terça-feira, janeiro 02, 2007

Um Amadeo do tamanho do mundo!


Finalmente tive oportunidade de visitar a exposição "Amadeo de Souza-Cardoso: Diálogo de Vanguardas", uma excelentíssima mostra de pintura com apontamentos de escultura (pouquinhos) e desenho (muitos).
Ao longo da visita vai crescendo a convicção da grandeza de Amadeo.
O cruzamento das abordagens estéticas que o artista português foi elaborando fruto do contacto com as diferentes sensibilidades e vanguardas que conheceu é bem conseguido e a exposição tem o condão de ser límpida como um copinho de água da chuva.

À medida que o visitante avança em direcção à sala onde estão reunidas as mais mediáticas realizações de Amadeo, vai crescendo a percepção da grandeza da sua obra e da excelência do seu génio criativo (o espaço dedicado aos originais do álbum "XX dessins" é revelador... comovente, mesmo!).
Amadeo foi e continua a ser, como exaltou Almada Negreiros, "a primeira Descoberta de Portugal na Europa do séc. XX", um pequeno milagre de um Deus invejoso que resolveu roubá-lo à humanidade quando ainda mal pudera ter descoberto quem era e o que podia fazer entre nós.

Uma exposição a não perder que tem apenas o defeito de durar muito pouco tempo (termina a 14 de Janeiro). Tal como a vida deste pintor imenso, do tamanho do mundo!

domingo, dezembro 31, 2006

Ano Novo

Que o novo se distinga com clareza daquele que hoje termina é o desejo de, pelo menos, 99 das minhas 100 cabeças.
Sei que é um desejo algo ambíguo mas, como me ensinou o Mestre Jorge Pinheiro, "A boa pintura vive do contraste, sem contraste não há pintura!".
Ampliando o campo de aplicação deste conceito, excelente e límpido, podemos facilmente compreender que a uniformização é uma doença e que o consenso sem discussão é a pasmaceira absoluta. Daí que o meu desejo para o Ano Novo vá nesse sentido, seja lá isso o que for.
Distinguir claramente 2007 de 2006 poderá significar, dentro de 365 dias, muitas coisas diferentes. Poderemos ter maiores calamidades, guerras mais arrasadoras mas também maiores avanços em direcção a uma civilização mais ética e mais atenta à estética da vida.
Enfim, venha o que vier, desejo que possamos viver o futuro com a mesma intensidade com que vivemos o presente.
!!??
Bom Ano.

sábado, dezembro 30, 2006

Está feito

Saddam Hussein foi enforcado esta madrugada juntamente com o seu meio-irmão e mais o antigo presidente do tribunal revolucionário. Está feito.
Continuo a pensar que o enforcamento foi uma espécie de prenda de Natal para o antigo ditador iraquiano. Talvez tivesse sido castigo mais apropriado deixá-lo viver.

Apontamento súbito!

A aceitação da existência de um deus criador e, sobretudo, a crença abjecta num deus controleiro e castigador, inquina há demasiado tempo o pensamento dos mais simples de entre nós.
A ideia de deus é uma tentativa de expressão da Beleza mais absoluta. Deus, Ele próprio, é uma tentativa de expressão da Beleza absoluta, um retrato imperfeito (porque meramente intuído) do Belo-em-si.
Deus será a criação mais aproximada que conseguimos daquilo a que chamamos Belo, a súmula perfeita da tricotomia ideal de Schelling: verdade, bondade, beleza.
Deus é uma obra poética com toda a potência genial de uma obra inacabada, passível de vir a ser vagamente completada por cada ser humano suficientemente audaz para aceitar o vazio da sua própria existência.

Apontamento a partir da leitura de "A Estética" de Denis Huisman

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Arte é dinheiro?


As notícias são esclarecedoras: 2006 foi um ano dourado (e de que maneira) para o mercado da arte. Grandes nomes da arte do século passado tiveram obras em leilão que atingiram preços estonteantes. O Top-5 do comércio de pintura teve 2 quadros de Klimt, um de Picasso, outro de Willem de Kooning tendo cabido a Pollock o número 1 com o seu Number 5 (na imagem) pintado em 1948, vendido por 106,6 milhões de euros a um mexicano cheio de guito.

