domingo, outubro 08, 2006

Sem comentários

Young God, RSXX, acrílico sobre papel 2004

Jornal Público, hoje mesmo:

"Se só Deus é Deus, se não há nada no mundo que seja divino, parece que ficaria o campo liberto para as mil iniciativas e realizações da criatividade humana." (...) "Acontece que a tendência à sacralização de palavras, textos, gestos, leis, ritos e pessoas levou os próprios monoteístas pelos caminhos das religiões pagãs que pretendiam superar. Mas o pior de tudo foi a sacralização da violência, isto é, a violência exercida em nome de Deus. Chegou-se mesmo a fazer de Deus o "Senhor dos exércitos" e o patrocinador das guerras mais cruéis, presentes em algumas narrativas e orações bíblicas."

Frei Bento Domingues, Religião e violência, página 8

"Bispo de Leiria-Fátima vai convidar Papa a visitar o santuário
(...) O papa inauguraria desse modo, a nova Igreja da Santíssima Trindade, que se encontra em fase final de construção. Já quanto à canonização dos dois videntes, o bispo não tem certezas: "O processo de canonização ainda não está definido: a equipa médica da Congregação da Causa dos Santos [do Vaticano] está a analisar a solidez do milagre exigido para ver se tem condições de poder ser declarado milagre ou não.
(...) Mesmo se o milagre em que se baseou a beatificação da Jacinta e Francisco Marto (...) foi considerado pouco sério por algumas pessoas, o bispo diz confiar nas equipas médicas e teológicas da Congregação (...) actualmente presidida pelo cardeal português José Saraiva Martins.
(...) Quanto à nova igreja (...) o custo está, actualmente, em cerca de 45 milhões de euros (...)."
(...) O caos urbano de Fátima leva o bispo a lamentar a ausência de um plano director no crescimento da localidade. O Estado, diz [o bispo], deve agora "apoiar tudo o que possa tornar a cidade mais bela, acolhedora e funcional". E justifica: Fátima "é um centro de atracção de turismo como não há outro em Portugal, com 4 a 5 milhões de turistas por ano", com o que isso significa de "desenvolvimento social, económico, cultural do país".

António Marujo, página 24

Sem comentários.

sábado, outubro 07, 2006

Televisão

"Quem vê TV
Sofre mais que no WC"

Estes versos maravilhosos eram cantados por João Grande, vocalista dos Táxi (quem se recorda?) e estão bem como ilustração para o que se segue.

A SIC celebra 14 anos de existência com um desfile grotesco Avenida da Liberdade abaixo. Auto-intitulando-se como "a televisão do povo " e tendo em conta as personagens que ornamentam o desfile muito está dito mas pretendo apenas acrescentar qualquer coisinha.

Quando, há 14 anos atrás, surgiram as televisões privadas, um dos argumentos que mais entusiasmavam o pessoalinho era a miragem da diversidade. Habituados a uma RTP refém dos poderes políticos e outros de natureza menos evidente, os portugas viam com alguma ansiedade a possibilidade de terem ao seu dispor algo completamente diferente.

A coisa começou logo inquinada com a atribuição de um canal à igreja católica, mas o povão virava-se, principalmente, para a SIC já que da igreja não esperava nada que não tivesse já comido até ao vómito.

Passados 14 anos constatamos que não podia ter havido maior ilusão! Afinal a diversidade era um engano grosseiro já que as diferentes televisões adoptam uma estratégia de marcação cerrada. Se um canal transmite novelas ás 7 horas o outro responde com o mesmo tipo de produto e por aí fora até termos clones horrendos em constante actividade nos écrãs, 24 horas por dia.

Basta dar uma olhadela às programações no jornal. O chamado horário nobre, a parte do dia em que a população portuguesa pasta e rumina programas de televisão, os canais abertos passam mais ou menos o mesmo tipo de produtos. Concursos, novelas, telejornais, uns por cima dos outros, tudo a mesmíssima merda. A diversidade era uma mentira calculada.

Doses cavalares de publicidade, uma imbecilização despudorada, o elogio da boçalidade são aspectos característicos da oferta televisiva. Para um povo de brutos programas feitos à medida. À brutidão oferece-se embrutecimento e assim, num crescendo vulcânico, teremos um dia uma explosão tal de rasqueirice humana que o país ficará submerso em merda por séculos e séculos fazendo jus ao destino que traçou para si próprio desde o 1ª dia. É a felicidade prometida.

Poderia estar para aqui a bater no ceguinho o dia todo mas, como eu próprio faço parte do ceguinho fico-me por aqui. Estou a precisar de ir ali, ao quarto de banho.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Haja Fé!

Finalmente a confirmação: o muro vai ser levantado.
Apesar das dúvidas e dos problemas técnicos previsíveis, o muro na fronteira dos EUA com o México tem ordem para se erguer do nada.

Se juntarmos as novas regras aprovadas entre os EUA e a União Europeia relativas aos passageiros de futuros vôos daqui para lá, começamos a perceber que os americanos do norte se estão a fechar lá dentro. Cada vez é mais complicado entrar na terra da liberdade.
Por enquanto ainda é fácil sair.

O que poderá isto significar num futuro próximo?
Os pássaros são livres de se movimentar no interior da gaiola. Só que acabam por desaprender de voar e os saltitos que conseguem dar parecem-lhes o suficiente.

Haja Fé, Deus é grande.
Pelo menos parece.

quinta-feira, outubro 05, 2006

O muro


Escrevo esta carta por estranhar que a notícia do possível muro, na América, tenha caído em saco tão roto. Aqui há dias foi uma bomba! O senado norte-americano aprovara a construção de um muro na fronteira dos states com o México. No noticiário televisivo apareceu até um ministro mexicano a tentar mostrar toda a indignação que a tal proposta lhe causava, com cara de quem vê um pato-bravo a querer tapar-lhe o sol com um prédio clandestino. Tentava mas, pela expressão do seu rosto, não o conseguia por não haver palavras nem expressão facial suficientemente eloquentes numa situação como esta. “Grande bronca!”, pensei eu. Mas, afinal, desde esse dia… silêncio.
Talvez o muro não venha a existir. Espero bem. Talvez não passe de mais uma ideia neoconservadora sem pés nem cabeça como tantas outras que se vêm revelando à luz dos dias quando vão passando. Tudo isto parece tão ridículo! Mas já parecera ridícula a ideia de que alguém com dois dedos de testa pudesse imaginar os cidadãos de Bagdad aclamando o exército americano, sedentos de democracia e hambúrgueres, mas houve quem o imaginasse.
A hipótese de construir o tal muro diz muito do espírito global que anima o nosso mundo. Este mundo do “lado de cá” que também ganha expressão em Israel. Levámos uns anitos para nos decidirmos a derrubar o muro de Berlim. Ainda me lembro da festa que foi, caramba! Afinal passou tão pouco tempo e já voltamos a imitar os antigos imperadores chineses. Ou aprendemos pouca coisa ou, afinal, estávamos enganados e os muros são uma boa solução para certos problemas.
Como disse um dia Vítor Pereira, saudoso ex-árbitro do nosso futebol, muito antes de os apitos serem dourados, “Desde que vi um porco a andar de bicicleta já nada me espanta.” Será que ainda haveremos de dizer, “Desde que vi construir um muro na fronteira dos states com o México já nada me espanta.”?
Enquanto não chega a nova temporada circense podemos sempre imaginar qual o novo número que vão inventar para nos deixarem de queixo caído.


Carta ao Director do Público. Os dois últimos parágrafos foram, compreensivelmente, "cortados" na página do jornal. Continuo a não acertar o tom do meu sentido de humor.

terça-feira, outubro 03, 2006

Rau


Honoré Fragonard
Portrait of François-Henri, Duke of Harcourt, c. 1769

Finalmente fui ver a exposição da colecção de pintura do Dr. Rau, no Museu Nacional de Arte Antiga. Vale a pena, quanto mais não seja, ver Cranach, Reni, Gainsborough, Corot, e outros que tais, em Lisboa. Mas este Fragonard é, talvez, o quadro que mais me impressiona de todos os que lá dormem mais esta noite, aconchegados nas suas almofadinhas da História.

Este matreco era um pintor que não me fazia bulir nem um pouco o coração. Ele era Rocócó, ele aparecia sempre associado a uma pintura que mostra uma menina (ou senhora) a andar de baloiço no meio de um jardim, enfim, tudo coisas que, vistas assim nos livros de pintura ou de história da arte, fazem bocejar o mais desperto dos mortais cafeínados.

Ainda por cima, do alto da minha juventude, olhava estas reproduções com o desdém próprio de quem está habituado, sem o saber ainda, a emprenhar pelos olhos com a facilidade de uma galinha poedeira. Os temas de Fragonard dificilmente impressionariam um adolescente mais interessado em Philip K. Dick e nos Clash que na leitura das Viagens na Minha Terra ou de Folhas Caídas, conforme me obrigavam nos bons velhos tempos da escola secundária.

Tudo mudou quando vi, pela primeira vez na vida, no Louvre, uma pintura deste gajo. Não recordo exactamente qual, nem isso é relevante para o caso. Fiquei siderado perante o vigor incrível do trabalho de Fragonard, isso sim. Uma pincelada a rasgar o espaço da tela, uma agitação tal, uma energia tão extraordinária que percebi (mais uma vez) como o preconceito juvenil nos pode fazer corar de vergonha uns anitos mais tarde. Em silêncio e em segredo, evidentemente. Fragonard foi um dos grandes mestres do século XVIII, sem a menor sombra para dúvidas. Um moderno antes de tempo ou no tempo certo, por ter sido o dele, está bom de ver.

Este Retrato do Duque de Harcourt tem tudo "aquilo". Nada se encontra em repouso. Tudo se agita num turbilhão arrebatador de emoção e energia, caraças! Muito mais do que o tema somos levados pela emoção da Pintura.

Noutra sala há uma paisagem de Cézanne, O Mar em L'Estaque e outra de Vlaminck, Paisagem Fauve Perto de Chatou. Cézanne afirmaria que a pintura, para o ser, se devia libertar da literatura e o pintor deveria concentrar-se nos elementos fundamentais da linguagem visual. Vlaminck, na sua qualidade de fauvista, enalteceu de forma arrebatada as qualidades da cor furiosa e emotiva. Perante esta pintura de Fragonard o que eles disseram (mais ainda o que fizeram) perde sentido, esvazia-se de significado e parece mais convencimento juvenil que verdadeira teoria ou prática estética.

