem agitar a podridão de consciência de largas franjas do bom povo português?

Aguardam-se os próximos episódios.

domingo, outubro 22, 2006

Little Miss Sunshine

Não interessa de onde vens nem para onde vais, o que interessa é o que te acontece no caminho.

Mais um caso de título impossível. Little Miss Sunshine no original dá, em português, "Uma família à beira de um ataque de nervos". Admito que não desse para fazer uma tradução literal. Miss Little Sunshine é, tanto quanto percebi, a designação de um concurso de beleza infantil, daqueles que são promovidos nos States o que por aquelas bandas terá outro impacto nos espectadores. Mas colar o título deste filme a uma expressão que se vulgarizou entre nós graças a um outro, de Pedro Almodóvar, é, no mínimo, lamentável até porque os filmes não têm nada comum.

Este Miss Little Sunshine vê-se com interesse do primeiro ao último plano. É um daqueles filmes americanos que nem parecem sê-lo (estou a lembrar-me do recente "A lula e a baleia", um título decente e literal). Poucos meios de produção, um conjunto de actores perfeito para os papéis, um argumento bem recortado e uma realização esmerada, onde mesmo os planos mais inocentes parecem ter sido estudados com a minúcia de uma pintura neoclássica. A montagem refina a qualidade potencial das filmagens e o resultado, apesar de um ou outro momento mais redundante, acaba por ser mais do que satisfatório.

O tema da viagem, tão recorrente desde, pelo menos,a Odisseia(:-), é mais uma vez revisitado. Não será aquilo que se chama ou road-movie (tanto quanto me parece) mas a ideia de que as viagens nos modificam, que interessa mais aquilo que nos acontece entre o ponto de partida e o de chegada mais do que outra coisa qualquer, fica claramente expressa na redenção final das personagens sobreviventes.

Para o espectador europeu fica também aquele travozinho adocicado de compreender que uma certa visão dos EUA e dos seus habitantes não é sinónimo de anti-americanismo primário mas apenas uma visão possível, colocando o cérebro numa determinada perspectiva. As cenas finais, rodadas durante o tal concurso, são bem significativas.

Um filme a ver sem sombra para qualquer dúvida.

sábado, outubro 21, 2006

É a pintura artesanato?

http://www.sfmoma.org/images/ma/exhib_detail/bill_viola3.jpg

Estará a pintura a reduzir-se? A princesinha das belas-artes (não há que temer o kitsch, já não faz sentido, ahahahah) estará a ser traída pelos seus próprios guardiões? Nos dias que correm o vídeo tem vindo a chegar o rabiosque ao trono e já há quem lhe preste vassalagem com maior devoção que à pintura. Ai, ai, atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir. Então que venham!

Lá vai o tempo da escultura. Os grandes escultores clássicos, gregos, renascentistas, o imortal Bernini (http://www.artchive.com/artchive/B/bernini.html) talvez o maior de todos os tempos, foram postos a um canto pela versatilidade dos pintores do século XIX/XX que puseram a sua arte no centro da reflexão estética. Pensar a arte era fazer pintura. A escultura parecia coisa demasiado pesada, demasiado objectual para poder ilustrar conceitos puros acerca da arte. Bons tempos para os artistas pintores. Mesmo o grande Duchamp se dividiu entre pensar, pintar, fazer, inventar um novo sentido para a criação artística. Ah, o Grande Vidro (http://www.beatmuseum.org/duchamp/bride.html)! O espaço envolvente sugado pelo objecto plástico, a revolução total no ser artista, fazer arte a partir do nada. Caramba, deve ter sido demais!

Reinventar uma linguagem milenar, criar novas fronteiras no espaço sideral do pensamento humano, os pintores incharam como o sapo que fuma, convencidos que na pintura estava tudo o que poderia interessar ao discurso estético, como se a pintura fosse "a" arte (a tal princesinha). E, tal como o sapo, PUM! Rebentaram (rebentámos) deixando um jacto de fumo que estabiliza em nuvem passageira e começa já a sturar-se na paisagem.

Depois da composição "Branco sobre Branco" de Malevitch (http://www.a-r-t-asso.org/ully/malevitch_blanc/presentation.htm) não restou mais nada para inventar. A pintura tornou-se um infindável processo de citação. As pinturas mais agressivas que já vi em dias de vida foram deste russo maluco numa exposição intitulada Malevitch e o Cinema, no CCB, que visitei com o Fernando Ribeiro já nem sei quando.

