sexta-feira, agosto 04, 2006

Isto aqui não é uma pintura!


Pois não. Sendo uma imagem virtual de uma foto tirada a uma pintura, nunca poderia sê-lo. O homenzinho do chapéu de côco, vestido de preto, encasacado, é um ícone. Não se percebe bem de quê. Tanto pode ser um corrector da bolsa como um gato-pingado. Aquela indumentária é algo misteriosa.
Este aqui, cá para mim, é a morte. Versão burocrata.
A morte tipo cobrador de impostos que não deixa ninguém escapar, que vai cobrar tudo até ao mais ínfimo cêntimozinho. Os olhos dele são duas fendas pretas. Acho que não tem olhos.
Seja lá o que for, uma pintura não é de certeza.
As coisas nem sempre são o que parecem. Eu diria mesmo que nunca são o que parecem, mas isso iria parecer exagerado e a ideia perderia impacto. Convém ir de largo, dar a sensação ao outro que está a participar da construção da ideia, manipulá-lo.
Há pessoas para quem isso é fácil. Tão fácil que até parecem estar sempre a ser sinceras e amigas, incapazes de atraiçoar um passarinho.
O que irá lá debaixo, no interior da cúpula do chapéu de côco? Quem irá pagar a dívida?

quinta-feira, agosto 03, 2006

Flutuante



Não tenho a certeza. Tenho demasiadas dúvidas. Talvez sejam dúvidas suficientes. Admito mesmo mesmo que haja quem se afogue nelas. Ainda consigo flutuar, enfiado num raciocínio colorido que é a minha bóia.

Os que têm certezas gozam com a minha bóia. Esses nadam. Melhor, esses navegam um cruzador de certezas, um porta-aviões de segurança blindado em opiniões que não constroem, antes surgem por geração espontânea, brilhantes, vindas de trás do sol-posto.

Eu arrisco-me a ir ao fundo, pois a bóia das minhas dúvidas não dá garantias de grande sucesso. Numa perspectiva darwinista os capitães do porta-aviões da verdade e da certeza têm muito mais possibilidades de sobrevivência. Olhando os cascos brilhantes destas naves maravilhosas sinto mais receio que respeito mas reconheço que do lado de lá das montanhas virão outros como estes, montados em mísseis voadores, carregados com ogivas de outras verdades e outras certezas.

Estou no meio de um combate que me ultrapassa e tende a aniquilar-me. A mim e a outros como eu, agarrados às nossas dúvidas. Estaremos a viver o declínio de um Império? Será esta guerra o princípio do fim? Quanto tempo dura o fim de um Império?

quarta-feira, agosto 02, 2006

Uma Pequena História do Mundo

A edição portuguesa é da Tinta da China e pode adquirir-se por 25€ numa loja FNAC. A escrita clara e escorreita de Gombrich proporciona uma experiência de leitura, no mínimo, curiosa.

Escrito em 1935, este livro mostra como se pode falar de História a um público jovem de uma forma interessante e viva. Após a sua leitura fica-se a pensar porque hão-de as nossas criancinhas ter de aturar manuais de História que são uma valente seca, pretensiosos e cheios de "actividades" com a informação servida às colherzinhas, como se fosse um xarope intragável. Além do mais só um manual para o 7º ano de escolaridade é mais dispendioso do que "toda" a História contada por Gombrich.

É claro que este livro não tem imagens coloridas, nem quadros cronológicos, nem nada dessas coisas que fazem a glória dos manuais escolares. Essa parte deveria ser incumbência do mestre. Uns acetatos ou um computador portátil permitem pequenas maravilhas de comunicação visual.

Enfim, penso que seria uma medida inteligente substituir os manuais de História no ensino básico por esta Uma Pequena História do Mundo. Ficaríamos a ganhar sob o ponto de vista monetário por ser mais económico, sob o ponto de vista pedagógico por ser mais eficaz na exposição dos temas históricos, sob o ponto de vista ecológico pelo que se poupava em papel e tinta e, finalmente, sob o ponto de vista da formação individual dos putos.

Caramba, este Gombrich merece que não o esqueçamos nunca!

segunda-feira, julho 31, 2006

Pacifismo e terrorismo

Um passeio pela blogosfera é sempre uma viagem por um mundo de opiniões desassombradas e plenas de razão, feitas com aquela convicção de quem nunca tem dúvidas e raramente se engana.
Numa visita ocasional a http://ablasfemia.blogspot.com/ fiquei a perceber com toda a clareza que uma vez que sou, por princípio, pacifista, sou um aliado involuntário do Hezbollah.

A ideia não é nova. Pacheco Pereira, por exemplo, tem-se esforçado por explicar de forma clara e fundamentada aquela máxima estupidificante: "Se não és por mim és contra mim".

Se não estivermos de acordo com as políticas iluminadas dos neoconservadores americanos sobre o Médio Oriente então somos anti-americanos primários e nem uma refeição no McDonalds seguida de um filme com Coca-Cola e pipocas nos poderá valer.

Um amador, especialmente o pacifista amador, é o alvo fácil da manipulação dos profissionais da propaganda. pode ler-se no citado blog.

Compreendo perfeitamente. Um não pacifista não se deixa enganar nunca pelos profissionais da propaganda porque eles apenas pretendem enganar os pacifistas. Isso já é um pouco mais difícil de compreender mas talvez seja por haver algo de comum entre eles.

Alguma coisa secreta ou invisível para os pacifistas amadores, uma linguagem apenas decifrável por iniciados nos mistérios da existência contemporânea, algo que está para lá das minhas capacidades uma vez que me engano bué e tenho dúvidas à brava.

Estava convencido que a manipulação de informação é um traço distintivo da nossa civilização mediática e democrática. Pensava eu que a maior parte das notícias que nos chegam são filtradas na origem, peneiradas no caminho e empacotadas à chegada, servidas prontas-a-comer à hora da papa. Imaginava eu que a melhor maneira de tentar evitar ser enganado a toda a hora seria pensar pela minha cabeça mas, como sou um pacifista amador, estou apenas a absorver informação manipulada por algum árabe sanguinário que, só de iamginar a forma como me vai dar volta, já se está a rir que nem um perdido. Em árabe.

Claro que do lado israelo-americano não há manipulação de informação. Isso pode lá ser! Afinal de contas eles representam o mundo livre e a civilização ocidental naquilo que ela tem de mais puro e cristalino. Não precisam de mentir uma vez que Deus e a Razão estão do lado deles. Tudo o que fazem tem justificação e só mesmo um burro de um pacifista amador é capaz de imaginar que as suas motivações não se prendem, exclusivamente, com a sobrevivência da nação israelita.

Mesmo sem querer sou, afinal, um terrorista, um traidor e um fantoche manipulado. Por muito que me esforce não consigo acreditar que as baixas civis nesta guerra são, na verdade, escudos humanos e que o exército israelita quer matar apenas os bandidos.

Como sou pacifista amador acredito que a guerra tende a transformar aqueles que nela se envolvem em animais que agem por instinto e que, no terreno da batalha, as leis são outras. Que quem dispara não é bom nem é mau, é apenas um potencial assassino independentemente do lado em que se encontra.

Caramba! Como posso ser tão parvo?

O Horror



A decisão de suspender os ataques sobre o Líbano tomada pelo executivo israelita para poder analisar o sucedido em Qana (a célebre Canaã do Novo Testamento, onde Cristo terá transformado água em vinho e multiplicado pão e peixes durante uma boda) supreende por parecer contrária ao espírito da coisa.

O exército israelita terá seguido o habitual processo de ataque. Avisou a população e atacou. Não foi a primeira vez que matou civis inocentes. Se nas ocasiões anteriores isso não pareceu impressionar os guerreiros porque ficaram agora embaraçados? Serão as fotos que chegam do local que dão uma imagem nada simpática dos célebres "danos colaterais"?

O horror das imagens que ilustram esta barbaridade indescritível chocam os mais insensíveis. Crianças desfeitas, adultos em desepero, destroços de corpos misturados no entulho, o Horror em estado puro.

Bush, Olmert, Rice, Nasrallah e mais uns quantos deviam ser obrigados a ver estas imagens numa terapia de choque tipo Laranja Mecânica. Haviam de ficar a vomitar as biqueiras dos sapatos de 5 em 5 minutos para o resto das suas vidas, o que até era um castigo brando.

Sou também dos que acreditam que este massacre envergonha até os carniceiros e poderá marcar uma marcha-atrás nos aconteciemtos dos últimos dias. A União Europeia vai ficar a assistir impávida e serena a mais esta aventura desastrosa?

Aguardam-se os próximos desenvolvimentos. Esperemos que estas mortes evitem outras do género num futuro próximo.

Shame on you, miss Rice!

domingo, julho 30, 2006

Monstros


O Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita lamentou hoje a morte de várias dezenas de civis libaneses na sequência de bombardeamentos israelitas em Qana, no Sul do Líbano.

"Israel lamenta a morte de civis inocentes. Não queríamos ver civis envolvidos na guerra entre Israel e o Hezbollah", disse à AFP o porta-voz do Ministério Mark Reguev."Israel fez tudo o que foi possível para evitar esta situação e multiplicou os apelos aos civis para que eles se retirassem da zona de combate", assegurou o responsável.

Israel rejeitou hoje qualquer responsabilidade nas mortes, considerando o Hezbollah o verdadeiro responsável pela situação.


Retirado do Público on line

Goya criou imensas imagens nas quais representou a insanidade e a torpeza humana. O sono da Razão Engendra Monstros. Pois engendra. E os monstros, uma vez à solta, reproduzem-se.

sexta-feira, julho 28, 2006

"Envirtualizados"



Aquela merda só pode ser assustadora. Aterradora! Um gajo há-de cagar as calças pelo menos uma boa meia dúzia de vezes até se habituar. Um míssil a voar, a cair, a rebentar. Na casa do vizinho ou na nossa, a diferença não deve ser perceptível, assim às primeiras. O céu cai juntamente com o telhado e as esperanças de escapar ileso. Dizemos sempre qe a esperança é última coisa a morrer porque morre só depois do morto e renasce de imediato no bébé que acaba de nascer algures. É sádica, a esperança.

De tanto vermos imagens de guerra nos écrans acabamos por imaginar que tudo se passa daquele modo e, caso o programa não agrade, alguém irá encotrar o controlo remoto e desligar aquela bosta ou mudar de canal.

