sexta-feira, outubro 27, 2006

E depois?


Se este país não vive uma luta de classes então que raio de merda é esta?
Quem é que se vê nas ruas a manifestar-se? Não me parece que sejam os industriais ou os empresários, esses reunem-se em hotéis ou em salas todas catitas para dizerem de sua justiça. Outro estilo, outros lugares.
Quem é que é espremido pela cobrança de impostos? Cá pra mim são os trabalhadores por conta de outrém.
Quando é preciso resolver as coisas na justiça safa-se quem paga os melhores advogados. A mesma luta noutro recinto, as mesmas hipóteses desiquilibradas de vitória.
E por aí fora.
No dia das eleições todos votamos mas nem todos contribuímos para as campanhas eleitorais dos partidos políticos. Por isso, mesmo aí, entre os que ganham há sempre uns que ganham mais que os outros.
Eu sei que a Democracia, mesmo sendo a choldra que é, é o melhor dos sistemas políticos. Mas não nos venham com a treta de que somos todos iguais perante o Estado e perante a Lei porque isso é mentira.
A verdade é que temos esse direito mas não conseguimos usufruir dele com um mínimo de qualidade. É lixado. No entanto, se não nos metermos em merdas, podemos viver bem sossegados. É uma via, uma possibilidade de existência.
Mesmo assim espero que a Democracia consiga vingar durante mais umas décadas, um século mais, qualquer coisa do género.
Mas não sei se isso vai ser possível nem tenho paciência para ficar à espera de ver!

quarta-feira, outubro 25, 2006

Tanga da grossa


Na quarta e última versão da proposta de revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD), apresentada hoje aos sindicatos, a tutela prevê a alteração dos critérios propostos para a avaliação de desempenho, considerando que a apreciação dos pais só será tida em conta com a concordância do professor.

Desde o primeiro dia em que ouvi falar desta ideia peregrina de pôr os pais a avaliar o desempenho dos professores que me pareceu tratar-se de tanga da grossa. Sempre fui de opinião que se tratava de uma falsa proposta, lançada para a mesa apenas para gerar confusão e, na devida altura, ser deixada caír. Assim o Ministério dá a sensação de estar a ceder, os sindicatos dão a imagem de estarem a ganhar qualquer coisa. Táctica velha de inventar um acessório farfalhudo para esconder o essencial. No essencial não haverá cedências.

Como o objectivo desta proposta de alteração ao estatuto da carreira docente é exclusivamente economicista, o Ministério está-se bem a borrifar para a avaliação dos pais ou das mães ou de quem quer que seja. Esse foi o acessório imbecil inventado para fazer cortina de fumo. Nas quotas para professores titulares ninguém toca já que esse é o aspecto essencial, aquilo que fica quando o fumo se dissipar.

"Se as organizações sindicais persistirem em manter um clima de conflitualidade e continuarem a programar acções de luta como as das últimas semanas, não haverá possibilidade de desenvolver esse trabalho", afirmou o secretário de Estado Adjunto e da Educação, Jorge Pedreira, em conferência de imprensa.

Aqui fica bem expressa a mentalidade democrática deste cromo e o seu talento negocial. O conhecimento que revela sobre as questões relacionadas com o funcionamento das escolas e respectiva organização permitem-lhe apenas balbuciar banalidades e meter os pés pelas mãos de forma confrangedora. Não admira que, dada a ignorância que normalmente exibe nos debates em que participa, o Senhor Pedreira anseie evitar a discussão. O perfil que apresenta está mais de acordo com uma atitude absolutista semi-iluminada do que com um governante de um executivo democrático.

Quando vejo este retrato animado a aparecer na TV penso de imediato "Lá vem tanga!"... da grossa.

terça-feira, outubro 24, 2006

Reflexo

Como que para provar que há sempre um outro lado, O Inimigo Público resolveu promover, em parceria com O Eixo do Mal, a eleição do Pior Português de Sempre. A coisa teria mais piada se não respondesse à alarvidade da RTP ao pretender eleger "democráticamente" o Maior Português de Sempre, como se um povo que não foi capaz de tomar uma posição que se visse num referendo sobre o aborto pudesse eleger o que que que fosse com um mínimo de credibilidade.

Para quem não passou os olhos no Inimigo do passado Sábado um saltinho a http://piorportugues.blogspot.com/ permite tomar contacto com as personalidades propostas para as listas de candidatos.

Há duas modalidades: "Que político mais contribuiu para a ruína do nosso País?" e "Quem melhor encarna as piores qualidades do povo português?". Os visitantes deste sítio podem ainda propor nomes que venham a engrossar as listas justificando com brevidade as razões da sua opção.

Na 1ª modalidade ficamos a saber que D. João V é candidato nomeado para a secção dos políticos por ter sido "O Rei Sol de pacotilha que estoirou todo o ouro do Brasil em talhas douradas e querubins de mármore." e que Egas Moniz "Representa a capacidade tão nacional de realizar feitos absolutamente inúteis. No seu caso, inventou a lobotomia, ajudando a reverter milhares de cidadãos estrangeiros ao estado mental dos portugueses. Como no caso de José Saramago, a recompensa por uma vida de asneiras foi o prémio Nobel." estando, na minha opinião, bem colocado à partida para vir a conquistar o título de retrato mais fiel das piores qualidades do povo português. Estou a pensar votar nele mas confesso que ainda não consultei exaustivamente a lista de candidatos pelo que será prematuro fazer uma declaração de voto.

Já na votação da RTP não vejo interesse em participar uma vez que, ao que parece, a coisa é levada meio a sério.

segunda-feira, outubro 23, 2006

O punho e a rosa

Ainda me lembro quando o símbolo do Partido Socialista era um punho. Só um punho esquerdo em fundo vermelho. Digamos que, em termos simbólicos, a coisa não poderia ser mais evidente! O Partido era vermelho, cor primária e bem definida, nada de misturas ou ambiguidades.
Mas um dia chegou a rosa.

Tanto quanto me lembro ainda houve campanhas em que o símbolo do PS português copiou o do espanhol, com o punho caído a segurar a flor, como se fosse uma jarrinha de louça. Foi Guterres quem trouxe essa simbologia? Não me recordo. O que fica na retina é a tentativa de adocicar a coisa. Mesmo a cor de fundo passou a rosa, mistura de vermelho e branco, a confundir os espíritos pela indefinição.

O PS passou a fazer papel de cordeirinho que rosna (ou de lobinho que bale, depende da facção) e, nos tempos que correm, é o que se vê. O símbolo que ilustra este post mostra como andam as modas. O Partido Socialista é o do punho. O da rosa é o PS. Os dois juntos são a coisa que nos governa. Nem merda nem penico, nem cú nem peido, antes o que vai sendo necessário para manter as rédeas do poder apertadas e o freio nos dentes em correria louca em direcção a... não se sabe onde nem o quê.

As medidas mais recentes em nome do Orçamento de Estado para 2007 vêm mostrar que o Partido Socialista/PS se dedica a apertar os tomates às classes menos favorecidas. Nos noticiários da SIC já começam a comparar as afirmações de Sócrates quando era líder da oposição com as de Sócrates 1º ministro evidenciando as reviravoltas no discurso.

Foram até desenterrar Santana Lopes e mostram como o homem era, afinal, bem intencionado e que Sócrates está agora a copiar ideias que anteriormente declarava serem hediondas, revelando uma falta de integridade digna de um banqueiro.

Tempos difíceis para o Partido Socialista/PS. O PPD/PSD e o CDS/PP (repare-se como estes partidos têm todos nome próprio e apelido) contra atacam alegremente e com fé na Nossa Senhora de Fátima. Pinto Balsemão parece ter decidido iniciar a Contra Reforma já hoje. Terá isto algo a ver com o referendo do aborto que se avizinha? Quererão os inimigos do ministro com nome de filósofo grego aproveitar a campanha desse referendo para tentarem agitar a podridão de consciência de largas franjas do bom povo português?

Aguardam-se os próximos episódios.

domingo, outubro 22, 2006

Little Miss Sunshine

Não interessa de onde vens nem para onde vais, o que interessa é o que te acontece no caminho.

Mais um caso de título impossível. Little Miss Sunshine no original dá, em português, "Uma família à beira de um ataque de nervos". Admito que não desse para fazer uma tradução literal. Miss Little Sunshine é, tanto quanto percebi, a designação de um concurso de beleza infantil, daqueles que são promovidos nos States o que por aquelas bandas terá outro impacto nos espectadores. Mas colar o título deste filme a uma expressão que se vulgarizou entre nós graças a um outro, de Pedro Almodóvar, é, no mínimo, lamentável até porque os filmes não têm nada comum.

Este Miss Little Sunshine vê-se com interesse do primeiro ao último plano. É um daqueles filmes americanos que nem parecem sê-lo (estou a lembrar-me do recente "A lula e a baleia", um título decente e literal). Poucos meios de produção, um conjunto de actores perfeito para os papéis, um argumento bem recortado e uma realização esmerada, onde mesmo os planos mais inocentes parecem ter sido estudados com a minúcia de uma pintura neoclássica. A montagem refina a qualidade potencial das filmagens e o resultado, apesar de um ou outro momento mais redundante, acaba por ser mais do que satisfatório.

O tema da viagem, tão recorrente desde, pelo menos,a Odisseia(:-), é mais uma vez revisitado. Não será aquilo que se chama ou road-movie (tanto quanto me parece) mas a ideia de que as viagens nos modificam, que interessa mais aquilo que nos acontece entre o ponto de partida e o de chegada mais do que outra coisa qualquer, fica claramente expressa na redenção final das personagens sobreviventes.

Para o espectador europeu fica também aquele travozinho adocicado de compreender que uma certa visão dos EUA e dos seus habitantes não é sinónimo de anti-americanismo primário mas apenas uma visão possível, colocando o cérebro numa determinada perspectiva. As cenas finais, rodadas durante o tal concurso, são bem significativas.

Um filme a ver sem sombra para qualquer dúvida.

sábado, outubro 21, 2006

É a pintura artesanato?

http://www.sfmoma.org/images/ma/exhib_detail/bill_viola3.jpg

Estará a pintura a reduzir-se? A princesinha das belas-artes (não há que temer o kitsch, já não faz sentido, ahahahah) estará a ser traída pelos seus próprios guardiões? Nos dias que correm o vídeo tem vindo a chegar o rabiosque ao trono e já há quem lhe preste vassalagem com maior devoção que à pintura. Ai, ai, atrás dos tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir. Então que venham!

