sábado, novembro 18, 2006

Fábula contemporânea

O governo do nosso país já foi como um bébé numa incubadora. Ainda por cima os irmãos mais velhos, os tios e os primos, que deveriam zelar pelo bem estar do pimpolho, divertiam-se a apontar-lhe os defeitos e iam profetizando desgraças que nem a bruxa má da Cinderela foi capaz de inventar.
Cada visita dos familiares era um risco para o bébé. É que não se limitavam a dizer mal. Não. Aproximavam-se ameaçadores, com sorrisos malévolos e davam uns abanões à coisa e puxavam os fios e riam-se das maldades que lhes passavam pela cabeça.
Esse governo era protegido por um menino muito corajoso, um pequeno campeão da saudade e da justiça. Alguns comparavam-no ao célebre Rambo, outros diziam que ele não prestava para grande coisa, mas acabou conhecido como sendo um menino guerreiro.
Apesar dos esforços do menino os familiares levaram a melhor e o pobre governo finou-se ainda antes de ter rastejado para fora da incubadora. Foi pena porque o menino cresceu e agora é que estava capaz de proteger um governo como deve ser mas parece que já ninguém confia nele o suficiente para lhe dar outra vez a responsabilidade de encabeçar uma vara ministerial.
O menino/homem regressou para se mostrar e contar as peripécias do tal governo franzino e enfermiço. Regressou para atormentar os maus e dar esperança aos bons.







quinta-feira, novembro 16, 2006

Maquinação

Posso estar a ficar paranóico, pode ser mera alucinação, mas tenho uma suspeita a bater-me na cabeça como um tambor à maneira dos Sex Pistols: estão a lixar a Escola Pública... de propósito!!!
Rais parta se não está tudo a convergir para que esta ideia meio destrambelhada ganhe sentido a cada dia que passa. Aliás, não será apenas a Escola que está a perder terreno, são demasiados sectores que vêem a ratazana do estado a fugir antes que as barcaças se afundem. Ele é a saúde, ele é a agricultura, as pescas, até a soldadesca se agita reclamando do Orçamento de Estado. Mas que raio de merda é esta? O que se passa?

No sector do ensino a tramóia já vem de longe. Desde há demasiado tempo a esta parte que os ministros que sentam o cú nesta pasta têm desinvestido forte e feio. A actual ministra então, abusa, como todos podemos ver. Menos dinheiro, anuncia o Ministro das Finanças e do Ensino nem um pio. Silêncio canino, obediente. Asneiras inacreditáveis cometidas a um ritmo alucinante e sem consequências de maior para tantos assassinos da escola pública, a impunidade é total. Ainda têm direito a louvores e carreira política. Cheira mal.

O caos está instalado. O cerco aperta sobre os professores, sobre os bons, sobre os maus, sobre os mais ou menos, levam todos pela medida grossa. Até parece que querem fazer-nos desistir da profissão. Quantos menos melhor. Mais se poupa em ordenados, piores são as condições nas salas de aula, a abarrotarem de criaturinhas com mochilas do tamanho de tanques de guerra. O ambiente está cada vez mais pesado. Dentro de meia dúzia de anos será insuportável.

De vez em quando há umas vozes habilitadas a reclamar o direito de os encarregados de educação poderem escolher livremente as escolas onde vão matricular os rebentos. Privadas incluídas. É claro que os filhos das classes médias também têm o direito de frequentar esses oásis de disciplina (tanga!) e com uma qualidade de ensino superior. É aí que se fala nos célebres cheques-ensino e ninguém treme. O Estado desinveste nas escolas mas investe no subsídio para engordar os lucros das privadas. Lindo! Os pobres terão de se contentar com escolas próximas da dissolução, com livros caríssimos, instalações decrépitas e professores desmotivados. O Destino está traçado.

Os filhos das classes mais favorecidas cumprirão o seu fado. Com um enquadramento familiar favorável e ambiente de trabalho muito superior, lá se vão preparando para ocuparem os cargos de direcção e governação, perpetuando a voracidade da sua condição social.
Cá para baixo, na base da pirâmide, acotovelam-se os mongas, destinados à servidão, ao trabalho precário e a uma existência baseada num desejo impossível de cumprir.