Os putos esgadanham-se nos comandos da Playstation a aviar "inimigos". Quando falham a jogada "morrem". Mas não há paranóia, logo renascem, "envirtuam" noutro bonequinho agora sabendo de antemão que não podem cometer aquele erro fatal se quiserem passar de nível para poderem ter o prazer da aviar mais uma catrefada de "inimigos". E é assim o jogo, sem termo nem princípio, um eterno renascer com a finalidade única de voltar a matar.

Acredito que, na vida real, há gajos cuja única vontade é essa: matar. Podem até ser sempre os mesmos, desde que há memória, que (re)encarnam, como os putos "envirtuam". Através dos séculos, defrontando-se Eternidade adiante como no Highlander, o filme.

Uma vez de regresso tanto podem ter um lenço com frases do Corão amarrado aos cornos como uns cabelinhos encaracolados a dançarem-lhes nas queixadas quando marram no Muro das Lamentações, são sempre os mesmos, imortais e maus como as cobras, capazes das maiores atrocidades porque, para eles, a pior de todas é a paz.

Será assim tão simples? Hoje, à hora da papa, enquanto via as reportagens sobre refugiados libaneses pensei nos putozecos que por ali cirandam sempre, a enfeitar a miséria das imagens. Aqueles gajitos não têm escola. Nem hoje nem durante quanto tempo? E quando a têm o que aprendem? Da forma como todos parecem adorar Nasrallah não terei grandes dúvidas. A escola deles é ali mesmo, no chão da rua, nos escombros dos bombardeamentos e aprendem imenso com aquele som, um míssil a voar, a cair, a rebentar, o que poderá ensinar a uma pessoa?

Esta merda não pode ter fim. A Máquina está em andamento e não há grão de areia que a emperre. Não parece haver nada que possa evitar a acelaração do fim da humanidade. Que se lixe. Vou beber uma cerveja e "envirtualizar" num jogo qualquer.

quinta-feira, julho 27, 2006

O gigante



A guerra é total (haverá guerras parciais?) e o Líbano arde de novo. Não se vislumbra forma de pôr termo a isto. Cada dia que passa vamos tendo mais tempo para imaginar o que poderá acontecer num futuro próximo ou nem por isso. As imagens que se vão formando não entusiasmam pela sua beleza.

A morte de 4 membros da ONU sob fogo do exército israelita mostra bem a eficácia da cirurgia guerreira. Os ataques a alvos do Hezbollah são ataques contra toda a gente. Os israelitas não vêem nada nem ninguém, agem tal e qual como os outros terroristas, atiram tudo o que têm à mão sobre qualquer lugar onde imaginem que possam existir inimigos.

Os dias passam e o monstro engorda e cresce a olhos vistos. O espectro da guerra começa a estender a sua sombra. Até onde?

terça-feira, julho 25, 2006

Herói

Tal como São Jorge também ele persegue dragões e acaba com eles, ali mesmo, na ponta da sua afiada lança justiceira.
Estou a referir-me a Rui Tavares, um herói que acrescentei recentemente à minha galeria particular e por quem tenho uma profunda admiração.
Também ele se entrega aos dúbios prazeres da blogosfera (será missão?) mantendo um interessante Pobre e Mal Agradecido nos confins do universo virtual.
Para quem ainda não teve a felicidade de encontrar este lugar aqui deixo o link que conduz à revelação e, quem sabe, à redenção!

http://ruitavares.weblog.com.pt/

O Bom Pastor (e a sua ovelha)

O Bom Pastor ( na imagem uma escultura romana dos primórdios do cristianismo como religião oficial do Império Romano), é uma metáfora de confiança e esperança. Cristo (aqui na sua versão original, um jovem imberbe vestido à maneira da época em que a estátua foi executada) surge com uma ovelhinha aos ombros, num gesto de protecção que a Igreja começava já a prometer aos seus acólitos. Prometia uma vida eterna e, motivo de muitas conversões espontâneas na altura, prometia a ressurreição.

Esta última promessa revestia-se de alguma originalidade na forma como era apresentada e terá sido um produto com boa colocação no mercado e algum marketing associado. Por falar em marketing a imagem acima mostra como naqueles tempos em que os deuses falavam se podia plagiar uma obra de arte sem problemas de maior que não fosse fazer a cópia.

Os cristãos do Império, herdeiros de uma tradição cultural e artística com provas dadas e eficácia garantida a vários níveis, muito simplesmente se apropriaram de formas preexistentes e as adaptaram ás suas necessidades.

Segundo rezam as crónicas, o modelo da representação de O Bom Pastor (tanto pictórica como escultórica) foi Aristeu, divindade grega (se não estou em erro) com a função de proteger os jardins ou os animais, qualquer coisa do género, uma espécie de sócio da Quercus na Antiguidade, que era representado daquele modo, com a ovelhoca aos ombros. Bastou mudar a intenção, mantendo a forma e... voilá! Sai uma escultura cristã.

Quem diria que o ready-made duchampeano já tinha sido intuído há tanto tempo atrás!

domingo, julho 23, 2006

Electric zombie

"O estado de saúde do antigo primeiro-ministro israelita Ariel Sharon, em coma desde o início de Janeiro, tem vindo a degradar-se nos últimos dias, anunciou hoje uma porta-voz do hospital Tel Hashomer de Telavive, onde está hospitalizado."

Esta notícia, retirada do Público on-line, surpreendeu-me.
Já me tinha esquecido desta personagem (na imagem fotografado como o Bom Pastor), muito menos imaginava que continuasse... vivo!?

Em coma desde Janeiro, Sharon continua ligado a este mundo por uma máquina, numa semi-vida estranha. Estará ele a acompanhar, de algum modo, a evolução da guerra?

Que coisa estranha!

Magia

Procurar o cânone, determinar os contornos do Belo é trabalho fora de ordem, coisa de grego antigo e desocupado.

Cabe na cabeça de alguém que a perfeição possa ser medida por cabeças? Que o Belo tenha peso, conta e medida apreensível já não convence nem o Menino Jesus!

Os artistas dos tempos que rastejam (os tempos hoje já não correm, o mundo não consegue dar-lhes a dignidade necessária à corrida!) deixaram de perseguir essa quimera: o Belo.

Não há nada a fazer uma vez que descobrimos a beleza em cada esquina. Há tantos artistas incomparáveis, tantas cabeças pensantes, tanta produção necessária à sobrevivência das coisas que a Beleza é beleza e nada mais há a procurar nas sombras, quanto mais na luz do dia.

A especulação, o discurso do Belo e a Beleza, parecem hoje tão fora de ordem, tão kitsch, que se foge dela como o Diabo da Cruz!

É o grande caleidoscópio Pós-moderno! Foi Marinetti quem afirmou que um automóvel de corrida era tão belo quanto a Vitória de Samotrácia. Agora olhem, amanhem-se que eu também.

Realmente tenho medo de afirmar certas coisas, a Beleza é uma delas. Mas, tal como as bruxas, eu sei que não existe mas que a há, há! Vou abrir os olhos.

quinta-feira, julho 20, 2006

Senso comum

Ele há coisas do diabo que o senso comum não ajuda a explicar pois escapam-lhe como enguias a fugirem de um barril de escabeche numa barraca na Feira de São Mateus. Traduzir dos filmes ingleses a expressão "Common sense" para "bom senso" na versão portuguesa mostra bem o alcance patriótico da nossa mítica falta de rigor na avaliação do mundo e do resto. Mas é prática corrente.

Talvez isto ajude a explicar porque continuamos a ser um povo maioritariamente indiferente a quase tudo o que nos rodeia, com picos de histeria colectiva na redescoberta das grandezas perdidas da nação em pleno relvado, sempre que entra em campo a equipa de futebol da selecção nacional. Eu fico meio histérico, para que conste, e isso leva-me a reflectir sobre tais momentos de insanidade.

Deixamo-nos enganar por qualquer papalvo que a isso se disponha e admitimos que um tipo como Alberto João Jardim possa ser chamado "governante" sem cuspirmos imediatamente para o lado com um gesto de "te arrenego, abrenúncio" feito de imediato e com rapidez. Esse ser vivo é uma boa imagem do "common sense" à maneira dos tradutores portugueses.

Ficamos passivos perante a maior parte das injustiças e atropelos da legalidade desde que não sejamos nós as vítimas. Apenas fomos capazes de nos unir por uma causa como a de Timor, talvez porque era lá longe e temos no sangue o fado e a saudade, esses produtos únicos e genuínos da portugalidade mais inflamada.

Com Timor a desfazer-se aos bocadinhos (porque é um território pequenino não se desfaz aos bocados) e o Mundial a atormentar-nos os ímpetos nacionalistas ficámos mais ou menos indiferentes à sorte de Xananas e Alkatiris uma vez que essas contas já haviam sido saldadas no passado com canções e lágrimas sinceras.

A lista das coisas que não enxergamos ou nos fazem apenas voltar para o lado é imensa. Durão Barroso viu, na tristemente célebre Cimeira da Guerra dos Açores, provas inequívocas da existência de armas de destruição maciça no Iraque. Paulo Portas confirmou-o. Hoje um é Presidente da Comissão Europeia e o outro foi condecorado por Rumsfeldt, essa espécie de nazi démodé. E nós? Encaramos a coisa como sendo um espelho de "common sense", não estranhamos nem respingamos. Afinal o mundo está repleto de personagens dispostas a representarem o papel de idiotas úteis. Ou inúteis, conforme a perspectiva.

Deixamos o mundo rodar à vontade e rodamos com ele. Como a rotação é lenta não é nada que nos deixe tontos. Somos o país onde o senso comum é considerado bom senso.

Pois.

terça-feira, julho 18, 2006

Heroína

Judite e Holfernes de Caravaggio, cerca de 1599

Holofernes estava caído na cama, por estar afogado em vinho. Judite pegou na cimitarra dele e avançou decidida. Agarrou-lhe os cabelos e puxou a cabeça do general inimigo em direcção ao peito. "Dá-me forças neste dia, Senhor Deus de Israel" e, com dois golpes surpreendentemente vigorosos, separou-lhe a cabeça do corpo. Depois entregou a cabeça à criada que a meteu num saco.
É mais ou menos assim que a Bíblia narra o acto sangrento de Judite, a heroína judia que libertou a cidade de Betulia do cerco do terrível Holofernes, um general assírio com queda para a pinga e vítima do mortal pecado da luxúria. Para Judite foi canja fazer dele o que se faz às galinhas antes de as meter na panela.