O que leva a pintura a atingir preços tão elevados continua a ser um pequeno mistério. Ao que parece é o desejo de ostentação que estará por detrás de muitas destas aquisições. Tal como passear um Ferrari pelas ruas da cidade ou convidar os amigos para um chá no salão do palácio, ter um Pollock pendurado na parede faz as delícias de qualquer ricaço com queda para o espectáculo.

O valor da obra de arte continua a merecer rios de tinta gastos na tentativa de encontrar razões que justifiquem tão descabelado investimento. A arte não parece ter nenhum valor próprio. O seu valor será fruto da conjugação de diferentes factores mais ou menos objectivos, circunstancial, portanto.

No passado, os poderosos investiam somas consideráveis no financiamento de grandes obras que serviam de veículo à sua posição e poder para espantar os seus pares e a populaça. Reis, papas, comerciantes e outros indivíduos capazes de concentrar riquezas imensas, encontravam no objecto de arte o espelho perfeito da sua suposta grandeza.

Longe da sua magia original, a arte contemporânea não se explica facilmente. Aparentemente a obra de arte perdeu em objectivo concreto aquilo que foi ganhando em hermetismo. Os pintores das cavernas não estavam, decerto, a decorar as paredes quando realizavam as suas espectaculares e inultrapassáveis representações de manadas de animais. Os escultores românicos, mais do que decorarem as catedrais, criavam narrativas dos textos bíblicos em pedra para espanto e temor de uma população crédula e estupidificada perante a grandeza dos mistérios da existência humana.

Ao longo de milhares e milhares de anos, aquilo a que hoje chamamos arte estabeleceu o contacto entre a nossa dimensão e os mundos mágicos onde habitam os deuses e as coisas antes de terem um nome que nos permita conhecê-las. As obras de arte eram portas à espera de serem abertas, possibilidades de viagens entre este mundo e os outros.

Na nossa sociedade, consumista e desapaixonada das coisas que estão para lá do visível, a arte ganha uma função que é estranha à sua vocação original transformando-se em algo para olhar e admirar. Simplesmente. 106,6 milhões de euros são muitos euros e qualquer obra de arte que tenha tal carta de apresentação será sempre considerada uma obra-prima!

Perante o nº 5 de Pollock poucos sentirão a paixão do pintor pela pintura, a pureza da coisa-em-si. Pelo contrário. Mas muitos compreenderão facilmente que se houve alguém capaz de pagar por "aquilo" 106,6 milhões de euros, então "aquilo" tem um valor do caraças. Nos dias que correm arte é dinheiro e dinheiro é arte. Muito sinceramente não vejo Mal nenhum nisso, mas também não vejo Bem.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Uma questão de prestígio

É o que dá ter uma filha adolescente que não gosta de ver filmes de animação dobrados em português além de já se arrepiar com a perspectiva de uma sala repleta de putos com menos de 10 anos, por horas de matiné. Assim sendo, depois de uma consulta rápida aos filmes em exibição no Fórum comercial de Almada, passámos o Happy Feet e Flushed Away/Por Água Abaixo e fomos fixar-nos n'O Terceiro Passo (The Prestige, no original http://theprestige.movies.go.com/) de: Christopher Nolan e com: Hugh Jackman (na foto), Christian Bale, Michael Caine além de (como é possível alguém no Cine Cartaz do Público on line ter ignorado esta senhora na ficha técnica?) Scarlett Johansson no papel de mulher (quase) fatal.
Ah, já me esquecia, o David Bowie também dá um ar da sua graça no papel de inventor misterioso.