É estranho como a pintura à medida que vai anulando o objecto da sua superfície gera mais e mais ideias, palavras, textos e reflexão. Quanto menos referências ao mundo circundante mais falatório, maior necessidade de dizer aquilo que não está lá e que, em boa verdade, a maioria dos mortais não vê se ninguém lhe contar a história daquilo que vê e deve pensar. A pintura é então substituída pela crítica e morre um pouco. Deixa de ser o que é suposto ser para se transformar em reflexão pura, conceito.

Já Cézanne (http://www.expo-cezanne.com/2.cfm) advogava a ideia de que o pintor deveria evitar a literatura no seu trabalho para se dedicar a uma arte baseada nos elementos básicos da linguagem visual. Sinceramente, as pinturas deste mestre parecem-me sempre demasiado presas e pouco estimulantes. O seu valor é, a meu ver e tal como Malevitch, mais conceptual do que objectual. Qualquer obra de Ingres é bem mais espectacular!

Resumindo: de tanto reflectir sobre si própria, a pintura acabou por sugerir um certo esgotamento vendo-se, nos dias que correm, ultrapassada pelo vídeo nas preferências dos novos artistas. Pintar é quase como fazer artesanato. É um trabalho sujo, difícil, um trabalho que exige demasiado do artista. Num tempo em que tudo tende a ser normalizado, embalado e pronto a consumir, o tempo de aprendizagem e de realização exigido pelas técnicas pictóricas parece, cada vez mais, um arcaísmo. O tempo, agora, é muito mais rápido.

A vida não está fácil para a pintura que se chega ao campo do artesanato por oposição às novas tecnologias da imagem luminosa e em movimento.
Será tanto assim, ou estarei a exagerar?

quinta-feira, outubro 19, 2006

Tomar partido

O referendo sobre o aborto está decidido. Agora não há que ficar à espera, há que tomar partido. O referendo anterior foi uma autêntica vergonha pelo número inacreditável de eleitores que enfiaram a cabeça num balde de merda e preferiram fingir que o dia da votação não era mais que um carnaval de avestruzes. Desta vez será o dia da grande decisão. Todos os votos contam, não podemos voltar a ficar reféns de uma minoria transformada em maioria pela abstenção.
Os fingidos que militam nos movimentos "pró-vida" sabem bem que as suas mulheres não têm problemas e dispensam a despenalização já que, quem tem dinheiro, vai a uma clínica espanhola e pronto. Eles que continuem com a cabeça enfiada na merda. Nós temos necessidade de respirar outra vez ou então é como se estivessemos a forrar o interior do balde.
Que nenhum voto se perca!

http://www.kameraphoto.com/ um salto a este lugar para ver uma reportagem fotográfica a propósito de João Carvalho Pina em "Últimas" e, já agora, ver outros trabalhos de fotografia. Destaco as de Céu Guarda por uma questão de amizade longínqua.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Tempos difíceis


A ocupação do Rivoli e a análise da fatiazinha do Orçamento de Estado para 2007 destinada ao Ministério da Cultura mostram como o problema já não se reduz à proverbial saloiice dos dirigentes do PSD no que diz respeito à política cultural. A coisa propaga-se como nódoa de azeite em camisinha de veludo.

O ex-vereador da cultura da CM do Porto disse, após se ter afastado do cargo, que Rui Rio confunde cultura com lazer. Se fosse só ele estaríamos nós menos mal mas o problema vai mais fundo, até às entranhas da geração que actualmente desempenha os cargos de poder no nosso país.
Educados na penumbra fedorenta do salazarismo, os nossos governantes continuam a emprenhar pelos olhos com uma facilidade apenas comparável à alegria que os inunda sempre que inauguram um novo centro comercial, maior que o anterior e normalmente o maior da Europa. Aos fins de semana as famílias vão passear-se nesses edifícios grandiosos admirando as montras e os bens de consumo, como se estivessem num museu, numa qualquer catedral de cultura, enriquecendo deste modo o seu espírito, moldando assim a sua visão do mundo circundante.
Muito se tem falado nos últimos tempos do endividamento das famílias portuguesas. Com os seus hábitos "culturais" não é de admirar que isso aconteça. Tantos fins de semana a cobiçar as obras de arte expostas nas montras da Zara e da Singer enquanto ruminam um Big Mac e respectiva Coca-Cola só pode dar exactamente naquilo que dá.
Outro problema é que, além da atávica falta de hábitos culturais, somos um povo falido. Quem não tem dinheiro não tem vícios, não há papel, não há palhaços e por aí fora. Se a maioria dos portuugeses mal tem dinheiro para comer como haverá de comprar livros, assitir a espectáculos de teatro, concertos, etc. Como irá pagar a entrada nos museus (sim, porque museus à borla só aos Domingos e até às 2 da tarde que depois do cozido já não há mais pão pra malucos!) ou, muito simplesmente, comprar um jornal diário?
Sobra a TV e pouco mais. O êxito das novelas é tal que, penso, revela bem a avidez cultural de um povo semi analfabeto. O povo gosta de rir e de grandes estrondos que lhe façam saltar a tampa de espanto. Gosta de festa e de excesso não está cá para se perder em discussões bizantinas sobre a questão da luz na pintura impressionista ou a representação do poder na arquitectura do Estado Novo.
A arte é e sempre foi elitista porque os pobres não têm nem tempo nem dinheiro para investir nela. São os ricos quem investe nas formas artísticas logo é natural que elas representem preferencialmente um universo de elites. Sejam essas elites culturais ou financeiras, a história da arte revela-nos a realidade com uma nitidez impressionante. Entramos num ciclo vicioso ao qual não se adivinha porta de saída.
Os ocupantes do Rivoli são uma face emotiva da sensação de que as coisas estão a piorar no campo da cultura. São a expressão de um sintoma que se acentua com um governo socialista ao contrário do que foi prometido e do que seria de esperar. Mas a Economia é a nova expressão artística dominante e o seu discurso não se compadece com sensibilidade estética e, muito menos, com ética.