Lá vai o tempo da escultura. Os grandes escultores clássicos, gregos, renascentistas, o imortal Bernini (http://www.artchive.com/artchive/B/bernini.html) talvez o maior de todos os tempos, foram postos a um canto pela versatilidade dos pintores do século XIX/XX que puseram a sua arte no centro da reflexão estética. Pensar a arte era fazer pintura. A escultura parecia coisa demasiado pesada, demasiado objectual para poder ilustrar conceitos puros acerca da arte. Bons tempos para os artistas pintores. Mesmo o grande Duchamp se dividiu entre pensar, pintar, fazer, inventar um novo sentido para a criação artística. Ah, o Grande Vidro (http://www.beatmuseum.org/duchamp/bride.html)! O espaço envolvente sugado pelo objecto plástico, a revolução total no ser artista, fazer arte a partir do nada. Caramba, deve ter sido demais!

Reinventar uma linguagem milenar, criar novas fronteiras no espaço sideral do pensamento humano, os pintores incharam como o sapo que fuma, convencidos que na pintura estava tudo o que poderia interessar ao discurso estético, como se a pintura fosse "a" arte (a tal princesinha). E, tal como o sapo, PUM! Rebentaram (rebentámos) deixando um jacto de fumo que estabiliza em nuvem passageira e começa já a sturar-se na paisagem.

Depois da composição "Branco sobre Branco" de Malevitch (http://www.a-r-t-asso.org/ully/malevitch_blanc/presentation.htm) não restou mais nada para inventar. A pintura tornou-se um infindável processo de citação. As pinturas mais agressivas que já vi em dias de vida foram deste russo maluco numa exposição intitulada Malevitch e o Cinema, no CCB, que visitei com o Fernando Ribeiro já nem sei quando.

É estranho como a pintura à medida que vai anulando o objecto da sua superfície gera mais e mais ideias, palavras, textos e reflexão. Quanto menos referências ao mundo circundante mais falatório, maior necessidade de dizer aquilo que não está lá e que, em boa verdade, a maioria dos mortais não vê se ninguém lhe contar a história daquilo que vê e deve pensar. A pintura é então substituída pela crítica e morre um pouco. Deixa de ser o que é suposto ser para se transformar em reflexão pura, conceito.

Já Cézanne (http://www.expo-cezanne.com/2.cfm) advogava a ideia de que o pintor deveria evitar a literatura no seu trabalho para se dedicar a uma arte baseada nos elementos básicos da linguagem visual. Sinceramente, as pinturas deste mestre parecem-me sempre demasiado presas e pouco estimulantes. O seu valor é, a meu ver e tal como Malevitch, mais conceptual do que objectual. Qualquer obra de Ingres é bem mais espectacular!

Resumindo: de tanto reflectir sobre si própria, a pintura acabou por sugerir um certo esgotamento vendo-se, nos dias que correm, ultrapassada pelo vídeo nas preferências dos novos artistas. Pintar é quase como fazer artesanato. É um trabalho sujo, difícil, um trabalho que exige demasiado do artista. Num tempo em que tudo tende a ser normalizado, embalado e pronto a consumir, o tempo de aprendizagem e de realização exigido pelas técnicas pictóricas parece, cada vez mais, um arcaísmo. O tempo, agora, é muito mais rápido.

A vida não está fácil para a pintura que se chega ao campo do artesanato por oposição às novas tecnologias da imagem luminosa e em movimento.
Será tanto assim, ou estarei a exagerar?

quinta-feira, outubro 19, 2006

Tomar partido

O referendo sobre o aborto está decidido. Agora não há que ficar à espera, há que tomar partido. O referendo anterior foi uma autêntica vergonha pelo número inacreditável de eleitores que enfiaram a cabeça num balde de merda e preferiram fingir que o dia da votação não era mais que um carnaval de avestruzes. Desta vez será o dia da grande decisão. Todos os votos contam, não podemos voltar a ficar reféns de uma minoria transformada em maioria pela abstenção.
Os fingidos que militam nos movimentos "pró-vida" sabem bem que as suas mulheres não têm problemas e dispensam a despenalização já que, quem tem dinheiro, vai a uma clínica espanhola e pronto. Eles que continuem com a cabeça enfiada na merda. Nós temos necessidade de respirar outra vez ou então é como se estivessemos a forrar o interior do balde.
Que nenhum voto se perca!

http://www.kameraphoto.com/ um salto a este lugar para ver uma reportagem fotográfica a propósito de João Carvalho Pina em "Últimas" e, já agora, ver outros trabalhos de fotografia. Destaco as de Céu Guarda por uma questão de amizade longínqua.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Tempos difíceis


A ocupação do Rivoli e a análise da fatiazinha do Orçamento de Estado para 2007 destinada ao Ministério da Cultura mostram como o problema já não se reduz à proverbial saloiice dos dirigentes do PSD no que diz respeito à política cultural. A coisa propaga-se como nódoa de azeite em camisinha de veludo.

O ex-vereador da cultura da CM do Porto disse, após se ter afastado do cargo, que Rui Rio confunde cultura com lazer. Se fosse só ele estaríamos nós menos mal mas o problema vai mais fundo, até às entranhas da geração que actualmente desempenha os cargos de poder no nosso país.
Educados na penumbra fedorenta do salazarismo, os nossos governantes continuam a emprenhar pelos olhos com uma facilidade apenas comparável à alegria que os inunda sempre que inauguram um novo centro comercial, maior que o anterior e normalmente o maior da Europa. Aos fins de semana as famílias vão passear-se nesses edifícios grandiosos admirando as montras e os bens de consumo, como se estivessem num museu, numa qualquer catedral de cultura, enriquecendo deste modo o seu espírito, moldando assim a sua visão do mundo circundante.
Muito se tem falado nos últimos tempos do endividamento das famílias portuguesas. Com os seus hábitos "culturais" não é de admirar que isso aconteça. Tantos fins de semana a cobiçar as obras de arte expostas nas montras da Zara e da Singer enquanto ruminam um Big Mac e respectiva Coca-Cola só pode dar exactamente naquilo que dá.
Outro problema é que, além da atávica falta de hábitos culturais, somos um povo falido. Quem não tem dinheiro não tem vícios, não há papel, não há palhaços e por aí fora. Se a maioria dos portuugeses mal tem dinheiro para comer como haverá de comprar livros, assitir a espectáculos de teatro, concertos, etc. Como irá pagar a entrada nos museus (sim, porque museus à borla só aos Domingos e até às 2 da tarde que depois do cozido já não há mais pão pra malucos!) ou, muito simplesmente, comprar um jornal diário?
Sobra a TV e pouco mais. O êxito das novelas é tal que, penso, revela bem a avidez cultural de um povo semi analfabeto. O povo gosta de rir e de grandes estrondos que lhe façam saltar a tampa de espanto. Gosta de festa e de excesso não está cá para se perder em discussões bizantinas sobre a questão da luz na pintura impressionista ou a representação do poder na arquitectura do Estado Novo.
A arte é e sempre foi elitista porque os pobres não têm nem tempo nem dinheiro para investir nela. São os ricos quem investe nas formas artísticas logo é natural que elas representem preferencialmente um universo de elites. Sejam essas elites culturais ou financeiras, a história da arte revela-nos a realidade com uma nitidez impressionante. Entramos num ciclo vicioso ao qual não se adivinha porta de saída.
Os ocupantes do Rivoli são uma face emotiva da sensação de que as coisas estão a piorar no campo da cultura. São a expressão de um sintoma que se acentua com um governo socialista ao contrário do que foi prometido e do que seria de esperar. Mas a Economia é a nova expressão artística dominante e o seu discurso não se compadece com sensibilidade estética e, muito menos, com ética.

terça-feira, outubro 17, 2006

(...)


Saio de casa à hora do lobisomem. Agradeço à lua não estar ainda cheia. No carro evito o espelho por receio. Até as caixas de cartão me parecem cadáveres de objectos consumidos.
Dou por mim a imaginar o futuro tal como me lembro de tê-lo imaginado para a data presente e é tudo tão parecido!
Espero estar acordado amanhã.

domingo, outubro 15, 2006

Degradação da espécie


Para quem pensasse que programas como Big Brother ou A Quinta das Celebridades tinham mostrado até que ponto a televisão pode ser um veículo para as manifestações mais degradantes do significado de "ser humano" existe um novo programa que vem provar que o fundo do poço ainda não foi atingido e podemos esperar cada vez pior sempre que for necessário aumentar as audiências.
Eu sei que há coisas como Fiel ou Infiel, as Escolhas do Professor Marcelo, Dança Comigo ou o Telejornal da TVI, mas este Canta Por Mim bate tudo aos pontos. A exploração da miséria alheia com fins comerciais é descarada, as vedetas convidadas fazem um papel miserável (até que ponto não serão obrigadas a alinhar, mesmo a contragosto, por exigências contratuais?). Em comum com os programas citados em 1º lugar neste post, Canta Por Mim tem a apresentadora, essa espécie de cromo impossível na colecção dos tipos humanos que dá pelo nome de Júlia Pinheiro.
Além de feia (facto de que não pode ser responsabilizada) esta coisa com pernas tem um mau gosto aflitivo (culpa da produção?) e denota uma falta de escrúpulos ao nível de um Al Capone (isso já é culpa dela ou de quem a tenha educado). É incoveniente, malcriada e, acima de tudo, tem uma inesgotável capacidade de explorar a miséria alheia que deveria valer internamento compulsivo numa instituição de requalificação social.
Palavras que escreva nunca poderão fazer justiça à baixeza do Canta por Mim. Acima fica o link para que os mais corajosos se atrevam a espreitar o nível da coisa. Fica, no entanto, u aviso: tenham medo... tenham muito medo!

sábado, outubro 14, 2006

Desenhar


Desenhos em progresso. Canto superior esquerdo Afastar a Morte; ao centro Hapyness; à direita uma coisa qualquer que, apesar de ser algo ainda não é nada!