Confesso que a minha expectativa não era nada por aí além e, no final, fiquei ligeiramente desapontado com alguns aspectos do filme.
Como é evidente não vou estar aqui a falar do enredo, digo apenas que é um daqueles enredos que não param de dar voltas sobre voltas e que são capazes de surpreender o mais atento dos espectadores no virar de cada página.
Fiquei com a sensação de que houve algum atabalhoamento na resolução de certas situações narrativas gerando, aqui e ali, alguns momentos de confusão que, apenas no final, se tornam mais ou menos claros. Esses tropeções narrativos em nada contribuem para a "espessura" dramática das personagens e retiram ao filme a possibilidade de poder ser considerado um bom filme. Na minha opinião acaba por ser apenas sofrível, apesar de momentos bem interessantes e alguma emoção.
Resumindo e concluindo: dá para ver mas, se não estiverem para "queimar" nele uma ida ao cinema, podem bem esperar que saia em DVD.
Para terminar quero ainda dizer que Hugh Jackman faz melhor o Wolverine nos filmes dos X-Men. Aqui parece um patinho fora de água.
Ah, vi também a apresentação de Apoclypto, o "tal" filme de Mel Gibson. Bastante impressionante.

Sonhos e fantasias natalícias

Muito se tem falado do consumismo desenfreado provocado na população portuguesa pela quadra natalícia. Por arrastamento falou-se também de uma espécie de guerra à pureza espiritual da época, da substituição dos símbolos tradicionais (o presépio com toda a sua iconologia característica) por símbolos menos piedosos (o pai natal, por exemplo) e da suposta investida políticamente correcta na tentativa de despir o Natal do seu significado religioso.
Tretas!
Há muito tempo que do presépio emergiram os reis magos como principais referências,
com as suas oferendas ao Menino. Todo o barulho deste ano me parece apenas um eco difuso de algo que caíu ao chão e se partiu vai já para muito tempo mas de que só agora se ouve o estrondo.
A Igreja Católica lá resolveu vitimizar-se, fazer papel de coitadinha, com as histórias de professoras espanholas que terão deitado para o lixo os presépios feitos pelos seus pequenos aluninhos inocentes (espero que ao menos tenham separado os materiais para reciclagem) e outras patranhas do género.
Com a batalha do referendo do aborto a aproximar-se a passos largos todos os argumentos são válidos e ainda a procissão vai no adro!
Nada disto me parece lá muito honesto e fico com a sensação de que, mais uma vez, a caixa de ressonância dos mass media transformou o piar de um pardal em rugido de tigre da Malásia.
Enfim, depois de uns dias na santa terrinha, lá para as bandas da fria Beira Alta, o 100 Cabeças está de regresso e pode afirmar com toda a segurança que o espírito natalício sobreviveu intacto e está de perfeita saúde. Houve bacalhau e sorrisos, abraços e beijos, reencontros daqueles que só mesmo o Natal proporciona e, claro está, muito consumo, comezaina da grossa e prendas.
A tradição ainda é o que era.

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Cabeças de cartaz















O que têm em comum todas estas personagens (e mais uma boa mão-cheia delas que não fui capaz de pescar na memória nem na NET)? Pois, acertaste, todas elas foram, à vez, cabeças de cartaz no circo ministerial da educação indígena (esta última não sei bem, não tenho a certeza quem é, mas pode muito bem ter sido ministra da educação... ou não?).

A coisa está caótica? Pois está! Mas nenhum deles tem culpa nenhuma uma vez que todos fizeram o melhor que sabiam e podiam para cuidar da educação com carinho e profissionalismo.

Quantos ministros da educação tivemos, pelo menos, nos últimos 30 anos?

Entretanto fui dar com este lugar http://www.sg.min-edu.pt/museu_3_2.htm que recomendo vivamente a todos os que se interessam pelo fenómeno educativo e são possuidores de um estômago forte e nervos de aço.

Estive a contar os bonecos e, desde o 25 de Abril de 1974, tivemos 25 ministros da educação!!! É uma média de fazer inveja a qualquer país civilizado e mostra bem a quantidade de gente com qualidades excepcionais que por aí escondida das luzes da ribalta e que, se fosse chamada a ocupar uma pasta ministerial, era bem capaz de voltar a meter a nação nos eixos! Muitos deles andam a conduzir táxis em Lisboa.