Israel acredita nestas histórias como se fossem notícia da CNN e vê nelas força e inspiração para prosseguir a sua peculiar visão de justiça. Longe vai o tempo do "olho por olho, dente por dente". Agora é mais "olho por cabeça inteira, dente pelo resto do corpo". As Judites dos nossos dias entram no território inimigo montadas em flamejantes espadas voadoras e a doçura da vingança faz esquecer tudo e mais o resto.

E Judite quer vingar-se!

segunda-feira, julho 17, 2006

Recortes de imprensa


Doze civis libaneses, incluindo duas mulheres e três crianças, foram mortos hoje quando um míssil ar- terra israelita atingiu o autocarro em que seguiam a sul de Beirute, divulgou a polícia libanesa.
Segundo o médico Bachir Cham, que analisou os corpos, as vítimas morreram de envenenamento. "O míssil, provavelmente, libertou um produto químico que provocou a morte dos doze civis", explicou à AFP.

No total, os bombardeamentos israelitas no Líbano causaram hoje 43 mortos, entre eles nove soldados libaneses.

Olmert (1º ministro de Israel), que falava no Parlamento israelita, acusou ainda o «Irão e a Síria de continuarem a interferir nos assuntos libaneses e da Autoridade Palestiniana através do Hezbollah e do Hamas».
«Não há nada que mais desejemos que a paz em todas as nossas fronteiras», disse, frisando que «Israel não permitirá que os seus cidadãos vivam sob o ataque de mísseis».

O Estado Maior de Israel anunciou às 11h30 (horário de Brasília) que a ocupação de uma faixa do sul do Líbano, iniciada na manhã desta segunda-feira por tropas e blindados “é pequena e limitada”.

O tipo de ação que está sendo desenvolvido pelos israelenses também não deixa dúvidas sobre o caráter do empreendimento. A força expedicionária emprega um combinado de 50 tanques Merkava, 30 caças F-16, 40 helicópteros e um número não revelado de combatentes, canhões auto-propelidos, 3 fragatas lança mísseis e lanchas armadas com foguetes de 70 mm.

É um poder de fogo e tanto - cada tanque pode disparar 6 tiros de 120 mm em 60 segundos, os helicópteros levam 32 mísseis, os aviões lançam bombas inteligentes, guiadas por laser - apoiado por consistentes recursos de inteligência, que permitem saber a localização exata dos chefes rebeldes a partir do rastreamento de sinais de telefonia e rádio.

Até ao momento não há registo de vítimas mortais apenas seis feridos ligeiros e danos materiais. Ontem, os ataques a Haifa provocaram oito mortos entre a população civil. Fontes das forças de segurança israelitas adiantam que Tiberias, Safed e Acre também foram alvo de bombardeamentos do Hezbollah.

... e por aí fora. Armas, explosões, morte, destruição, um espectáculo e pêras!!!

O Deus da Fúria


Israel Air Force Flight Academy course #150 graduation and Air Show

O Deus da Fúria é o título da edição portuguesa de um dos contos (romances?) de Phillip K. Dick, o imortal autor de ficção científica (por acaso até já morreu vai para um bom par de anos).

A acção desenrola-se num mundo pós-holocausto nuclear e gira em torno de uma estranha personagem, uma espécie de Stephen Hawkins mas com uma cadeira menos sofisticada, que é pintor apesar de não ter braços (utiliza umas extensões mecânicas e metálicas para segurar os pincéis) e contacta com o além entrando em coma alcoólico. Um médium ainda menos normal do que seria de esperar.

Lembro-me de ter lido o livrinho da Colecção Argonauta.
Fiquei profundamente deprimido com a história porque não havia ponta de heroísmo ou brilho ou grandes sentimentos ou o que quer que seja de que nos possamos orgulhar e justifique algumas atitudes mais dúbias, tomadas no fragor do momento e na urgência de conseguir a sobrevivência. No final (isto é uma sensação de recordação, nada tem de objectivo, já li o livro há mais de 25 anos, seguramente) restava um mundo destruído onde a única herança da glória civilizacional de outrora era uma vaga divindade, um Deus da Fúria castigador que lançara sobre a humanidade uma provação terrível e depois abalara, deixando os sobreviventes entregues a si próprios.

Hoje vi uma refugiada francesa, fugida de Beirute, a ser entrevistada na chegada a um aeroporto de Paris. Ela explicou que os libaneses não têm armas anti-aéreas e, por isso, a aviação israelita sobrevoa a cidade com todo o à vontade e bombardeia-a a torto e a direito. Ainda segundo a mesma mulher não há qualquer critério no ataque. É o Deus da Fúria israelita, o Deus dos Exércitos, Aquele que protege o povo de Israel, o mesmo que lançou as sete pragas no Egipto matando egípcios a torto e a direito e mostrando ao Faraó onde residia o autêntico poder divino, no tempo em que o tempo não existia.

Do outro lado outros fanáticos, os do Hezbollah, enviam pelos céus os seus mísseis vingadores, descarregando a fúria do seu Deus sobre civis israelitas desprotegidos. Fica a sensação de que uns e outros adoram a mesma divindade embora reclamem para si a necessidade de fazer justiça em nome de Deus.

Numa guerra não há justiça. A morte do primeiro inocente retira toda e qualquer possibilidade justiça a uma guerra, seja ela qual for. Assistimos impotentes e incrédulos a mais uma escalada de violência imparável onde o sangue corre como um rio que as almas dos mortos atravessam pagando com o seu corpo os honorários do barqueiro.

É a prova de que Deus existe. Ele é o Deus da Fúria!

Piada de mau gosto



A tensão aumenta a cada momento. Mísseis disparados sobre Israel, bombardeamentos sobre Beirute. Não parece possível que esta desgraça venha a abrandar tão depressa. Quando começou exactamente? A razão principal foi o rapto dos soldados israelitas? O que está a acontecer?

A Síria avisa que poderá entrar à bruta. O que significa que não tarda muito está a atirar sobre Israel tudo o que tiver à mão. O Irão ameaça com o Armagedão caso Damasco venha a ser molestada. A guerra é total. Civis de um lado e do outro rebentam a toda a hora, desfeitos pelas bombas e não se vê como pôr termo a isto.

Se os soldados israelitas forem libertados haverá tréguas? Ainda pode haver tréguas depois de toda a fúria e destruição das últimas horas? Não parece possível. Não há retorno. Temo que esta história acabe muito mal, pior do que somos capazes de imaginar.

O Iraque continua a ferro e fogo. Os americanos não sabem o que fazer. Estão enfiados em quartéis, metidos em buracos, enquanto assistem ao resultado da democracia à maneira iraquiana que com mil cuidados para ali exportaram na ponta das metralhadoras. Na Faixa da Gaza a confusão é total. Para nós, sentados nas nossas casas com as ventoínhas ligadas, tudo isto parece o fim do mundo a acontecer no fim do mundo. É como um filme, um documentário, o making of de uma série de guerra filmada lá longe, na terra "deles". Qual será o impacto desta onda de violência nas nossas vidas?

O que pensar? O que fazer ou não fazer, ou não dizer? A esta distância tudo isto parece uma insanidade absoluta. O pior de tudo, o mais perigoso, é que se calhar não é! Se calhar tudo isto faz todo o sentido e só podia ser assim neste planeta abandonado à nascença pelo Deus que o inventou. Se foi por graça Deus não tem qualquer sentido de humor que um ser Humano possa compreender. É o mais certo.

sábado, julho 15, 2006

Painel de azulejos

Leonel Moura vence concurso promovido pela Bouygues Imobiliária e a Parque Expo,para painel de azulejos no Parque das Nações.

O QUE É UMA SEREIA?
Uma sereia é um híbrido meio peixe meio mulher

O QUE SIGNIFICA O CANTO DAS SEREIAS?
O canto simboliza a atracção encantatória que a beleza feminina exerce sobre o homem

Partindo destes simples pressupostos a componente visual do painel é criada a partir de colagens, ao estilo surrealista, de imagens de peixes e nus femininos retirados da história da pintura ocidental. As imagens foram recuperadas da Internet, sendo a baixa resolução totalmente assumida.O painel é constituído de azulejos monocromáticos, em dois tons de azul, um conjunto de seis colagens com dimensões diversas, realizados na técnica da fotocerâmica e para efeitos de contextualização acrescenta-se uma citação do texto de Homero que refere as dificuldades de Ulisses, utilizando o tipo de caracteres 'Moura.ttf' criado por mim nos anos 80.A natureza do projecto, onde se exibe o nu feminino num enquadramento surrealizante, deverá produzir o efeito do 'Canto das Sereias', ou seja atrair o público para junto do painel.

Informação recebida via e-mail

sexta-feira, julho 14, 2006

Desprezível!!!

Toda a trapalhada abjecta criada em volta dos resultados dos exames nacionais de Física e Química do 12º ano é, no mínimo, desprezível.

Que tipo de autoridade moral (para não falar de outros tipos de competências) resta à Ministra Lurdes Rodrigues para vir cuspir indignidades sobre o trabalho dos professores nas escolas?

A "solução" despachada à velocidade da luz pelo secretariozito de estado, permitindo a repetição dos referidos exames, vem mostrar a total ausência de dignidade democrática que campeia nos corredores esconsos do ministério.

Então em que ficamos? O que correu mal? Quem é responsável por esta inqualificável alteração de regras a meio de um "jogo" que põe em causa o futuro académico de tantos estudantes?

Vi na SIC Notícias a responsável do GAVE acusar os suspeitos do costume. Se a coisa deu para o torto a culpa é dos professores, dos manuais escolares e dos alunos. Que lata!!! Esta senhora (de quem não sei o nome) deve ser a primeira a ser corrida do lugar que ocupa, directamente para os supranumerários da Administração Pública. Há muita latrina por limpar, a começar pelas cabeças de alguns responsáveis ministeriais.

Se a culpa fosse assim tão evidente não viria o ministério avançar com a repetição dos exames. Estão a brincar com quem? Neste país nunca ninguém tem culpa de nada. Caga-se no meio da rua e diz-se que a merda saíu do cú do parceiro do lado nem que este ande a precisar de caixotes do Amigo do Intestino e mesmo assim continue sem vazar a cloaca.

Lurdes Rodrigues não pode virar a cara nem tapar o nariz. Esta merda cheira pior que a encomenda! Ou limpa o ministério e assume culpas no cartório ou apenas tem uma solução: o olho da rua!!!

Uma visita ao site http://www.min-edu.pt/ mostra como uma situação desta gravidade tenta ser ignorada e omitida. Há avestruzes com mais coragem que este ministério e pescoço bem menos comprido que certas luminárias intrometidas no trabalho alheio. No dito site nem uma referência a esta vergonhaça. Nada!!!