Vai na volta nunca tiveram a felicidade de ver obras de Fragonard. O que me parece pouco provável mas perfeitamente plausível.

domingo, outubro 01, 2006

De corpo e alma

A existência de Deus manifesta-se das mais variadas formas. A construção de uma imagem laboriosamente conseguida ao longo de séculos e séculos, desde as profundezas escuras dos úteros cavernosos da terra pré-histórica à luz brilhante do génio escultórico do pensamento grego, a energia indizível da divindade tomou as mais diversas formas, de acordo com visões, revelações e premonições mais ou menos inspiradas de artistas e poetas.

Entre nós, herdeiros da tradição greco-latina, o cristianismo foi gerando um rosto para Cristo adaptado ao sabor das circunstâncias. Muito por acção dessa campanha mediática cristã, vivemos actualmente uma civilização da imagem onde tudo o que é verdade tem um rosto e o que o não tem, ou custa a crer que existe, prefere manobrar na sombra do anonimato.
Esse imenso trabalho de revelar a face de Deus fez com que entrássemos no domínio do ícone e, tal como temiam algumas facções entre os primeiros cristãos, esquecemos frequentemente o Homem, o Profeta, e ficamos ofuscados pela imponência espectacular da imagem que Dele foi criada. Ignoramos a transcendência maravilhosa da Sua poética existência e não nos damos ao trabalho de tentar compreender a profundidade espiritual da Sua mensagem. Só temos olhos para o brilho dourado das obras imponentes que Lhe foram oferecidas por homens pouco modestos. Papas, Imperadores ou Faraós.

A Igreja católica apostólica romana exige fé. Para ela basta uma fé simples para entrar no caminho da salvação da alma. Basta ser crédulo. Aos católicos não é exigida a utilização da razão para ser aceite na igreja, antes pelo contrário. Daí que a lição do Professor Ratzinger tenha sido tão mal compreendida (ou terá sido simplesmente mal preparada pelo Mestre?), a audiência, fora da sala onde proferiu o seu discurso em Ratisbona, está longe de poder compreender na totalidade as tortuosas razões teológicas por ele equacionadas. Á igreja católica interessa manter o status quo, conservar a tradição. A igreja é conservadora, não se reforma nunca por vontade própria, apenas se reforma quando acossada por alguma ímpia e insuportável pressão.

Por outro lado, uma vez que o Papa é infalível, não adianta ao Professor Ratzinger vir agora pedir desculpas na pele de Bento XVI. Cada palavra foi decerto cuidadosamente ponderada antes de ser proferida. Não é credível que o Papa tenha sido vítima de si próprio pois poucos como ele saberão tão bem o que dizem, quando o dizem e onde o dizem.

O problema é que Cristo foi um Profeta que acabou usurpado e abusado por igrejas camaleónicas que o utilizam sempre conforme as circunstâncias. Tal como fazem actualmente os fanáticos do Islão, também os cristãos das mais variadas igrejas utilizaram em vão o nome do seu Deus para justificarem crimes hediondos nas mais variadas situações.

A utilização abusiva da Sua mensagem continua não tanto para matar mas mais para roubar os pobres de espírito. Os exemplos abundam e proliferam principalmente nos subúrbios das grandes cidades entre uma população maioritariamente ignorante e completamente alheia às subtilezas teológicas necessárias para encetar com um mínimo de credibilidade o diálogo inter religioso que se afigura imprescindível aos olhos de todos os que não são fundamentalistas.
Deus poderá existir mas não tem decerto a forma que os poetas lhe deram nem os desígnios que as igrejas Lhe atribuem. Deus não pode proteger uns e amaldiçoar outros porque isso, simplesmente, não faz qualquer sentido. Acreditar nisso é reduzi-Lo à nossa insignificância e implicá-Lo nas guerras que travamos uns contra os outros, vestindo-Lhe uma farda de general de mil estrelas. A Razão impede a possibilidade de existência a uma divindade tão prosaica e tão reles que fosse capaz de condenar a vida que ela própria cria.

Como escreve Frei Bento Domingues no fecho da sua crónica de 1 de Outubro no Público, “Deus não é propriedade privada”, (texto extraordinário que mereceria maior divulgação) “Não adianta dizer que há um só Deus se esquecemos, cristãos e muçulmanos, que há uma só humanidade a respeitar e a servir por todos.”

Não adianta cuidar da alma se pretendermos ignorar o corpo que ela habita.

In God we trust

Construção do muro de Berlim

"Depois de a Câmara dos Representantes ter dado o seu aval, o Senado norte-americano aprovou sexta-feira a construção de um muro duplo com uma extensão superior a 1100 quilómetros na fronteira com o México, de forma a evitar a entrada de imigrantes ilegais no país. A decisão final está agora nas mãos do Presidente George W. Bush."

Entre Agosto de 1961 e Novembro de 1989, o muro de Berlim foi um símbolo terrível na velha Europa. Os Estados Unidos preparam-se para construir outro muro. Tal como em Israel.

A terra da Liberdade fecha-se à imigração clandestina da pior forma. Fecha-se da forma mais estúpida e, decerto, ineficaz, construindo um símbolo da sua incapacidade de confrontar a questão da pobreza com medidas mais humanas que possam, eventualmente, constituir resposta à altura do problema e da própria imagem que os EUA (ainda) reflectem no imaginário de tantos milhões de cidadãos do mundo por esse mundo fora.
Um novo muro da Vergonha.

Que fazer no Sul da Europa? Na impossibilidade de erguermos um muro no Mar e outro no Oceano como iremos tentar dar uma resposta à altura da situação criada pelas vagas de imigrantes que nos chegam vindos de África?

A estátua da Liberdade vai continuar tal como está? Não é ela um sinal de boas-vindas a todos os que procuram a terra prometida do norte da América? Pois, os mexicanos entram por outra porta. A maior parte deles nem nunca chega a pôr os olhos nessa estátua. Dá-se por feliz em ter um postal à cabeceira da cama. Se tiver a sorte de ter uma.

Pelos vistos já nem em Deus os americanos confiam. Já não confiam em nada nem em ninguém.

sábado, setembro 30, 2006

30 desenhos

Poema Escondido Com o Rabo à Mostra, tinta-da-china; acrílico, guache, esferográfica, pastel e guache sobre papel

1ª fila: Queen of Hearts; O Anjo de Cabul; Salvação; O Anjo da Guarda; Homem Dúvida; Eu Não Sei Quem Tu És; O Anjo de Freixo-de-Espada-á-Cinta; O Grande Dadamax; O Grito; Tocha Humana.
2ª fila: O Anjo da Covilhã; A Prima da Bailarina; Nós Vida; O Anjo de Viseu; Cadáver Aflito; O Grande Quíron Oferece Uma Prendinha ao Sr. Silva; Nico e Zé Arrumam o Homem; Lone Ranger's Dad; Sr. Normal; Sociedade Recreativa ou O Virgem Pai.
3ª fila: Nado Morto; Puro Sangue; Sr. Não-Sei-Quê; Papado Por Um Azar; O Homem do Taco; Here's a Happy One!; Fantasma do PAssado Passeia Bicho do Presente; Spiritu Sanctus; Lá Vai o Papa Ter Com o Papá; Uma Coisa Nem Boa Nem Má.

Duas bolinhas e uma espiral

A Senhora na Água é, talvez, o fime menos eficaz de Shyamalan. De acordo. Porque a trama não fecha, no final, como acontecia nos outros, numa reviravolta inesperada do argumento. O final deste filme vai-se anunciando desde o início e acaba por se confirmar abrindo a narrativa para fora do écran. Ao contrário dos outros filmes, que pareciam preencher o espectador, este acaba por lhe abrir um espaço no peito que arrisca esvaziá-lo.

Daí a considerar A Senhora na Água como um mau filme vai uma certa distância.
Talvez haja alguns apontamentos muito discutíveis. O papel que Shyamalan distribui a si próprio é um deles. A forma como os acontecimentos vão sendo antecipados por uma das habitantes do condomínio onde se desenrola a acção, uma velha senhora coreana, tem momentos pouco felizes, na minha opinião. Mas, mesmo assim, o desvelo com que os críticos têm ruminado o filme para depois o vomitarem com desprezo talvez se explique pela personagem do crítico de cinema.

Há um crítico de cinema que é retratado com igual desdém no filme. O argumento vai abrindo possibilidades de ele ser algo mais, algo melhor, mas, no fim, o crítico não passa de uma espécie de palhaço triste e ignorado pelos outros. Se eu fosse crítico de cinema iria achar a coisa de péssimo gosto.

Finalmente há um actor com momentos brilhantes. Paul Giamatti consegue dar uns quantos nós no coração e na garganta em momentos que, entregues a outro performer, poderiam resultar caricatos. O homem tem pinta!

Resumindo, se eu fosse crítico não daria uma bolinha ou apenas duas estrelas a este filme. Digamos que lhe assentam bem duas bolas e uma espiral, só para enfeitar e mostrar a saída da sala.

sexta-feira, setembro 29, 2006

Bolas e estrelas

Os críticos cinematográficos exercem uma estranha actividade quando tentam traduzir em estrelas ou bolinhas as suas doutas opiniões sobre os filmes que vão vendo.

Pergunto-me se irão aos filmes com o fastio próprio de quem se vê obrigado a cumprir uma tarefa profissional independentemente da vontade em o fazer ou não. Serão obrigados a ver tudo ou só algumas coisas? Apenas o que imaginam poder vir a apreciar com gosto ou escolherão filmes que sabem de antemão ir odiar profundamente?

Hoje irei assitir à projecção do mais recente filme de Shyamalan. A fiar-me na opinião unânime da crítica especializada melhor será ficar em casa ou alugar um filme iraniano no clube de vídeo (não deveriam chamar-se antes clubes de DVD?). As opiniões assassinam por completo o objecto e deixam o eventual espectador com os dois pés atrás, fora da porta.

Verdade, verdadinha, vi todos os filmes anteriores deste realizador e gostei tanto de todos que estou disposto a arriscar mais uma vez. Lady in the water poderá até ser uma seca, ser patético, pretensioso, uma merda, em suma. Poderá ser isso tudo, mas seria impossível deixar em branco o espaço desse cromo na minha caderneta de Shyamalan.

Mesmo que a partir de agora a sua obra perca fôlego e grandiosidade, este realizador já ganhou um espaço próprio na minha mente ou no meu espírito (não sei bem ao certo), o suficiente para não querer perder nada do que vá fazendo. Além do mais sei bem que a genialidade artística não é uma constante. É mais uma variável algo imprevisível que, quando transformada em rotina, gera objectos sempre semelhantes.