Como tivemos, decerto, muitos milhares de professores está bom de ver e fácil de calcular quem são os principais responsáveis pelo caos a que chegámos. Agora até os tribunais se metem ao barulho e vão condenando... o ministério

Primeiro por causa da repetição fraudulenta dos exames de Física e de Química, agora por não reconhecer o direito a remuneração dos professores que têm leccionado aulas de substituição. Será má vontade dos tribunais ou a equipa do ministério é, verdadeiramente, um comboio de incompetentes puxado por uma estranha locomotiva?

O homem que ri




Está feitinho. A Colecção Berardo foi avaliada para cima de um balúrdio pela insuspeita Christie's e no CCB prepara-se a exposição das obras para o grande público.
É um momento de felicidade para a cidade de Lisboa que, assim, verá inscrita nas páginas da sua oferta de turismo cultural uma importante rúbrica, capaz de atrair mais espanhóis nas diferentes celebrações de festas religiosas (Natal e Páscoa, à cabeça).
Berardo tem razões para estar satisfeito pois conseguiu alcançar um dos seus objectivos: criou um merecido espaço de celebração da sua pessoa, uma catedral dedicada aos seus feitos coleccionistas, o que muito o deve orgulhar.
A ministra da cultura lá fez o discurso da ordem afirmando que "Fazer todos os esforços para fixar a colecção em Portugal é um imperativo nacional e um dever patriótico." Isto soa um bocadinho mal. Soa a saloiice bacôca mas, vindo da boca de quem vem, não espanta nada e mostra como, para a senhora, a cultura é um bicho estranho e mal encarado. Recordo, a título de exemplo, que o governo de que a senhora faz parte prometeu elevar até 1% do Orçamento de Estado os gastos com a Cultura e, feitas as contas em nome da Santa Economia, esse investimento, afinal, caíu para 0,1%. Será a senhora que não consegue abrir a boca nos conselhos de ministros ou, mais simplesmente, quando tenta falar é mandada estar calada? Onde irá alguma vez o estado português desencantar, nos próximos 10 anos, os 316 milhões de euros necessários para aquisição da dita colecção? Penso que Berardo procurará apenas prolongar o contrato com o estado e não voltará a fazer figura de ursinho de peluche ameaçando levar os seus brinquedos para outro país caso não o deixem a ele organizar a brincadeira.

O acervo de Berardo contém muitas obras de inegável valor no panorama da história da arte do século XX, principalmente a secção Pop Art, e outras menos estimulantes apesar dos nomes nas assinaturas (recordo um Miró pouco mais que arrepiante e um pequeno mas admirável Picasso que vi em Sintra vai para uma mão cheia de anos, quando Berardo os adquiriu). No conjunto, e com uma gestão que se prevê inteligente e equilibrada, teremos à disposição do povinho um museu de arte contemporânea que, de outra forma, seria simplesmente impossível de lhe oferecer.
A partir daqui os olhares de todos os que se interessam por este tipo de fenómenos culturais vão concentrar-se no CCB e no grande Berardo, o homem que um dia julgou ter adquirido a Mona Lisa mas a quem a esposa fez notar que tinha, apenas, comprado um "print", como diz o Comendador no seu português característico.


Berardo (como podemos ver nas fotos acima) é um homem que ri. Isso é sinal de boa saúde e vontade de viver. Não se lhe exige muito mais do que isso. Portanto, será de bom tom que o Comendador mantenha esse hábito saudável e seja, de facto, um benemérito que reconhece que a ignorância é motivo de tristeza e miséria e que pretende contribuir de forma activa para combater esses flagelo do bem-estar individual e colectivo. Esperemos que Berardo nunca venha a pôr-se em bicos-de-pés. Seria uma visão ridícula e um desastre eminente.
Berardo nunca será uma bailarina.


quarta-feira, dezembro 20, 2006

Cão

Um cão dificilmente aprende a miar e, mesmo que mie, a sua vontade será sempre ladrar.

terça-feira, dezembro 19, 2006

Nós?