Gostava de recuperar o power que tive em tempos e desenhar outra vez como se respirasse ou falasse com a vizinha do lado sobre o estado do tempo. Mas essas maravilhas criativas guarda-as a juventude e a alegria da ignorância.
Recordo com dificuldade noites inteiras a exercitar o pincel e a tinta-da-China, horas e horas a fio, dezenas de desenhos a sairem, sabe deus de onde, como uma manifestação de protesto a subir as avenidas, gritando palavras de ordem que eram manchas e conversas inflamadas que eram linhas ou coisa que o valha.
Nos dias que correm o processo é bem mais complicado e já não me basta o pincel e a tinta. Preciso de cola e recortes e guache e acrílico e esferográfica e uma espécie de esforço para deixar de ser quem sou e voltar a ser quem fui o que significa que quem desenha, cola e suspira é uma coisa meio estranha perdida algures no tempo e no espaço que, no entanto, continuo a ser eu, só que não sou bem eu.
A vantagem actual é continuar a desenhar pelo absoluto prazer de o fazer tal qual o fazia no passado.
A coisa complicou-se muito por culpa da História da Arte e dos macaquinhos que me vão alugando o sótão. Uma vez a inocência perdida não há forma de a recuperar e, em matéria de criação, não há nada que chegue ao mais puro instinto de uma adolescência tardia vivida na pasmaceira de uma cidade de província de súbito assassinada pela capital do Império e mais a sua excelentíssima Escola de Belas -Artes. Foi aí que aprendi a fingir que sou modesto e onde conheci algumas das melhores pessoas que até hoje me foi permitido conhecer.
A maturidade traz consigo a consciência do Ser o que complica (e de que maneira!) o processo criativo.
É então tempo de compensar o instinto que adormece com a técnica que se desenvolve e cresce como um polvo vivo. O resultado... bom, isso na verdade interessa muito pouco. O mais significativo é continuar a desenhar.
Para afastar a Morte.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Negócios

a sigla desta associação americana acaba por ser eloquente...


Pretender uma actividade de criação artística totalmente independente do investimento do dinheiro público e, em simultâneo, esperar que se reconheça vontade de "proteger" as artes não passa pela cabeça do palhaço mais pintado.

Por partes:
O Estado cada vez mais se retira da cena de apoio à criação artística. Os célebres e controversos subsídios para criação e montagem de espectáculos teatrais são mais uma miragem que uma recordação, as bolsas para escritores volatilizaram-se, as aquisições de obras de arte contemporânea pelo Estado... não me parece que isso exista.

Ora bem, o que queriam os artistas? Batatinhas, não? Os artistas, se querem sê-lo, devem conseguir garantir a sua independência através do comércio dos resultados do seu trabalho. Não podem esperar que instituições do Estado estejam disponíveis para investir neles!

Este é um princípio agora sagrado. O neoconservadorismo (e não só) tem da arte uma perspectiva pouco empolgante. Como são conservadores não vêem razão nenhuma para que se façam investimentos na criação de objectos de arte inovadores. Ainda por cima a maior parte dos artistas não é lá muito conservador (ossos do ofício) daí que sejam uma espécie a extinguir suavemente, sem dar muito nas vistas. Alguns artistas têm o hábito incómodo de morder a mão que os alimenta, tal qual alguns cães raivosos e pouco dados a que lhes passem a mão pelo pêlo.

Restam então os mecenas e investidores privados, raríssimos coleccionadores, enfim, aves demasiado raras para que se possa imaginar um mercado ou uma rede de criadores minimamente funcional.

O caso do teatro é paradigmático. Os apoios do Ministério da Cultura seriam miseráveis e pouco claros na forma como eram apreciados pelo júri e distribuídos pelos candidatos mas permitiam um teatro menos convencional e mais variado na suas opções, estéticas ou
outras. O panorama teatral era bem mais variado do que o actual, apesar dos esforços notáveis de alguns criadores independentes para manterem o Teatro a um nível diferente de Morangos com Açúcar ou longe de uma Conversa da Treta.
Enfim... não me consta que Miguel Ângelo tenha pintado a Capela Sistina porque lhe deu na bolha e sei que Daumier ia morrendo de fome. A Arte não é um negócio como os outros, muitas vezes não chega sequer a ser um negócio mas os conservadores que ocupam o poder com o seu olhar economicista não vêem muito mais que um palmo à frente do nariz noutras matérias que exijam mais que uma máquina de calcular.
Se calhar até têm razão nos cortes orçamentais e a arte não serve para nada que (lhes) interesse. Mas ao menos podiam poupar-nos a personagens como Isabel Pires de Lima e outras tristezas.

quarta-feira, outubro 11, 2006

Brincadeira?

criancinhas norte coreanas em brincadeira tradicional

"O Governo da Coreia do Norte afirma que a continuação da pressão por parte dos Estados Unidos será interpretada como uma declaração de guerra, que levará o país a tomar "uma série de contra-medidas" não especificadas. "

Retirado de Público on line

Nem sei se dá para levar a sério uma conversa deste género!
Este mundo está definitivamente entregue a palhaços maus e demasiado perigosos.

terça-feira, outubro 10, 2006

Futebol, cultura Pop


Cristiano Ronaldo como Super-Homem


Se há tema de conversa universal, do Iraque ao México, da China à Austrália, no campo, na cidade, na fábrica, na escola, na cama e na sanita, onde e quando quer que seja, tema ao alcance de milhões de cidadãos por esse mundo fora, é o futebol.

Toda a gente pode opinar sem precisar de fazer grandes investimentos nem estudos. O jogo, em si, é suficientemente simples. Toda a gente pode jogá-lo desde que tenha uma bola. Com a globalização o futebol tornou-se um verdadeiro fenómeno.

A mediatização trouxe também uma nova exposição dos jogadores mais habilidosos ao ponto de os transformar em verdadeiros ícones populares. As revistas de mexericos interessam-se por pormenores até aqui impensáveis relacionados com os hábitos e a vida quotidiana das personagens principais e a sobre-exposição do jogo, omnipresente nos écrãs de televisão, fazem da mais pequena banalidade motivo de notícia e de momentos fugazes acontecimentos históricos.

Uma coisa verdadeiramente estranha pela sua dimensão.
As telenovelas são fenómenos localizados, as fronteiras oferecem-lhes alguma resistência. Entre Hollywood e Bollywood há uma inultrapassável barreira cultural, as vedetas de uma não se misturam com as de outra. No campo das artes plásticas nem vale a pena falar. Mas o futebol... senhores!

Os ídolos do pontapé na chincha são pessoas comuns que saem do anonimato graças a uma espécie de dom maravilhoso e ascendem ao estrelato como que por magia. São fenómenos de uma cultura popular a nível planetário gerados de forma espontânea, reconhecidos em todo o mundo por ser tão fácil de compreender o que fazem e por despertar tantas paixões impossíveis.

O futebol é a materialização actual de uma verdadeira cultura Pop.

Estranha coisa, esta conversa.

domingo, outubro 08, 2006

Sem comentários

Young God, RSXX, acrílico sobre papel 2004

Jornal Público, hoje mesmo:

"Se só Deus é Deus, se não há nada no mundo que seja divino, parece que ficaria o campo liberto para as mil iniciativas e realizações da criatividade humana." (...) "Acontece que a tendência à sacralização de palavras, textos, gestos, leis, ritos e pessoas levou os próprios monoteístas pelos caminhos das religiões pagãs que pretendiam superar. Mas o pior de tudo foi a sacralização da violência, isto é, a violência exercida em nome de Deus. Chegou-se mesmo a fazer de Deus o "Senhor dos exércitos" e o patrocinador das guerras mais cruéis, presentes em algumas narrativas e orações bíblicas."

Frei Bento Domingues, Religião e violência, página 8

"Bispo de Leiria-Fátima vai convidar Papa a visitar o santuário
(...) O papa inauguraria desse modo, a nova Igreja da Santíssima Trindade, que se encontra em fase final de construção. Já quanto à canonização dos dois videntes, o bispo não tem certezas: "O processo de canonização ainda não está definido: a equipa médica da Congregação da Causa dos Santos [do Vaticano] está a analisar a solidez do milagre exigido para ver se tem condições de poder ser declarado milagre ou não.
(...) Mesmo se o milagre em que se baseou a beatificação da Jacinta e Francisco Marto (...) foi considerado pouco sério por algumas pessoas, o bispo diz confiar nas equipas médicas e teológicas da Congregação (...) actualmente presidida pelo cardeal português José Saraiva Martins.
(...) Quanto à nova igreja (...) o custo está, actualmente, em cerca de 45 milhões de euros (...)."
(...) O caos urbano de Fátima leva o bispo a lamentar a ausência de um plano director no crescimento da localidade. O Estado, diz [o bispo], deve agora "apoiar tudo o que possa tornar a cidade mais bela, acolhedora e funcional". E justifica: Fátima "é um centro de atracção de turismo como não há outro em Portugal, com 4 a 5 milhões de turistas por ano", com o que isso significa de "desenvolvimento social, económico, cultural do país".

António Marujo, página 24

Sem comentários.

sábado, outubro 07, 2006

Televisão

"Quem vê TV
Sofre mais que no WC"

Estes versos maravilhosos eram cantados por João Grande, vocalista dos Táxi (quem se recorda?) e estão bem como ilustração para o que se segue.

A SIC celebra 14 anos de existência com um desfile grotesco Avenida da Liberdade abaixo. Auto-intitulando-se como "a televisão do povo " e tendo em conta as personagens que ornamentam o desfile muito está dito mas pretendo apenas acrescentar qualquer coisinha.

Quando, há 14 anos atrás, surgiram as televisões privadas, um dos argumentos que mais entusiasmavam o pessoalinho era a miragem da diversidade. Habituados a uma RTP refém dos poderes políticos e outros de natureza menos evidente, os portugas viam com alguma ansiedade a possibilidade de terem ao seu dispor algo completamente diferente.

A coisa começou logo inquinada com a atribuição de um canal à igreja católica, mas o povão virava-se, principalmente, para a SIC já que da igreja não esperava nada que não tivesse já comido até ao vómito.

Passados 14 anos constatamos que não podia ter havido maior ilusão! Afinal a diversidade era um engano grosseiro já que as diferentes televisões adoptam uma estratégia de marcação cerrada. Se um canal transmite novelas ás 7 horas o outro responde com o mesmo tipo de produto e por aí fora até termos clones horrendos em constante actividade nos écrãs, 24 horas por dia.

Basta dar uma olhadela às programações no jornal. O chamado horário nobre, a parte do dia em que a população portuguesa pasta e rumina programas de televisão, os canais abertos passam mais ou menos o mesmo tipo de produtos. Concursos, novelas, telejornais, uns por cima dos outros, tudo a mesmíssima merda. A diversidade era uma mentira calculada.

Doses cavalares de publicidade, uma imbecilização despudorada, o elogio da boçalidade são aspectos característicos da oferta televisiva. Para um povo de brutos programas feitos à medida. À brutidão oferece-se embrutecimento e assim, num crescendo vulcânico, teremos um dia uma explosão tal de rasqueirice humana que o país ficará submerso em merda por séculos e séculos fazendo jus ao destino que traçou para si próprio desde o 1ª dia. É a felicidade prometida.