terça-feira, outubro 17, 2006

(...)


Saio de casa à hora do lobisomem. Agradeço à lua não estar ainda cheia. No carro evito o espelho por receio. Até as caixas de cartão me parecem cadáveres de objectos consumidos.
Dou por mim a imaginar o futuro tal como me lembro de tê-lo imaginado para a data presente e é tudo tão parecido!
Espero estar acordado amanhã.

domingo, outubro 15, 2006

Degradação da espécie


Para quem pensasse que programas como Big Brother ou A Quinta das Celebridades tinham mostrado até que ponto a televisão pode ser um veículo para as manifestações mais degradantes do significado de "ser humano" existe um novo programa que vem provar que o fundo do poço ainda não foi atingido e podemos esperar cada vez pior sempre que for necessário aumentar as audiências.
Eu sei que há coisas como Fiel ou Infiel, as Escolhas do Professor Marcelo, Dança Comigo ou o Telejornal da TVI, mas este Canta Por Mim bate tudo aos pontos. A exploração da miséria alheia com fins comerciais é descarada, as vedetas convidadas fazem um papel miserável (até que ponto não serão obrigadas a alinhar, mesmo a contragosto, por exigências contratuais?). Em comum com os programas citados em 1º lugar neste post, Canta Por Mim tem a apresentadora, essa espécie de cromo impossível na colecção dos tipos humanos que dá pelo nome de Júlia Pinheiro.
Além de feia (facto de que não pode ser responsabilizada) esta coisa com pernas tem um mau gosto aflitivo (culpa da produção?) e denota uma falta de escrúpulos ao nível de um Al Capone (isso já é culpa dela ou de quem a tenha educado). É incoveniente, malcriada e, acima de tudo, tem uma inesgotável capacidade de explorar a miséria alheia que deveria valer internamento compulsivo numa instituição de requalificação social.
Palavras que escreva nunca poderão fazer justiça à baixeza do Canta por Mim. Acima fica o link para que os mais corajosos se atrevam a espreitar o nível da coisa. Fica, no entanto, u aviso: tenham medo... tenham muito medo!

sábado, outubro 14, 2006

Desenhar


Desenhos em progresso. Canto superior esquerdo Afastar a Morte; ao centro Hapyness; à direita uma coisa qualquer que, apesar de ser algo ainda não é nada!