Time's Person of the Year: YouIn 2006, the World Wide Web became a tool for bringing together the small contributions of millions of people and making them matter.
Para a revista Time "nós" somos a personalidade do ano.
Nós todos metidos numa palavra só, "you", os que andamos pela NET a vasculhar, a escrever, a ler e mais que seja.
Nós somos a personalidade do ano por estarmos a participar na construção de um fenómeno de comunicação de massas que vai ganhando proporções mirabolantes a cada dia que passa e insistirmos nisso com persistência.
Nós, habitantes do 1º mundo, seres viventes das sociedades democráticas, mediáticas, capitalistas e consumistas, interessados na Informação. Interessados em consumi-la e em criá-la.
Nós, cada vez mais actores e, simultâneamente, espectadores da vida que nós próprios vivemos.
Nós, cientistas sociais e cobaias no nosso laboratório.
Nós, cibernautas insuspeitos.
Nós, enquanto seres virtuais, manipuladores de coisa nenhuma e de tudo, por arrasto.
Nós?

Filme de Natal

A quadra natalícia é uma época de paz, amor e gratas recordações.
É também no Natal que se aproveita a deixa e se revêem filmes mais ou menos esquecidos que se encaixam nas festividades como grão de arroz na cova de um dente.
Um dos meus preferidos continua a ser A Vida de Brian, dos inenarráveis Monty Python.
( http://www.imdb.com/title/tt0079470/ etc., etc...)
Realizado por Terry Jones no ano de 79 do século passado, A Vida de Brian continua a ser um filme extraordinário e, curiosamente, de grande actualidade.
A história de Brian, aquele que nasceu na manjedoura ao lado da que viu chegar Jesus, mantém toda a sua frescura e humor desarmante e leva-nos ás profundezas do terrorismo religioso de resistência ao invasor imperialista.
Qualquer semelhança entre a ocupação da Palestina pelos romanos com a ocupação do Iraque pelos "aliados" ocidentais será pura coincidência mas não deixa de mostrar que a história se vai repetindo de forma quase monótona.
Fica a sugestão e o apelo da cena final: "Olha sempre o lado brilhante da vida" mesmo que estejas pregado numa cruz.
Três mil estrelas!!!

Coisa estranha (ou nem por isso?)


"O Ministério da Educação promete tomar uma "decisão final e definitiva" sobre o futuro da Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS) quando terminar o actual ano lectivo, não excluindo para já "qualquer cenário", desde a generalização dos novos termos gramaticais ao seu abandono ou reconversão total."


DN digital


Mais uma vez o que impressiona não é a excelência científica do projecto mas o autismo de quem o tenta implementar. Não discuto a qualidade do trabalho dos linguistas que nos querem fazer reviver os prazeres das universidades medievais, quando a gramática era considerada uma arte. Não discuto a necessidade de ensinar e aprender essa antiga arte nas escolas de hoje. Nada disso está em causa.

O que arrepia é imaginar um professor de Português do ensino básico a ter de ensinar a TLEBS a uma turma de 28 alunos dos quais 14 sabem ler e os restantes são capazes, apenas, de escrever. Os currículos do Ensino Básico são de uma megalomania babilónica mesmo sem terem a TLEBS no topo, a enfeitar o bolo.

O que arrepia é perceber que as decisões são tomadas por personagens de ficção e não há ninguém, no mundo real, que lhes ponha travão.

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Qualquer coisa assim

O animal traz uma arma. Traz a fúria no olhar, tem uma arma na mão.
É um animal filho-da-puta, com a sua arma e o olhar aflito.
Não lhe toquem! Não lhe toquem. Afastem-se dele. Ele traz uma arma. Traz a fúria no olhar. Deixem-no estar. Afastem-se dele. Deixem-no passar. Deixem-no ir. com a sua arma na mão e a fúria no olhar.
Se precisas de alguém para matar eu sou um homem sem vontade.