Chega de indignidades.

Vão chatear o Camões!!!

Fica lá com essa gaita!

Se este gajo não existisse não era eu que ia inventá-lo.
Não deve haver memória de governante mais irresponsável, mais boçal e menos inteligente do que este aprendiz de ditador.
Fraco aprendiz, diga-se de passagem.

Que me desculpem os madeirenses decentes mas acho que se devia levar a sério o desejo indesejado deste gajo e dar a independência à Madeira.

Que fique com a sua poncha, mais o seu bolo de mel e os negócios escuros e se amanhe quando lhe forem bater à porta para cobrar a dívida que se acumula para este gajo poder andar de tesoura em punho a cortar fitas sem parar. Inaugura os primeiros 10 quilómetros da estrada e depois mais 5. Finaliza com uma festa a propósito de uma eleição qualquer, de copázio em punho, a cuspir cobras misturadas com lagartos, disparadas em todas as direcções enquanto inaugura mais 100 metros da dita estrada.

Os governantes são a imagem daqueles que governam.

Sinto um arrepio de vergonha quando vejo Cavaco a gaguejar tolices sem sentido. O meu espelho chia, dobra-se e ameaça quebrar.

Quando vejo (sobretudo quando ouço) o Alberto João penso porque carga de água não pode esse gajito ser ditador independente? Porque tem ele de enxovalhar e emporcalhar diariamente a nossa "jovem" democracia consolidada?

O Sr. Silva, como chamou um dia ao actual Presidente da República, não tem tomates para chamar o Jardim ao palácio e dar-lhe um valente puxão de orelhas?

Quando chamava Sr. Silva a Cavaco, Alberto João estava agastado com ele e queria que se pusesse a milhas do partido uma vez que, na óptica do soba madeirense, prejudicava o PSD sempre que tentava ser imparcial nas suas proféticas apreciações.

Agora nem Jardim ladra nem Cavaco mia. Não haja dúvidas que na política portuguesa o Vice-Rei da Madeira é uma nódoa impossível de limpar.

Independência para a Madeira JÁ!!!!

quarta-feira, julho 12, 2006

Sinceramente, ó meus!

Sinceramente!!!
Então a Federação Portuguesa de Futebol tem a distinta lata de propor isenção de IRS para os prémios dos jogadores da selecção!!!??? Tão lusitanos que eles são, tão sofredores pela causa nacional e agora querem que não se lhes cobre o imposto devido!?

Não sei o que pensam exactamente os jogadores sobre a questão, o mais certo é não pensarem nada, como de costume. Pensarão que é preciso trabalhar, levantar a cabeça e encarar os jogos um a um, que farão tudo para ganhar e dar o seu melhor e que o grupo é espectacular e merece todo o carinho que lhe possamos dar. Fico sempre com a sensação de que os jogadores são incapazes de raciocinar para lá deste tipo de baboseiras sem sentido nem consequência. Espero estar enganado. Espero que só falem assim porqe têm a consciência plena de que o mundo do futebol não tem nada de democrático, bem antes pelo contrário, e quem tiver ideias próprias arrisca-se a ser castigado pelo patrão. Um jogador profissional de futebol nunca, mas mesmo nunca, deve pôr em causa a voz do dono.

Só não percebo como é que uns gajos que ganham mais num mês do que a maioria dos seus concidadãos ganham numa vida inteira têm necessidade de vir para a praça pública com uma treta destas. Sinceramente, ó meus! Parece que quanto mais dinheiro se tem mais ganancioso se fica. Estou convencido que aquilo que pretendem ver "perdoado" no prémio não passa de trocos miseráveis para a maioria dos jogadores. Porque arriscam desta forma o capital de simpatia e admiração conquistados com tanto sangue, suor e lágrimas lá pelas terras da Germania? O povão não está a perceber muito bem esta novela de faca e alguidar.

Deixem-se de merdas e paguem o que devem, ó meus, que isto não está para brincadeiras.

domingo, julho 09, 2006

Sua Santidade

Sua Santidade o Dalai Lama. Não soa mal. Soa melhor que chamar Sua Santidade a uma personagem como Ratzinger que, não sei porquê, me causa arrepios.

Ratzinger, o Papa, tem o olhar de uma fuinha insensível (sim, porque há fuinhas capazes de actos de amor às fuinhas que lhes são próximas) e não inspira sentimentos de compaixão. Comparado com o defunto Wojtyla, que tinha ar de avôzinho meio perdido, este novo velho Papa apresenta-se algo sinistro, como um vampiro disfarçado de exorcista.

Vem isto a propósito do texto de Frei Bento Domingues no Público de hoje com o título "Jesus e Buda". O episódio aí narrado com o Dalai Lama por protagonista mostra como Budismo e Cristianismo podem cruzar-se pacificamente neste tempo e neste espaço enquanto correntes de meditação e pensamento ocupadas na reflexão aberta e o mais pura possível sobre o mundo que nos rodeia na tentativa de descobrir uma via que nos possa transportar a um outro mundo.

Não estou a ver que Budismo e Catolicismo possam encontrar esse espaço de convivência pacífica aí proposto. A igreja católica é demasiado esfomeada de almas para permitir que alguma ovelha abandone pacificamente o seu rebanho. Conta a História que em inúmeras situações preferiu matá-las a perdê-las.

Penso que é cada vez mais importante mostrar bem a diferença entre ser Cristão e ser Católico já que são coisas tão diferentes como ser Humano e ser Português. Nem todos os cristãos são católicos da mesma forma que nem todos os seres humanos são portugueses. Isto parece estúpido de pensar e, ainda mais, de se escrever, não parece? Mas não será tanto assim se notarmos o facto de a igreja católica reclamar direitos inerentes à sua suposta implantação e influência sobre os cidadãos. Há demasiadas ovelhas que são católicas por não distinguirem a erva que pastam da merda que cagam.

Na imagem vemos Sua Santidade a proteger-se do Diabo com uma gesto de defesa típico .

sábado, julho 08, 2006

Ó Que Cenaça!

Os Ó Que Strada estão em grande forma! Se calhar sempre estiveram... é o mais certo. Esta noite assisti a uma das suas celebrações de vida e energia no Teatro Nacional D. Maria. O foyer cheio, a deitar por fora, a música a jorrar em catadupa por sobre as cabeças dos presentes.
O Jean-Marc, o Zeto, o Sá, a Marta, todos em festa no palco e à volta dele, mas a figura que me prende mais a atenção continua a ser o Lima.

Com este gajo a guitarra portuguesa é um instrumento impossível, uma coisa de outro mundo, um OVNI, um poço de som sem fundo nem tampa. A inventividade musical deste portento com dedinhos de prata é digna de nota. O grupo é coeso e tudo faz sentido. Uma festa a não perder caso se possa participar.

Continuam até dia 21, se o jornal não estiver errado, às sextas-feiras a partir da meia-noite. Como os fantasmas. Mas que fantasmas, senhores!

Se não é lindo anda por lá perto.

sexta-feira, julho 07, 2006

O ódio

I Love You Anyway, RSXXI 2005

Israelitas matam palestinianos que adorariam matar israelitas mas não têm a força que os israelitas têm para o fazer. Então vão-se a eles com bombas atadas à cintura e BUM. Nos autocarros, nos restaurantes, qualquer lugar serve. É uma carnificina infinita.

Todos os dias recebemos notícias desta sangueira com uma naturalidade inquietante. Parece fazer parte da natureza dos povos. Os israelitas e os palestinianos odeiam-se, toda a gente sabe disso! Mas poderá ser assim tão simples, tão lisinho, tão sem sentimento que não seja a raiva mais primária?

Sei que é fácil viver aqui (digam lá o que disserem), ter a barriga confortável e saber que amanhã o maior problema será o calor ou a distância. Incómodos desprezíveis. Posso imaginar que vou rir, comer bem... se tudo correr como previsto estarei de volta ao remanso do lar a tempo de ver o Portugal-Alemanha sem temer que o céu me caia em cima da cabeça, ameaça que os israelitas já fizeram para as terras da Faixa de Gaza.

Habituados a odiar os gajos do clube rival e os que nos passam à frente na fila se calhar já não sabemos o que é isso, o ódio. Ódio verdadeiro, de nos levar a desejar a morte de outro ser humano. Sinceramente não sei o que isso seja ou o que possa significar cá dentro, nas minhas entranhas.

Estou em crer que milhares de israelitas e milhares de palestinianos têm a mesma dúvida: o que é o ódio? E no entanto...


quarta-feira, julho 05, 2006

Dúvida

Estes gajos são de outro planeta.
O que andarão a fazer ou a pensar os líderes norte-coreanos? Que cena é esta de terem lançado 3 mísseis sem aviso, deixando o resto do mundo a fazer contas de cabeça? O que poderá isto significar?

Os EUA iniciaram a guerra no Iraque dizendo que procuravam armas de destruição maciça. Toda a gente percebeu que esse argumento não passava de uma desculpa de mau pagador.

Na Coreia do Norte há, comprovadamente armas perigosíssimas nas mãos de um louco varrido, mais varrido do que Saddam Hussein alguma vez sonhou poder ser. O que irá passar-se a seguir?

Enquanto andamos a ver na TV serviços noticiosos que abrem com notícias do campeonato do mundo em futebol e ficam a falar infinitamente do assunto, a Faixa de Gaza é cada vez mais um inferno e os mísseis coreanos caem no mar, a 500 quilómetros do Japão.

Até parece que os loucos furiosos aproveitam a deixa para cometerem actos de loucura absoluta. Estarão estas coisas ligadas? Comparado com isto percebemos como a "crise" dos cartoons foi uma historieta de merda, sem assunto nem sentido.

Haverá nos líderes norte-coreanos um desprezo absoluto pelo nosso mundo? Poderão estar a preparar algo verdadeiramente estúpido? A coisa está pouco animadora. O mundial começa a perder a piada. Ou ainda não?

domingo, julho 02, 2006

O homem das 1000 cabeças


A palavra é "surrealismo".

Pede-se à plateia que diga o nome de um artista relacionado com "a" palavra.

O nome brota dos lábios da maioria dos presentes. Ora tem o aspecto de uma flor que desabrocha numa velocidade 500 mil vezes superior à que seria normal, ora parece uma barata gigante, com bigodes no lugar das antenas. E tantas patas que faz corar de vergonha uma centopeia.

O nome é: Salvador Dali!