Gostava de recuperar o power que tive em tempos e desenhar outra vez como se respirasse ou falasse com a vizinha do lado sobre o estado do tempo. Mas essas maravilhas criativas guarda-as a juventude e a alegria da ignorância.
Recordo com dificuldade noites inteiras a exercitar o pincel e a tinta-da-China, horas e horas a fio, dezenas de desenhos a sairem, sabe deus de onde, como uma manifestação de protesto a subir as avenidas, gritando palavras de ordem que eram manchas e conversas inflamadas que eram linhas ou coisa que o valha.
Nos dias que correm o processo é bem mais complicado e já não me basta o pincel e a tinta. Preciso de cola e recortes e guache e acrílico e esferográfica e uma espécie de esforço para deixar de ser quem sou e voltar a ser quem fui o que significa que quem desenha, cola e suspira é uma coisa meio estranha perdida algures no tempo e no espaço que, no entanto, continuo a ser eu, só que não sou bem eu.
A vantagem actual é continuar a desenhar pelo absoluto prazer de o fazer tal qual o fazia no passado.
A coisa complicou-se muito por culpa da História da Arte e dos macaquinhos que me vão alugando o sótão. Uma vez a inocência perdida não há forma de a recuperar e, em matéria de criação, não há nada que chegue ao mais puro instinto de uma adolescência tardia vivida na pasmaceira de uma cidade de província de súbito assassinada pela capital do Império e mais a sua excelentíssima Escola de Belas -Artes. Foi aí que aprendi a fingir que sou modesto e onde conheci algumas das melhores pessoas que até hoje me foi permitido conhecer.
A maturidade traz consigo a consciência do Ser o que complica (e de que maneira!) o processo criativo.
É então tempo de compensar o instinto que adormece com a técnica que se desenvolve e cresce como um polvo vivo. O resultado... bom, isso na verdade interessa muito pouco. O mais significativo é continuar a desenhar.
Para afastar a Morte.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Negócios

a sigla desta associação americana acaba por ser eloquente...


Pretender uma actividade de criação artística totalmente independente do investimento do dinheiro público e, em simultâneo, esperar que se reconheça vontade de "proteger" as artes não passa pela cabeça do palhaço mais pintado.

Por partes:
O Estado cada vez mais se retira da cena de apoio à criação artística. Os célebres e controversos subsídios para criação e montagem de espectáculos teatrais são mais uma miragem que uma recordação, as bolsas para escritores volatilizaram-se, as aquisições de obras de arte contemporânea pelo Estado... não me parece que isso exista.

Ora bem, o que queriam os artistas? Batatinhas, não? Os artistas, se querem sê-lo, devem conseguir garantir a sua independência através do comércio dos resultados do seu trabalho. Não podem esperar que instituições do Estado estejam disponíveis para investir neles!

Este é um princípio agora sagrado. O neoconservadorismo (e não só) tem da arte uma perspectiva pouco empolgante. Como são conservadores não vêem razão nenhuma para que se façam investimentos na criação de objectos de arte inovadores. Ainda por cima a maior parte dos artistas não é lá muito conservador (ossos do ofício) daí que sejam uma espécie a extinguir suavemente, sem dar muito nas vistas. Alguns artistas têm o hábito incómodo de morder a mão que os alimenta, tal qual alguns cães raivosos e pouco dados a que lhes passem a mão pelo pêlo.

Restam então os mecenas e investidores privados, raríssimos coleccionadores, enfim, aves demasiado raras para que se possa imaginar um mercado ou uma rede de criadores minimamente funcional.

O caso do teatro é paradigmático. Os apoios do Ministério da Cultura seriam miseráveis e pouco claros na forma como eram apreciados pelo júri e distribuídos pelos candidatos mas permitiam um teatro menos convencional e mais variado na suas opções, estéticas ou
outras. O panorama teatral era bem mais variado do que o actual, apesar dos esforços notáveis de alguns criadores independentes para manterem o Teatro a um nível diferente de Morangos com Açúcar ou longe de uma Conversa da Treta.
Enfim... não me consta que Miguel Ângelo tenha pintado a Capela Sistina porque lhe deu na bolha e sei que Daumier ia morrendo de fome. A Arte não é um negócio como os outros, muitas vezes não chega sequer a ser um negócio mas os conservadores que ocupam o poder com o seu olhar economicista não vêem muito mais que um palmo à frente do nariz noutras matérias que exijam mais que uma máquina de calcular.
Se calhar até têm razão nos cortes orçamentais e a arte não serve para nada que (lhes) interesse. Mas ao menos podiam poupar-nos a personagens como Isabel Pires de Lima e outras tristezas.

quarta-feira, outubro 11, 2006

Brincadeira?

criancinhas norte coreanas em brincadeira tradicional

"O Governo da Coreia do Norte afirma que a continuação da pressão por parte dos Estados Unidos será interpretada como uma declaração de guerra, que levará o país a tomar "uma série de contra-medidas" não especificadas. "

Retirado de Público on line

Nem sei se dá para levar a sério uma conversa deste género!
Este mundo está definitivamente entregue a palhaços maus e demasiado perigosos.

terça-feira, outubro 10, 2006

Futebol, cultura Pop


Cristiano Ronaldo como Super-Homem


Se há tema de conversa universal, do Iraque ao México, da China à Austrália, no campo, na cidade, na fábrica, na escola, na cama e na sanita, onde e quando quer que seja, tema ao alcance de milhões de cidadãos por esse mundo fora, é o futebol.