Há quem se deslumbre com a coerência das obras de determinados artistas. Eu não. Pessoalmente prefiro a surpresa e o inesperado, o resultado imprevisto. As coisas nem sempre correm bem e será impossível satisfazer um exército de críticos habituados a sentarem os cús na poltrona fiados na sua infalível capacidade de análise que encaram os objectos com a sobranceria própria daqueles a quem já nada surpreende.

Quando o objecto que analisam ultrapassa as suas previsões (sim, os críticos também têm qualquer coisa de videntes) entramos no campo do imponderável. É nessas ocasiões que atribuir estrelas e bolinhas pode revelar-se um alívio para o espírito crítico.

Para mim um filme de Shyamalan nunca poderá ser "dispensável". Mínimo dos mínimos será sempre um filme "a ver".

2º round

Reaproxima-se o debate português sobre a legalização do aborto (ou Interrupção Voluntária da Gravidez em linguagem politicamente correcta). Já andam por aí questões novas levantadas por palavras do Cardeal Patriarca de Lisboa. Será esta uma questão religiosa?

Os defensores da "coisa-tal-como-está" vêm ao debate com novas estratégias. Refinaram o discurso e usam falas mais mansas e menos contundentes. Parece que durante o tempo que decorreu desde o Referendo anterior e os dias de hoje ganharam outra consciência do problema e já estão mais compreensivos se bem que igualmente irredutíveis nas suas crenças e na fé que as anima.

Os defensores da "coisa-tem-que-mudar" continuam mais ou menos na mesma e não cedem um milímetro nas suas convicções e nos princípios que os animam. O debate não promete grande coisa, em boa verdade. Esperam-se mais acusações, demonstrações e o agitar de milhentos papões.

Por mim vejo a coisa como uma questão de saúde pública onde, como tal, deverá imperar o bom senso e alguma frieza de análise. Neste debate há sempre uma grande dose de emotividade misturada com ódios figadais que ressurgem de rompante para confundir os indecisos.

No anterior referendo a participação dos portugas foi o que se viu e nada se alterou. Espero que desta vez haja, pelo menos, uma maior afluência de cidadãos dispostos a deixar a sua opinião em forma de voto dentro das urnas.
Para que não tenhamos de nos envergonhar quando olhamos o espelho e somos nós o que o reflexo nos devolve.

terça-feira, setembro 26, 2006

http://www.irancartoon.com/index.htm

Pawel Kuczynski / Poland

Um site curioso http://www.irancartoon.com/index.htm onde se encontram centenas de cartoons espectaculares incluindo muitos olhares do "outro lado" sobre questões da actualidade internacional. Os cartoonistas árabes têm, como é evidente, leituras diferentes das dos "nossos".

Um exercício de ginástica intelectual aconselhável. Para não deixarmos o cérebro ganhar barriga!

Imagem do paraíso



O paternalismo serôdio dos católicos apostólicos romanos é pecado mortal! Padecem de soberba os que crêem estar dois palmos à frente de todos os outros em matéria de salvação da alma. A forma insidiosa como se referem à necessidade de acreditar no verdadeiro deus é nauseante. Só mentes perturbadas podem acenar com as chamas do inferno, em desespero de causa, na tentativa última de poderem servir mais uma alma para a sobremesa da sua divindade alarve, devoradora de existências humanas. E ali ficam, manápulas atrás das costas, a babarem-se extasiados enquanto assistem ao sacrifício dos pobres de espírito que entram no reino dos céus goela abaixo do deus da fúria, o deus dos exércitos, o deus vingativo que se deleita com o fedor da gordura queimada dos carneiros de Abel e despreza o resultado das colheitas de Caim. Num paraíso a escorrer bedum das nuvens, como uma tasca pouco asseada, não quero eu entrar. Nem deus me lá queria que a gente não se dá.

domingo, setembro 24, 2006

Morto-vivo


Terá alguma vez existido? Osama Bin Laden morreu? Está vivo? Qual a sua importância no tabuleiro do actual movimento terrorista internacional? Perguntas, perguntas, perguntas e as respostas não aparecem nem ninguém as conhece.

Lançadas as sementes da violência, do ódio contra os cruzados, da possibilidade da vitória parcial, da guerra terrorista global, do fanatismo imbecil e fundamentalista, Bin Laden foi passando a ser uma sombra. Até se fundir na paisagem afegã ou nalgum recanto inóspito do Paquistão. Pode até morar aqui, ao fundo da rua, vá-se lá saber!

Nos tempos que correm Bin Laden parece já não ser mais que um símbolo, um ícone de maldade e de esperança, conforme a latitude e o credo de cada um. Morto ou vivo nada muda. Bin laden alcançou o estatuto de mito. Os mitos são eternos.

A obra está feita e é de respeito. O monstro nasceu e agora tem vida própria, já não precisa que o pai o alimente. Nós que o aturemos.

Liberdade de expressão

Em toda a converseta gerada à volta da polémica intervenção do Papa que deixou a "rua islâmica" em polvorosa há um ponto que não tem sido devidamente explorado.

O facto de encararmos Ratzinger como sendo vítima de um mal-entendido por parte de um punhado de radicais inimigos da liberdade de expressão não faz dele um campeão dos livres pensadores. Nem um pouco mais ou menos!

Apesar de pretender fomentar um debate centrado na reflexão sobre a relação entre a Fé e a Razão, a verdade é que Ratzinger está muito longe de ser um defensor da liberdade de expressão. Nem poderia ser de outro modo uma vez que se trata do sum-pontifíce de um religião muito pouco dada ao contraditório. A própria suposta infalibilidade do Papa (posta em causa neste episódio de forma muito nítida) não permitirá grandes polémicas em torno das suas afirmações.

Basta lembrar a sua posição perante uma situação tão básica como a da recente "crise dos cartoons" e a forma como afirmou ser intolerável que se ponham em causa certos dogmas característicos das religiões do Livro. Por aí não merecerá grande (ou nenhuma) solidariedade.

Serviria este episódio para iluminar Ratzinger com alguma humildade caso não se tratasse de uma personagem convicta da superioridade inquestionável da sua fé e respectivos pontos de vista, se assim lhes posso chamar uma vez que pretendem ser verdades inquestionáveis.

"Quem com ferros mata, com ferros morre". Pois é. É lixado!

quinta-feira, setembro 21, 2006

As 3 graças

The Three Graces1639Oil on wood, 221 x 181 cmMuseo del Prado, Madrid
As mulheres pintadas por Rubens. Segue o texto em inglês retirado de http://www.wga.hu/index1.html um excelente site dedicado à pintura e escultura europeias entre os séculos XII e XIX. Indispensável para quem pretende aprofundar conhecimentos nestas áreas. 5 estrelas!!!
The Three Graces is one of the artist's final works. He had portrayed this theme several times since about 1620, but only later adopted the form that prevailed in classical Antiquity, with the three figures forming a circle so that one of them has her back to the spectator.
"They were the goddesses of pleasant charm, of charitable deeds and of gratitude . .. without them nothing would be graceful or pleasing. They gave people friendliness, uprightness of character, sweetness and conversation...They were presented as three beautiful virgins and were either completely naked or clothed in some fine, transparent fabric...They stood together all three so that two of their faces were turned towards the spectator and only one was turned away from him."
Rubens' late painting of three nude figures magnificently illustrates the artist's extraordinary handling of incarnate or human flesh tones. Rubens builds them up using the three primary colours yellow, red and blue. An unusually high proportion of blue is evident here. In this way, the human figure bears the same primary colours that make up the appearance of the world and the entire cosmos, and all that is gathered here in the landscape and flowers, the sky and the trees.

terça-feira, setembro 19, 2006

Morte às magras!

O ideal de beleza feminino não é eterno. Das mulheres pintadas por Rubens, exuberantes de celulite, às modelos escanzeladas que agora se vêem empurradas para a sombra das passerelles espanholas, muita coisa foi mudando.
As imagens de mulheres com anorexia são aterradoras, competindo directamente com as fotos dos campos de concentração nazis ou dos famintos etíopes que nos entraram olhos dentro para revelarem a fome em África.
Não me parece que discriminar modelos por serem demasiado "leves" traga grande proveito ao mundo. Talvez se possa negociar uma quota para raparigas mais cheias nos desfiles. Quem sabe vai surgir um destes dias uma espectacular colecção para números XXL e fazer furor.
Estaremos a assistir aos primeiros passos na direcção de um novo cânone de beleza feminina? Não me cheira, mas lá que seria curioso, disso não tenho dúvidas!

segunda-feira, setembro 18, 2006

Santidade alienígena


O Guia Supremo da Revolução Islâmica iraniana, o "ayatollah" Ali Khamenei, fustigou hoje as recentes declarações de Bento XVI sobre fé muçulmana, argumentando que o discurso proferido pelo Papa na Alemanha é "o último elo" da cruzada lançada pela América contra o Islão.

O delírio é um estado de alma perigoso quando aquele que delira tem responsabilidades perante a opinião pública. Ali Khamenei deve tomar alguma droga demasiado poderosa para os seus frágeis neurónios e o resultado está bem à vista.
Interessado na inflamação até ao rebentamento da pústula, este líder espiritual do povo iraniano está a brincar com o fogo. O que quererá este gajo queimar? Quem quererá ele atirar para as profundezas do inferno?
"Quem brinca com o fogo queima-se" diz o adágio popular.
Queima-se Ratzinger, por ter ido buscar um imperador bizantino que não era para aqui chamado e queima-se Khamenei por ser tão hipócrita no aproveitamneto da soberba papal.
Se Deus existe há-de estar apenas a engendrar a melhor forma de cozer, escalfar, depenar e esfolar estes e outros assassinos da inteligência humana. Mais este que o outro mas, enfim, numa situação tão estupidamente explosiva como esta, venha... Deus e escolha!

domingo, setembro 17, 2006

A ofensa



A polémica em redor do discurso do Papa é mais um episódio algo repugnante no filme da auto vitimização daquilo a que se convencionou chamar a "rua islâmica".
A insistência de alguns líderes islâmicos em representarem o papel de virgens ofendidas é nítido sintoma de má-fé e a cobertura mediática que lhes é dada nos meios de comunicação ocidentais também não cheira lá muito bem.

A susceptibilidade desses homens ao mínimo gesto que considerem ofensivo mantém em fogo lento o suposto choque de civilizações que, ao que parece, interessa propagandear aos sete ventos. A quem aproveita este confronto latente?

Por um lado mantém activos os líderes religiosos islâmicos mais radicais. Por outro lado vai justificando a desconfiança com que nós, os "cristãos", olhamos um mundo árabe que apenas conhecemos em abstracto e que nos habituamos a encarar como sendo um perigo para o nosso modo de vida democrático e para a livre expressão que o caracteriza.