Qualquer coisa assim a dançar-me nos ouvidos.

domingo, dezembro 17, 2006

A pescada

"O que é que antes de ser já o era?" Esta adivinha que partia a cabeça às criancinhas de outras eras volta à actualidade pela mãozinha marota das personagens acima retratadas. Hoje a resposta correcta já não se limita à pescada, agora temos também o Rivoli. Antes de a gestão do Rivoli ser entregue a Filipe La Féria já o era. Ou não?
O grande Rio (o Rui) está decerto mais inchado que um sapo fumador por poder mostrar a toda a corja de intelectuais desonestos que o têm acusado de ser um palonço que, afinal, é um homem de Cultura, assim mesmo, com "C" dos grandes.
La Féria garante Arte de primeira água e, sempre que possível, vai empregar nas suas produções técnicos e criadores lá de cima. Sempre que a equipa sulista estiver ocupada? Terá este aspecto pesado também na decisão do Grande Rio?
Não há dúvidas que La Féria vai encher o Rivoli de gente e ganhar rios de dinheiro e aliviar os cofres da Câmara (isto aqui já não sei bem...). O Porto ganha um tumor cultural semelhante ao que Lisboa já tem vai para uma boa mão-cheia de anos que é para não se ficar a rir. Mas é um tumor benigno que não mata nem amolenta, mais ou menos como o velho Melhoral: não faz bem nem faz mal.
Um espaço daqueles é demasiado grande para grupos independentes e produções alternativas. O que é necessário é que existam espaços adequados para esse tipo de artistas menos dados a salas cheias de gente feliz com prozac nas têmporas e o Correio da Manhã debaixo do braço. A diversidade garante a Democracia. É no contraste que a forma se define. A uniformidade gera burros sonolentos sentados defronte ao palco. Que acordam apenas para bater os cascos e zurrar de contentamento sempre que o espectáculo acaba.
Resumindo, a Cultura da Pescada vence mais uma vez e está aí para durar. A outra, a Cultura Alternativa, lá terá de fazer pela vida. Como sempre foi e continuará a ser. Há certas coisas que, para serem ditas, necessitam de Liberdade absoluta. Uma Liberdade que dinheiro e subsídios nem sempre garantem. Mas lá que ajudam...

sábado, dezembro 16, 2006

O Futuro


"Nos tempos futuros a obra de arte será substituída pela realidade imediata do mundo que nos rodeia realizado em expressão criadora pura. Mas para o conseguir é necessário que nos orientemos no sentido de uma ideia universal e que nos libertemos da tirania da Natureza. Então já não teremos necessidade de quadros nem de esculturas porque viveremos dentro da arte tornada realidade. A arte desaparecerá à medida que a própria vida ganhar em equilíbrio. Por agora a arte ainda é de importância superior porque, por uma via directa e isenta de ideias individuais, demonstra de um modo criador as leis do equilíbrio."

Piet Mondrian, Plastic Art and Pure Plastic Art (ensaios 1937-1943), Nova Iorque, 1947,
retirado de Documentos Para a Compreensão da Pintura Moderna de Walter Hess, ed. Livros do Brasil


Bem vistas as coisas, Mondrian ficou longe de ser profeta credível.
A menos que o Futuro seja aquela tal coisa que nunca mais chega e foge sempre que nos aproximamos dela. Sim, porque se algum dia vivermos o futuro ele será imediatamente transformado em presente e, num piscar de olhos, será já o passado.
Se assim for, a profecia de Mondrian sobre o destino da arte nunca se concretizará por não ser possível a ninguém viver o Futuro.

Paraíso incómodo

O facto de os exames nacionais de Filosofia para os 10º e 11º anos do Ensino Secundário deixarem de existir em 2008 e de a disciplina passar a ser opcional no 12º ano está a provocar alguma apreensão entre as elites do pensamento indígena.
As orientações do Ministério da Educação são, mais uma vez (já cansa!), postas em causa tanto pelo senso comum como pelo senso menos comum e mais elaborado.

Talvez as cabeças falantes do Ministério tenham chegado à conclusão que pensar menos diminui o sofrimento.