Toda a gente pode opinar sem precisar de fazer grandes investimentos nem estudos. O jogo, em si, é suficientemente simples. Toda a gente pode jogá-lo desde que tenha uma bola. Com a globalização o futebol tornou-se um verdadeiro fenómeno.

A mediatização trouxe também uma nova exposição dos jogadores mais habilidosos ao ponto de os transformar em verdadeiros ícones populares. As revistas de mexericos interessam-se por pormenores até aqui impensáveis relacionados com os hábitos e a vida quotidiana das personagens principais e a sobre-exposição do jogo, omnipresente nos écrãs de televisão, fazem da mais pequena banalidade motivo de notícia e de momentos fugazes acontecimentos históricos.

Uma coisa verdadeiramente estranha pela sua dimensão.
As telenovelas são fenómenos localizados, as fronteiras oferecem-lhes alguma resistência. Entre Hollywood e Bollywood há uma inultrapassável barreira cultural, as vedetas de uma não se misturam com as de outra. No campo das artes plásticas nem vale a pena falar. Mas o futebol... senhores!

Os ídolos do pontapé na chincha são pessoas comuns que saem do anonimato graças a uma espécie de dom maravilhoso e ascendem ao estrelato como que por magia. São fenómenos de uma cultura popular a nível planetário gerados de forma espontânea, reconhecidos em todo o mundo por ser tão fácil de compreender o que fazem e por despertar tantas paixões impossíveis.

O futebol é a materialização actual de uma verdadeira cultura Pop.

Estranha coisa, esta conversa.

domingo, outubro 08, 2006

Sem comentários

Young God, RSXX, acrílico sobre papel 2004

Jornal Público, hoje mesmo:

"Se só Deus é Deus, se não há nada no mundo que seja divino, parece que ficaria o campo liberto para as mil iniciativas e realizações da criatividade humana." (...) "Acontece que a tendência à sacralização de palavras, textos, gestos, leis, ritos e pessoas levou os próprios monoteístas pelos caminhos das religiões pagãs que pretendiam superar. Mas o pior de tudo foi a sacralização da violência, isto é, a violência exercida em nome de Deus. Chegou-se mesmo a fazer de Deus o "Senhor dos exércitos" e o patrocinador das guerras mais cruéis, presentes em algumas narrativas e orações bíblicas."

Frei Bento Domingues, Religião e violência, página 8

"Bispo de Leiria-Fátima vai convidar Papa a visitar o santuário
(...) O papa inauguraria desse modo, a nova Igreja da Santíssima Trindade, que se encontra em fase final de construção. Já quanto à canonização dos dois videntes, o bispo não tem certezas: "O processo de canonização ainda não está definido: a equipa médica da Congregação da Causa dos Santos [do Vaticano] está a analisar a solidez do milagre exigido para ver se tem condições de poder ser declarado milagre ou não.
(...) Mesmo se o milagre em que se baseou a beatificação da Jacinta e Francisco Marto (...) foi considerado pouco sério por algumas pessoas, o bispo diz confiar nas equipas médicas e teológicas da Congregação (...) actualmente presidida pelo cardeal português José Saraiva Martins.
(...) Quanto à nova igreja (...) o custo está, actualmente, em cerca de 45 milhões de euros (...)."
(...) O caos urbano de Fátima leva o bispo a lamentar a ausência de um plano director no crescimento da localidade. O Estado, diz [o bispo], deve agora "apoiar tudo o que possa tornar a cidade mais bela, acolhedora e funcional". E justifica: Fátima "é um centro de atracção de turismo como não há outro em Portugal, com 4 a 5 milhões de turistas por ano", com o que isso significa de "desenvolvimento social, económico, cultural do país".

António Marujo, página 24

Sem comentários.

sábado, outubro 07, 2006

Televisão

"Quem vê TV
Sofre mais que no WC"

Estes versos maravilhosos eram cantados por João Grande, vocalista dos Táxi (quem se recorda?) e estão bem como ilustração para o que se segue.

A SIC celebra 14 anos de existência com um desfile grotesco Avenida da Liberdade abaixo. Auto-intitulando-se como "a televisão do povo " e tendo em conta as personagens que ornamentam o desfile muito está dito mas pretendo apenas acrescentar qualquer coisinha.

Quando, há 14 anos atrás, surgiram as televisões privadas, um dos argumentos que mais entusiasmavam o pessoalinho era a miragem da diversidade. Habituados a uma RTP refém dos poderes políticos e outros de natureza menos evidente, os portugas viam com alguma ansiedade a possibilidade de terem ao seu dispor algo completamente diferente.