Sempre que surgem imagens de homens árabes irritados, aos gritos, queimando efígies de líderes ocidentais ou bandeiras pelas ruas, a sensação de que há do outro lado uma enorme animosidade em relação a "nós" justifica que nos mantenhamos em guarda e aproveita a estratégia da guerra ao terrorismo, vital para a sobrevivência de Bush e outros como ele.

Para o Islão é fundamental manter em laboração a sua fábrica de mártires e heróis da jhiad que produz constantemente novos ícones de uma suposta anti-cruzada que vendem às suas populações. Para o lado de cá é fundamental manter uma imagem de bárbaros fanáticos que nos odeiam e que é preciso combater à bomba uma vez que, como episódios deste género provam, não há a mínima possibilidade de manter um diálogo civilizado com estes bandidos.

Ratzinger é uma personagem muito pouco simpática. É vaidoso e tem estampado no rosto o pecado mortal da soberba. É olhado com desconfiança por muitos católicos que se tinham habituado a Wojtyla, um papa com uma imagem bem mais bonacheirona e caridosa apesar de ser tão ou mais carismático que este.

Sobre a polémica actual é de salientar a posição da Comunidade Islâmica de Lisboa que, através de um comunicado, apesar de mostrar desagrado pelas palavras do discurso papal, reconhece que ele não pretenderia ofender ninguém tendo apenas sido infeliz no modo como expressou uma determinada opinião. Isto mostra como é possível a sã convivência religiosa num mundo democrático. Basta utilizar o bom senso, ou a graça de Deus, o que lhe quisermos chamar.

sábado, setembro 16, 2006

O Homem Duplo

Quando estive em Londres, no mês de Agosto, este cartaz andava por todo o lado.
Na minha qualidade de velho devorador dos livros de Philip K. Dick isto dizia-me qualquer coisa. Trata-se da adaptação cinematográfica de O Homem Duplo, na versão portuguesa editada pela colecção Argonauta (nº 316), traduzida pelo saudoso Eurico da Fonseca (ainda é vivo?).

As edições da Argonauta são intragáveis. Na adolescência li uns atrás dos outros. Heinlein, Ursula Le Guin, Frederick Pohl, o inesquecível Aldriss. Nos dias que correm é-me absolutamente impossível regressar a essas leituras já que as versões portuguesas são piores que más e o tempo fez de mim um consumidor muito mais exigente.

O que me dói mais é não ser capaz de regressar a Philip K. Dick (nem as edições da Europa América se safam). Ficaram memórias esquemáticas dos contos exemplares deste maluco encartado. Entre elas O Homem Duplo é das mais brilhantes (Blade Runner, Os 3 Estigmas de Palmer Eldrich ou Os Clãs da Lua de Alfa continuam perfeitamente nítidos na confusão das memórias da adolescência) pela extraodinária lucidez com que aborda a fritura dos miolos que é provocada pelo consumo exagerado de drogas.

Em A Scanner Darkly/O Homem Duplo, Dick consegue ser comovente pela lucidez que empresta ao leitor na sua visão alucinada do mundo dos junkies. A personagem central é um polícia de uma força especial ultra secreta que recebe uma missão bizarra. A força policial a que pertence é tão secreta que a sua função é vigiar-se a si próprio e aos que vivem com ele 24 horas por dia...
Os resultados são trágicos e caóticos para o pobre polícia (ou será ele um junkie?) com um final absolutamente inesperado.

A versão cinematográfica conta com o zombie Keanu Reeves, certamente no protagonista, e mais uns quantos actores sem grande chama. Não faço ideia quem seja o realizador (não me dei ao trabalho de procurar) nem nada disso me interessa minimamente. Sei que, quando estrear por estas bandas, vou ver, dê lá por onde der.

As adaptações de K. Dick para o cinema nem sempre têm sido particularmente felizes. Talvez O Relatório Minoritário de Spielberg tenha sido capaz de actualizar o extraordinário Blade Runner, obra maior de um cineasta menor (Ridley Scott).

Mas, na verdade, o que interessa isso. O que aí vem será outra coisa e é essa coisa que havemos de ir ver!

quinta-feira, setembro 14, 2006

A beijoca

O mundo do futebol em geral e o do futebol português em particular, não deixam de nos surpreender em cada curva do destino.
Parece evidente que, desde sempre, houve demasiadas falcatruas nos campeonatos nacionais. Talvez isso explique porque razão, além dos crónicos vencedores Benfica, Sporting e Porto, apenas por uma vez, no tempo da outra senhora, o Belenenses (clube que tinha o Presidente Américo Tomás na foto oficial e a Cruz de Cristo como emblema) tenha ganho o campeonato. E que, por razões que começam a ganhar contornos mais visíveis, o Boavista do Major Valentim tenha também alcançado o tão desejado estatuto de campeão nacional numa época mais recente.

Não há regra que se aguente nesse planeta selvagem. Os juízes que constituem os seus órgãos de justiça e disciplinares têm uma formação moral e cívica digna de pequenos delinquentes. Penso que personagens como o Desembargador Gomes da Silva e outras do género serão os principais responsáveis pela total ausência de rigor e de transparência que inquinam o ambiente futebolístico indígena. Estamos a falar de juízes, caramba, juízes que atropelam a lei com o à vontade com que se pisa uma barata e continuam a exercer as suas elevadas funções com pequeno sentido de responsabilidade para não dizer que agem de má fé e são totalmente indignos de se manterem na carreira e no lugar que ocupam. Estes senhores são castigados quando os apanham a abocanhar a botija com este descaramento?

Que os dirigentes dos clubes de futebol sejam vigaristas encartados parece não incomodar ninguém. O discurso deles é tão canhestro, tão cheio de meias verdades e de metáforas complicadas que apenas um iniciado se sente habilitado a compreendê-los. É preciso ler os jornais desportivos e acompanhar os inenarráveis programas televisivos que se dedicam a este complexo universo para se compreender minimamente o “futebolês”. A exposição mediática oferecida a estes paladinos da confusão é prova inquietante do nível cultural do país em que vivemos. Como é possível haver pachorra para aturar, por exemplo, uma hora de entrevista em directo na RTP 1 com o Presidente Fiúza, do Gil Vicente, para citar a mais recente estrela cintilante deste universo?

É tudo uma questão de conjuntura. Quem controlar os órgãos relacionados com a arbitragem e a aplicação das regras está habilitado a vencer. Se não for dentro das 4 linhas será na secretaria, o que acontece todos os anos nos mais variados casos e nas diferentes divisões.

Que os dirigentes não tenham formação à altura das circunstâncias é lamentável mas, enfim, compreensível. Muitos deles são pessoas do povo, formadas no calor da luta pela sobrevivência. Alguns mal sabem ler, outros mal sabem escrever pelo que as leis e as regras lhes fazem, com frequência, confusão. Mas juízes desembargadores e outros agentes da magistratura que se comportam como vulgares criminosos ou mafiosos de meia tigela é de todo intolerável e se não há forma de os castigar pelas suas comprovadas vigarices então este país não presta mesmo para nada e o nosso Estado de Direito é, pura e simplesmente, uma mentira mal intencionada.
Já estou como o outro, quem puser mão nesta pouca-vergonha merece uma beijoca!

quarta-feira, setembro 13, 2006

Pivete

Pires de Lima sugere a possibilidade do regresso de Paulo Portas à direcção do CDS-PP. O ex-ministro da defesa, que tem andado perdido nas catacumbas do esquecimento, ou encomendou a sugestão ou então agradecerá terem-no recordado como chefe.

Seja como fôr já começa a cheirar mal. Já cheira a perfumes caros e camisinhas de sêda, botões de punho e laca suave a tapar a careca. Já cheira intriga e manobras de bastidores, tresanda a populismo de direita que o da esquerda parece já estar instalado e não incomodar o pessoal por aí além.

O pivete incomoda. Acho que o melhor ainda será voltar as costas e dar de frosques. Começo a ficar cansado de ver sempre os mesmos bonecos a fazerem as mesmas cenas com ar de santos padroeiros. O Contra Informação não chega nem aos calcanhares do mundo real.
Nem um pouco mais ou menos!

domingo, setembro 10, 2006

Capitão Tótó


Na véspera do quinto aniversário do 11 de SetembroDurão Barroso quer aumentar cooperação UE-EUA na luta contra o terrorismo
O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, expressou hoje, na véspera do quinto aniversário do 11 de Setembro de 2001, que a União Europeia continua empenhada em aumentar a cooperação com os Estados Unidos da América na luta contra o terrorismo.


Quero apenas recordar que este ponta-de-lança da inteligência humana foi capaz de ter visto provas inequívocas da existência de armas de destruição maciça no Iraque durante a tristemente célebre cimeira dos Açores, onde desempenhou o papel de sopeira.

Ele mais o nosso Ministro da Defesa da altura, o inesgotável Paulinho das Feiras. Como é hoje mais do que sabido foram ambos levados à certa e fizeram o importante papel de idiotas úteis.

O que poderá levar pessoas inteligentes a tornarem-se tão ridículas num papel de bôbo mal representado? Vaidade, estupidez momentânea? O quê, meu Deus, o que pode fazer de nós simples animais quando podíamos ser gloriosamente humanos?

Nada disso os inibe de nunca mais terem falado do assunto, antes conseguem voltar à carga, fiados na nossa costumeira falta de memória. Pois sim, vai-te catar, ó capitão!

Arte, para que te quero?

Foto retirada do site de Banksy http://www.banksy.co.uk/outdoors/index.html
Deve a arte assumir um papel de intervenção política e social? Penso que sim, que é um dever e um direito que assiste ao criador artístico.
Existem outras dimensões artísticas (reflexão sobre os processos e os códigos de linguagem plástica, etc.) que me parecem menores ou, pelo menos, não tão importantes. A arte só faz sentido quando é criada com um objectivo específico de contribuir de algum modo para a transformação do mundo que rodeia o artista. Mas essa transformação não poderá restringir-se a acrescentar apenas mais um objecto aos que ja existem. Esse objecto terá de significar algo, transportar consigo uma perspectiva específica, uma narrativa actuante.

Longe vai o tempo das Vanguardas Artísticas do início do século XX. Quando Cézanne se insurgia contra aquilo que considerava "literatura" na pintura, estava a desenvolver um processo mental na busca de uma linguagem plástica pura. Os Românticos não lhe acharam graça nenhuma. Quando Mondrian concluiu que a Arte constitui uma espécie de Universo Paralelo que não reproduz o mundo circundante, antes cria um outro mundo e o acrescenta a este, atingiu um ponto extremo da reflexão sobre a própria essência do acto criativo. Estes (e tantos outros artistas) abriram vias inovadoras mas, ao contrário do que pretendiam, não esgotaram métodos anteriores nem demonstraram a superiodade da "Arte sm objecto". Os Expressionistas continuaram o seu trabalho e os Dadaístas radicalizaram o processo, subvertendo definitivamente as fronteiras criativas e o universo artístico.