A vida é muito injusta e a História é-o ainda mais. Então a História da Arte é incompreensivelmente malvada para com alguns dos que fizeram da pequenez humana um imparável motor da sua grandeza.

O nome devia ser Max Ernst.
O nome "é" Max Ernst!

A inventividade técnica e a imaginação sem limites de Ernst trouxeram ao mundo coisas inomináveis as quais ele baptizou alegremente, noutro exercício criativo assombroso. Não há palavras que preencham a necessidade de encontrar uma explicação para o universo.

Decalcomania, frottage, colagem, sei lá que mais. Atirar um pano embebido em tinta sobre uma tela e ficar à espera que, da mancha assim produzida, surja a forma, que a imagem se liberte por si mesma... é automatismo psíquico, não? Pode ser. E que interessa isso?
Na imensidão da NET devem flutuar milhares de imagens que reproduzem obras de Ernst. O cruzamento de uma extrordinária variedade de formas e técnicas com uma imaginação delirante tem como resultado uma obra inacreditavelmente variada. À primeira vista poderão parecer obras de 1000 artistas diferentes (ou mais) mas é, afinal, o resultado do trabalho de uma vida de um homem com 1000 cabeças!
Um gajo do caraças!

sábado, julho 01, 2006

Buuuuh!

Mesmo sabendo que eles existem não conseguimos evitar um arrepio sempre que se manifestam. Eu não acredito em fantasmas mas, tal como as bruxas, que os há, há!!!

Há fantasmas de carne e osso. João Jardim, por exemplo, é um fantasma com muito mais carne que osso. Assombra o país inteiro com as suas bocas peludas, daquelas com pêlos na boca... uma nojeira! Mas, apesar do sêbo, é um fantasma com nome e cara de chouriço. Sabe-se que existe e confirma a suspeita.

Há fantasmas virtuais, daqueles que andam por aí e não se tem bem a certeza que existam. Se um de carne e osso pode cheirar mal já um virtual não cheira a nada, nem a merdoca nem nada.

O Amigo da Onça era um boneco de um cartoon que eu gostava à brava quando era miúdo. Saía numa revista brasileira qualquer que aparecia em casa do meu avô paterno e eu costumava copiar a personagem e tentar ir mais longe naquilo que conseguia compreender do seu humor, com infantilidades, pois então.

O amigodaonça não sei bem o que seja, mas imagino que seja um coiso feio e tipo João Jardim, com muito mais carne que osso, coiso que se mastiga mais do que se possa roer e, no fim, se cuspa para o pote dos escarros, para junto dos familiares e amigos.

Confesso que me irritam todas as personagens, mesmo as virtuais, que vêm arrotar postas de pescada sem saber do que falam e se armam em caras de cú quando nem o cú são capazes de assumir, caso contrário arriscar-se-iam a levar um valente pontapé no dito. Ou nem isso.

Para quem possa estar a pensar que merda de conversa é esta, estou a dirigir-me a um palonço qualquer que resolveu comentar o meu post anterior.

Eu sei que isto de manter um blog tem qualquer coisa de adolescente (ver post de Sábado, Dezembro 03, 2005 Blogue, blogue, bloooogue). É claro que um imbecil não se caracteriza pelo cuidado investido em tentar deixar de o ser. Um imbecil é um imbecil em todas as situações da sua vida pois não compreende a própria imbecilidade. É por isso que é um imbecil. Por isso e mais algumas coisitas, decerto.

Se o imbecil que assina amigodaonça ler esse post ficará elucidado e perceberá porque razão não digo mais nada a estúpidos que não conheço de lado nenhum (acho eu).

Pois, e esta conversa tão agressiva justifica-se por isso mesmo: não tinha mais nada a dizer nem que fazer, por isso resolvi dar alguma atenção e consequente conforto a este tótó sem nome, nem tomates, nem tromba, nem nada que se possa ver.

Um fantasma.

sexta-feira, junho 30, 2006

Zombie Nation

Alexander Droboniev e o seu castelo papados por um azar, 1995-2001

Um gajo não devia meter-se em trabalhos que se desviem dos respectivos talentos naturais. Para quem os não tem, se calhar, não fará muita diferença servir bicas ou abrir valas comuns. Já para quem sonha a realidade acaba sempre por parecer pouco e saber a menos ainda.

Demasiado mesquinho.

Passei a manhã toda a fazer contas. Multiplicar horas por minutos e dividir o resultado por blocos de 90. Dividir o resultado dessa divisão por semanas (era necessário descobrir o número exacto de semanas) para encontrar o resultado pretendido. Agora será necessário encaixotar estas coisas todas num horário semanal, enfim, um trabalho que deixaria Hércules com saudades da querida Hidra mais as suas cabeças infinitas.

Sinto-me mesquinho.

Após três horas nesta merdonga já quase me cai a cabeça dos ombros e vem aquela vontade meio manhosa de pintar. Sim, meio manhosa porque, se fosse genuína, não precisava de estar nesta espécie de trabalho forçado para a sentir e lhe cheirar a necessidade. Depois de fazer este tipo de trabalho, nos intervalos, não apetece fazer mais nada que não seja babar a pança em frente a um écrã de televisão a ver uma merda qualquer. Qualquer merda serve desde que não me obrigue a... pensar.

Amanhã volto a ser mesquinho. Está combinado.

quinta-feira, junho 29, 2006

"A Crise"

Mas... espera lá! Houve algum dia, alguma hora, um minutinho que fosse em que o o país não tivesse estado em crise? Que merda é essa, "A Crise"? Essa merda que nunca veio, nem nunca chegou nem se foi embora. Quando começou, o que a define, qual o seu aspecto, porque não descola? Há tantas perguntas que não são perguntas! Porque se o fossem decerto teriam respostas.

"A Crise" é a porca da loba que nos amamenta. Uma loba porca, a precisar de ver água que não lhe sacie apenas a sêde. Eu sou Rómulo, tu és Remo e ambos esticamos as beiças em direcção aos cones das tetas virados ao contrário. As tetas da loba que já não tem nome, que não é nada, que nem sequer é ninguém. Aquelas tetas sempre a pingar tristeza, a pingar desejo e nós a tentarmos mamar, a falharmos os lábios, a usarmos os dentes.
Mordemos a teta que nos amamenta porque não gostamos do que delas jorra mas também não temos nada melhor para chupar.

Nós somos Remo, vós sois Rómulo. E a puta da loba abala, encosta abaixo. Vai buscar alguma ratazana que lhe mate a fome, algum cacho de uvas verdes que lhe sacie a sêde, nem ela sabe bem o que quer ou o que necessita. Ficamos abandonados à nossa sorte. Lá regressa ela, encosta acima, para confortar os nossos corpos nús, corpos de bébé, sem destino nem cemitério ou catacumba que nos acolha agora e nem na hora da nossa morte.

Nós somos Rómulo, vois sois Remo e o contrário é bem verdade.
Temos uma cidade para inventar, num mundo que não existe e temos um império por construir.

Eles vivem!

Será mesmo assim tão arrasador? Estaremos definitivamente transformados em algo que o destino não nos havia reservado por sermos europeus? Transformados numa espécie de americanos mal amanhados, a viver o sonho americano fora do lugar e colonizados por um imaginário que não queremos mas nos é imposto por uma máquina de ilusões demasiado forte para as nossas mentes pouco brilhantes, por cá andamos alegres e com as cabeças entre as respectivas orelhas.

Temo bem que sim. Resta saber se isso nos prejudica mais do que beneficia ou se antes pelo contrário e vice-versa. Na verdade é um dos grandes ricochetes da História. Os europeus colonizaram o continente americano, chacinaram por completo uma série de povos autóctones, substituindo-os e moldaram todo aquele espaço à sua imagem e semelhança. Longe dos constragimentos impostos pelas tradições religiosas e políticas da "Velha Europa", os colonos geraram um "Novo Mundo" sem os respectivos velhos habitantes. Os portugueses experimentaram isso no Brasil, os espanhóis pela América central acima, os franceses e os ingleses mais para Norte, foi um fartar vilanagem que está longe de acabar enquanto houver seres humanos em cima da carcaça do planeta.

Algumas centenas de anos volvidas começámos a receber de volta uma cultura europeia reciclada e adaptada pelas novas tecnologias, transformada em produto comercial altamente apetecível. As Grandes Guerras mandaram para o outro lado do Atlântico todo o tipo de artistas, cientistas, pensadores e outras aves raras que se foram estabelecer no tal mundo novo, capaz de os aceitar e lhes dar apossibilidade de criarem coisas novas. Tão novas, tão novas que, no ricochete, vêm fazer de nós uma espécie de reflexo.

A América (não apenas os EUA, todo o continente) envia para a Europa o resultado deste estranho intercâmbio cultural e económico, ao ponto de agora ser o "Velho Mundo" a ver-se obrigado a um esforço de adaptação a formas "alíenigeas". É a invasão ao contrário, a eterna mutação dos seres humanos à procura de... ninguém sabe bem do quê!

Estamos melhor? Estamos pior? Quem sabe! Ficamos diferentes.

quarta-feira, junho 28, 2006

Eterno

Acabei de rever 2001 na TV. Raio de filme! Pensar que foi realizado em 1968... como deve ter parecido absolutamente estranho na época. Mesmo hoje continua a ser um objecto de outro mundo. É tão perfeito nos enquadramentos, tão completo na criação de ambientes, tão duro.

Se há filmes que têm escrito "eterno" no prazo de validade este é um deles. Merece ser visto por extraterrestres depois de a nossa espécie se volatilizar. Pode ser que percebam melhor aquela cena do monolito.

terça-feira, junho 27, 2006

Nós Vida

Nós Vida

As coisas no futuro não serão melhores nem piores do que são hoje. Serão diferentes. Tal como hoje são diferentes do que foram ontem e assim por diante e assim para trás. A vida é uma constante tentativa de reformular os princípios da existência. Há quem diga que andamos apenas a entreter a morte. Há quem pense que depois da morte nos transformamos noutra coisa qualquer. Nem pior nem melhor. Diferente. Apenas diferente.

segunda-feira, junho 26, 2006

A coisa promete

Hoje tem que ser, tenho de escrever qualquer coisinha sobre a selecção nacional de futebol. É que o jogo de ontem deixou-me a roer as unhas até aos cotovelos e em estado semi catatónico até o árbitro ter usado o apito sem ser para avisar que lá vinha cartão. Não me lembro de ter visto coisa assim. Aquele jogo foi uma verdadeira batalha campal e finalmente lá se marchou (quem diria) contra os canhões que sempre me pareceram deslocados no hino nacional. Por uma vez que fosse, a cançoneta havia de fazer algum sentido.