Têm razão os que garantem que não faz sentido falar em luta de classes. Não é uma luta, na verdade é mais uma guerra que aí vem.

terça-feira, novembro 14, 2006

Exposição

Está marcada para amanhã a inauguração da exposição Diálogo de Vanguardas que reúne obras de Amadeo e de uma série de ilustres vanguardistas seus contemporâneos. Será decerto uma exposição empolgante.
Quando ouço falar deste extraordinário pintor vem-me sempre à memória a primeira sessão da cadeira de Pintura do 3º ano, a que assisti na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Enquanto enumerava a sequência de trabalhos que teríamos de apresentar ao longo do ano lectivo, o professor Lima de Carvalho ia avisando os jovens alunos de que ali não seriam admitidas "picassadas" e elucidava-nos que Amadeo havia sido um "doentinho" que vivera demasiado tempo enfiado na sua quinta de Manhufe. Gil Teixeira Lopes estava calado e de cara fechada aterrorizando o pessoalzinho com o seu silêncio, pelos vistos concordando com as doutas palavras do colega. Isto passou-se para aí em 1984 e dá bem uma imagem da qualidade do ensino na ESBAL dessa época.
Sempre gostaria de saber se aquelas palavras eram verdadeiras ou se tinham apenas como objectivo encaminhar os nossos trabalhos num determinado sentido. Seja como for acredito que os meus "mestres" de então se contem entre os visitantes desta exposição que promete vir a ser um êxito.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Cazaquistão

Na próxima 4ª feira defrontar-se-ão em Coimbra (se Deus quiser) as selecções nacionais de futebol de Portugal e do Cazaquistão.
O acontecimento até poderia passar despercebido da maioria da população (onde é que o Cazaquistão fica no mapa?) não fossem as recentes broncas com a estreia do filme Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan http://www.imdb.com/title/tt0443453/.
Sacha Baron Cohen criou esta personagem mirabolante e tem conhecido um êxito tão extraordinário quanto inesperado. Agora, sempre que surge o nome Cazaquistão, toda a gente tem uma ideiazinha qualquer acerca do país. É certo que a imagem criada por Borat não será a mais lisonjeira mas este é o preço a pagar pelo estrelato alcançado.
4ª feira no Estádio Cidade de Coimbra haverá muitos sorrisos e bocas parvas, quem sabe se espectadores mais atrevidos não irão levar cartazes com Borat ou até mascarar-se para poderem gozar um bocadinho?
Não posso deixar de lembrar que este estádio foi um dos muitos reciclados ou construídos de raíz para o Euro 2004 disputado no nosso país. Este, como a maioria dos restantes, está sempre às moscas por falta de público deixando a céu aberto a falta de bom senso com que o referido campeonato foi encarado pelos diferentes poderes da nossa gloriosa nação tão necessitada de saneamento básico. Fala-se mesmo na necessidade de cortar os apoios à cultura para poder financiar a criação de esgotos. Tristonho, não?
Os vários mastodontes brancos que foram semeados por aí fora (o que pensar, por exemplo, do estádio do Algarve? O que é feito dele?) mostram bem o provincianismo atávico que caracteriza o portugalzinho das sandes de couratos regadas com belas cervejas "mines".
4ª feira lá estaremos, nódoa de gordura na camisa e arrôto à porta da boca, prontinhos a gozar com os cazaques graças aos destempêros de Baron Cohen e vamos rir. Mas, verdade, verdadinha, vamos rir de quê, exactamente?

domingo, novembro 12, 2006

Unidos como os dedos da mão

XV Congresso do Partido SocialistaMoção de Sócrates aprovada por esmagadora maioria 12.11.2006 - 13h22 LusaA moção "O rumo do PS: Modernizar Portugal", que tem como primeiro subscritor José Sócrates, foi hoje aprovada no XV Congresso do PS pela esmagadora maioria dos 1800 congressistas, com apenas um voto contra e seis abstenções.
O único voto contra a moção de José Sócrates partiu da deputada Helena Roseta.
A moda parece estar a pegar. Depois da quase unanimidade na eleição de Luís Filipe Vieira para o cargo de presidente do Benfica; depois da eleição de Kim Jong Il como supremo líder da nação Norte Coreana sem um pio discordante, chegou agora a vez de José Sócrates mostrar ao país a importância de estar no poder e ter a coisa bem controlada.
Os congressistas mostraram o vigor do partido e a pluralidade de opiniões que sempre o caracterizaram.
Ao que parece apenas Helena Roseta (na foto) levantou a voz para contrariar a pasmaceira unanimista do congresso. Dizem as más línguas que o problema dela é, na verdade, com a sua cabeleireira e que, caso tivesse direito a um penteado menos obnóxio decerto alinharia com os restantes camaradas que continuam a ver nela um submarino do PPD que está ali com a única finalidade de aborrecer quem não merece ser aborrecido.

sábado, novembro 11, 2006

Lá vai um...