Vivemos um período mais pós-Dadaísta que pós-Modernista. O triunfo nas artes pláticas foi todo ele Dada e não Moderno.
O Modernismo levou-nos até ao cimo de uma falésia onde pudemos observar um horizonte longínquo, sóbrio e despojado na sua beleza misteriosa.
O Dadaísmo faz-nos saltar da falésia sobre o vazio, cantando a plenos pulmões. Uma vez lá em baixo avançamos em direcção ao tal horizonte longínquo, não importa se temos as penas partidas ou perdemos a cabeça pelo caminho. O que interessa é o que vai acontecendo enquanto avançamos.

sábado, setembro 09, 2006

Sem título

Com Título, acrilico sobre papel, RSXX 2005
Incomoda-me sempre que encontro aquela coisa... "sem título"! Como pode alguém criar uma imagem e não lhe dar um título? Está à espera que o espectador decida, que participe no acto criativo, que encontre os caminhos sem um guia... o quê? Andamos ainda a arrastar a asa ao Modernismo quando gostamos de imaginar que isso é coisa tão do passado que não se encaixa de modo nenhum numa ideia mínima de futuro, muito menos do presente.

A ausência de título parece-me, na maior parte dos casos, ausência do que quer que seja no objecto exposto. Uma dúvida absoluta. O próprio criador se interroga perante o objecto criado. Tudo bem, que espanto!!! Uau, estou estarrecido com a estranheza do meu trabalho, sou mesmo um génio! Sou tão genial que me faltam as palavras, a minha obra é tão absoluta e sublime que não pode ter título! Uau, sou mesmo eu!!!

Acredito que um dos maiores gozos que um gajo pode ter é titular os seus trabalhos invocando dessa forma o espectador a participar na reconstrução do objecto.
A arte tem de ser e servir para algo mais que uma ejaculação do artista. Caso contrário não passará disso mesmo por muito prazer que proporcione a quem a produz e a quem goste de assistir a semelhante espectáculo.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Ondas do mar

As vagas sucessivas de imigrantes clandestinos oriundos de África que vêm bater nas praias espanholas colocam algumas questões que nem sempre são consideradas. Já se sabe que vêm em condições sub-humanas, que são enganados pelos traficantes, que arriscam tudo e a própria vida nestas viagens aventurosas mas o que esperam encontrar estes homens e mulheres vindos não sabemos bem de onde?

Quando os regimes totalitários de inspiração comunista se dissolveram após a queda do Muro de Berlim houve um episódio estranho que, na época, deixou o "lado de cá" de queixos caídos. Estou a referir-me a um navio que chegou à costa italiana a abarrotar de albaneses. Não me recordo do nome do navio mas lembro-me que a imagem daquela autêntica "nave dos loucos" foi utilizada pela Bennetton numa das suas características campanhas mediáticas. A imagem que os passageiros do navio tinham construído baseava-se em imagens televisivas. Que significado poderiam ter numa Albânia fechada sobre si própria os anúncios publicitários ou as séries televisivas que ali chegavam, ainda por cima faladas em línguas impenetráveis e incompreensíveis?

Lembro-me também de um documentário que entretanto passou na TV sobre a realidade albanesa (ou sobre o julgamento que fazíamos dela). Um amigo meu brincava dizendo que, segundo as estatísticas, havia na Albânia um sapato por habitante e aquilo que se nos revelava não andava muito longe dessa macabra visão. Numa entrevista a um "chefe de aldeia" o repórter perguntava como era viver num país tão pobre, onde tudo faltava e sem liberdade de expressão. A resposta que aquele homem magro, vestido num miserável fato e camisa branca meio desalinhada, deu nunca mais a esqueci. Disse ele que uma pessoa apenas sente a falta daquilo que já teve ou imagina que possa vir a ter. Assim sendo, tudo o que a nossa sociedade consumista oferecia (e oferece) era de tal modo inimaginável para o albanês comum que ele, simplesmente, não podia sentir a falta de nada disso! A lógica arrasadora deste pensamento assalta-me sempre que vejo notícias sobre as vagas de imigrantes da África sub-sariana.

O que imaginam estes candidatos a habitantes da Europa que virão aqui encontrar? Como concebem eles a vida, seja nos países de origem ou nos de acolhimento? Há magia envolvida, divindades protectoras, demónios inimigos ou baseia-se tudo num sistema de pensamento lógico onde a melhoria das condições de vida é objectivo bem claro e definido? Se eles soubessem (será que não sabem?) aquilo que os espera viriam na mesma?

Dúvidas, dúvidas, dúvidas.

Sei bem que a realidade é, quase sempre, uma questão de perspectiva individual. A minha realidade não admite, por não a compreender, a realidade dos habitantes do Darfur, para dar um exemplo. Ao ouvir "Darfur" não imagino nada de concreto. Sou assaltado por uma mão-cheia de imagens e ideias tão confusas quanto abstractas que não chegam a constituir uma realidade por não fazerem grande sentido. O que podem imaginar os habitantes daquela zona do Sudão quando ouvem falar da Europa?

Um dia talvez as fronteiras caiam todas, talvez as nacionalidades, a cor da pele, os credos religiosos e outras fronteiras menos perceptíveis sejam também irradiadas para sempre. Entretanto vivemos na mais completa ignorância em relação ao "outro", ao que vem à nossa procura sem sabermos o que espera ele de nós. Decerto que o "outro" também não terá grandes certezas sobre aquilo que nós esperamos dele. E volta tudo ao ponto de partida.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Não é por nada!


Condenado por defeito, acrílico sobre papel, RSXX, 2001


Os aviões passaram por aqui com suspeitos suspeitos e intenções pouco católicas, muito menos democráticas. Será assim tão importante? A quem tira isto o sono?
Que a CIA é flor malcheirosa só mesmo quem tem a penca entupida ainda não compreendera.

Que Portugal faz-de-conta que é uma coisa que afinal não é bem assim só mesmo quem acredita na bondade dos carrascos poderia entender. Não tenho nada contra a profissão de carrasco (com o desemprego que por aí vai...) mas não sei se será aceitável fechar os olhos tantas vezes sem ser por causa da força da luz do sol ou em função do estoiro do trovão. Somos como avestruzes vaidosas e escondemos a cabeça do próprio corpo, por uma questão de indecência.

Não vemos, não ouvimos, não sabemos... logo não temos culpa, ninguém pode julgar-nos! Somos inocentes de todas as acusações, somos bons e tememos Deus com o estupor do estúpido. Além do mais curvamos a espinha aos desejos do representante de Deus na terra, só isso, nada de mais. Quem pode querer saber da sorte de uma mão cheia de suspeitos de terrorismo que, se calhar, até são culpados? Quem pode preocupar-se com os fundamentos do estado de direito que fingimos respeitar? Sim, quem, a não ser uma meia dúzia de energúmenos e vendidos ao terrorismo internacional?

Vou mas é ver a Floribela e, no intervalo, vou espreitando os Morangos com Açúcar. Quem pode interessar-se por outra coisa? Nã está ali a essência do ser português? Não está ali a miragem do que somos? Não? Ai não que não está. Foda-se!

segunda-feira, setembro 04, 2006

Histórias de cowboys



Apareceram na FNAC uns quantos álbuns do Tenente Blueberry ao preço da chuva (2.90 €). Aproveitei para tapar alguns buracos na minha colecção mas ainda me faltam alguns. Serviu isto para reler as aventuras desta personagem e relembrar a mim próprio como a Banda Desenhada pode ser uma coisa extraordinária.

O primeiro volume "Forte Navajo" foi-me oferecido pelo meu pai tinha eu 6 ou 7 anos. Li-o tantas vezes que lhe perdi a conta. Durante anos foi o único álbum de BD que pude ler. O Mundo de Aventuras, o Ciclone, o Falcão e outras revistas de pequeno formato ocupavam o meu imaginário juvenil.

São 28 aventuras, até à data. Com argumento de Charlier e desenhos do maior génio da BD ainda em actividade, Jean Giraud/Gir/Moebius. Uma sequência de situações e personagens de uma imaginação a toda a prova, a leitura desta Banda Desenhada constitui um exercício de enorme prazer.

Sinceramente, gosto tanto desta coisa que nem sei como ou que hei-de dizer acerca dela.
Fica o link para um site dedicado à colecção das aventuras do Tenente Blueberry e a nota de que se trata de Banda Desenhada da melhor qualidade.

http://www.blueberry-lesite.com/

domingo, setembro 03, 2006

A Culpa é rapariga solteira!

Fazer o Pinóquio não é educá-lo! , RSXXI Outubro 2002
Não me recordo de ter alguma vez ouvido dizer que alguém aceitou a sentença do tribunal sem recorrer de imediato a outra instância judicial. No nosso país ninguém parece estar preparado para ser julgado pelos seus actos. Na verdade o português, de um modo geral, nunca se considera culpado de nada. Mesmo quando é apanhado a fazer merda da grossa encontra sempre justificação para afirmar sem tremura nem temor que "Não tenho culpa!". Pois não, há sempre uma justificação para o erro e, se não foi culpa de outrém, terá sido resultado de um conjunto de circunstâncias.

Nas escolas, nas ruas, na política, em todo o lado, o português nunca tem culpa de nada e, como tal, não pode ser condenado sem que isso constitua uma tremenda injustiça! Haverá sempre mais alguém a quem recorrer, mais uma tentativa para mostrar o seu especialíssimo ângulo de visão sobre o problema em análise. Isto faz com que a justiça seja ainda mais lenta do que já seria de esperar dada a qualidade dos seus agentes principais.

É como se não houvesse uma Lei que fosse a reger a nossa vida em comunidade e uma grande parte dos juízes parece apostada em mostrar que essa aparente falta de senso faz todo o sentido. Julgam e contrajulgam com uma leveza assustadora colocando-se muitas vezes a si próprios acima da Lei como se constituissem uma casta superior. São eles e os polícias. E os autarcas. E os políticos, de uma forma geral...

... se calhar não confiamos nas leis nem no poder precisamente porque os sinais que deles recebemos nos deixam hesitantes em acreditar nas suas boas intenções. Ou seja, somos um povo ingovernável mas, na verdade, não temos culpa...

sábado, setembro 02, 2006

Valha-nos Deus!