Os holandeses andam a mijar fora do testo. Desde as histórias sobre trabalho escravo em plantações de tulipas até ao partido pedófilo as surpresas vindas daquele lado não têm sido famosas. Agora que os putos da selecção de futebol das laranjocas tenham vindo jogar à maluca com os mestres do faz-de-conta é que constituiu surpresa absoluta. Então não é que os holandas quiseram jogar sujo e na fita contra a nossa selecção!? O que lhes passou pela cabeça? Mal os portugas perceberam que os adversários de ontem vinham com navalhas debaixo das botas e a baterem-se à falta como se fossem brasileiros na 3ª divisão meteram mãos à obra e deram cabo deles. É que em matéria de fita os nossos são catedráticos e os deles não passavam de aprendizes.

No fim o treinador holandês veio com conversa de taralhôco falar em teatro e perdas de tempo dos portugueses. Bem pode queixar-se mas é da falta de futebol dos seus jogadores e das opções tácticas algo manhosas que andou para ali a inventar. Se o lateral direito não tinha como missão específica arrumar o Ronaldo para o banco inventou muito bem. E não era amarelo que o árbitro lhe devia ter mostrado. O tipo fez uma entrada assassina mas mostrou ter alguma falta de inteligência em mais uma jogada, desta vez sobre o Figo, capitão do nosso time de actores profissionais. Aquele cotovelo maroto a passar perto do nariz de Figo só podia dar expulsão. Talvez o palonço não tenha querido atingir o português mas a penca de Figo é enorme e proeminente e ele joga com todas as partes do seu corpo, nariz incluído.

Peripécias à parte fica a memória de uma equipa que joga com tripas no lugar do coração e vice-versa, que joga seja lá como fôr e tudo faz para sair vitoriosa do campo. Essa maneira de jogar não é habitual entre nós e andamos todos um pouco confusos. Aquilo parece mais a célebre "Fúria espanhola" só que em versão portuguesa (revista e aumentada).

A coisa promete.

domingo, junho 25, 2006

Antes uma salada de polvo!


Sei que não sou nenhum expert e ando longe de poder fazer uma crítica cinematográfica sustentada e arrasadora. Tenho como principal credencial o facto de "papar" filmes uns a seguir aos outros. Gabo-me de não ser esquisito. Tanto vejo filmes a preto-e-branco como não, na TV com 20 intervalos ou em DVD, no cinema com putos a comerem pipocas com a matraca encostada aos meus ouvidos ou em salas de conaisseurs (vai na volta escreve-se com dois "n", não me apetece confirmar), com écrans merdosos e mais pretensiosismo que qualidade de imagem. Não me corto nunca.

Hoje regressei às salas VIP das Amoreiras (haverá designação mais imbecil para salas de cinema na capital e arredoors?) para ver A Lula e a Baleia. O espaço é agradável, as cadeiras confortáveis e, às duas da tarde, a sessão está bem composta. Tal como no Modigliani para aí uns 10 espectadores, contando já comigo e com o amor da minha vida.
Os críticos encartados que botam faladura nos jornais até davam umas palmadinhas nas omoplatas deste filme. O Jeff Daniels é um baril, a Laura Linney uma excelente actriz e o trailler tinha-me parecido bem. Tudo somado ali estava mais uma óptima oportunidade de dar uma saltada ao cinema. Nas calmas.

O filme lá vai, ao sabor de uma brisa fresquinha que empurra o barquinho por sobre as ondas, deslizante, sem grandes balanços. É uma coisa assim, certinha, sem grandes contrastes logo sem grande emoção. Bem feito, cenas de tamanho certo e prontas-a-vestir, personagens lisinhas com um ou outro momento a deixar adivinhar mais espessura que aquela. Agrada pela singeleza, pela frescura narrativa mas acaba por deixar o espectador a coçar os tomates (caso os tenha ou possa fazê-lo) e, quando acaba, salva-se o Lou Reed. Sempre magnífico o motherfucker (leia-se "sacana" como nos filmes legendados em português de Portugal)!!!

No fim de contas, pés já fora da saleta, entre uma lula e uma baleia talvez não fosse pior uma saladinha de polvo. Com azeite lá da terra, se puder ser.

sexta-feira, junho 23, 2006

Um amor assim é coisa pra não ter fim!

Um amor assim é coisa pra não ter fim
Aí está o S. João em todo o seu esplendor, brilhante e a cheirar a sardinhas quase tanto como o Antoninho dos Manjericos. É agora que o meu bom povo sai à rua e mostra os dentes naquilo que é capaz de imaginar mais parecido com cultura popular. Isto sim, são manifestações genuínas de uma tradição que nada tem de português, é algo que cai muito mais para trás no poço do tempo e nos leva de regresso ao tempo em que o Cristo ainda nem sequer andava nos tomates do Pai.

Quando eu era puto e vivia em Viseu passávamos a tarde a procurar rosmaninho nas matas das traseiras para podermos saltar as fogueiras com algum requinte e a dignidade que a celebração do santo exigia.

Basicamente a ideia era beber mais do que a conta e tentar aproximações de carácter sexual com a benção do santinho. Como é mais do que evidente isto não tem nada de católico, é uma celebração pagã do Verão que se aproxima e já nos faz suar as estopinhas.
O São João deve ser uma personagem abstrusa e caralhuda, roubada à noite dos tempos, capaz de feitos extraordinários que o catolicismo foi incapaz de apagar por completo limitando-se a um travesti pouco ousado com perucas feitas de cabelo roubado a defuntos de famílias pobres.

Aqui em Almada é feriado municipal. O São João sai em procissão da igreja de Cacilhas e vem dormir uma noite à capela da Ramalha, cá em cima, do outro lado de Almada. Vem dormir uma noite com a Santa da Ramalha! Amanhã ou depois, não sei bem, regressa ao poiso para mais umas centenas de dias de abstinência e bom comportamento.

Foi assim que o catolicismo se insinuou, apropriando-se dos deuses pagãos e dando-lhes "categoria" de santinhos de pau carunchoso na sua hierarquia merdosa, imposta lá das bandas de Roma, a Puta Eterna.

quinta-feira, junho 22, 2006

Chorai, pedras da calçada!

O filme tem por título Modigliani. Narra de forma mais ou menos romanceada (vá-se lá saber) aventuras e, principalmente, desventuras de Amedeo Modigliani em Paris. É o artista boémio, bebedolas mas íntegro, arrebatado e sedutor, o perfeito estereótipo que vive encafuado nos recantos mais sombrios do imaginário popular. Ele e a sua musa amam-se perdidamente, a coisa descamba e temos um final trágico à brava com o pessoal todo a fungar na sala.
Fui confirmar aquela cena final. A morte do tuberculoso e o suicídio da amada, grávida ainda por cima, janela abaixo até se espatifar no chão. Confirma. Uma breve biografia do artista confirma a coisa.

Quanto ao filme, descontando o Picasso com aspecto um tanto mais ridículo do que terá sido o real do verdadeiro, até que se papa sem necessidade de recorrer a demasiado tempêro. Formalmente parece-me ser um objecto coerente, com momentos visuais interessantes. Os enquadramentos rigorosos e bem imaginados proporcionam situações de fino recorte. Belas, até.

O que se torna um tanto insuportável é o toque melodramático que se vai acentuando em direcção ao grande final com a dupla morte das personagens principais. Não digo que seja uma lamechice (o rigor das imagens não permite tal classificação) mas talvez tivesse sido possível ir menos longe no empurrão descarado à lágrima que se adivinha.

Não chorei. Verdade, verdadinha, nem sequer andei por perto. Mas os meus olhos comoveram-se uma ou outra vez com as imagens belíssimas que entenderam ver com alguma frequência ao longo da película.

Não é nada do outro mundo mas também não será de desdenhar uma deslocação à sala das Amoreiras onde está em exibição este filme. Penso que é a única sala. Se passares por perto, caro leitor eventual, entra e vê. Pode ser que encontres motivos de interesse, quem poderá sabê-lo? Se és do tipo impressionável leva um pacotito de lenços de papel, talvez te possam ser úteis.

O óbvio

O Homem Dúvida, 2006

"Cada coisa tem a sua palavra; pois a palavra própria transformou-se em coisa. Porque é que a árvore não há-de chamar-se plupluch e pluplubach depois da chuva? "

Realmente... porque não?
Estas duas frases, retiradas de um manifesto dadaísta da autoria de Hugo Ball escrito em Zurique a 14 de Julho de 1916, ganham uma estranha consistência de cada vez que as leio.

Porque as coisas deixam o anonimato quando se lhes cola uma palavra que as traga para a luz do dia mas, logo a seguir, podem regressar ao limbo pré-objecto caso o conceito associado não se materialize com a força de uma mousse de chocolate na mente do leitor (ou do pensador ou do varredor de ruas com calos nas mãos e buracos nas solas dos sapatos).

Então poderemos ficar preocupados. Plupluch? Pluplubach!? Caramba, meu velho senhor Ball, que raio de ideia a sua. Então não vê logo que uma palavra é tão concreta e verdadeira que quando dizemos "árvore" estamos logo a pensar "na" árvore? Em qual? Naquela, com tronco castanho e uma copa verde-bem-verde, como nos ensinam na escola primária as professoras enfastiadas quando insistimos que o tronco pode ser branco e a copa amarela e vermelha. Que devemos estar tantãs, que tolice, que é uma ideia estapafúrdia. Mesmo que seja Outono e já haja árvores sem folhas nem nada que se pareça.

Para as professoras, primeiras defensoras do senso comum a sistematizarem o nosso pensamento (a diluirem o individuo que somos na massa amorfa que haveremos de vir a ser), é óbvio que uma árvore tem aquelas cores e não outras por muito que saibam que é uma mentira tão estúpida quanto aparentemente inocente.