Aqui há uns tempos ouvi alguém dizer que a eleição do presidente do Estados Unidos era um assunto demasiado importante para ser da exclusiva responsabilidade dos cidadãos dos states. Todos os cidadãos do mundo deveriam ter direito a voto. De tão estapafúrdia a ideia até faz algum sentido.
Na 3ª feira passada o pessoalzinho esteve atento às peripécias da eleição para o senado e congresso americanos. A coisa acabou por correr mal aos republicanos, como se esperava. Ao que parece a desgraça iraquiana sempre tem algum eco em eleições nacionais. Em termos de publicidade negativa os democratas não precisaram de investir tanto como os seus adversários. Basta assistir a um serviço noticioso e tem-se ali escarrapachada a estupidez dos que levaram o Iraque à beira do precipício em que se encontra. Tão escarrapachada que até o eleitorado que já deu duas oportunidades a Bush de mostrar aquilo que é acabou por perceber que tinha feito merda em elegê-lo.
Bush, percebendo que a coisa está mesmo bera, tomou um medida de grande alcance político, uma daquelas coisas que mostra grandeza de espírito e largueza de horizontes: deixou cair Rumsfeld, o arquitecto da desgraça.
Bush, a partir daqui, é um fantasma.

Se fosse ano novo...

... comia uma fatia de bolo-rei. Um jornalista mais ingénuo pediu a Cavaco uma reacção à condenação à morte de Saddam. O presidente ficou incomodado, não respondeu. Precisou de 24 horas para construir uma opinião? Tenho pena que o nosso presidente confirme constantemente a sua proverbial falta de agilidade de raciocínio.
Ele, que tem sido tão opinativo nos discursos (que lê), não tem opinião sobre um assunto político tão importante? Ainda por cima levou 24 horas a descobrir que subscreve a posição da União Europeia.
É triste mas é assim mesmo.

Parece mentira

No Conselho de Segurança das Nações Unidas Estados Unidos vetam resolução que condena operação militar israelita em Gaza
11.11.2006 - 18h08 AFP, Reuters
Os Estados Unidos vetaram hoje no Conselho de Segurança das Nações Unidas um projecto de resolução árabe que condena as operações militares de Israel na Faixa de Gaza, bem como os ataques palestinianos contra Israel.

Não é por nada, mas se eu fosse palestiniano ia decerto imaginar que os EUA e os israelitas estavam combinados para me lixarem a vida (transformando-a em morte).


Se, por um acaso do destino, fosse um palestiniano com acesso a informação que me permitisse saber que numa outra votação que tem dado que falar (e que tem feito sorrir muita gente) os israelitas foram os únicos em todo o mundo a apoiarem os EUA em mais uma das suas medidas punitivas, então a suspeita daria lugar à certeza: estes dois países são governados por tipos que se apoiam mutuamente para encobrirem ou permitirem todo o tipo de crimes que pretendam levar a cabo em nome do direito internacional.


Parece mentira, parece impossível que possa haver governos saídos de eleições democráticas capazes de engendrar planos tão maquiavélicos e influenciem negativamente as vidas de milhares de pessoas em locais tão afastados no planeta como são a Palestina e Cuba. Parece mentira mas parece também que é verdade.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Cuba libre*




As imagens são actuais. As personagens são verdadeiras.
O bloqueio engana-se com imaginação e alguma dose de humor.
Nalguns casos não tem graça nenhuma, mas este "bus" às costas de um camião...


A Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou esta quarta-feira uma resolução por esmagadora maioria, pedindo o levantamento do embargo económico a Cuba imposto pelos Estados Unidos, que se mantém desde 1961.
Denominada “Necessidade do levantamento do bloqueio económico, comercial e financeiro imposto a Cuba pelos Estados Unidos”, a resolução não tem carácter impositivo, apenas reflecte a opinião da comunidade internacional.
A resolução reuniu 183 votos a favor, quatro votos contra, dos Estados Unidos, Israel, Palau e Ilhas Marshall, e uma abstenção, da Micronésia.

Há coisas que não se explicam. Há outras coisas que se percebem muito bem. Se o embargo dos EUA à ilha do Fidel ditador merece uma reprovação absoluta no quadro das Nações Unidas é porque há ali porcaria da grossa. São 183 nações a afirmar que se deve pôr termo ao embargo. Os apoios dos EUA, além do eterno cão-de-fila israelita, não chegam sequer a ser ridículos.

Há quem pense que, tal como no caso do Iraque, a admnistrição americana comete, também aqui, um erro de apreciação grosseiro e mesmo contraproducente. A estratégia para acabar com a ditadura castrista tem-se revelado inadequada.
O verdadeiro problema da ditadura castrista será a abertura total ao exterior, impedir essa possibilidade de abertura é fazer um favor aos manos Castro lá daquelas bandas. Quanto mais o "animal" é acossado mais fundo se esconde na toca e mais difícil é convencê-lo a deitar o focinho de fora.
É o que dá querer caçar um rato inteligente com um elefante que sofre de atraso mental e nem sabe o que é a sua tromba.