Que o "americano médio" é potencialmente um dos animais mais estúpidos do mundo já era de suspeitar. Afinal de contas são governados por George W. Bush, um exemplar digno de figurar em qualquer tenda de feira de enormidades que se preze.
Eu sei que o facto de termos Cavaco Silva na presidência da República não abona grande coisa em favor do "português médio". No entanto (não sei qual é exactamente a posição de Cavaco ou se está preparado para emitir uma opinião fundamnetada sobre o assunto) andamos longe de declarar o Criacionismo parte do mistério da vida ou mesmo a grande verdade universal. Já os EUA parecem andar mais perto disso que de outra coisa qualquer.
O fundamentalismo religioso é um dos pecados mais mortais que sou capaz de imaginar. É a coisa mais desprezível que um ser humano pode fazer a si próprio. É o suicídio mais abjecto que podemos praticar. O fundamentalismo religioso é a mais fértil das fontes de ódio que nos levam a perder o sentido da vida até ao ponto de sermos capazes de imaginar que outro ser humano pode não ter alma e nós sim, apenas porque dão outro nome a Deus que, só por si, é uma treta. Mas pronto, um gajo até pode estar disposto a aceitar que haja quem seja suficientemente ingénuo para engolir a história de Adão e Eva, do Deus que tudo vê e outras patranhas na mesma onda. Já não é de todo aceitável que um papalvo capaz de engolir semelhantes histórias da carochinha pegue numa arma e empunhe um livreco na outra, dizendo que é sagrado, e pretenda obrigar todos os outros a comerem da sua gamela.
Temos de agradecer aos chefões da igreja católica o facto de terem perdoado recentemente Galileu pela sua blasfémia quando afirmou que a Terra girava em volta do Sol e não o contrário. Finalmente pudemos aceitar esse facto sem corrermos o risco de ser excomungados por isso. Espero que não venham a declarar blasfemos todos aqueles que puserem em causa ser o Universo obra de Deus em seis dias ou quem duvidar que a mulher foi feita a partir de uma costela de Adão.
Aguardemos serenamente. O mundo não acaba amanhã.

sexta-feira, setembro 01, 2006

Super sem chumbo

Na minha qualidade fã incondicional de Banda Desenhada tenho nos Comics uma fonte de prazer bastante razoável. Vai daí, sempre que há uma adaptação cinematográfica não costumo perder. Andava há alguns dias com a intenção de ir ver Superman Returns e hoje cumpri o meu dever.

As coisas começaram a correr mal logo no genérico, uma pastelice pouco impressionante, a dar o tom geral do que havia de se seguir. Nem Kevin Spacey com o cabelo rapado à Lex Luthor consegue salvar a mediocridade geral do filme.

Mau argumento, desempenhos pouco conseguidos e lamechice aos pontapés. Nem mesmo os efeitos especiais são de tirar o fôlego, longe disso.

Mas o pormenor que me deu cabo da cabeça foi o penteado do Super. Aquela vírgula que lhe cai na testa quando veste o fato de herói e que penteia quando se transforma no repórter imbecil que dá pelo nome de Clark Kent é, na presente versão, de um mau gosto que distrai. Sempre que havia um grande plano era difícil reparar noutra coisa. Aquele pormenor capilar é impagável!

Comprido e chato, como a espada de Dom Afonso Henriques, o filme arrasta-se penosamente até terminar num hino super-kitsch dedicado à paternidade do super-melga que protagoniza esta macaqueação de filme de aventuras.

Longe da qualidade das adaptações do incrível Hulk, dos Batman (ha, grande Tim Burton) ou dos recentes Homens-Aranha, para citar apenas alguns, mais valia que o Super-Homem não tivesse regressado. Estava muito bem lá onde estava, porque raio havia de regressar?

Conselho de amigo: não vão ver, muito menos com crianças. A menos que não comam a sopa.

quarta-feira, agosto 30, 2006

O debate


Um debate televisivo entre Bush e Ahmadinejad? Caramba, que grande ideia!

Estaríamos decerto perante o maior espectáculo do mundo (sem querer estar a desmerecer o circo). De um lado o líder do mundo livre (estou a rir-me). Do outro um tipo equivalente que quer, cada vez mais, surgir como líder do... mundo não-livre? Do eixo do mal? Bom, Presidente da República Islâmica do Irão (designar-se-à assim?) ele é, de resto não sei.

Seja como for um frente-a-frente televisivo entre duas pintas deste calibre haveria de bater recordes de audiência em todas as partes do mundo com lucros astronómicos para as estações que garantissem a emissão. Nos intervalos a publicidade apareceria aos interessados a preços de roer as unhas na hesitação de investir as somas exigidas pelas estações de TV. Seria curioso ver quais seriam as empresas e os produtos a preencher esses espaços publicitários nas diferentes partes do mundo. "Compre mísseis Patriot e defenda-se da fúria islâmica!".

Repare-se que tem sido Ahmadinejad a tentar estabelecer o contacto com os americanos a desviarem-se constantemente. Na hierarquização habitual do nosso raciocínio político se Bush aceitasse responder uma vez que fosse ao iraniano isso equivaleria a reconhecê-lo enquanto interlocutor válido, coisa que nem passa pela cabeça do américas (se é que passa alguma coisa). Assim assistimos a uma coisa parva que é Ahmadinejad dirigir-se a Bush e a resposta vir na boca de algum assessor de imprensa. Para Bush é como se o outro não existisse.

O Irão tem alguma razão em temer os EUA. Por um lado estão no eixo-do-mal juntamente com a Coreia do Norte. Mas como Il-Sung tem armamento atómico os américas lá o vão deixando em paz mesmo quando caem míseis experimentais a algumas centenas de quilómetros do Japão, como foi caso recente. O Iraque foi invadido com as consequências que (ainda não) se vêem. As tropas do grande satã americano estão demasiado próximas e ameaçadoras para que o louco de Teerão possa ignorá-las. Daí que seja perfeitamente compreensível o desejo iraniano de possuir armamento que ponha em sentido tão imprevisíveis adversários como os EUA e Israel.

Para mim os iranianos bem podem ir dar uma curva e dormirei (ainda) mais descansado se eles não possuirem armas nucleares. Mas, se estivesse no lugar deles, também andaria a suar as estopinhas na tentativa de conseguir essas armas, quanto mais não fosse para espantar as ratazanas.

Por estas e por outras, o debate entre os dois tolos de serviço na condução dos destinos do planeta seria um momento para a História e uma oportunidade para todo o mundo perceber os fanáticos religiosos que pretendem orientar-nos nos caminhos da salvação.

terça-feira, agosto 29, 2006

Peacemakers

Peacemakers; RSXXI, acrílico e tinta-da-china sobre papel, 2005
Anda Kofi Annan a esfalfar-se lá pelas bandas do Líbano a tentar deitar água numa fervura que derrete o tacho antes de evaporar o líquido. Bem pode o Secretário Geral da ONU mostrar cara triste e botar discurso constrangido que, para aqueles lados, ninguém se compadece das suas aparentes óptimas intenções.

E porque parecem todos estes tipos apostados em matar, destruir, trucidar e arriscar a existência de populações inteiras quando atiram sobre o vizinho todo o tipo de merdas que têm à mão? Estarão malucos ou somos nós que nunca conseguiremos entender nem um átomo daquilo que lhes apoquenta as meninges?

Há quem fale em choque de civilizações, outros apostam nas questões religiosas, ninguém parece capaz de diagnosticar com rigor a natureza do pântano em que se afunda a humanidade por aquelas latitudes. Os tipos parecem feitos de outro material, diferente do nosso. No entanto quando os vemos estendidos e desfeitos numa papa de ossos e sangue da mesma côr percebemos que não será tanto assim.

Os promotores da paz fazem figura de estilo e ninguém parece levá-los muito a sério. Vão lá choramingar porque é suposto que o façam, vão lá prometer milhões para a reconstrução porque o negócio não conhece desgraças e saem a suar debaixo da camisa perfeita e da gravata impecável pensando mas é no conforto do lar, lá longe, mais do lado de cá, que é onde se está bem.
Quanto vale uma paz em equilíbrio na ponta de uma espingarda? O que se pode prometer a um guerrilheiro que desde a mais tenra infância nunca foi capaz de imaginar outro sentido para a sua vida que não fosse o de rebentar consigo próprio e quantos "inimigos" pudesse para entrar no Paraíso e ser recebido por uma catrefada de virgens? (Já agora, o que poderão imaginar os púdicos muhllas que os heróis santos sonham fazer às ditas virgens?)
Perguntas, perguntas, perguntas. Respostas zero. Mortes violentas às mão-cheias.

Por estas bandas aproveita-se para apertar nas designadas "medidas de segurança" com a nobre finalidade de garantir o bem estar das populações autóctones e fazer as delícias dos pastores que apascentam o rebanho que nós somos. Não consigo evitar flashes do "1984" de Orwell. Um mundo sempre em guerra, com a guerra lá longe numa fronteira invisível e as suas "horas do ódio" que são os nossos telejornais e o Big Brother que nos observa a cada canto e a todo o passo. Um Big Brother que nos descalça nos aeroportos e nos enfia critérios de avaliação duvidosos olhos adentro e cérebro abaixo. Que nos põe a vigiar a galinha da vizinha com o mesmo zelo que desconfiamos de nós próprios e duvidamos da justeza de pensarmos pelas nossas cabeças. Afinal de contas quem não gosta de Bush é anti-americano e ser anti-americano é um novo pecado mortal que nos empurra até à beira do precipício sobre as chamas do inferno. Vivemos no limiar do bondoso esplendor de um estado policial à escala dos nossos medos mais profundos.

Ainda veremos o dia em que Bush vai ser canonizado e prantado nos lugares mais elevados dos altares da religião Neoconservadora por esse mundo fora? São George Bush, santo padroeiro dos filhos da puta e dos intelectuais que engoliram um pau-de-vassoura? Nós talvez não, mas os nossos netos... é que o tempo é o verdadeiro responsável pela fabricação da santidade.
Abrenúncio!

segunda-feira, agosto 28, 2006

O meu Tio

Uma ida a Londres não dispensa a visita. É como se visitasse um velho tio. Lá está ele, na sua sala, mudo e quedo, a olhar sempre na mesma direcção com um ar de quem não deve nada a ninguém. Digno e eterno.
25,5X19 cm. Uma pinturinha inesquecível. Uma coisa assim, tão perfeita, devia ser objecto de veneração, devia rodar por todos os lares deste mundo e do outro. Um dia em cada lar para que todas as pessoas pudessem sentir a profundidade do que são. Para que todos nos pudessemos sentir um pouco mais humanos nem que por apenas uns minutos.
O Homem do Turbante é um milagre de técnica e arte, um ícone do Ser Humano.