Poderia estar para aqui a bater no ceguinho o dia todo mas, como eu próprio faço parte do ceguinho fico-me por aqui. Estou a precisar de ir ali, ao quarto de banho.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Haja Fé!

Finalmente a confirmação: o muro vai ser levantado.
Apesar das dúvidas e dos problemas técnicos previsíveis, o muro na fronteira dos EUA com o México tem ordem para se erguer do nada.

Se juntarmos as novas regras aprovadas entre os EUA e a União Europeia relativas aos passageiros de futuros vôos daqui para lá, começamos a perceber que os americanos do norte se estão a fechar lá dentro. Cada vez é mais complicado entrar na terra da liberdade.
Por enquanto ainda é fácil sair.

O que poderá isto significar num futuro próximo?
Os pássaros são livres de se movimentar no interior da gaiola. Só que acabam por desaprender de voar e os saltitos que conseguem dar parecem-lhes o suficiente.

Haja Fé, Deus é grande.
Pelo menos parece.

quinta-feira, outubro 05, 2006

O muro


Escrevo esta carta por estranhar que a notícia do possível muro, na América, tenha caído em saco tão roto. Aqui há dias foi uma bomba! O senado norte-americano aprovara a construção de um muro na fronteira dos states com o México. No noticiário televisivo apareceu até um ministro mexicano a tentar mostrar toda a indignação que a tal proposta lhe causava, com cara de quem vê um pato-bravo a querer tapar-lhe o sol com um prédio clandestino. Tentava mas, pela expressão do seu rosto, não o conseguia por não haver palavras nem expressão facial suficientemente eloquentes numa situação como esta. “Grande bronca!”, pensei eu. Mas, afinal, desde esse dia… silêncio.
Talvez o muro não venha a existir. Espero bem. Talvez não passe de mais uma ideia neoconservadora sem pés nem cabeça como tantas outras que se vêm revelando à luz dos dias quando vão passando. Tudo isto parece tão ridículo! Mas já parecera ridícula a ideia de que alguém com dois dedos de testa pudesse imaginar os cidadãos de Bagdad aclamando o exército americano, sedentos de democracia e hambúrgueres, mas houve quem o imaginasse.
A hipótese de construir o tal muro diz muito do espírito global que anima o nosso mundo. Este mundo do “lado de cá” que também ganha expressão em Israel. Levámos uns anitos para nos decidirmos a derrubar o muro de Berlim. Ainda me lembro da festa que foi, caramba! Afinal passou tão pouco tempo e já voltamos a imitar os antigos imperadores chineses. Ou aprendemos pouca coisa ou, afinal, estávamos enganados e os muros são uma boa solução para certos problemas.
Como disse um dia Vítor Pereira, saudoso ex-árbitro do nosso futebol, muito antes de os apitos serem dourados, “Desde que vi um porco a andar de bicicleta já nada me espanta.” Será que ainda haveremos de dizer, “Desde que vi construir um muro na fronteira dos states com o México já nada me espanta.”?
Enquanto não chega a nova temporada circense podemos sempre imaginar qual o novo número que vão inventar para nos deixarem de queixo caído.


Carta ao Director do Público. Os dois últimos parágrafos foram, compreensivelmente, "cortados" na página do jornal. Continuo a não acertar o tom do meu sentido de humor.

terça-feira, outubro 03, 2006

Rau


Honoré Fragonard
Portrait of François-Henri, Duke of Harcourt, c. 1769

Finalmente fui ver a exposição da colecção de pintura do Dr. Rau, no Museu Nacional de Arte Antiga. Vale a pena, quanto mais não seja, ver Cranach, Reni, Gainsborough, Corot, e outros que tais, em Lisboa. Mas este Fragonard é, talvez, o quadro que mais me impressiona de todos os que lá dormem mais esta noite, aconchegados nas suas almofadinhas da História.

Este matreco era um pintor que não me fazia bulir nem um pouco o coração. Ele era Rocócó, ele aparecia sempre associado a uma pintura que mostra uma menina (ou senhora) a andar de baloiço no meio de um jardim, enfim, tudo coisas que, vistas assim nos livros de pintura ou de história da arte, fazem bocejar o mais desperto dos mortais cafeínados.

Ainda por cima, do alto da minha juventude, olhava estas reproduções com o desdém próprio de quem está habituado, sem o saber ainda, a emprenhar pelos olhos com a facilidade de uma galinha poedeira. Os temas de Fragonard dificilmente impressionariam um adolescente mais interessado em Philip K. Dick e nos Clash que na leitura das Viagens na Minha Terra ou de Folhas Caídas, conforme me obrigavam nos bons velhos tempos da escola secundária.

Tudo mudou quando vi, pela primeira vez na vida, no Louvre, uma pintura deste gajo. Não recordo exactamente qual, nem isso é relevante para o caso. Fiquei siderado perante o vigor incrível do trabalho de Fragonard, isso sim. Uma pincelada a rasgar o espaço da tela, uma agitação tal, uma energia tão extraordinária que percebi (mais uma vez) como o preconceito juvenil nos pode fazer corar de vergonha uns anitos mais tarde. Em silêncio e em segredo, evidentemente. Fragonard foi um dos grandes mestres do século XVIII, sem a menor sombra para dúvidas. Um moderno antes de tempo ou no tempo certo, por ter sido o dele, está bom de ver.

Este Retrato do Duque de Harcourt tem tudo "aquilo". Nada se encontra em repouso. Tudo se agita num turbilhão arrebatador de emoção e energia, caraças! Muito mais do que o tema somos levados pela emoção da Pintura.

Noutra sala há uma paisagem de Cézanne, O Mar em L'Estaque e outra de Vlaminck, Paisagem Fauve Perto de Chatou. Cézanne afirmaria que a pintura, para o ser, se devia libertar da literatura e o pintor deveria concentrar-se nos elementos fundamentais da linguagem visual. Vlaminck, na sua qualidade de fauvista, enalteceu de forma arrebatada as qualidades da cor furiosa e emotiva. Perante esta pintura de Fragonard o que eles disseram (mais ainda o que fizeram) perde sentido, esvazia-se de significado e parece mais convencimento juvenil que verdadeira teoria ou prática estética.

Vai na volta nunca tiveram a felicidade de ver obras de Fragonard. O que me parece pouco provável mas perfeitamente plausível.

domingo, outubro 01, 2006

De corpo e alma

A existência de Deus manifesta-se das mais variadas formas. A construção de uma imagem laboriosamente conseguida ao longo de séculos e séculos, desde as profundezas escuras dos úteros cavernosos da terra pré-histórica à luz brilhante do génio escultórico do pensamento grego, a energia indizível da divindade tomou as mais diversas formas, de acordo com visões, revelações e premonições mais ou menos inspiradas de artistas e poetas.

Entre nós, herdeiros da tradição greco-latina, o cristianismo foi gerando um rosto para Cristo adaptado ao sabor das circunstâncias. Muito por acção dessa campanha mediática cristã, vivemos actualmente uma civilização da imagem onde tudo o que é verdade tem um rosto e o que o não tem, ou custa a crer que existe, prefere manobrar na sombra do anonimato.
Esse imenso trabalho de revelar a face de Deus fez com que entrássemos no domínio do ícone e, tal como temiam algumas facções entre os primeiros cristãos, esquecemos frequentemente o Homem, o Profeta, e ficamos ofuscados pela imponência espectacular da imagem que Dele foi criada. Ignoramos a transcendência maravilhosa da Sua poética existência e não nos damos ao trabalho de tentar compreender a profundidade espiritual da Sua mensagem. Só temos olhos para o brilho dourado das obras imponentes que Lhe foram oferecidas por homens pouco modestos. Papas, Imperadores ou Faraós.

A Igreja católica apostólica romana exige fé. Para ela basta uma fé simples para entrar no caminho da salvação da alma. Basta ser crédulo. Aos católicos não é exigida a utilização da razão para ser aceite na igreja, antes pelo contrário. Daí que a lição do Professor Ratzinger tenha sido tão mal compreendida (ou terá sido simplesmente mal preparada pelo Mestre?), a audiência, fora da sala onde proferiu o seu discurso em Ratisbona, está longe de poder compreender na totalidade as tortuosas razões teológicas por ele equacionadas. Á igreja católica interessa manter o status quo, conservar a tradição. A igreja é conservadora, não se reforma nunca por vontade própria, apenas se reforma quando acossada por alguma ímpia e insuportável pressão.

Por outro lado, uma vez que o Papa é infalível, não adianta ao Professor Ratzinger vir agora pedir desculpas na pele de Bento XVI. Cada palavra foi decerto cuidadosamente ponderada antes de ser proferida. Não é credível que o Papa tenha sido vítima de si próprio pois poucos como ele saberão tão bem o que dizem, quando o dizem e onde o dizem.

O problema é que Cristo foi um Profeta que acabou usurpado e abusado por igrejas camaleónicas que o utilizam sempre conforme as circunstâncias. Tal como fazem actualmente os fanáticos do Islão, também os cristãos das mais variadas igrejas utilizaram em vão o nome do seu Deus para justificarem crimes hediondos nas mais variadas situações.

A utilização abusiva da Sua mensagem continua não tanto para matar mas mais para roubar os pobres de espírito. Os exemplos abundam e proliferam principalmente nos subúrbios das grandes cidades entre uma população maioritariamente ignorante e completamente alheia às subtilezas teológicas necessárias para encetar com um mínimo de credibilidade o diálogo inter religioso que se afigura imprescindível aos olhos de todos os que não são fundamentalistas.
Deus poderá existir mas não tem decerto a forma que os poetas lhe deram nem os desígnios que as igrejas Lhe atribuem. Deus não pode proteger uns e amaldiçoar outros porque isso, simplesmente, não faz qualquer sentido. Acreditar nisso é reduzi-Lo à nossa insignificância e implicá-Lo nas guerras que travamos uns contra os outros, vestindo-Lhe uma farda de general de mil estrelas. A Razão impede a possibilidade de existência a uma divindade tão prosaica e tão reles que fosse capaz de condenar a vida que ela própria cria.

Como escreve Frei Bento Domingues no fecho da sua crónica de 1 de Outubro no Público, “Deus não é propriedade privada”, (texto extraordinário que mereceria maior divulgação) “Não adianta dizer que há um só Deus se esquecemos, cristãos e muçulmanos, que há uma só humanidade a respeitar e a servir por todos.”