O senso comum torna tudo óbvio para não ter que discutir seja o que for. Temos aí a raíz de muitos males e maleitas intelectuais. Mas não há-de ser nada. A gente sobrevive e ainda tem tempo para comer uns caracóis lá mais para o fim da tarde, na esplanada sob a copa das árvores (seja lá qual for a cor delas!).

terça-feira, junho 20, 2006

Recorde Mundial

Retrato de Adele Bloch-Bauer I, óleo e ouro sobre tela, 1907, Gustav Klimt
Ora aí está, o recorde foi batido. Estamos numa época em que o mercado da arte tem apresentado uma forma invejável com alguns recordes a serem sucessivamente batidos. O Título Mundial de "O Mais Caro de Sempre" acaba de ser arrebatado pelo Retrato da Adele Bloch-Bauer, do imortal Gustav. Terá sido adquirido pela soma astronómica de 105 milhões de Euros (seja lá isso o que for) relegando para o segundo degrauzinho do pódio Rapaz Com Cachimbo, uma aguarela do divino Pablo. Num mundo como o nosso nada melhor que muitos zeros sguidos no preço do que quer seja se quisermos provar o valor da coisa. É evidente. Se vale muito dinheiro é porque tem muito valor. Não é preciso ser-se nenhum génio para compreender uma evidência destas! Seja uma obra de arte, uma empresa cotada na bolsa, um jogador de futebol, uma jóia ou urânio enriquecido, o valor monetário é que interessa. Apaga as fronteiras entre ética, estética, comércio ou economia, apaga todas as fronteiras sejam elas quais forem.
A partir de hoje a obra do imortal Gustav vai ser olhada com outros olhos pois tem um título mundial em seu poder.
Por coincidência e curiosidade irá estrear na 5ª feira um filme dedicado a Gustav. Até era capaz de apostar que irá ter muitos mais espectadores que Modigliani (discretamente em exibição numa sala das Amoreiras). Sim, afinal de contas é um filme dedicado a um recordista mundial, nem mais nem menos!

segunda-feira, junho 19, 2006

Oh Elsa!!!

Frankie goes to Hollywood (pormenor)

Não há nada que nos mantenha inteiros além da Química e da Física. Acreditar em mais do que isto é crer que a poesia se pode materializar no olhar inocente de um carapau assado na brasa.

Jeová é uma anedota que acabou por pegar melhor do que a encomenda até se tornar uma piada de mau gosto. Uma mentira mil vezes repetida acaba por se confundir com a verdade penetrando o frágil espaço da realidade. Jeová é uma anedota digna dos Malucos do Riso.

Quem sabe se, dentro de alguns séculos, num futuro longínquo, os nossos descendentes irão erguer altares a uma tal de Elsa, deusa dos festivais de Verão, propiciadora de alegria e boa disposição?

Se lhe derem espaço será uma hipótese tão credível quanto Jeová o foi noutros tempos, tempos de outros festivais.

domingo, junho 18, 2006

Too many happy-meals


Havemos de conseguir. Todas as crianças do mundo terão igualdade de oportunidades perante os bens de consumo correntes nas nossas sociedades demo-capitalistas.
Não é de todo aceitável que continuem a morrer crianças de fome, vítimas de doenças evitáveis com um simples sopro na moleirinha, crianças que nunca pousaram o plácido olhar sobre um écran eléctrico e luminoso. Não é aceitável que continuem a existir países onde as crianças não conhecem o rato Mickey nem o Gato das Botas nem o raio-que-os-parta mais a puta que os há-de parir (aos dois).
É nosso dever e nossa sina proporcionar estas e outras felicidades básicas a todas (mas mesmo todinhas, caraças!) as crianças do mundo inteiro que, de outro modo, nunca será um mundo completo e, muito menos, complexo.
Nem que para isso tenhamos que matar, destruir, trucidar, engaiolar, comprar, vender e trocar tudo e todos como se modernos Nóes fôssemos, reordenando o mundo dos vivos e dos mortos, havemos de conseguir levar a felicidade tão longe que a conquista do espaço parecerá coisa de atrasadinhos a distraírem-se num fim-de-semana com a família.
Todas as crianças merecem ser felizes e todas, sem excepção, merecem ter acesso aos mesmos bens de consumo que este palonço aqui na imagem, símbolo completo ( e complexo) do mundo que andamos a exportar e a construir com a alegria de um estúpido perante a ilusão de o não ser.

Caraças, estarei a passar-me?

Como disse?


Queen of Hearts (sem data)
Tenho cada vez mais dúvidas sobre a possibilidade de uma arte sem objecto poder cumprir alguma função que não seja a de preencher o vazio com outro vazio de igual valor.
O discurso da arte sobre si própria, a reflexão exclusiva sobre os limites do suporte ou em torno da plasticidade dos materiais parecem-me coisas inúteis.
Sei bem que a arte do século XX trilhou caminhos que nos trouxeram até ao futuro presente. Só que me apetece voltar atrás com frequência e regressar, não sair do lugar. Tomar atalhos, misturar as coisas. A originalidade do discurso não se me afigura uma necessidade absoluta. Citar outros, roubar-lhes ideias, copiar-lhes formas. Porque não?
Pintar com pincéis e tinta.
Há qualquer coisa que me obriga a representar figuras humanas. Procuro-as quase sempre no meio do vazio e é com elas que o tento preencher. É uma forma de me sentir humano. Como essas imagens permanecem quase secretas não sei bem se poderão causar sensações semelhantes a outras pessoas e tenho dúvidas sobre se isso interessa mais ao Menino Jesus se à vaca do presépio. Este texto já me começa a parecer quase tão inútil como um objecto de arte sem objecto.

sábado, junho 17, 2006

Sangue, Iago, sangue!

As notícias são o menos. À esmagadora maioria dos jornalistas parece interessar apenas o sangue que as suas penas possam fazer correr. Estes escrevinhadores ou repórteres televisivos (os que usam o microfone como torneira de onde jorra o sangue) são os nossos Iagos e nós, pobres Otelos, vivemos enganados, a desejar a morte a quem não devemos, com o coração dilacerado pela dúvida.

A notícia incide demasiadas vezes sobre o pormenor, o acessório sórdido, o sinal ambíguo que permite a especulação, que dirige o raciocínio ao abismo da mentira ou, pelo menos, da tão pós-moderna "inverdade". Otelo já pede sangue e Iago sente que pode oferecer ainda muito mais.

Todos sabemos que a felicidade não faz notícia, a menos que seja a de alguma celebridade rançosa que se casa ou que tem um filho ou que descobre o amor pela enésima vez no corpo de outra celebridade e vem declará-lo em letras coloridas nas capas das revistas da especialidade. Mas, mesmo nesses areópagos da vacuidade, a intriga e a maledicência são de longe preferidas. E assim vamos erguendo um zigurate tenebroso pelo qual ascendemos à nossa divindade de hoje: a Mentira, essa velha gorda e malcheirosa que habita escondida nos nossos corações e se alimenta incessantemente da crendice que os Iagos deste mundo tão laboriosamente nos oferecem embrulhada em papel perfumado.

A solução (se é que se pode chamar a isto solução!) é tornarmo-nos eremitas da comunicação social cortando relações com o mundo mediático. Escondidos nas profundezas das nossas cavernas cranianas poderemos enfim sonhar e meditar sobre um mundo ideal e vazio onde, além de nós, haja apenas uma luminosa Desdémona a quem possamos oferecer o nosso amor sem um Iago que nos atormente.

quarta-feira, junho 14, 2006

Paciência

Ter paciência deve ser uma virtude mas às vezes apetece pensar que é o pior dos defeitos.
Um dia de trabalho árduo ao ritmo da cafeína ingerida mais que a conta deixa marcas. Um tipo fica entre o excitado e o eufórico, capaz de trucidar os minutos com a eficácia de um Hércules a partir ossos de recém-nascidos. Tungas, tungas, tungas, vai tudo a eito sem hesitação nem temor!
O pior é quando, apesar de todo o esforço, da boa vontade, dos resultados apresentados, da eficácia das acções, um gajo se apercebe que tudo aquilo vale o peso de um saco meio cheio de vento, meio cheio de nada. Afinal nem a satisfação do dever cumprido limpa a cabeça porque um gajo, na voragem criativa, acaba a fazer mais que a conta e, quando dá por ela, já está metido em trabalhos extra porque há sempre uma multidão de canastrões que passam o dia a queixar-se mas, na verdade (e também na realidade) não fazem a ponta de um corno. O dever já tinha sido cumprido anteontem! No fim das contas bem feitinhas os tais madraços ainda levam os louros, são os primeiros da lista e tu... lá te diriges ao balcão e bebes outro café. Antes que a coisa esmoreça.

Paciência! Pronto, lá dás por ti com esta taralhoquice a afagar-te a testa já que a frustração espreita, prontinha para te morder o cérebro com dentinhos de piranha. Paciência? Paciência mas é o caraças!!! Apetece-te espernear, barafustar, berrar um pouco até, para compor melhor a personagem que está quase, quase, fora de si. Falas muito, esbracejas, mas estás apenas a lamentar-te e o lamento anda sempre com a cotação muito por baixo. Não vale nada. Vai outro café goela abaixo e pensas que é necessário tomar uma atitude. Olhas em volta e, finalmente percebes. Não podes vencer, tens de juntar-te a "eles". E lá vais, com uma chávena de café na mão, procurar um lugar vago na parede.
E encostas-te.

A menos que queiras ser santo e garantir um lugarzinho no céu.

domingo, junho 11, 2006

Dia de quem?

Não há nada a fazer. Sempre que se comemora o 10 de Junho as ratazanas saem da toca e vêm vomitar na sarjeta. Nestas ocasiões aparecem uns gajos de cabeça rapada a fazerem de conta que são pessoas e a provocar a boa consciência cívica. Digam o que disserem estes gajos não têm direitos democráticos iguais aos dos outros cidadãos uma vez que pura e simplesmente abominam a democracia e tudo fazem para a mutilar. A democracia não pode ser condescendente com estes energúmenos pois eles, se fossem crescidinhos, haviam de lhe deitar gasolina e fogo em cima.

Aqui há dias foi um pagode. Um destes gajos veio mostrar-se forte e feio num documentário na RTP. Arma em punho, conversa do género "Se for preciso defender a nação temos um exército organizado" e outras balelas do género. Claro que foi preso. Tal demonstração de inteligência emocional diz tudo sobre a personagem. Veio a saber~se que este tipo, um tal de Machado, está a ser julgado por suspeita de envolvimento em vários crimes de delito comum. Desde extorsão a rapto, passando por tráfico de drogas e posse ilegal de armas de fogo, as acusações são tudo menos monótonas. E diz-se este tipo perseguido pelas suas ideias políticas? Parece-me bem que não é esse o caso.

Só não percebo bem a ligação de grupos de criminosos deste calibre com as celebrações do dia de Portugal. Portugal não precisa destes tipos. Precisa de emigrantes dispostos a contribuir com o seu trabalho para o crescimento económico e social. Não precisa de meliantes comuns dispostos a cometer os mais variados tipos de crimes para poderem pagar a rapadela do cabelo e a graxa para as Doc Martens.