Pronto, agora que já me entreguei à lamechice posso dizer o que quero.
Os museus de Londres, pelo menos aqueles que reunem as maiores obras de arte, são gratuitos. Bem têm à entrada uns grandes paralelepípedos em acrílico com o pedido de 3£ para ajudar a manter a coisa mas, em boa verdade, poucos serão os que fazem a vontade à gerência a avaliar pelos trocos que enfeitam o fundo da caixa ao fim do dia.
Um passeio até Trafalgar Square, sempre cheia de gente, turistas na maior parte dos casos, leva-nos defronte à National Gallery. Depois é só entrar e avançar decididamente até à saleta onde se encontra o Homem do Turbante, mesmo ao lado do Casal Arnolfini, outro milagre saído das mãos de Van Eyck.
Viver ali perto é um privilégio.

Estou certo que não foi a última visita que fiz aquele meu tio. Vou lá voltar. E ele há-de lá estar, impávido e sereno, à minha espera.

Very british

O British Museum (na foto uma imagem do espectacular foyer) é tudo menos british.
Reune uma extraordinária colecção de objectos rapinados nas cinco partes do mundo para espanto dos visitantes que ali chegam vindos de todo o lado. Não me recordo de ter visto nenhuma obra de produção british nas infinitas salas de exposição. Será british por mostrar objectos reunidos pelo Império e não por expor realizações do génio ilhéu. Desde os frisos do Partenon às múmias egípcias, tudo ali recorda a expansão colonial europeia na sua faceta britânica. Os visitantes são, também eles, uma extensa colecção de cromos das diferentes etnias e resultados civilizacionais da nossa espécie. Um espectáculo diversificado e completo.

Nos tempos que correm uma tal exibição de riqueza e diversidade cultural não é nada políticamente correcta. Antes pelo contrário. O que sentirá um cidadão da União que tenha nascido grego ao encontrar ali tantas e tão significativas obras de arte produzidas no seu país de origem, levadas sem pedir licença nem pagar resgate? E o valor que agora lhes damos seria igual caso não estivessem ali? E se a Europa não tivesse triunfado na sua expansão global aquilo a que chamamos Cultura teria a importância e o impacto que actualmente lhe atribuímos? Teriam aquelas pedras esculpidas o valor incalculável que agora têm? Penso que não.

Penso que o chamado turismo cultural é um produto de marketing saído directamente da globalização e que se vê agora ligeiramente ameaçado pela tal guerra contra o terrorismo que, ao que parece, campeia pelo mundo fora de forma aparentemente surda e semi anónima. Uma cidade como Londres tem incontáveis locais onde se mostram esses troféus imperiais para espanto dos visitantes e é daí que lhe vem algum do muito encanto que tem para atrair como atrai tantos milhares (milhões) de turistas e outras aves de arribação que ali afluem como rios de gente que desaguam naquele mar.
Neste campeonato Lisboa ocupa uma classificação bem modesta.

sábado, agosto 26, 2006

Voar

O que teria pintado Friedrich se alguma vez tivesse voado a 10.000 metros de altitude, pairando acima das nuvens com o sol a põr-se infinitamente, mesmo defronte dos olhos? E que monstros poderiam ter sido sonhados por Bosch se alguma vez tivesse atirado os olhos para dentro de um microscópio? As coisas andam todas alinhadinhas na recta do tempo, como patinhos a passearem nas penas da cauda da mãe. Mas imaginar o hiper-romântico Friedrich a voar num avião das British Airways após um controlo anti-terrorista no aeroporto de Heathrow, descalço e sem o cinto nas calças, não deixa de ser um pequeno exercício aliciante. E as duas horas e meia de vôo passam a meia-dúzia de minutos e os patinhos perdem-se da mãe e há outras tragédias e outros alegrias no mundo e no resto.
Voar é uma coisa do caraças e eu nunca me canso de o fazer.
Pelo menos por enquanto (com terroristas e tudo).

quinta-feira, agosto 24, 2006

Nossa Senhora!

Nunca me tinha imaginado numa cena destas. Durante a minha estadia londrina fui com a família assistir live a um concerto da Madonna na Wembley Arena, uma sala de espectáculos assim tipo Pavilhão Atlântico. Menos espectacular mas mais vivaça.
Confesso que o espectáculo foi... espectacular sob o ponto de vista das encenações, dos truques e luzes, som etc., etc., mas, musicalmente, deu para a seca.
Uma das coisas mais surpreendentes foi a Madonna guitarrista (na foto) em bom estilo Ramone. Quer isto dizer que não lhe vi mais que duas (talvez 3) posições diferentes nos dedinhos da mão esquerda mas lá que a Diva leva a guitarra a sério disso ninguém pode ter dúvidas. Ela canta, ela dança, ela guitarreia, ela seduz, faz ginástica e os bailarinos patinam, assombram... eu sei lá que mais. É um espectáculo total com milhares de pessoas aos gritos numa euforia bonita de viver. Estar lá acaba por ser agradável. O pior ainda é ter de gramar a Madonna, mas isso, no meio de tudo aquilo, acaba por ser o menos!

quarta-feira, agosto 23, 2006

Never Ending Story!


Depois de Londres uma semana na Serra do Gerês. Nada melhor para fugir a ataques terroristas e outras modernices do género. Hoje já estou em Viseu a fazer uma visitinha aos meus pais e pouco mais. Quase me tinha esquecido do que é um computador!
Quando regressar a casa estarei apto a contar histórias e trocar impressões sobre os contrastes entre London Town e a Serra do Gerês. Isto de andar em Cyber Cafés ou lá como se chamam estas casas é um bocado secante.
Por exemplo: o gajo que está sentado ao meu lado talvez pudesse ter tomado uma banhoca. Não se perdia nada. Ainda por cima sua abundantemente e mal chega com o peito ao tampo da mesa onde repousa o teclado. Um espécime perfeito do Homem Das Beiras, um género de troglodita que constitui o elo perdido da humanidade. Não desfazendo, uma vez que também eu faço parte desta espécie maravilhosa.
Nesta foto (que fui buscar a um Blog qualquer) vê-se uma escultura que está na "fronteira" da Portela do Homem, num topo do Parque Natural da Peneda Gerês, no local que marca a passagem do Minho para a Galiza por aquelas bandas. Nas placas, que agora não fazem qualquer sentido, há coisas curiosas. Vindos do lado do Minho, onde diz "Espanha" alguém escreveu a spray negro "Galiza do Norte". Do lado de lá, perto da tal estátua, na placa que diz "Portugal" escreveu-se "Galiza Livre". Curioso não? É Galiza dali ao Algarve, numa faixa que se estica preguiçosamente ao lado de Espanha de norte a sul da península.
Um mimo dos muitos mimos que pude observar ao longo destes dias sem fim.
Sinceramente já me sinto um pouco fatigado.
As férias acabam por ser mais cansativas que os dias de trabalho.

quarta-feira, agosto 16, 2006

Stockwell


Esta imagem mostra a entrada da estacao de metro de Stockwell. Foi aqui que a policia inglesa abateu Jean Charles de Menezes por ele levar uma mochila as costas e correr apressado para nao perder o comboio. "Quanto mais depressa mais devagar" diz o ditado, neste caso transformado em humor mais duvidoso que negro. O Cyber cafe onde estou a escrever este post fica exactamente do outro lado da rua. Olhando pela montra posso ver o altar improvisado que esta na imagem. Agora tem um aspecto ligeiramente diferente, tem uma bandeira brasileira, outras imagens... mas o espirito da coisa mantem-se.
Jean Charles foi abatido no meio de uma onda de paranoia anti terrorista, vagamente semelhante a que atravessamos agora. Hoje vou voar de regresso a Lisboa. As coisas parecem normalizadas nos aeroportos. Ja fiz o check-in on line, o voo esta confirmado. Confesso que e com algum alivio que deixo Londres apesar de nao ter sentido nada desta paranoia no meu quotidiano citadino. Apenas os jornais acentuavam o panico em cada edicao, principalmente os vespertinos. Passada a ameaca dos planes de imediato surgiu uma suposta ameaca no tube! estes gajos fazem tudo o que podem para vender jornais. Os nossos diarios nao passam de aprendizes nesta materia.
Stockwell e uma zona com muitos portugueses. Fiquei hospedado em casa de uma velhota algarvia simpatica, daquelas que falam pelos cotovelos. Ainda agora fui tomar um "bica" ao restaurante o Conquistador. Deu ate para comer um pastel de nata! Os portugas parecem criar uma comunidade a parte com os seus cafes, as suas lojas, os seus pequenos mercados. A integracao nao parece ser o principal objectivo desta malta.
Bom, o meu tempo esta a expirar.
Ate mais logo, ja com acentos e num portugues mais escorreito!

terça-feira, agosto 15, 2006

Perigo!!??

Estou retido temporariamente em Londres devido as ameacas de atentados bombistas (nota-se a falta de acentos, nao?) que deixaram a British Airways de pantanas. Por aqui corre a conviccao de que tudo isto tem o objectivo de tentar recuperar os indices de popularidade de Mr.Blair. Esse palhaco continua de ferias nas Bahamas enquanto por aqui se vao amontoando turistas mais ou menos desesperados e ingleses que veem as suas ferias a fugirem ao controle.

Se tudo correr bem conseguirei viajar amanha, mas a sensacao de estar a ser enganado por uma grande maquinacao nao me abandona e deixa um gajo bastante irritado.

`A parte isso a estadia at`e tem sido interesante. Mais tarde tentarei actualizar o 100 Cabecas. Olhar o Mundo de outro pais `e uma experiencia curiosa. Ler a imprensa inglesa tem sido muito revelador. Para estes gajos al`em da Inglaterra s`o existe a Esc`ocia e pouco mais.

Bom, vou ter de desligar. At`e amanha... ou depois!

segunda-feira, agosto 07, 2006

Idiotas: úteis e inúteis

Do Público on line:

Também hoje, no Iraque, um grupo de homens armados distribuídos por duas viaturas disparou contra uma barbearia de Bagdad, matando cinco pessoas, enquanto dois polícias morreram num ataque semelhante em Mossul, no norte do país. Em Bagdad as autoridades encontraram ainda dois corpos algemados e baleados na cabeça.

Duas viaturas armadilhadas explodiram com um intervalo de um minuto numa das principais áreas comerciais de Bagdad, na rua Palestina, provocando oito feridos entre civis e dois entre as forças policiais, segundo avançou o tenente da polícia Ahmed Mohammed Ali. O responsável indicou que o alvo deste atentado seria uma patrulha da polícia.