Paradoxalmente imagina-se que uma Cuba democrática será, numa primeira fase, um perigo total para a esmagadora maioria dos cubanos. No dia em que o regime dos manos Castro vier abaixo aquela ilha vai ser devorada por uma matilha de multinacionais dos mais variados negócios e não se sabe se irá sobrar alguma coisa para, numa segunda fase, se poder construir um país verdadeiramente democrático.

Já percebemos que o pacote estratégico dos EUA com "liberdade/democracia/consumo" é para aplicar tipo supositório metálico, coisa que o "beneficiário" nem sempre está disposto a permitir que lhe metam no respectivo local.

*Rum com Coca-Cola?

quinta-feira, novembro 09, 2006

Anda, Pacheco!*


"A diferença entre um quiosque e a blogosfera" é o título de um interessante texto de Pacheco Pereira no Público de hoje, não se encontrando disponível on line para quem não for subscritor da edição virtual daquele diário resta a leitura em papel.
Pacheco Pereira tem-se distinguido enquanto um entusiasta do blogue e desenvolve neste artigo um raciocínio bem caraterístico com alguma graça e qualidade literária q.b. oscilando entre a lucidez esclarecida e uma espécie de malandrice, quase traquinice, quando passa uma ou outra rasteira mais inesperada ao leitor desprevenido.
Um texto recomendável para a generalidade dos cidadãos mas, muito particularmente, recomendável para os bloguistas mais ou menos militantes.
Defende Pacheco Pereira a ideia de que 90% da produção dos blogues é lixo e o resto aproveitável. Na próxima 5ª feira irá dissertar sobre os tais 10% nos quais O Abrupto deve ter parte de leão, imagino. A não perder, caros compinskas.

*Expressão característica da fadista Hermínia Silva como forma de incentivo para um dos seus guitarristas (ou seria o viola?) e divertimento do público.

Alguém deixou a informação num comentário anónimo: o texto referido neste post está disponível n'O Abrupto (onde mais?). Tem ainda uma série de imagens que ilustram a prosa, conferindo-lhe (aida) maior brilho. Obrigado Anónimo, obrigado Pacheco.

terça-feira, novembro 07, 2006

Subsídiodependentes


Três famosos subsídio dependentes:
Mozart, Leonardo e Moliére

Rui Rio demonstra ser uma espécie de déspota iluminado. A sua decisão de cortar os subsídios para a cultura na cidade do Porto mostra como está muito à frente da nossa época no que respeita a perspectivas de governação da coisa pública.
A arte só é Arte quando tem a caução do público. Se o povo não adere ao porjecto de um artista é prova segura que esse projecto não presta.
Parece evidente que todo e qualquer criador que não tenha público e não consiga subsistir com o resultado liquído do fruto do seu trabalho só pode ir estender a mão para a porta da igreja aos domingos de manhã. Ah, grande Ruca, se não fosses tu não teria nunca compreendido tamanha evidência que sempre esteve ali, à frente do meu nariz e eu sem perceber nada!
Mas, Rio, meu amiguinho, terá sido sempre assim? Ponho-me a pensar e o meu nariz, teimoso como uma mula, começa a tapar a evidência. Se não tivesse havido déspotas que exploravam o povo para depois erguerem pirâmides e construirem palácios (oh, Versailles...), se não tivessem existido papas mais vaidosos que a deusa da beleza (oh, Sisto e a sua capela...), se não tivesse havido tanto investimento a fundo perdido em obras de arte que, ainda por cima, eram para consumo de reduzidíssimas elites o que seria da grandiosa história da humanidade tal como hoje a conhecemos?
Leonardo teria podido explanar todo o seu génio caso não andasse constantemente de mão estendida a saltar de patrono em patrono, à procura de bem-estar pessoal? E que dizer do imortal Mozart, esse verdadeiro pedinchão?
Caramba, ouvindo o que dizes e seguindo o teu raciocínio, caro Ruca, as coisas parecem evidentes. Mas quando penso durante... digamos, trinta segundos, tudo isso me parece uma tremenda estupidez e, de repente, vejo-te apenas pequenino e rancoroso, incapaz de ganhar dimensão suficiente para desempenhares o cargo de que foste investido.
Mas, decerto, estou enganado. Tu és um gajo do caraças, nós é que não te compreendemos.

segunda-feira, novembro 06, 2006

Arte, para que te quero!?