Não adianta cuidar da alma se pretendermos ignorar o corpo que ela habita.

In God we trust

Construção do muro de Berlim

"Depois de a Câmara dos Representantes ter dado o seu aval, o Senado norte-americano aprovou sexta-feira a construção de um muro duplo com uma extensão superior a 1100 quilómetros na fronteira com o México, de forma a evitar a entrada de imigrantes ilegais no país. A decisão final está agora nas mãos do Presidente George W. Bush."

Entre Agosto de 1961 e Novembro de 1989, o muro de Berlim foi um símbolo terrível na velha Europa. Os Estados Unidos preparam-se para construir outro muro. Tal como em Israel.

A terra da Liberdade fecha-se à imigração clandestina da pior forma. Fecha-se da forma mais estúpida e, decerto, ineficaz, construindo um símbolo da sua incapacidade de confrontar a questão da pobreza com medidas mais humanas que possam, eventualmente, constituir resposta à altura do problema e da própria imagem que os EUA (ainda) reflectem no imaginário de tantos milhões de cidadãos do mundo por esse mundo fora.
Um novo muro da Vergonha.

Que fazer no Sul da Europa? Na impossibilidade de erguermos um muro no Mar e outro no Oceano como iremos tentar dar uma resposta à altura da situação criada pelas vagas de imigrantes que nos chegam vindos de África?

A estátua da Liberdade vai continuar tal como está? Não é ela um sinal de boas-vindas a todos os que procuram a terra prometida do norte da América? Pois, os mexicanos entram por outra porta. A maior parte deles nem nunca chega a pôr os olhos nessa estátua. Dá-se por feliz em ter um postal à cabeceira da cama. Se tiver a sorte de ter uma.

Pelos vistos já nem em Deus os americanos confiam. Já não confiam em nada nem em ninguém.

sábado, setembro 30, 2006

30 desenhos

Poema Escondido Com o Rabo à Mostra, tinta-da-china; acrílico, guache, esferográfica, pastel e guache sobre papel

1ª fila: Queen of Hearts; O Anjo de Cabul; Salvação; O Anjo da Guarda; Homem Dúvida; Eu Não Sei Quem Tu És; O Anjo de Freixo-de-Espada-á-Cinta; O Grande Dadamax; O Grito; Tocha Humana.
2ª fila: O Anjo da Covilhã; A Prima da Bailarina; Nós Vida; O Anjo de Viseu; Cadáver Aflito; O Grande Quíron Oferece Uma Prendinha ao Sr. Silva; Nico e Zé Arrumam o Homem; Lone Ranger's Dad; Sr. Normal; Sociedade Recreativa ou O Virgem Pai.
3ª fila: Nado Morto; Puro Sangue; Sr. Não-Sei-Quê; Papado Por Um Azar; O Homem do Taco; Here's a Happy One!; Fantasma do PAssado Passeia Bicho do Presente; Spiritu Sanctus; Lá Vai o Papa Ter Com o Papá; Uma Coisa Nem Boa Nem Má.

Duas bolinhas e uma espiral

A Senhora na Água é, talvez, o fime menos eficaz de Shyamalan. De acordo. Porque a trama não fecha, no final, como acontecia nos outros, numa reviravolta inesperada do argumento. O final deste filme vai-se anunciando desde o início e acaba por se confirmar abrindo a narrativa para fora do écran. Ao contrário dos outros filmes, que pareciam preencher o espectador, este acaba por lhe abrir um espaço no peito que arrisca esvaziá-lo.

Daí a considerar A Senhora na Água como um mau filme vai uma certa distância.
Talvez haja alguns apontamentos muito discutíveis. O papel que Shyamalan distribui a si próprio é um deles. A forma como os acontecimentos vão sendo antecipados por uma das habitantes do condomínio onde se desenrola a acção, uma velha senhora coreana, tem momentos pouco felizes, na minha opinião. Mas, mesmo assim, o desvelo com que os críticos têm ruminado o filme para depois o vomitarem com desprezo talvez se explique pela personagem do crítico de cinema.

Há um crítico de cinema que é retratado com igual desdém no filme. O argumento vai abrindo possibilidades de ele ser algo mais, algo melhor, mas, no fim, o crítico não passa de uma espécie de palhaço triste e ignorado pelos outros. Se eu fosse crítico de cinema iria achar a coisa de péssimo gosto.

Finalmente há um actor com momentos brilhantes. Paul Giamatti consegue dar uns quantos nós no coração e na garganta em momentos que, entregues a outro performer, poderiam resultar caricatos. O homem tem pinta!

Resumindo, se eu fosse crítico não daria uma bolinha ou apenas duas estrelas a este filme. Digamos que lhe assentam bem duas bolas e uma espiral, só para enfeitar e mostrar a saída da sala.

sexta-feira, setembro 29, 2006

Bolas e estrelas

Os críticos cinematográficos exercem uma estranha actividade quando tentam traduzir em estrelas ou bolinhas as suas doutas opiniões sobre os filmes que vão vendo.

Pergunto-me se irão aos filmes com o fastio próprio de quem se vê obrigado a cumprir uma tarefa profissional independentemente da vontade em o fazer ou não. Serão obrigados a ver tudo ou só algumas coisas? Apenas o que imaginam poder vir a apreciar com gosto ou escolherão filmes que sabem de antemão ir odiar profundamente?

Hoje irei assitir à projecção do mais recente filme de Shyamalan. A fiar-me na opinião unânime da crítica especializada melhor será ficar em casa ou alugar um filme iraniano no clube de vídeo (não deveriam chamar-se antes clubes de DVD?). As opiniões assassinam por completo o objecto e deixam o eventual espectador com os dois pés atrás, fora da porta.

Verdade, verdadinha, vi todos os filmes anteriores deste realizador e gostei tanto de todos que estou disposto a arriscar mais uma vez. Lady in the water poderá até ser uma seca, ser patético, pretensioso, uma merda, em suma. Poderá ser isso tudo, mas seria impossível deixar em branco o espaço desse cromo na minha caderneta de Shyamalan.

Mesmo que a partir de agora a sua obra perca fôlego e grandiosidade, este realizador já ganhou um espaço próprio na minha mente ou no meu espírito (não sei bem ao certo), o suficiente para não querer perder nada do que vá fazendo. Além do mais sei bem que a genialidade artística não é uma constante. É mais uma variável algo imprevisível que, quando transformada em rotina, gera objectos sempre semelhantes.

Há quem se deslumbre com a coerência das obras de determinados artistas. Eu não. Pessoalmente prefiro a surpresa e o inesperado, o resultado imprevisto. As coisas nem sempre correm bem e será impossível satisfazer um exército de críticos habituados a sentarem os cús na poltrona fiados na sua infalível capacidade de análise que encaram os objectos com a sobranceria própria daqueles a quem já nada surpreende.

Quando o objecto que analisam ultrapassa as suas previsões (sim, os críticos também têm qualquer coisa de videntes) entramos no campo do imponderável. É nessas ocasiões que atribuir estrelas e bolinhas pode revelar-se um alívio para o espírito crítico.

Para mim um filme de Shyamalan nunca poderá ser "dispensável". Mínimo dos mínimos será sempre um filme "a ver".

2º round

Reaproxima-se o debate português sobre a legalização do aborto (ou Interrupção Voluntária da Gravidez em linguagem politicamente correcta). Já andam por aí questões novas levantadas por palavras do Cardeal Patriarca de Lisboa. Será esta uma questão religiosa?

Os defensores da "coisa-tal-como-está" vêm ao debate com novas estratégias. Refinaram o discurso e usam falas mais mansas e menos contundentes. Parece que durante o tempo que decorreu desde o Referendo anterior e os dias de hoje ganharam outra consciência do problema e já estão mais compreensivos se bem que igualmente irredutíveis nas suas crenças e na fé que as anima.

Os defensores da "coisa-tem-que-mudar" continuam mais ou menos na mesma e não cedem um milímetro nas suas convicções e nos princípios que os animam. O debate não promete grande coisa, em boa verdade. Esperam-se mais acusações, demonstrações e o agitar de milhentos papões.

Por mim vejo a coisa como uma questão de saúde pública onde, como tal, deverá imperar o bom senso e alguma frieza de análise. Neste debate há sempre uma grande dose de emotividade misturada com ódios figadais que ressurgem de rompante para confundir os indecisos.

No anterior referendo a participação dos portugas foi o que se viu e nada se alterou. Espero que desta vez haja, pelo menos, uma maior afluência de cidadãos dispostos a deixar a sua opinião em forma de voto dentro das urnas.
Para que não tenhamos de nos envergonhar quando olhamos o espelho e somos nós o que o reflexo nos devolve.

terça-feira, setembro 26, 2006

http://www.irancartoon.com/index.htm

Pawel Kuczynski / Poland

Um site curioso http://www.irancartoon.com/index.htm onde se encontram centenas de cartoons espectaculares incluindo muitos olhares do "outro lado" sobre questões da actualidade internacional. Os cartoonistas árabes têm, como é evidente, leituras diferentes das dos "nossos".

Um exercício de ginástica intelectual aconselhável. Para não deixarmos o cérebro ganhar barriga!

Imagem do paraíso



O paternalismo serôdio dos católicos apostólicos romanos é pecado mortal! Padecem de soberba os que crêem estar dois palmos à frente de todos os outros em matéria de salvação da alma. A forma insidiosa como se referem à necessidade de acreditar no verdadeiro deus é nauseante. Só mentes perturbadas podem acenar com as chamas do inferno, em desespero de causa, na tentativa última de poderem servir mais uma alma para a sobremesa da sua divindade alarve, devoradora de existências humanas. E ali ficam, manápulas atrás das costas, a babarem-se extasiados enquanto assistem ao sacrifício dos pobres de espírito que entram no reino dos céus goela abaixo do deus da fúria, o deus dos exércitos, o deus vingativo que se deleita com o fedor da gordura queimada dos carneiros de Abel e despreza o resultado das colheitas de Caim. Num paraíso a escorrer bedum das nuvens, como uma tasca pouco asseada, não quero eu entrar. Nem deus me lá queria que a gente não se dá.

domingo, setembro 24, 2006

Morto-vivo


Terá alguma vez existido? Osama Bin Laden morreu? Está vivo? Qual a sua importância no tabuleiro do actual movimento terrorista internacional? Perguntas, perguntas, perguntas e as respostas não aparecem nem ninguém as conhece.