Um parvo despreocupado e trabalhador parece ser mil vezes preferível a um pensador, eventualmente torturado pela visão de um mundo cada vez mais obviamente injusto e pouco democrático o que lhe poderá provocar um défice de produção.
Um parvo acredita facilmente que vive em democracia desde que alguém, vestido de fato e gravata, lho garanta com o rigor próprio de um tom de voz adequado. Já um cidadão habituado a questionar a mais simples evidência terá dificuldades em engolir toda a merda que lhe queiram enfiar goela abaixo pelo funil dos meios de comunicação de massas.

O mundo está a mudar. No futuro não será melhor nem pior do que alguma vez já foi. Será diferente. Se for um mundo habitado por cidadãos que pensem menos do que os de hoje, haverá menos sofrimento para os que sofrem e menos remorso para aqueles que provocam esse sofrimento. Isso é potencialmente bom, embora à primeira vista possa parecer uma coisa má e cruel. É o ovo de Colombo do economicismo neoconservador, a porta que se entreabre para o Paraíso dos mongas em que estamos a transformar a nossa sociedade. Um paraíso incómodo.



quinta-feira, dezembro 14, 2006

Uma visão com futuro

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Uma sociedade de robots daria muito menos problemas!
Devidamente programados, os robots nunca faltariam ao trabalho nem se esquivariam aos seus deveres fiscais pagando a tempo e horas os impostos (sem a necessidade das habituais filas intermináveis no último dia do prazo).
Robots bem educados não haviam de conduzir como labregos nem estacionariam o veículo no meio da rua para irem tomar uma bica e comer um pastel de nata deixando outros robots à beira de um ataque de nervos.
Um robot seria incapaz de abandonar os animais de estimação quando rumasse à praia no Verão com a família. Outra coisa que um robot nunca faria: escarrar na rua!
A lista das vantagens que uma sociedade de robots teria sobre a nossa actual sociedade de seres de muita carne e pouco osso é interminável. Essas vantagens são tão evidentes que há quem, no silêncio e na penumbra, já venha trabalhando nesse sentido.
A formatação social globalizada é um objectivo meritório e tem chancela divina.
Agora que começamos a assistir aos primeiros sinais evidentes da falência da Democracia tal como a imaginávamos estamos precisadinhos de uma alternativa fiável. É aqui que entra a robotização dos indivíduos enquanto caminho a seguir.
Tenho cá a impressão que já metemos os pés à estrada.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

Comidinha!!!

Entrar no mundo espelhado do criacionismo é uma manobra arriscada. Desde um radicalismo tacanho até um discurso contido e sedutor, encontra-se uma imensidão de falinhas mais ou menos mansas, ora feitas de uma fé amanteigada ora fruto de árvore proibida com raízes de plástico.
Em português, a mensagem escrita soa quase sempre a Brasil, terra violada pela gula católica por almas simples e desprotegidas. O resultado da evangelização forçada do indígenas lá do sítio é o que se sabe: uma fusão religiosa e cultural emocionante e bronzeada, capaz de tirar do sério o mais circunspecto dos puritanos.
As abstrusas lucubrações criacionistas devoveram-me à memória um livro que li já vai para uns anitos, O Pão dos Deuses de um tal Terence McKenna, obra estranhamente lúcida e divertida que propõe uma revisão da evolução humana sob a luz das relações pecaminosas entre o homem e as drogas. (Notas breves sobre o autor e excertos do livro em) http://www.viaoptima.online.pt/pag.php?ref=DU2S1
Se há quem possa dar crédito às teoria criacionistas porque não levar a sério McKenna quando afirma que descende do macaco "sim, mas de um macaco pedrado!!!" A questão profunda por ele colocada tem a ver com a razão que poderá ter levado um macaco a articular sons capazes de o conduzirem à fala. Sim, o que poderá ter provocado tão radical evolução? Para McKenna só mesmo a utilização de uma droga alucinogénica, a psilocibina, encontrada em certos cogumelos (mágicos?) consumida pelos nossos antepassados peludos. O racicínio deste etno-biólogo é absolutamente delirante. Para ele a evolução não resulta de um processo de acumulação gradual de experiências mas sim de cortes radicais, saltos abruptos, provocados por acontecimentos extraordinários. Nem mete ao barulho deus ou outras enormidades do género, a responsabilidade seria desses cogumelos bondosos, resultando numa simbiose perfeita entre os seres vegetais e os animais. Uma eterna aliança entre a Natureza e uma emergente espécie humana, assinada para povoar e preservar o planeta através do desenvolvimento de uma coisa nova e espectacular: a inteligência.
Um livro a ler e a consultar, agora que os criacionistas pretendem reler os fundamentos da ciência com base numa fé inabalável nas linhas mais tortas da bíblia.
Experimenta, leitor, vai dar uma voltinha ao Pão dos Deuses e, quando regressares, diz qualquer coisinha.