Tríptico da Salvação, RSXXI, acrílico sobre papel, 2005
(clicar sobre a imagem para visualização mais apropriada)

Afinal de contas para que poderá servir a pintura numa época que se reclama pós-moderna? Para reflectir sobre os seus códigos próprios e os seus limites e fronteiras? Para exposição mais ou menos apática das minudências esquemáticas do ser que a produz? Faz sentido rebuscar na tradição pictórica temas e narrativas, revestindo tudo com novas perspectivas observadas à luz da época contemporânea actual? Porra, que sentido pode ter a produção artística num contexto tão fragmentado e longínquo de si próprio como aquele em que nos movemos quotidianamente?
Correndo o risco de parecer um tremendo bota-de-elástico (que expressão mais démodée!) reclamo o regresso de uma dimensão moralista em que o discurso sobre a virtude e o vício ganha forma metafórica, à maneira dos neoclássicos, despindo-lhe o carácter académico do discurso formal. Ou, dourando um pouco a pílula, engajando o discurso pictórico a causas sociais e políticas definidas como fizeram os pintores do realismo oitocentista ou alguns expressionistas e dadaístas, lá mais para a frente e mais cá para trás.
Penso que só faz sentido pintar quando se pretende intervir. A arte pela arte, a arte sem objecto, a arte que discursa sobre questões abstractas da relação dos elementos básicos da linguagem visual com o campo limite e suporte dos materiais actuantes, parece-me uma absoluta chatice, incapaz de fazer com que o olhar do espectador ultrapasse o estado de bovinidade que atingiu por causa da indiferença relativista que a modernidade anunciou e a pós-modernidade adoptou como estratégia de artistas diletantes, mestres da pose mediática e ignorantes absolutos das técnicas e dos discursos históricos.
Reclamo então que a arte deve regressar ao campo de batalha de forma agressiva e discursando ininterruptamente sobre as questões do mundo circundante, olhando-o, criticando-o, tentando forçar a iluminação do espírito que a observa. Com brutalidade e contundência. Não há outra forma de o fazer.

domingo, novembro 05, 2006

3 notas


nota 1.Mais seis países árabes, de Marrocos aos Emirados Árabes Unidos, pretendem iniciar programas nucleares com fins pacíficos, dizem. Já agora e assim com assim, porque não? O número de dementes absolutos com acesso a armamento nuclear já é suficientemente preocupante. Mais um ou outro não virão acrescentar grande mal ao mundo. O mal já cá está e é por cá que vai ficar. A menos que uma guerra nuclear venha a ter batalhas na Lua ou coisa que o valha. Um dia a vida na Terra vai acabar, quanto mais não seja quando o Sol se extinguir. E Deus? Morrerá também?

nota 2. A campanha eleitoral para o Senado nos EUA tem mostrado até que ponto a liberdade de expressão pode ser um espelho límpido da baixeza humana. Os métodos utilizados são frequentemente deploráveis e os gastos na produção dos spots verdadeiramente astronómicos. Sendo os EUA o modelo democrático mais desenvolvido (dizem por aí) devemos concluir que mais dia menos dia teremos campanhas na Europa com o mesmo nível de devassa da privacidade dos candidatos? Se bem estamos lembrados, na campanha para as Legislativas que deram a maioria absoluta ao PS, Sócrates foi atacado por um boato que colocava Diogo Infante no centro de um argumento miserável. Resultado? Sócrates é 1º ministro e Diogo Infante director do Maria Matos. Talvez isto constitua prova de que, entre nós este género de merda mediática ainda vai levar algum tempo a vingar. Deus nos ouça...

nota 3. Rui Rio deu mais uma prova de falta de cultura democrática (estou a ser simpático e a conter-me na apreciação deste cromo) decretando o fim da atribuição de subsídios a fundo perdido com o aval do executivo camarário a que preside. Este ser vivente mostra como o sistema democrático pode falhar quando elegemos bimbos mal educados e com mais complexos que Napoleão e Hitler juntos num mesmo corpinho. Apesar do gel no cabelo e do sorriso liofilizado, Rio não passa de um pequeno ditador (baixote mesmo) que nada fica a dever aos atrás citados, apenas se distinguindo deles pela dimensão dos poderes que manipulha (este erro ortográfico não é inocente).

quinta-feira, novembro 02, 2006

Cinzento

Os Filhos do Homem
Título original: Children Of Men De: Alfonso Cuáron Com: Clive Owen, Julianne Moore, Michael Caine. Género: Dra, Thr Classificacao: M/16 2006, Cores, 109 min.

argumento

2027, os últimos dias da raça humana. O planeta caiu na anarquia total, provocada por um problema de infertilidade na população. A Humanidade enfrenta a possibilidade da sua própria extinção. Em Londres, cidade dividida pela violência de grupos nacionalistas, Theo (Clive Owen), um desiludido burocrata, torna-se no improvável defensor da sobrevivência do planeta, quando se vê obrigado a enfrentar os seus demónios e a proteger Kee, uma mulher grávida.