Lançadas as sementes da violência, do ódio contra os cruzados, da possibilidade da vitória parcial, da guerra terrorista global, do fanatismo imbecil e fundamentalista, Bin Laden foi passando a ser uma sombra. Até se fundir na paisagem afegã ou nalgum recanto inóspito do Paquistão. Pode até morar aqui, ao fundo da rua, vá-se lá saber!

Nos tempos que correm Bin Laden parece já não ser mais que um símbolo, um ícone de maldade e de esperança, conforme a latitude e o credo de cada um. Morto ou vivo nada muda. Bin laden alcançou o estatuto de mito. Os mitos são eternos.

A obra está feita e é de respeito. O monstro nasceu e agora tem vida própria, já não precisa que o pai o alimente. Nós que o aturemos.

Liberdade de expressão

Em toda a converseta gerada à volta da polémica intervenção do Papa que deixou a "rua islâmica" em polvorosa há um ponto que não tem sido devidamente explorado.

O facto de encararmos Ratzinger como sendo vítima de um mal-entendido por parte de um punhado de radicais inimigos da liberdade de expressão não faz dele um campeão dos livres pensadores. Nem um pouco mais ou menos!

Apesar de pretender fomentar um debate centrado na reflexão sobre a relação entre a Fé e a Razão, a verdade é que Ratzinger está muito longe de ser um defensor da liberdade de expressão. Nem poderia ser de outro modo uma vez que se trata do sum-pontifíce de um religião muito pouco dada ao contraditório. A própria suposta infalibilidade do Papa (posta em causa neste episódio de forma muito nítida) não permitirá grandes polémicas em torno das suas afirmações.

Basta lembrar a sua posição perante uma situação tão básica como a da recente "crise dos cartoons" e a forma como afirmou ser intolerável que se ponham em causa certos dogmas característicos das religiões do Livro. Por aí não merecerá grande (ou nenhuma) solidariedade.

Serviria este episódio para iluminar Ratzinger com alguma humildade caso não se tratasse de uma personagem convicta da superioridade inquestionável da sua fé e respectivos pontos de vista, se assim lhes posso chamar uma vez que pretendem ser verdades inquestionáveis.

"Quem com ferros mata, com ferros morre". Pois é. É lixado!

quinta-feira, setembro 21, 2006

As 3 graças

The Three Graces1639Oil on wood, 221 x 181 cmMuseo del Prado, Madrid
As mulheres pintadas por Rubens. Segue o texto em inglês retirado de http://www.wga.hu/index1.html um excelente site dedicado à pintura e escultura europeias entre os séculos XII e XIX. Indispensável para quem pretende aprofundar conhecimentos nestas áreas. 5 estrelas!!!
The Three Graces is one of the artist's final works. He had portrayed this theme several times since about 1620, but only later adopted the form that prevailed in classical Antiquity, with the three figures forming a circle so that one of them has her back to the spectator.
"They were the goddesses of pleasant charm, of charitable deeds and of gratitude . .. without them nothing would be graceful or pleasing. They gave people friendliness, uprightness of character, sweetness and conversation...They were presented as three beautiful virgins and were either completely naked or clothed in some fine, transparent fabric...They stood together all three so that two of their faces were turned towards the spectator and only one was turned away from him."
Rubens' late painting of three nude figures magnificently illustrates the artist's extraordinary handling of incarnate or human flesh tones. Rubens builds them up using the three primary colours yellow, red and blue. An unusually high proportion of blue is evident here. In this way, the human figure bears the same primary colours that make up the appearance of the world and the entire cosmos, and all that is gathered here in the landscape and flowers, the sky and the trees.

terça-feira, setembro 19, 2006

Morte às magras!

O ideal de beleza feminino não é eterno. Das mulheres pintadas por Rubens, exuberantes de celulite, às modelos escanzeladas que agora se vêem empurradas para a sombra das passerelles espanholas, muita coisa foi mudando.
As imagens de mulheres com anorexia são aterradoras, competindo directamente com as fotos dos campos de concentração nazis ou dos famintos etíopes que nos entraram olhos dentro para revelarem a fome em África.
Não me parece que discriminar modelos por serem demasiado "leves" traga grande proveito ao mundo. Talvez se possa negociar uma quota para raparigas mais cheias nos desfiles. Quem sabe vai surgir um destes dias uma espectacular colecção para números XXL e fazer furor.
Estaremos a assistir aos primeiros passos na direcção de um novo cânone de beleza feminina? Não me cheira, mas lá que seria curioso, disso não tenho dúvidas!

segunda-feira, setembro 18, 2006

Santidade alienígena


O Guia Supremo da Revolução Islâmica iraniana, o "ayatollah" Ali Khamenei, fustigou hoje as recentes declarações de Bento XVI sobre fé muçulmana, argumentando que o discurso proferido pelo Papa na Alemanha é "o último elo" da cruzada lançada pela América contra o Islão.

O delírio é um estado de alma perigoso quando aquele que delira tem responsabilidades perante a opinião pública. Ali Khamenei deve tomar alguma droga demasiado poderosa para os seus frágeis neurónios e o resultado está bem à vista.
Interessado na inflamação até ao rebentamento da pústula, este líder espiritual do povo iraniano está a brincar com o fogo. O que quererá este gajo queimar? Quem quererá ele atirar para as profundezas do inferno?
"Quem brinca com o fogo queima-se" diz o adágio popular.
Queima-se Ratzinger, por ter ido buscar um imperador bizantino que não era para aqui chamado e queima-se Khamenei por ser tão hipócrita no aproveitamneto da soberba papal.
Se Deus existe há-de estar apenas a engendrar a melhor forma de cozer, escalfar, depenar e esfolar estes e outros assassinos da inteligência humana. Mais este que o outro mas, enfim, numa situação tão estupidamente explosiva como esta, venha... Deus e escolha!

domingo, setembro 17, 2006

A ofensa



A polémica em redor do discurso do Papa é mais um episódio algo repugnante no filme da auto vitimização daquilo a que se convencionou chamar a "rua islâmica".
A insistência de alguns líderes islâmicos em representarem o papel de virgens ofendidas é nítido sintoma de má-fé e a cobertura mediática que lhes é dada nos meios de comunicação ocidentais também não cheira lá muito bem.

A susceptibilidade desses homens ao mínimo gesto que considerem ofensivo mantém em fogo lento o suposto choque de civilizações que, ao que parece, interessa propagandear aos sete ventos. A quem aproveita este confronto latente?

Por um lado mantém activos os líderes religiosos islâmicos mais radicais. Por outro lado vai justificando a desconfiança com que nós, os "cristãos", olhamos um mundo árabe que apenas conhecemos em abstracto e que nos habituamos a encarar como sendo um perigo para o nosso modo de vida democrático e para a livre expressão que o caracteriza.

Sempre que surgem imagens de homens árabes irritados, aos gritos, queimando efígies de líderes ocidentais ou bandeiras pelas ruas, a sensação de que há do outro lado uma enorme animosidade em relação a "nós" justifica que nos mantenhamos em guarda e aproveita a estratégia da guerra ao terrorismo, vital para a sobrevivência de Bush e outros como ele.

Para o Islão é fundamental manter em laboração a sua fábrica de mártires e heróis da jhiad que produz constantemente novos ícones de uma suposta anti-cruzada que vendem às suas populações. Para o lado de cá é fundamental manter uma imagem de bárbaros fanáticos que nos odeiam e que é preciso combater à bomba uma vez que, como episódios deste género provam, não há a mínima possibilidade de manter um diálogo civilizado com estes bandidos.

Ratzinger é uma personagem muito pouco simpática. É vaidoso e tem estampado no rosto o pecado mortal da soberba. É olhado com desconfiança por muitos católicos que se tinham habituado a Wojtyla, um papa com uma imagem bem mais bonacheirona e caridosa apesar de ser tão ou mais carismático que este.

Sobre a polémica actual é de salientar a posição da Comunidade Islâmica de Lisboa que, através de um comunicado, apesar de mostrar desagrado pelas palavras do discurso papal, reconhece que ele não pretenderia ofender ninguém tendo apenas sido infeliz no modo como expressou uma determinada opinião. Isto mostra como é possível a sã convivência religiosa num mundo democrático. Basta utilizar o bom senso, ou a graça de Deus, o que lhe quisermos chamar.

sábado, setembro 16, 2006

O Homem Duplo

Quando estive em Londres, no mês de Agosto, este cartaz andava por todo o lado.
Na minha qualidade de velho devorador dos livros de Philip K. Dick isto dizia-me qualquer coisa. Trata-se da adaptação cinematográfica de O Homem Duplo, na versão portuguesa editada pela colecção Argonauta (nº 316), traduzida pelo saudoso Eurico da Fonseca (ainda é vivo?).

As edições da Argonauta são intragáveis. Na adolescência li uns atrás dos outros. Heinlein, Ursula Le Guin, Frederick Pohl, o inesquecível Aldriss. Nos dias que correm é-me absolutamente impossível regressar a essas leituras já que as versões portuguesas são piores que más e o tempo fez de mim um consumidor muito mais exigente.

O que me dói mais é não ser capaz de regressar a Philip K. Dick (nem as edições da Europa América se safam). Ficaram memórias esquemáticas dos contos exemplares deste maluco encartado. Entre elas O Homem Duplo é das mais brilhantes (Blade Runner, Os 3 Estigmas de Palmer Eldrich ou Os Clãs da Lua de Alfa continuam perfeitamente nítidos na confusão das memórias da adolescência) pela extraodinária lucidez com que aborda a fritura dos miolos que é provocada pelo consumo exagerado de drogas.

Em A Scanner Darkly/O Homem Duplo, Dick consegue ser comovente pela lucidez que empresta ao leitor na sua visão alucinada do mundo dos junkies. A personagem central é um polícia de uma força especial ultra secreta que recebe uma missão bizarra. A força policial a que pertence é tão secreta que a sua função é vigiar-se a si próprio e aos que vivem com ele 24 horas por dia...
Os resultados são trágicos e caóticos para o pobre polícia (ou será ele um junkie?) com um final absolutamente inesperado.

A versão cinematográfica conta com o zombie Keanu Reeves, certamente no protagonista, e mais uns quantos actores sem grande chama. Não faço ideia quem seja o realizador (não me dei ao trabalho de procurar) nem nada disso me interessa minimamente. Sei que, quando estrear por estas bandas, vou ver, dê lá por onde der.

As adaptações de K. Dick para o cinema nem sempre têm sido particularmente felizes. Talvez O Relatório Minoritário de Spielberg tenha sido capaz de actualizar o extraordinário Blade Runner, obra maior de um cineasta menor (Ridley Scott).