Honra seja feita a Rui Tavares pelo excelente texto por ele assinado ontem no Público. Caro leitor se ainda não leste, tenta fazê-lo. Vale bem a pena.

sábado, junho 10, 2006

Umbigos

Hoje vou participar num debate sobre Culturas Comunitárias, Instituições, Auto-Organização e Redes no âmbito de um seminário sobre Arte, Educação e Sociedade. Chiça, a coisa promete! Estarei presente na minha qualidade de professor e dinamizador de uma coisa que chamamos Atelier de Artes na escola onde dou aulas.
Reflectindo um pouco sobre estas questões não tardei a concluir que a principal cultura comunitária dos tempos que correm é a que passa pela televisão. Novelas, futebol, futebol e novelas. A Arte, na verdade, verdadinha, nem sequer para aqui devia ser chamada. A Arte é elitista e causa indigestões e insónias às mentes menos poderosas, habituadas à sua dietazinha de futebol e novelas, novelas e futebol (eu adoro futebol e novelas nem sequer vejo, só para que conste).
Os artistas contemporâneos discursam sem parar e na sua maioria sobre a própria arte e sobre si próprios, remetendo o discurso e as narrativas artísticas para um baú cuja fechadura é o umbigo de cada um. Podemos admirar os baús mas, para podermos dar uma olhadela ao seus conteúdos, teremos de andar a esfurancar o umbigo dos artistas o que, além de pouco higiénico, é extremamente desagradável.
Entre o mundo televisivo e a colecção de umbigos que nos oferece a Arte Contemporânea o povão escolhe rápido. Nem sequer escolhe porque não tem curiosidade pelos umbigos dos artistas plásticos. Se ainda fossem os de Cristiano Ronaldo ou de outro qualuer produto cultural comunitário...
Assim sendo lá irei para o meu debate a pensar nestas coisas e a engendrar um modo de conseguir dizê-las sem ofender nem parecer demasiado acanhado. Talvez ainda dê para ver um bocadinho de televisão antes de sair de casa enquanto dou uma olhadela à História da Arte do Gombrich, o meu Deus e a minha Bíblia. Ou vice-versa.

quinta-feira, junho 08, 2006

Bof!

Um gajo pode chegar ao fim do dia e pensar... bof! Quem dizia isto com frequência era Achille Talon, a personagem de BD. E o que significa bof? Enfado, desconfiança e nem por isso. Hoje, ontem, espero que amanhã não: bof! Bof! Bof! Tanta coisa a fazer. Tanta coisa feita e tão pouco sumo, zero em realização. Até amanhã.

quarta-feira, junho 07, 2006

(...)

Nem o sono vem nem o sonho nem nada que se pareça.
Há noites assim, parecidas com os dias só que sem o sol a iluminar os passos à consciência.
A lua deve lá estar (tem de estar).
Os aviões passam na janela, a piscar luzinhas, descendo para o outro lado do rio perante a indiferença do gigantesco Cristo plantado do lado de cá.
Muitas outras janelas iluminadas deixam imaginar pessoas como eu, debruçadas no parapeito da memória com os olhos passeando sem destino.
Apetecia-me pintar, mas até isso é mentira. Uma mentira caridosa que ofereço à preguiça que me impede de dormir.
Amanhã há um mundo inteiro de coisas por fazer. Caótico, à espera de uma ordem que, não podendo existir, teima em tentar sobreviver uma vez mais.
Assim sendo vou desligar esta trampa e tentar outra coisa qualquer. Talvez dormir. Boa noite.

terça-feira, junho 06, 2006

Querido Presidente

Chegou à minha caixa de e-mail uma petição dirigida ao Presidente da República. Pede-se a Cavaco que venha em defesa do ensino público, afirma-se mesmo que "Vossa Exª saberá certamente melhor do que ninguém como melhor agir face a esta situação e esperamos sinceramente que o faça e o quanto antes melhor." Além do tom geral da carta, que não me agrada e com o qual não posso estar de acordo, parece-me no mínimo sinal de inocência apelar a este presidente que interceda em tal matéria.
Enquanto foi 1º ministro, Cavaco foi responsável por medidas desastrosas no campo da educação. Basta lembrar quando colocou no ministério da educação a agora tão admirada Manuela Ferreira Leite. Comparada com ela a actual ministra é uma mera bonequinha de porcelana.
Não me parece possível que a simples eleição para o cargo que agora ocupa transforme Cavaco em santo padroeiro, uma espécie de Nun'Álvares Pereira de pau carunchoso. Cavaco é Cavaco, nem mais nem menos. Apelar para ele não adianta nada. Aliás nada garante que o cargo actual o leve a ler jornais, coisa que nunca havia feito, a acreditar no que ele próprio afirmava em tempos que já lá vão mas que a memória não apagou. Mas lá terá quem os leia por ele e lhe faça resumos de modo a que consiga compreender o essencial das questões menos complexas. Mesmo assim não vejo como se possa sensibilizar neste capítulo.
por estas e por outras não assinei a tal petição o que não me impede de deixar o link respectivo
http://www.petitiononline.com/piprep/petition.html .
A mensagem acaba com um texto merdoso que anda por aí a infectar a paz de espírito de muito boa gente com um vírus malandro. O autor é certamente um tótó com a mania que tem piada mas que só consegue ser incoveniente de tão grosseiro. O grave será não se aperceber da vulgaridade tremenda das alarvidades que profere. Como não sou uma professora não me parece que seja particularmente ofensivo, apenas grosseiro e estúpido quanto baste.
Estão a dar-lhe demasiada atenção e ele, como estúpido encartado que é, deve estar a pensar que, afinal, até é um gajo do caraças.
Manias.
Sempre gostaria de ser uma mosca para esvoaçar no gabinete do querido presidente no momento em que ele leia o tal texto. Mera curiosidade... mera curiosidade.

domingo, junho 04, 2006

Não dou pra este peditório

A esta hora deve estar a passar no canal 2 da RTP uma entrevista com esta senhora. Como sou professor deveria estar interssado na coisa mas, afinal e de facto, não estou. Nem tão pouco li a versão em papel de jornal que saiu hoje no Público.
Não me seduzem discursos populistas de governantes com mais certezas que dúvidas na hora de atirar a matar. Não me interessam conversas feitas sem margem para surpresas. Não tenho pachorra para a senhora.
O meu objectivo, enquanto professor, é cumprir com profissionalismo as minhas funções. Apesar da ministra. Como dizia a canção de José Mário Branco: "Qual é a tua, ó meu? Neste peditório o pessoal já deu!" Neste caso é só substituir "meu" por "minha". Perde-se a rima mas fica o recado. Estou farto da "minha" ministra.

sábado, junho 03, 2006

Arte

A questão é: "Para que serve a arte?"
Nestes tempos com pós de modernidade a resposta não entusiasma ninguém. Está entretida por discursos crípticos que nem aqueles que os produzem parecem compreender. O que são as modernas instalações conceptuais comparadas com as pinturas rupestres conhecidas? Eu respondo; são uma merda.
(complemento)
Mas se comparadas umas com as outras, as ditas instalações e outras manifestações artísticas contemporâneas, já são outra coisa.

Se a pós-modernidade relativiza tudo, então também no campo da arte acaba por encontrar justificação para certas realizações menos... ortodoxas, por assim dizer.
Resumindo, se compararmos um monte de merda com outro monte de merda poderemos estabelecer parâmetros de avaliação que os tornem menos merdosos do que poderiam parecer à primeira vista.
É uma questão de perspectiva.

Por nada

O tempo de olhar para trás nunca mais acabava. Assim, da janela para baixo, o mundo até poderia estar de pernas para o ar. Mas tenho a impressão de que não estava e que ainda se encontra mais ou menos da mesma maneira. Sujo, pequenino e lá em baixo na rua. Nem mais nem menos.

O vizinho lá estaria, a morrer, como sempre, com aquele olhar de quem está farto da vida e tem saudades do cabelo. Já deixara de chatear. Parecia que tinha perdido a força de se intrometer nos minutos menos interessantes e nos outros todos, a importunar os momentos de intimidade sem pedir licença. Como se fosse dono do tempo e o obrigasse a ser sempre tempo de olhar para trás. E era por isso que nunca mais acabava. Mas agora talvez isso já fosse passado, não me lembrava bem.

Talvez o tempo resolvesse andar e ir dali para fora, para a frente, que é o sentido que imaginamos que o tempo usa nas suas deslocações. Dantes o tempo andava mais às voltas, nos mostradores dos relógios, como um cão estúpido a tentar morder a cauda. Ou talvez fosse alguma pulga maldita. E rodava, rodava, rodava, dando aquela sensação de que as coisas recomeçavam continuamente, sem nunca se cansarem de ser coisas que é algo complicado porque uma coisa, para ser coisa, é porque ainda não tem um nome que lhe dê um lugar no mundo.

O tempo novo, digital, brilhante e despachado, um pouco frenético, reconheço, desloca-se na vertigem dos dígitos. Então se o mostrador for daqueles que marcam os milésimos de segundo, um gajo até pode perder o tino a olhar para ele. Imaginar que está a envelhecer aquela velocidade não deve dar saúde a ninguém a menos que se tenha vontade de morrer e não haja coragem de trocar o relógio por uma pistola encostada ao céu da boca. A táctica que eu gostava de ter ensinado ao meu avô consiste em desviar o olhar e fazer com que o tempo fique suspenso. Esquecendo o relógio o tempo é capaz de se descontrolar.

A suspensão da acção é uma arte imensa. A arte consiste na capacidade de utilizar essa suspensão no momento certo (ou no momento errado, acho que tanto faz) acreditando que conseguimos realizar algo no momento imediatamente anterior à suspensão do gesto, da acção, do pensamento, seja lá o que for que estejamos a utilizar. A arte é isso mesmo. Suspensão. Depois o objecto que criamos fica para ali, suspenso, fora do tempo, à espera de uma presa que será o observador.

A arte é como um bicho de atalaia. E o tempo, com a arte, não brinca. Penso que seja por não poder. Porque o tempo é como meu vizinho. Intromete-se, atrapalha o descanso, faz da nossa intimidade algo que pretende tirar-nos. Não é que queira fazer nada com o que nos tira. É só para chatear. Porque isso de ser tempo, eterno, a andar em circunferência ou aos pinotes de dígito para dígito, também deve ser uma seca das antigas!