A coisa começou logo inquinada com a atribuição de um canal à igreja católica, mas o povão virava-se, principalmente, para a SIC já que da igreja não esperava nada que não tivesse já comido até ao vómito.

Passados 14 anos constatamos que não podia ter havido maior ilusão! Afinal a diversidade era um engano grosseiro já que as diferentes televisões adoptam uma estratégia de marcação cerrada. Se um canal transmite novelas ás 7 horas o outro responde com o mesmo tipo de produto e por aí fora até termos clones horrendos em constante actividade nos écrãs, 24 horas por dia.

Basta dar uma olhadela às programações no jornal. O chamado horário nobre, a parte do dia em que a população portuguesa pasta e rumina programas de televisão, os canais abertos passam mais ou menos o mesmo tipo de produtos. Concursos, novelas, telejornais, uns por cima dos outros, tudo a mesmíssima merda. A diversidade era uma mentira calculada.

Doses cavalares de publicidade, uma imbecilização despudorada, o elogio da boçalidade são aspectos característicos da oferta televisiva. Para um povo de brutos programas feitos à medida. À brutidão oferece-se embrutecimento e assim, num crescendo vulcânico, teremos um dia uma explosão tal de rasqueirice humana que o país ficará submerso em merda por séculos e séculos fazendo jus ao destino que traçou para si próprio desde o 1ª dia. É a felicidade prometida.

Poderia estar para aqui a bater no ceguinho o dia todo mas, como eu próprio faço parte do ceguinho fico-me por aqui. Estou a precisar de ir ali, ao quarto de banho.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Haja Fé!

Finalmente a confirmação: o muro vai ser levantado.
Apesar das dúvidas e dos problemas técnicos previsíveis, o muro na fronteira dos EUA com o México tem ordem para se erguer do nada.

Se juntarmos as novas regras aprovadas entre os EUA e a União Europeia relativas aos passageiros de futuros vôos daqui para lá, começamos a perceber que os americanos do norte se estão a fechar lá dentro. Cada vez é mais complicado entrar na terra da liberdade.
Por enquanto ainda é fácil sair.

O que poderá isto significar num futuro próximo?
Os pássaros são livres de se movimentar no interior da gaiola. Só que acabam por desaprender de voar e os saltitos que conseguem dar parecem-lhes o suficiente.

Haja Fé, Deus é grande.
Pelo menos parece.

quinta-feira, outubro 05, 2006

O muro


Escrevo esta carta por estranhar que a notícia do possível muro, na América, tenha caído em saco tão roto. Aqui há dias foi uma bomba! O senado norte-americano aprovara a construção de um muro na fronteira dos states com o México. No noticiário televisivo apareceu até um ministro mexicano a tentar mostrar toda a indignação que a tal proposta lhe causava, com cara de quem vê um pato-bravo a querer tapar-lhe o sol com um prédio clandestino. Tentava mas, pela expressão do seu rosto, não o conseguia por não haver palavras nem expressão facial suficientemente eloquentes numa situação como esta. “Grande bronca!”, pensei eu. Mas, afinal, desde esse dia… silêncio.
Talvez o muro não venha a existir. Espero bem. Talvez não passe de mais uma ideia neoconservadora sem pés nem cabeça como tantas outras que se vêm revelando à luz dos dias quando vão passando. Tudo isto parece tão ridículo! Mas já parecera ridícula a ideia de que alguém com dois dedos de testa pudesse imaginar os cidadãos de Bagdad aclamando o exército americano, sedentos de democracia e hambúrgueres, mas houve quem o imaginasse.
A hipótese de construir o tal muro diz muito do espírito global que anima o nosso mundo. Este mundo do “lado de cá” que também ganha expressão em Israel. Levámos uns anitos para nos decidirmos a derrubar o muro de Berlim. Ainda me lembro da festa que foi, caramba! Afinal passou tão pouco tempo e já voltamos a imitar os antigos imperadores chineses. Ou aprendemos pouca coisa ou, afinal, estávamos enganados e os muros são uma boa solução para certos problemas.
Como disse um dia Vítor Pereira, saudoso ex-árbitro do nosso futebol, muito antes de os apitos serem dourados, “Desde que vi um porco a andar de bicicleta já nada me espanta.” Será que ainda haveremos de dizer, “Desde que vi construir um muro na fronteira dos states com o México já nada me espanta.”?
Enquanto não chega a nova temporada circense podemos sempre imaginar qual o novo número que vão inventar para nos deixarem de queixo caído.