PUBLICO.PT
Aí está um filme daqueles que, sendo a cores, acabam por dar ao espectador a sensação de uma infindável gama de cinzentos, parecendo nunca tocar os extremos, deixando de fora o preto e o branco.
Os temas que aborda não são dos mais coloridos: o terrorismo da Internacional Bombista, a xenofobia, o estado policial, as políticas anti-migrações, o individualismo conformista versus a vertigem iluminada dos extremistas revolucionários e, por fim, o decréscimo da fertilidade levada ao extremo, num mundo em que o mais jovem dos cidadãos tem 18 anos de vida.
O filme tem alguns problemas ao nível da narrativa. Colocando a acção num futuro próximo e num mundo que nos é familiar, bate-se com a necessidade de explicar tudo e não o explicar completamente uma vez que o espectador será capaz de preencher os vazios narrativos de forma dinâmica, socorrendo-se da sua própria experiência e conhecimento da actualidade. O resultado não é lá muito eficaz.
Por outro lado as personagens acabam por não ganhar espessura suficiente, refugiando-se com frequência num certo estereotipo algo maniqueísta. Mas, por outro lado, há desempenhos interessantes, nomeadamente o de Clive Owen, um actor cada vez mais brilhante em cada filma que passa.
Assim, aos tropeções, o filme avança. A uma aturada construção visual, coroada com alguns planos e sequências de grande eficácia, opõe-se algum arrastamento narrativo, resultando num objecto cinematográfico algo desiquilibrado e cinzento como um moribundo. O tom geral é de grande sufoco e o ambiente na sala pesa como chumbo.
No final um raiozinho de esperança para desanuviar um pouco.
Enfim, caso não haja nada de muito mais interessante para fazer poderá ser um filme a ver, sabendo de antemão que não se trata de nada de extraordinário. Digamos que merece uma estrela e uma palmada na testa (sempre poderá gerar mais uma ou duas estrelas, dependendo da palmada e dependendo da testa).

quarta-feira, novembro 01, 2006

Ricochete e vingança


O Haloween é uma prótese estranha no actual calendário em Portugal. Os mais jovens não se atrapalham. Para eles trata-se de mais uma festa como tantas outras. Não precisa de justificação. É como o São Valentim com o seu aberrante "be my valentine" estampado em almofadinhas com forma de coração que os namorados oferecem às namoradas e vice-versa, como se aquilo pudesse significar alguma coisa!
É nessa linha que podemos encontrar, no Haloween, rapariguinhas disfarçadas de bruxas ou Batmans fora de época.
A importação e consequente enxerto deste corpo estranho no calendário festivo do Velho Continente é mais um ricochete vindo da América. Uma espécie de vingança.
Os europeus foram para lá, colonizaram, exploraram, transformaram por completo o destino que os deuses locais tinham planeado para os respectivos adoradores e queríamos nós que tal afronta não tivesse consequências? Passados alguns séculos começamos a receber o ricochete das nossas acções. Os Espanhóis levam com as novelas mexicanas e nós com as brasileiras, os ingleses e restantes europeus têm de se haver com as estrelas de Holywood como se elas fossem uma espécie de semi-divindades, oráculos da felicidade ou coisa que o valha. Levamos também com o Haloween e com a substituição do Entrudo pelo Carnaval, com desfiles de mulheres semi-nuas em pleno mês de Fevereiro pelas ruas da Mealhada ou de Loulé, como se isto fosse um imenso sambódromo repleto de papalvos que nunca pousaram a vista num seio destapado que não fosse o da mãe quando ainda mamavam.
Não sei se é vingança dos antigos deuses americanos ofendidos pela invasão e pelas religiões evangélicas, mas lá que o resultado é grotesco...

domingo, outubro 29, 2006

4 Notas

Nota 1- Como é possível dar-se tempo de antena a gajos como Filipe Vieira, José Veiga ou Pinto da Costa? Ainda por cima deixam-nos ouvir frases inteiras saídas das beiças destes seres vivos, repletas de erros a todos os níveis, desde os mais implacáveis pontapés na gramática até às "inverdades" mais descaradas ditas umas a seguir às outras. E ali estão eles, alimentando polémicas ridículas, de uma baixeza invulgar.

Nota 2- Os gajos do Gato Fedorento cada bez estão mais espectaculares! As rábulas da nova camapanha mediática daquela cena dos telfones ultrapassa tudo o que pudessemos estar à espera. Mais que muito bom! Chega quase a ser inteligente.
A boa notícia é que está prestes a começar o novo porgama destes admiráveis saloios disfarçados de "vá-se lá saber". Gravado ao vivo e transmitido em horário fidalgo aos domingos na RTP1, com o Professor Martelo a aquecer os espíritos mais santos... estará algo a mudar no panorama cerebral dos pertugueses? COMEÇA HOJE!!!