terça-feira, dezembro 12, 2006

Santa Carolina


Carolina Salgado em pose de santinha barroca exibindo as marcas de uma alegada agressão por parte de Pinto da Costa e dois ajudantes assim narrada em notícia do Record de 7 de Abril de 2006: “O Afonso tentou esganar-me e a minha irmã (Ana), grávida de 3 meses e meio, veio socorrer-me e ainda levou um pontapé na barriga do Nuno Santos. Depois, ainda se virou para mim e mandou-me duas vezes ao chão. Como se não bastasse, e depois de olhar em volta a ver se estava a ser observado, o Jorge Nuno também me deu dois estalos.”

Como se previa o livro "Eu, Carolina" é já um best-seller com a 1ª edição à beira do esgotamento.
A ex-mulher do presidente mais célebre de todos os presidentes portugueses (é mais certo que o cidadão comum se lembre com maior rapidez do nome do presidente do FCP que do presidente da república!) veio botar a boca no trombone fazendo revelações bombásticas que deixam Pinto da Costa nos piores lençóis em que jamais se encontrou.
Se metade das histórias narradas pela pena leve de Carolina forem verídicas Jorge Nuno estará frito, cozido e grelhado, caso a coisa venha a ser esmiuçada pela Polícia Judiciária.
O que irá acontecer? Melhor que qualquer novela, brasileira, portuguesa ou mesmo venezuelana, o enredo deste caso de amores desavindos irá alimentar toneladas de papel coberto por rios da mais negra tinta. Basta ver o destaque dado à coisa no Público de hoje, onde mereceu foto a cores na capa e as duas primeiras páginas deste diário, considerado um jornal de referência. Se foi assim no principezinho dos diários portugueses como irá o assunto ser tratado no pouco lavado Correio da Manhã ou no ranhosito 24 Horas?
Até poderia ser divertido não fosse a gravidade de certas acusações, capazes de fazer corar um cadáver. A mais tenebrosa de todas prende-se com a agressão a um vereador da Câmara de Gondomar por ter feito acusações que estiveram na base do lançamento do já meio estafado Apito Dourado que, com uma sopradela deste calibre, irá decerto regressar em forma e em força.
Carolina assume mesmo o papel de contacto entre o malvado Pinto da Costa e os arruaceiros que desancaram o dito vereador tendo mesmo efectuado o alegado pagamento do prémio por um serviço bem feito (o vereador foi parar ao hospital). Chiça penico, a coisa ferve!
Tudo isto vem mostrar como o arrependimento compensa já que o vereador agredido perdoou a Carolina a sua suposta participação no alegado espancamento, ele quer mesmo é entalar o Presidente... mas, em tribunal, não sei se a agora Santa Carolina se safará sem castigo caso venha a ser provado que as coisas se passaram conforme ela as conta. Seria grotesco mas, na verdade, por enquanto tudo isto existe apenas em forma de livro, no limbo da ficção e a precisar de provas substanciais que dêm crédito a tanta coisa bombástica.
É que uma mulher capaz de fazer coisas como aquela pode muito bem estar a mentir com quantos dentes tem na boca... ou não!
Aguardam-se os próximos episódios desta novela que já está no coração dos portugueses.
Apaixonante!!!