Carta ao Director do Público. Os dois últimos parágrafos foram, compreensivelmente, "cortados" na página do jornal. Continuo a não acertar o tom do meu sentido de humor.

terça-feira, outubro 03, 2006

Rau


Honoré Fragonard
Portrait of François-Henri, Duke of Harcourt, c. 1769

Finalmente fui ver a exposição da colecção de pintura do Dr. Rau, no Museu Nacional de Arte Antiga. Vale a pena, quanto mais não seja, ver Cranach, Reni, Gainsborough, Corot, e outros que tais, em Lisboa. Mas este Fragonard é, talvez, o quadro que mais me impressiona de todos os que lá dormem mais esta noite, aconchegados nas suas almofadinhas da História.

Este matreco era um pintor que não me fazia bulir nem um pouco o coração. Ele era Rocócó, ele aparecia sempre associado a uma pintura que mostra uma menina (ou senhora) a andar de baloiço no meio de um jardim, enfim, tudo coisas que, vistas assim nos livros de pintura ou de história da arte, fazem bocejar o mais desperto dos mortais cafeínados.

Ainda por cima, do alto da minha juventude, olhava estas reproduções com o desdém próprio de quem está habituado, sem o saber ainda, a emprenhar pelos olhos com a facilidade de uma galinha poedeira. Os temas de Fragonard dificilmente impressionariam um adolescente mais interessado em Philip K. Dick e nos Clash que na leitura das Viagens na Minha Terra ou de Folhas Caídas, conforme me obrigavam nos bons velhos tempos da escola secundária.

Tudo mudou quando vi, pela primeira vez na vida, no Louvre, uma pintura deste gajo. Não recordo exactamente qual, nem isso é relevante para o caso. Fiquei siderado perante o vigor incrível do trabalho de Fragonard, isso sim. Uma pincelada a rasgar o espaço da tela, uma agitação tal, uma energia tão extraordinária que percebi (mais uma vez) como o preconceito juvenil nos pode fazer corar de vergonha uns anitos mais tarde. Em silêncio e em segredo, evidentemente. Fragonard foi um dos grandes mestres do século XVIII, sem a menor sombra para dúvidas. Um moderno antes de tempo ou no tempo certo, por ter sido o dele, está bom de ver.

Este Retrato do Duque de Harcourt tem tudo "aquilo". Nada se encontra em repouso. Tudo se agita num turbilhão arrebatador de emoção e energia, caraças! Muito mais do que o tema somos levados pela emoção da Pintura.

Noutra sala há uma paisagem de Cézanne, O Mar em L'Estaque e outra de Vlaminck, Paisagem Fauve Perto de Chatou. Cézanne afirmaria que a pintura, para o ser, se devia libertar da literatura e o pintor deveria concentrar-se nos elementos fundamentais da linguagem visual. Vlaminck, na sua qualidade de fauvista, enalteceu de forma arrebatada as qualidades da cor furiosa e emotiva. Perante esta pintura de Fragonard o que eles disseram (mais ainda o que fizeram) perde sentido, esvazia-se de significado e parece mais convencimento juvenil que verdadeira teoria ou prática estética.

Vai na volta nunca tiveram a felicidade de ver obras de Fragonard. O que me parece pouco provável mas perfeitamente plausível.

domingo, outubro 01, 2006

De corpo e alma

A existência de Deus manifesta-se das mais variadas formas. A construção de uma imagem laboriosamente conseguida ao longo de séculos e séculos, desde as profundezas escuras dos úteros cavernosos da terra pré-histórica à luz brilhante do génio escultórico do pensamento grego, a energia indizível da divindade tomou as mais diversas formas, de acordo com visões, revelações e premonições mais ou menos inspiradas de artistas e poetas.

Entre nós, herdeiros da tradição greco-latina, o cristianismo foi gerando um rosto para Cristo adaptado ao sabor das circunstâncias. Muito por acção dessa campanha mediática cristã, vivemos actualmente uma civilização da imagem onde tudo o que é verdade tem um rosto e o que o não tem, ou custa a crer que existe, prefere manobrar na sombra do anonimato.
Esse imenso trabalho de revelar a face de Deus fez com que entrássemos no domínio do ícone e, tal como temiam algumas facções entre os primeiros cristãos, esquecemos frequentemente o Homem, o Profeta, e ficamos ofuscados pela imponência espectacular da imagem que Dele foi criada. Ignoramos a transcendência maravilhosa da Sua poética existência e não nos damos ao trabalho de tentar compreender a profundidade espiritual da Sua mensagem. Só temos olhos para o brilho dourado das obras imponentes que Lhe foram oferecidas por homens pouco modestos. Papas, Imperadores ou Faraós.