Nota 3- Dada 2.0 o robot iconoclasta
ver video no Youtube DADA 2.0 é o mais recente robot de Leonel Moura. Tem a forma de um enorme pingo preto, com cerca de 4 metros de altura, na base do qual se encontra um braço robótico armado com um martelo e que se dedica a destruir tudo o que seja posto ao seu alcance.
Site:
http://www.leonelmoura.com

Leonel Moura continua a tentar fazer com que os robots se pareçam mais com seres humanos. Depois de mostrar como um ser artificial pode criar obras de arte experimenta aqui as suas capacidades destrutivas. O resultado não é brilhante, a destruição é causada mais pela força da gravidade que pela capacidade demolidora do Dada 2.0 (apesar da imponência da sua envergadura invulgar). Fica a intenção mas, convenhamos, os militares por esse mundo fora dispõem de robots bem mais destrutivos que este simpático Dada.

Nota 4- A equipa do Ministério da Educação entrou em parafuso total. O que tem vindo a público a propósito da negociação do Estatuto da Carreira Docente entre aquela verdadeira associação de malfeitores e a plataforma dos sindicatos de professores é matéria para argumento de filme tipo American Pie, para adolescentes alarves.
Eles andam para a frente, para trás, para os lados, andam em todos os sentidos, mas o que fica é uma imagem de total falta de conhecimento deste bazarocos relativamente a matérias básicas que deveriam dominar. Uma lástima.

sexta-feira, outubro 27, 2006

E depois?


Se este país não vive uma luta de classes então que raio de merda é esta?
Quem é que se vê nas ruas a manifestar-se? Não me parece que sejam os industriais ou os empresários, esses reunem-se em hotéis ou em salas todas catitas para dizerem de sua justiça. Outro estilo, outros lugares.
Quem é que é espremido pela cobrança de impostos? Cá pra mim são os trabalhadores por conta de outrém.
Quando é preciso resolver as coisas na justiça safa-se quem paga os melhores advogados. A mesma luta noutro recinto, as mesmas hipóteses desiquilibradas de vitória.
E por aí fora.
No dia das eleições todos votamos mas nem todos contribuímos para as campanhas eleitorais dos partidos políticos. Por isso, mesmo aí, entre os que ganham há sempre uns que ganham mais que os outros.
Eu sei que a Democracia, mesmo sendo a choldra que é, é o melhor dos sistemas políticos. Mas não nos venham com a treta de que somos todos iguais perante o Estado e perante a Lei porque isso é mentira.
A verdade é que temos esse direito mas não conseguimos usufruir dele com um mínimo de qualidade. É lixado. No entanto, se não nos metermos em merdas, podemos viver bem sossegados. É uma via, uma possibilidade de existência.
Mesmo assim espero que a Democracia consiga vingar durante mais umas décadas, um século mais, qualquer coisa do género.
Mas não sei se isso vai ser possível nem tenho paciência para ficar à espera de ver!

quarta-feira, outubro 25, 2006

Tanga da grossa


Na quarta e última versão da proposta de revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD), apresentada hoje aos sindicatos, a tutela prevê a alteração dos critérios propostos para a avaliação de desempenho, considerando que a apreciação dos pais só será tida em conta com a concordância do professor.

Desde o primeiro dia em que ouvi falar desta ideia peregrina de pôr os pais a avaliar o desempenho dos professores que me pareceu tratar-se de tanga da grossa. Sempre fui de opinião que se tratava de uma falsa proposta, lançada para a mesa apenas para gerar confusão e, na devida altura, ser deixada caír. Assim o Ministério dá a sensação de estar a ceder, os sindicatos dão a imagem de estarem a ganhar qualquer coisa. Táctica velha de inventar um acessório farfalhudo para esconder o essencial. No essencial não haverá cedências.

Como o objectivo desta proposta de alteração ao estatuto da carreira docente é exclusivamente economicista, o Ministério está-se bem a borrifar para a avaliação dos pais ou das mães ou de quem quer que seja. Esse foi o acessório imbecil inventado para fazer cortina de fumo. Nas quotas para professores titulares ninguém toca já que esse é o aspecto essencial, aquilo que fica quando o fumo se dissipar.

"Se as organizações sindicais persistirem em manter um clima de conflitualidade e continuarem a programar acções de luta como as das últimas semanas, não haverá possibilidade de desenvolver esse trabalho", afirmou o secretário de Estado Adjunto e da Educação, Jorge Pedreira, em conferência de imprensa.

Aqui fica bem expressa a mentalidade democrática deste cromo e o seu talento negocial. O conhecimento que revela sobre as questões relacionadas com o funcionamento das escolas e respectiva organização permitem-lhe apenas balbuciar banalidades e meter os pés pelas mãos de forma confrangedora. Não admira que, dada a ignorância que normalmente exibe nos debates em que participa, o Senhor Pedreira anseie evitar a discussão. O perfil que apresenta está mais de acordo com uma atitude absolutista semi-iluminada do que com um governante de um executivo democrático.