Mas, na verdade, o que interessa isso. O que aí vem será outra coisa e é essa coisa que havemos de ir ver!

quinta-feira, setembro 14, 2006

A beijoca

O mundo do futebol em geral e o do futebol português em particular, não deixam de nos surpreender em cada curva do destino.
Parece evidente que, desde sempre, houve demasiadas falcatruas nos campeonatos nacionais. Talvez isso explique porque razão, além dos crónicos vencedores Benfica, Sporting e Porto, apenas por uma vez, no tempo da outra senhora, o Belenenses (clube que tinha o Presidente Américo Tomás na foto oficial e a Cruz de Cristo como emblema) tenha ganho o campeonato. E que, por razões que começam a ganhar contornos mais visíveis, o Boavista do Major Valentim tenha também alcançado o tão desejado estatuto de campeão nacional numa época mais recente.

Não há regra que se aguente nesse planeta selvagem. Os juízes que constituem os seus órgãos de justiça e disciplinares têm uma formação moral e cívica digna de pequenos delinquentes. Penso que personagens como o Desembargador Gomes da Silva e outras do género serão os principais responsáveis pela total ausência de rigor e de transparência que inquinam o ambiente futebolístico indígena. Estamos a falar de juízes, caramba, juízes que atropelam a lei com o à vontade com que se pisa uma barata e continuam a exercer as suas elevadas funções com pequeno sentido de responsabilidade para não dizer que agem de má fé e são totalmente indignos de se manterem na carreira e no lugar que ocupam. Estes senhores são castigados quando os apanham a abocanhar a botija com este descaramento?

Que os dirigentes dos clubes de futebol sejam vigaristas encartados parece não incomodar ninguém. O discurso deles é tão canhestro, tão cheio de meias verdades e de metáforas complicadas que apenas um iniciado se sente habilitado a compreendê-los. É preciso ler os jornais desportivos e acompanhar os inenarráveis programas televisivos que se dedicam a este complexo universo para se compreender minimamente o “futebolês”. A exposição mediática oferecida a estes paladinos da confusão é prova inquietante do nível cultural do país em que vivemos. Como é possível haver pachorra para aturar, por exemplo, uma hora de entrevista em directo na RTP 1 com o Presidente Fiúza, do Gil Vicente, para citar a mais recente estrela cintilante deste universo?

É tudo uma questão de conjuntura. Quem controlar os órgãos relacionados com a arbitragem e a aplicação das regras está habilitado a vencer. Se não for dentro das 4 linhas será na secretaria, o que acontece todos os anos nos mais variados casos e nas diferentes divisões.

Que os dirigentes não tenham formação à altura das circunstâncias é lamentável mas, enfim, compreensível. Muitos deles são pessoas do povo, formadas no calor da luta pela sobrevivência. Alguns mal sabem ler, outros mal sabem escrever pelo que as leis e as regras lhes fazem, com frequência, confusão. Mas juízes desembargadores e outros agentes da magistratura que se comportam como vulgares criminosos ou mafiosos de meia tigela é de todo intolerável e se não há forma de os castigar pelas suas comprovadas vigarices então este país não presta mesmo para nada e o nosso Estado de Direito é, pura e simplesmente, uma mentira mal intencionada.
Já estou como o outro, quem puser mão nesta pouca-vergonha merece uma beijoca!

quarta-feira, setembro 13, 2006

Pivete

Pires de Lima sugere a possibilidade do regresso de Paulo Portas à direcção do CDS-PP. O ex-ministro da defesa, que tem andado perdido nas catacumbas do esquecimento, ou encomendou a sugestão ou então agradecerá terem-no recordado como chefe.

Seja como fôr já começa a cheirar mal. Já cheira a perfumes caros e camisinhas de sêda, botões de punho e laca suave a tapar a careca. Já cheira intriga e manobras de bastidores, tresanda a populismo de direita que o da esquerda parece já estar instalado e não incomodar o pessoal por aí além.

O pivete incomoda. Acho que o melhor ainda será voltar as costas e dar de frosques. Começo a ficar cansado de ver sempre os mesmos bonecos a fazerem as mesmas cenas com ar de santos padroeiros. O Contra Informação não chega nem aos calcanhares do mundo real.
Nem um pouco mais ou menos!

domingo, setembro 10, 2006

Capitão Tótó


Na véspera do quinto aniversário do 11 de SetembroDurão Barroso quer aumentar cooperação UE-EUA na luta contra o terrorismo
O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, expressou hoje, na véspera do quinto aniversário do 11 de Setembro de 2001, que a União Europeia continua empenhada em aumentar a cooperação com os Estados Unidos da América na luta contra o terrorismo.


Quero apenas recordar que este ponta-de-lança da inteligência humana foi capaz de ter visto provas inequívocas da existência de armas de destruição maciça no Iraque durante a tristemente célebre cimeira dos Açores, onde desempenhou o papel de sopeira.

Ele mais o nosso Ministro da Defesa da altura, o inesgotável Paulinho das Feiras. Como é hoje mais do que sabido foram ambos levados à certa e fizeram o importante papel de idiotas úteis.

O que poderá levar pessoas inteligentes a tornarem-se tão ridículas num papel de bôbo mal representado? Vaidade, estupidez momentânea? O quê, meu Deus, o que pode fazer de nós simples animais quando podíamos ser gloriosamente humanos?

Nada disso os inibe de nunca mais terem falado do assunto, antes conseguem voltar à carga, fiados na nossa costumeira falta de memória. Pois sim, vai-te catar, ó capitão!

Arte, para que te quero?

Foto retirada do site de Banksy http://www.banksy.co.uk/outdoors/index.html
Deve a arte assumir um papel de intervenção política e social? Penso que sim, que é um dever e um direito que assiste ao criador artístico.
Existem outras dimensões artísticas (reflexão sobre os processos e os códigos de linguagem plástica, etc.) que me parecem menores ou, pelo menos, não tão importantes. A arte só faz sentido quando é criada com um objectivo específico de contribuir de algum modo para a transformação do mundo que rodeia o artista. Mas essa transformação não poderá restringir-se a acrescentar apenas mais um objecto aos que ja existem. Esse objecto terá de significar algo, transportar consigo uma perspectiva específica, uma narrativa actuante.

Longe vai o tempo das Vanguardas Artísticas do início do século XX. Quando Cézanne se insurgia contra aquilo que considerava "literatura" na pintura, estava a desenvolver um processo mental na busca de uma linguagem plástica pura. Os Românticos não lhe acharam graça nenhuma. Quando Mondrian concluiu que a Arte constitui uma espécie de Universo Paralelo que não reproduz o mundo circundante, antes cria um outro mundo e o acrescenta a este, atingiu um ponto extremo da reflexão sobre a própria essência do acto criativo. Estes (e tantos outros artistas) abriram vias inovadoras mas, ao contrário do que pretendiam, não esgotaram métodos anteriores nem demonstraram a superiodade da "Arte sm objecto". Os Expressionistas continuaram o seu trabalho e os Dadaístas radicalizaram o processo, subvertendo definitivamente as fronteiras criativas e o universo artístico.

Vivemos um período mais pós-Dadaísta que pós-Modernista. O triunfo nas artes pláticas foi todo ele Dada e não Moderno.
O Modernismo levou-nos até ao cimo de uma falésia onde pudemos observar um horizonte longínquo, sóbrio e despojado na sua beleza misteriosa.
O Dadaísmo faz-nos saltar da falésia sobre o vazio, cantando a plenos pulmões. Uma vez lá em baixo avançamos em direcção ao tal horizonte longínquo, não importa se temos as penas partidas ou perdemos a cabeça pelo caminho. O que interessa é o que vai acontecendo enquanto avançamos.

sábado, setembro 09, 2006

Sem título

Com Título, acrilico sobre papel, RSXX 2005
Incomoda-me sempre que encontro aquela coisa... "sem título"! Como pode alguém criar uma imagem e não lhe dar um título? Está à espera que o espectador decida, que participe no acto criativo, que encontre os caminhos sem um guia... o quê? Andamos ainda a arrastar a asa ao Modernismo quando gostamos de imaginar que isso é coisa tão do passado que não se encaixa de modo nenhum numa ideia mínima de futuro, muito menos do presente.

A ausência de título parece-me, na maior parte dos casos, ausência do que quer que seja no objecto exposto. Uma dúvida absoluta. O próprio criador se interroga perante o objecto criado. Tudo bem, que espanto!!! Uau, estou estarrecido com a estranheza do meu trabalho, sou mesmo um génio! Sou tão genial que me faltam as palavras, a minha obra é tão absoluta e sublime que não pode ter título! Uau, sou mesmo eu!!!

Acredito que um dos maiores gozos que um gajo pode ter é titular os seus trabalhos invocando dessa forma o espectador a participar na reconstrução do objecto.
A arte tem de ser e servir para algo mais que uma ejaculação do artista. Caso contrário não passará disso mesmo por muito prazer que proporcione a quem a produz e a quem goste de assistir a semelhante espectáculo.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Ondas do mar

As vagas sucessivas de imigrantes clandestinos oriundos de África que vêm bater nas praias espanholas colocam algumas questões que nem sempre são consideradas. Já se sabe que vêm em condições sub-humanas, que são enganados pelos traficantes, que arriscam tudo e a própria vida nestas viagens aventurosas mas o que esperam encontrar estes homens e mulheres vindos não sabemos bem de onde?

Quando os regimes totalitários de inspiração comunista se dissolveram após a queda do Muro de Berlim houve um episódio estranho que, na época, deixou o "lado de cá" de queixos caídos. Estou a referir-me a um navio que chegou à costa italiana a abarrotar de albaneses. Não me recordo do nome do navio mas lembro-me que a imagem daquela autêntica "nave dos loucos" foi utilizada pela Bennetton numa das suas características campanhas mediáticas. A imagem que os passageiros do navio tinham construído baseava-se em imagens televisivas. Que significado poderiam ter numa Albânia fechada sobre si própria os anúncios publicitários ou as séries televisivas que ali chegavam, ainda por cima faladas em línguas impenetráveis e incompreensíveis?