A Igreja católica apostólica romana exige fé. Para ela basta uma fé simples para entrar no caminho da salvação da alma. Basta ser crédulo. Aos católicos não é exigida a utilização da razão para ser aceite na igreja, antes pelo contrário. Daí que a lição do Professor Ratzinger tenha sido tão mal compreendida (ou terá sido simplesmente mal preparada pelo Mestre?), a audiência, fora da sala onde proferiu o seu discurso em Ratisbona, está longe de poder compreender na totalidade as tortuosas razões teológicas por ele equacionadas. Á igreja católica interessa manter o status quo, conservar a tradição. A igreja é conservadora, não se reforma nunca por vontade própria, apenas se reforma quando acossada por alguma ímpia e insuportável pressão.

Por outro lado, uma vez que o Papa é infalível, não adianta ao Professor Ratzinger vir agora pedir desculpas na pele de Bento XVI. Cada palavra foi decerto cuidadosamente ponderada antes de ser proferida. Não é credível que o Papa tenha sido vítima de si próprio pois poucos como ele saberão tão bem o que dizem, quando o dizem e onde o dizem.

O problema é que Cristo foi um Profeta que acabou usurpado e abusado por igrejas camaleónicas que o utilizam sempre conforme as circunstâncias. Tal como fazem actualmente os fanáticos do Islão, também os cristãos das mais variadas igrejas utilizaram em vão o nome do seu Deus para justificarem crimes hediondos nas mais variadas situações.

A utilização abusiva da Sua mensagem continua não tanto para matar mas mais para roubar os pobres de espírito. Os exemplos abundam e proliferam principalmente nos subúrbios das grandes cidades entre uma população maioritariamente ignorante e completamente alheia às subtilezas teológicas necessárias para encetar com um mínimo de credibilidade o diálogo inter religioso que se afigura imprescindível aos olhos de todos os que não são fundamentalistas.
Deus poderá existir mas não tem decerto a forma que os poetas lhe deram nem os desígnios que as igrejas Lhe atribuem. Deus não pode proteger uns e amaldiçoar outros porque isso, simplesmente, não faz qualquer sentido. Acreditar nisso é reduzi-Lo à nossa insignificância e implicá-Lo nas guerras que travamos uns contra os outros, vestindo-Lhe uma farda de general de mil estrelas. A Razão impede a possibilidade de existência a uma divindade tão prosaica e tão reles que fosse capaz de condenar a vida que ela própria cria.

Como escreve Frei Bento Domingues no fecho da sua crónica de 1 de Outubro no Público, “Deus não é propriedade privada”, (texto extraordinário que mereceria maior divulgação) “Não adianta dizer que há um só Deus se esquecemos, cristãos e muçulmanos, que há uma só humanidade a respeitar e a servir por todos.”

Não adianta cuidar da alma se pretendermos ignorar o corpo que ela habita.

In God we trust

Construção do muro de Berlim

"Depois de a Câmara dos Representantes ter dado o seu aval, o Senado norte-americano aprovou sexta-feira a construção de um muro duplo com uma extensão superior a 1100 quilómetros na fronteira com o México, de forma a evitar a entrada de imigrantes ilegais no país. A decisão final está agora nas mãos do Presidente George W. Bush."

Entre Agosto de 1961 e Novembro de 1989, o muro de Berlim foi um símbolo terrível na velha Europa. Os Estados Unidos preparam-se para construir outro muro. Tal como em Israel.

A terra da Liberdade fecha-se à imigração clandestina da pior forma. Fecha-se da forma mais estúpida e, decerto, ineficaz, construindo um símbolo da sua incapacidade de confrontar a questão da pobreza com medidas mais humanas que possam, eventualmente, constituir resposta à altura do problema e da própria imagem que os EUA (ainda) reflectem no imaginário de tantos milhões de cidadãos do mundo por esse mundo fora.
Um novo muro da Vergonha.

Que fazer no Sul da Europa? Na impossibilidade de erguermos um muro no Mar e outro no Oceano como iremos tentar dar uma resposta à altura da situação criada pelas vagas de imigrantes que nos chegam vindos de África?

A estátua da Liberdade vai continuar tal como está? Não é ela um sinal de boas-vindas a todos os que procuram a terra prometida do norte da América? Pois, os mexicanos entram por outra porta. A maior parte deles nem nunca chega a pôr os olhos nessa estátua. Dá-se por feliz em ter um postal à cabeceira da cama. Se tiver a sorte de ter uma.

Pelos vistos já nem em Deus os americanos confiam. Já não confiam em nada nem em ninguém.