Quando vejo este retrato animado a aparecer na TV penso de imediato "Lá vem tanga!"... da grossa.

terça-feira, outubro 24, 2006

Reflexo

Como que para provar que há sempre um outro lado, O Inimigo Público resolveu promover, em parceria com O Eixo do Mal, a eleição do Pior Português de Sempre. A coisa teria mais piada se não respondesse à alarvidade da RTP ao pretender eleger "democráticamente" o Maior Português de Sempre, como se um povo que não foi capaz de tomar uma posição que se visse num referendo sobre o aborto pudesse eleger o que que que fosse com um mínimo de credibilidade.

Para quem não passou os olhos no Inimigo do passado Sábado um saltinho a http://piorportugues.blogspot.com/ permite tomar contacto com as personalidades propostas para as listas de candidatos.

Há duas modalidades: "Que político mais contribuiu para a ruína do nosso País?" e "Quem melhor encarna as piores qualidades do povo português?". Os visitantes deste sítio podem ainda propor nomes que venham a engrossar as listas justificando com brevidade as razões da sua opção.

Na 1ª modalidade ficamos a saber que D. João V é candidato nomeado para a secção dos políticos por ter sido "O Rei Sol de pacotilha que estoirou todo o ouro do Brasil em talhas douradas e querubins de mármore." e que Egas Moniz "Representa a capacidade tão nacional de realizar feitos absolutamente inúteis. No seu caso, inventou a lobotomia, ajudando a reverter milhares de cidadãos estrangeiros ao estado mental dos portugueses. Como no caso de José Saramago, a recompensa por uma vida de asneiras foi o prémio Nobel." estando, na minha opinião, bem colocado à partida para vir a conquistar o título de retrato mais fiel das piores qualidades do povo português. Estou a pensar votar nele mas confesso que ainda não consultei exaustivamente a lista de candidatos pelo que será prematuro fazer uma declaração de voto.

Já na votação da RTP não vejo interesse em participar uma vez que, ao que parece, a coisa é levada meio a sério.

segunda-feira, outubro 23, 2006

O punho e a rosa

Ainda me lembro quando o símbolo do Partido Socialista era um punho. Só um punho esquerdo em fundo vermelho. Digamos que, em termos simbólicos, a coisa não poderia ser mais evidente! O Partido era vermelho, cor primária e bem definida, nada de misturas ou ambiguidades.
Mas um dia chegou a rosa.

Tanto quanto me lembro ainda houve campanhas em que o símbolo do PS português copiou o do espanhol, com o punho caído a segurar a flor, como se fosse uma jarrinha de louça. Foi Guterres quem trouxe essa simbologia? Não me recordo. O que fica na retina é a tentativa de adocicar a coisa. Mesmo a cor de fundo passou a rosa, mistura de vermelho e branco, a confundir os espíritos pela indefinição.

O PS passou a fazer papel de cordeirinho que rosna (ou de lobinho que bale, depende da facção) e, nos tempos que correm, é o que se vê. O símbolo que ilustra este post mostra como andam as modas. O Partido Socialista é o do punho. O da rosa é o PS. Os dois juntos são a coisa que nos governa. Nem merda nem penico, nem cú nem peido, antes o que vai sendo necessário para manter as rédeas do poder apertadas e o freio nos dentes em correria louca em direcção a... não se sabe onde nem o quê.

As medidas mais recentes em nome do Orçamento de Estado para 2007 vêm mostrar que o Partido Socialista/PS se dedica a apertar os tomates às classes menos favorecidas. Nos noticiários da SIC já começam a comparar as afirmações de Sócrates quando era líder da oposição com as de Sócrates 1º ministro evidenciando as reviravoltas no discurso.

Foram até desenterrar Santana Lopes e mostram como o homem era, afinal, bem intencionado e que Sócrates está agora a copiar ideias que anteriormente declarava serem hediondas, revelando uma falta de integridade digna de um banqueiro.

Tempos difíceis para o Partido Socialista/PS. O PPD/PSD e o CDS/PP (repare-se como estes partidos têm todos nome próprio e apelido) contra atacam alegremente e com fé na Nossa Senhora de Fátima. Pinto Balsemão parece ter decidido iniciar a Contra Reforma já hoje. Terá isto algo a ver com o referendo do aborto que se avizinha? Quererão os inimigos do ministro com nome de filósofo grego aproveitar a campanha desse referendo para tentarem agitar a podridão de consciência de largas franjas do bom povo português?

Aguardam-se os próximos episódios.