Lembro-me também de um documentário que entretanto passou na TV sobre a realidade albanesa (ou sobre o julgamento que fazíamos dela). Um amigo meu brincava dizendo que, segundo as estatísticas, havia na Albânia um sapato por habitante e aquilo que se nos revelava não andava muito longe dessa macabra visão. Numa entrevista a um "chefe de aldeia" o repórter perguntava como era viver num país tão pobre, onde tudo faltava e sem liberdade de expressão. A resposta que aquele homem magro, vestido num miserável fato e camisa branca meio desalinhada, deu nunca mais a esqueci. Disse ele que uma pessoa apenas sente a falta daquilo que já teve ou imagina que possa vir a ter. Assim sendo, tudo o que a nossa sociedade consumista oferecia (e oferece) era de tal modo inimaginável para o albanês comum que ele, simplesmente, não podia sentir a falta de nada disso! A lógica arrasadora deste pensamento assalta-me sempre que vejo notícias sobre as vagas de imigrantes da África sub-sariana.

O que imaginam estes candidatos a habitantes da Europa que virão aqui encontrar? Como concebem eles a vida, seja nos países de origem ou nos de acolhimento? Há magia envolvida, divindades protectoras, demónios inimigos ou baseia-se tudo num sistema de pensamento lógico onde a melhoria das condições de vida é objectivo bem claro e definido? Se eles soubessem (será que não sabem?) aquilo que os espera viriam na mesma?

Dúvidas, dúvidas, dúvidas.

Sei bem que a realidade é, quase sempre, uma questão de perspectiva individual. A minha realidade não admite, por não a compreender, a realidade dos habitantes do Darfur, para dar um exemplo. Ao ouvir "Darfur" não imagino nada de concreto. Sou assaltado por uma mão-cheia de imagens e ideias tão confusas quanto abstractas que não chegam a constituir uma realidade por não fazerem grande sentido. O que podem imaginar os habitantes daquela zona do Sudão quando ouvem falar da Europa?

Um dia talvez as fronteiras caiam todas, talvez as nacionalidades, a cor da pele, os credos religiosos e outras fronteiras menos perceptíveis sejam também irradiadas para sempre. Entretanto vivemos na mais completa ignorância em relação ao "outro", ao que vem à nossa procura sem sabermos o que espera ele de nós. Decerto que o "outro" também não terá grandes certezas sobre aquilo que nós esperamos dele. E volta tudo ao ponto de partida.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Não é por nada!


Condenado por defeito, acrílico sobre papel, RSXX, 2001


Os aviões passaram por aqui com suspeitos suspeitos e intenções pouco católicas, muito menos democráticas. Será assim tão importante? A quem tira isto o sono?
Que a CIA é flor malcheirosa só mesmo quem tem a penca entupida ainda não compreendera.

Que Portugal faz-de-conta que é uma coisa que afinal não é bem assim só mesmo quem acredita na bondade dos carrascos poderia entender. Não tenho nada contra a profissão de carrasco (com o desemprego que por aí vai...) mas não sei se será aceitável fechar os olhos tantas vezes sem ser por causa da força da luz do sol ou em função do estoiro do trovão. Somos como avestruzes vaidosas e escondemos a cabeça do próprio corpo, por uma questão de indecência.

Não vemos, não ouvimos, não sabemos... logo não temos culpa, ninguém pode julgar-nos! Somos inocentes de todas as acusações, somos bons e tememos Deus com o estupor do estúpido. Além do mais curvamos a espinha aos desejos do representante de Deus na terra, só isso, nada de mais. Quem pode querer saber da sorte de uma mão cheia de suspeitos de terrorismo que, se calhar, até são culpados? Quem pode preocupar-se com os fundamentos do estado de direito que fingimos respeitar? Sim, quem, a não ser uma meia dúzia de energúmenos e vendidos ao terrorismo internacional?

Vou mas é ver a Floribela e, no intervalo, vou espreitando os Morangos com Açúcar. Quem pode interessar-se por outra coisa? Nã está ali a essência do ser português? Não está ali a miragem do que somos? Não? Ai não que não está. Foda-se!

segunda-feira, setembro 04, 2006

Histórias de cowboys



Apareceram na FNAC uns quantos álbuns do Tenente Blueberry ao preço da chuva (2.90 €). Aproveitei para tapar alguns buracos na minha colecção mas ainda me faltam alguns. Serviu isto para reler as aventuras desta personagem e relembrar a mim próprio como a Banda Desenhada pode ser uma coisa extraordinária.

O primeiro volume "Forte Navajo" foi-me oferecido pelo meu pai tinha eu 6 ou 7 anos. Li-o tantas vezes que lhe perdi a conta. Durante anos foi o único álbum de BD que pude ler. O Mundo de Aventuras, o Ciclone, o Falcão e outras revistas de pequeno formato ocupavam o meu imaginário juvenil.

São 28 aventuras, até à data. Com argumento de Charlier e desenhos do maior génio da BD ainda em actividade, Jean Giraud/Gir/Moebius. Uma sequência de situações e personagens de uma imaginação a toda a prova, a leitura desta Banda Desenhada constitui um exercício de enorme prazer.

Sinceramente, gosto tanto desta coisa que nem sei como ou que hei-de dizer acerca dela.
Fica o link para um site dedicado à colecção das aventuras do Tenente Blueberry e a nota de que se trata de Banda Desenhada da melhor qualidade.

http://www.blueberry-lesite.com/

domingo, setembro 03, 2006

A Culpa é rapariga solteira!

Fazer o Pinóquio não é educá-lo! , RSXXI Outubro 2002
Não me recordo de ter alguma vez ouvido dizer que alguém aceitou a sentença do tribunal sem recorrer de imediato a outra instância judicial. No nosso país ninguém parece estar preparado para ser julgado pelos seus actos. Na verdade o português, de um modo geral, nunca se considera culpado de nada. Mesmo quando é apanhado a fazer merda da grossa encontra sempre justificação para afirmar sem tremura nem temor que "Não tenho culpa!". Pois não, há sempre uma justificação para o erro e, se não foi culpa de outrém, terá sido resultado de um conjunto de circunstâncias.

Nas escolas, nas ruas, na política, em todo o lado, o português nunca tem culpa de nada e, como tal, não pode ser condenado sem que isso constitua uma tremenda injustiça! Haverá sempre mais alguém a quem recorrer, mais uma tentativa para mostrar o seu especialíssimo ângulo de visão sobre o problema em análise. Isto faz com que a justiça seja ainda mais lenta do que já seria de esperar dada a qualidade dos seus agentes principais.

É como se não houvesse uma Lei que fosse a reger a nossa vida em comunidade e uma grande parte dos juízes parece apostada em mostrar que essa aparente falta de senso faz todo o sentido. Julgam e contrajulgam com uma leveza assustadora colocando-se muitas vezes a si próprios acima da Lei como se constituissem uma casta superior. São eles e os polícias. E os autarcas. E os políticos, de uma forma geral...

... se calhar não confiamos nas leis nem no poder precisamente porque os sinais que deles recebemos nos deixam hesitantes em acreditar nas suas boas intenções. Ou seja, somos um povo ingovernável mas, na verdade, não temos culpa...

sábado, setembro 02, 2006

Valha-nos Deus!

Que o "americano médio" é potencialmente um dos animais mais estúpidos do mundo já era de suspeitar. Afinal de contas são governados por George W. Bush, um exemplar digno de figurar em qualquer tenda de feira de enormidades que se preze.
Eu sei que o facto de termos Cavaco Silva na presidência da República não abona grande coisa em favor do "português médio". No entanto (não sei qual é exactamente a posição de Cavaco ou se está preparado para emitir uma opinião fundamnetada sobre o assunto) andamos longe de declarar o Criacionismo parte do mistério da vida ou mesmo a grande verdade universal. Já os EUA parecem andar mais perto disso que de outra coisa qualquer.
O fundamentalismo religioso é um dos pecados mais mortais que sou capaz de imaginar. É a coisa mais desprezível que um ser humano pode fazer a si próprio. É o suicídio mais abjecto que podemos praticar. O fundamentalismo religioso é a mais fértil das fontes de ódio que nos levam a perder o sentido da vida até ao ponto de sermos capazes de imaginar que outro ser humano pode não ter alma e nós sim, apenas porque dão outro nome a Deus que, só por si, é uma treta. Mas pronto, um gajo até pode estar disposto a aceitar que haja quem seja suficientemente ingénuo para engolir a história de Adão e Eva, do Deus que tudo vê e outras patranhas na mesma onda. Já não é de todo aceitável que um papalvo capaz de engolir semelhantes histórias da carochinha pegue numa arma e empunhe um livreco na outra, dizendo que é sagrado, e pretenda obrigar todos os outros a comerem da sua gamela.
Temos de agradecer aos chefões da igreja católica o facto de terem perdoado recentemente Galileu pela sua blasfémia quando afirmou que a Terra girava em volta do Sol e não o contrário. Finalmente pudemos aceitar esse facto sem corrermos o risco de ser excomungados por isso. Espero que não venham a declarar blasfemos todos aqueles que puserem em causa ser o Universo obra de Deus em seis dias ou quem duvidar que a mulher foi feita a partir de uma costela de Adão.
Aguardemos serenamente. O mundo não acaba amanhã.

sexta-feira, setembro 01, 2006

Super sem chumbo

Na minha qualidade fã incondicional de Banda Desenhada tenho nos Comics uma fonte de prazer bastante razoável. Vai daí, sempre que há uma adaptação cinematográfica não costumo perder. Andava há alguns dias com a intenção de ir ver Superman Returns e hoje cumpri o meu dever.

As coisas começaram a correr mal logo no genérico, uma pastelice pouco impressionante, a dar o tom geral do que havia de se seguir. Nem Kevin Spacey com o cabelo rapado à Lex Luthor consegue salvar a mediocridade geral do filme.

Mau argumento, desempenhos pouco conseguidos e lamechice aos pontapés. Nem mesmo os efeitos especiais são de tirar o fôlego, longe disso.

Mas o pormenor que me deu cabo da cabeça foi o penteado do Super. Aquela vírgula que lhe cai na testa quando veste o fato de herói e que penteia quando se transforma no repórter imbecil que dá pelo nome de Clark Kent é, na presente versão, de um mau gosto que distrai. Sempre que havia um grande plano era difícil reparar noutra coisa. Aquele pormenor capilar é impagável!

Comprido e chato, como a espada de Dom Afonso Henriques, o filme arrasta-se penosamente até terminar num hino super-kitsch dedicado à paternidade do super-melga que protagoniza esta macaqueação de filme de aventuras.

Longe da qualidade das adaptações do incrível Hulk, dos Batman (ha, grande Tim Burton) ou dos recentes Homens-Aranha, para citar apenas alguns, mais valia que o Super-Homem não tivesse regressado. Estava muito bem lá onde estava, porque raio havia de regressar?

Conselho de amigo: não vão ver, muito menos com crianças. A menos que não comam a sopa.