Três soldados norte-americanos morreram ontem na explosão de uma bomba na região de Bagdad, anunciou hoje o Exército dos EUA. Num outro ataque, ontem à noite, em Baaquba, morreram seis soldados iraquianos e um dos atacantes.
A notícia da morte dos três militares norte-americanos surge um dia depois da chegada ao Iraque de um reforço de 3700 soldados com a missão declarada de restabelecer a segurança em Bagdad. Desde a invasão norte-americana do Iraque, em Março de 2003, já morreram 2590 soldados dos EUA, segundo um balanço do Pentágono.


A coisa não abranda, antes acelera em descontrolo absoluto levando tudo na frente. Um desastre completo. Fala-se em guerra civil mas aquilo parece outra coisa só que como não se percebe o que é chama-se-lhe "guerra civil".

Não tenho qualquer prazer especial em confirmar o delírio neoconservador que sonhou com um anedótico "efeito de dominó", que o enxerto de uma democracia de tipo ocidental iria provocar em toda a zona, a partir do Iraque. Não me lembro de um erro de cálculo tão grosseiro e, ao mesmo tempo, tão previsível. Só mesmo saído da cabeça de algum vaqueiro transformado em chefe de estado!

Como seria possível que um povo com um legado como o do passado histórico da Mesopotâmia fosse abrir os braços em gesto de boas vindas a uns estranhos estrangeiros, ainda por cima aparentados com os franj das cruzadas?

Não sei se me impressiona mais a imbecilidade da ideia se a incapacidade de grande parte dos que a defenderam em reconhecerem a dimensão das suas orelhas de burro. O Iraque estará melhor agora do que sob o jugo de Saddam? O que poderá nascer das cinzas desta espécie de guerra civil a que assistimos? Um super-Saddam ou outra monstruosidade do género?

Não sei não. O que sei é que, onde metemos o nariz sem sermos chamados, acabamos por fazer merda da grossa mesmo que tenhamos a melhor das intenções. É que, quando as coisas começam a descambar e a correrem mesmo mal, nem os nossos amigos têm sempre a capacidade para nos perdoar a merda que fizermos. Nem mesmo os nossos amigos...

domingo, agosto 06, 2006

M



Há filmes assim. Filmes que podemos ver e rever sem nunca nos cansarmos. A cada novo visionamento redescobrimos as qualidades que nos levaram uma e outra vez a procurá-los. M, de Fritz Lang, passou aqui há dois dias no canal Arte. Versão recuperada, mais próxima da original segundo a introdução, com cenas perdidas noutras versões. Falado em alemão e legendado em francês, a sessão do Arte foi um momento especialmente empolgante para mim pois assisti a ela com a minha filha.

Eu sei que ela tem apenas 12 anos, que um filme como M deveria, à partida, ser uma espécie de seca tremenda para a criança. Mas a verdade é que um filme quando é excelente não seca os miolos de ninguém que goste de cinema ou ande a descobrir que gosta. Ficou provado.

Além disso ainda pude exibir-me um pouco fazendo algumas traduções do francês, lígua que aprendi na escola secundária (tive apenas um ano de inglês) e debatendo aspectos cinematográficos ali, "em directo" e "ao vivo".

Hoje revi com a minha filha Dead Man de Jim Jarmusch numa gravação feita também do Arte, por coincidência. A Eva é fã de Johnny Depp que protagoniza (ou será mais apropriado dizer "que agoniza"?) esta espécie de western anti-canónico. Já fizemos outras experiências do género com igual sucesso (estou a lembrar-me de A Noite do Caçador, de Chales Laughton).

É um prazer misturar estes filmes com os da Pixar ou os chamados clássicos da Disney, ou os filmes de Tim Burton e de Shyamalan, para citar apenas os preferidos da minha família e ir (re)construindo um imaginário cinematográfico que tem um dos seus pontos altos em O Feiticeiro de Oz de Victor Fleming.

Não há que temer a variedade nem a mistura de géneros e de épocas diferentes. Afinal é aí que reside a essência da cultura Pop: síntese e reinvenção! É não é? A erudição fica bem num jarra de flores, a enfeitar o púlpito do discursante. Não há que ter medo de se gostar daquilo que verdadeiramente se gosta.

Voltando a M, o que mais me impressiona é a narrativa e a quase ausência de personagens individualizadas. Não há uma personagem principal. As personagens são pessoas colectivas que se diluem na sequência narrativa e dão um carácter épico a uma história de uma simplicidade quase absurda.

Tenho algures uma cópia em cassete de vídeo legendada em português... vou procurá-la.

sábado, agosto 05, 2006

Carros


No mínimo surpreendente!!!
A Pixar é a mais extraordinária das produtoras de filmes de animação. Isso já todos sabemos (pelo menos quem vê este género cinematográfico). Toy Story ou Finding Nemo, para citar apenas dois exemplos, são filmes inesquecíveis. Não apenas pela assombrosa técnica de animação desenvolvida pelos criativos da Pixar mas, sobretudo, pelos argumentos e pelas personagens que inventam.

Confesso que quando vi as primeiras imagens deste Cars fiquei céptico. Um filme cujas personagens são carros... pareceu-me uma grande treta. No entanto acabei por conceder o benefício da dúvida à Pixar. Afinal de contas nunca me tinham deixado desiludido e a curiosidade acabou por vencer o cepticismo.

Lá convenci (com extrema facilidade, reconheço) a minha filha a ir ao cinema.
Fomos ver a versão dobrada em português, o que vai um pouco contra os princípios familiares, mas o risco de perdermos o filme numa sala de cinema levou-nos a avançar corajosamente. Além disso temos ainda bem presente a inultrapassável performance de Rita Blanco em Finding Nemo (À Procura de Nemo, para ser mais exacto) a melhor dobragem jamais feita em português e dificilmente destronável.

Cars acabou por ultrapassar as expectativas. Eu já devia saber que da Pixar só podemos esperar espectáculo e divertimento em doses generosas e que a mestria das suas equipas é simplesmente genial seja em que aspecto fôr.
Depois disto posso garantir que nunca mais duvidarei de produtos PIxar por muitos (ou poucos) anos que viva e assistirei no cinema a todos os seus filmes (o próximo Ratatouille promete novos feitos supreendentes). Quem consegue humanizar daquela forma os Carros deste filme, consegue o que quer que seja em cinema de animação.

A não perder, dê lá por onde der.

Já agora uma visitinha ao site da Pixar não fará mal a ninguém, bem antes pelo contrário!
http://www.pixar.com/theater/trailers/rat/index.html

sexta-feira, agosto 04, 2006

Isto aqui não é uma pintura!


Pois não. Sendo uma imagem virtual de uma foto tirada a uma pintura, nunca poderia sê-lo. O homenzinho do chapéu de côco, vestido de preto, encasacado, é um ícone. Não se percebe bem de quê. Tanto pode ser um corrector da bolsa como um gato-pingado. Aquela indumentária é algo misteriosa.
Este aqui, cá para mim, é a morte. Versão burocrata.
A morte tipo cobrador de impostos que não deixa ninguém escapar, que vai cobrar tudo até ao mais ínfimo cêntimozinho. Os olhos dele são duas fendas pretas. Acho que não tem olhos.
Seja lá o que for, uma pintura não é de certeza.
As coisas nem sempre são o que parecem. Eu diria mesmo que nunca são o que parecem, mas isso iria parecer exagerado e a ideia perderia impacto. Convém ir de largo, dar a sensação ao outro que está a participar da construção da ideia, manipulá-lo.
Há pessoas para quem isso é fácil. Tão fácil que até parecem estar sempre a ser sinceras e amigas, incapazes de atraiçoar um passarinho.
O que irá lá debaixo, no interior da cúpula do chapéu de côco? Quem irá pagar a dívida?

quinta-feira, agosto 03, 2006

Flutuante



Não tenho a certeza. Tenho demasiadas dúvidas. Talvez sejam dúvidas suficientes. Admito mesmo mesmo que haja quem se afogue nelas. Ainda consigo flutuar, enfiado num raciocínio colorido que é a minha bóia.

Os que têm certezas gozam com a minha bóia. Esses nadam. Melhor, esses navegam um cruzador de certezas, um porta-aviões de segurança blindado em opiniões que não constroem, antes surgem por geração espontânea, brilhantes, vindas de trás do sol-posto.

Eu arrisco-me a ir ao fundo, pois a bóia das minhas dúvidas não dá garantias de grande sucesso. Numa perspectiva darwinista os capitães do porta-aviões da verdade e da certeza têm muito mais possibilidades de sobrevivência. Olhando os cascos brilhantes destas naves maravilhosas sinto mais receio que respeito mas reconheço que do lado de lá das montanhas virão outros como estes, montados em mísseis voadores, carregados com ogivas de outras verdades e outras certezas.

Estou no meio de um combate que me ultrapassa e tende a aniquilar-me. A mim e a outros como eu, agarrados às nossas dúvidas. Estaremos a viver o declínio de um Império? Será esta guerra o princípio do fim? Quanto tempo dura o fim de um Império?

quarta-feira, agosto 02, 2006

Uma Pequena História do Mundo

A edição portuguesa é da Tinta da China e pode adquirir-se por 25€ numa loja FNAC. A escrita clara e escorreita de Gombrich proporciona uma experiência de leitura, no mínimo, curiosa.

Escrito em 1935, este livro mostra como se pode falar de História a um público jovem de uma forma interessante e viva. Após a sua leitura fica-se a pensar porque hão-de as nossas criancinhas ter de aturar manuais de História que são uma valente seca, pretensiosos e cheios de "actividades" com a informação servida às colherzinhas, como se fosse um xarope intragável. Além do mais só um manual para o 7º ano de escolaridade é mais dispendioso do que "toda" a História contada por Gombrich.

É claro que este livro não tem imagens coloridas, nem quadros cronológicos, nem nada dessas coisas que fazem a glória dos manuais escolares. Essa parte deveria ser incumbência do mestre. Uns acetatos ou um computador portátil permitem pequenas maravilhas de comunicação visual.

Enfim, penso que seria uma medida inteligente substituir os manuais de História no ensino básico por esta Uma Pequena História do Mundo. Ficaríamos a ganhar sob o ponto de vista monetário por ser mais económico, sob o ponto de vista pedagógico por ser mais eficaz na exposição dos temas históricos, sob o ponto de vista ecológico pelo que se poupava em papel e tinta e, finalmente, sob o ponto de vista da formação individual dos putos.

Caramba, este Gombrich merece que não o esqueçamos nunca!