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domingo, janeiro 19, 2014

Transparência

Foto de João Menéres retirada daqui

Disse o Jorge Pinheiro que "Cidade Transparente", o mais recente livro de Eduardo Lunardelli, se lê de um fôlego. Eu li em dois.

De início pensei estar a mergulhar nas memórias de Eduardo. Depois percebi que não era bem assim, que os diferentes textos/capítulos do livro me levavam numa espécie de comboio a viajar numa montanha russa. Tão depressa estava lá em cima como a seguir era levado encosta abaixo em grande velocidade. De repente parava. Logo a seguir   recomeçava a viagem.

Há histórias sem Eduardo, outras com ele mesmo e outras ainda talvez o tenham por lá, mais ou menos escondido, mais ou menos revelado.

Em Paraty encontrei-me a mim próprio, quase quase personagem ficcionada, a olhar em frente ao lado de Picasso com quem Eduardo conversara. No final visitei a Cidade Transparente, esse lugar extrordinário que haverá de acabar por ser de insuportável transparência.

Para terminar este post quero agradecer a Eduardo ter-me oferecido esta viagem, coisa que apenas um amigo poderia oferecer.

Obrigado Eduardo.

quarta-feira, outubro 09, 2013

Vai Eduardo!

Recebi pelo  correio um envelope gordinho com carimbos brasileiros. Trazia dentro o último livro do Eduardo P. Lunardelli. Penso que todos os que lêem estas linhas sabem de quem se trata (caro leitor, se eventualmente não souber a quem me refiro clique aqui e ficará com uma ideia).

O livro intitula-se "Agudas e Crônicas", o acento circunflexo ajudando a compreender as diferenças de pronúncia de um lado e outro do Atlântico. É um volume que reúne os escritos que Eduardo vai postando diariamente tanto no Varal de Ideias quanto no Facebook. Curtos e apontados ao coração.

Lê-se de um tiro ou, melhor, lê-se como uma rajada de metralhadora, cada "crônica" puxa a "crónica" seguinte, num desfiar escorreito de leitura fácil.

Grato pelo livro, Eduardo.

quarta-feira, agosto 14, 2013

Verão leituras

O Verão traz sempre consigo uns quantos livros que se lêem debaixo do guarda-sol, à beira do mar ou nalguma esplanada mais recatada com boa cerveja fresca, de preferência.

Nos últimos tempos tenho dado primazia a autores portugueses e foi de Afonso Cruz a minha última destas leituras estivais. Li O Pintor Debaixo do Lava-louças(ou loiças) que confirmou as boas impressões que me haviam deixado Jesus Cristo bebia cerveja e A boneca de Kokoschka, também deste autor.

Para quem nunca leu Afonso Cruz deixo a recomendação de que o faça. O rapaz é um artista!

Entretanto li também O relatório de Brodie, um livrinho de contos de Jorge Luís Borges editado pela Quetzal que é um primor. Desde a textura da capa à magnificência da escrita, é um livro que dá prazer ter nas mãos.

Mas, com tanto tempo livre, o Verão permite isto e muito mais. De Pedro Gamboa li Almas a saque, uma história de paixão com final pouco feliz que me revelou um autor que desconhecia (mas que conheço pessoalmente).

Entretanto fui ontem à Biblioteca Municipal de Almada levantar outros dois livros de contos. Depois de os ler talvez diga alguma coisa.

Boas leituras. É Verão.

domingo, fevereiro 10, 2013

Lendo

Já há algum tempo não refiro por estas bandas os livros que vou lendo. Desde a última vez que o fiz e esta, onde volto a fazê-lo, li vários romances, contos e novelas, alguns que muito me agradaram, outros mais ou menos.

Mas agora estou a ler (finalmente) "Os Detectives Selvagens" (entretanto o "c", por ser mudo, vai caindo) de Roberto Bolaño, o único dos seus romances editados em Portugal que me faltava ler.

Escrevo este post porque hoje de manhã, quando lia mais algumas páginas, ocorreu-me que "genial", perante esta obra, é uma palavra que se esvazia de sentido. Dizer que "Os Detectives Selvagens" é uma obra genial é o mesmo que não dizer nada.

Durante a leitura sinto-me como aquela personagem de "Citizen Kane", o tipo que faz a investigação e que, para o espectador, nunca é mais do que uma sombra que se entrevê de costas.

Sinto-me um tipo que está ali, a recolher informação e que vai avançando numa complexa trama de testemunhos e acontecimentos como se vivesse um sonho (ou vários sonhos, uns dentro dos outros) sem saber onde irá ser conduzido no final; que maravilha estará reservada ou que horror inominável irei, por fim, encontrar?

Este é um livro que desejo que nunca acabe. Se houvesse a possibilidade de possuir um objecto literário interminável e eterno, se pudesse ter esse objecto para me acompanhar ao longo do que a vida me reserva, seria uma coisa como esta.


quarta-feira, dezembro 05, 2012

Milagre zumbisférico

Recebi um exemplar de  "O Último Blog e outras blogagens", uma espécie de milagre contemporâneo em que o virtual se transmuta em objecto palpável.

Mais credível que um deus que se fez carne ou aqueloutro que se fez livro, o milagre acima referido tem o cunho do Eduardo Lunardelli que, estou em crer, dispensa qualquer tipo de apresentação aos leitores eventuais deste meu post.

Ler "O Último Blog" é como surfar na internet só que num "book" verdadeiro, com folhas de papel e letras impressas. A sensação é estranhamente agradável, até porque não é todos os dias que temos a possibilidade de confirmar um milagre verdadeiro e é reconfortante confirmar que coisas dessas acontecem fora da estreita vigilância dos polícias do Vaticano.

"O Último Blogue e outras blogagens" é um milagre zumbisférico.

Post Scriptum Juntamente com o referido livro-milagre chegou também a colectânea de poesia intitulada Poema [entre chaves] onde o Eduardo reúne alguns dos poemas que vem postando lá no Varal de Ideias.

quarta-feira, novembro 14, 2012

Olha aí!

O Eduardo tinha prometido e cumpriu! Do mundo virtual para o mundo que imaginamos como sendo o real aí está O ÚLTIMO BLOG e outras blogagens. Há quem ainda não tenha lido e tenha gostado. É a literatura da Zumbisfera a invadir o espaço habitado pelos seres humanos (e restantes animais domésticos). Para quem tenha dúvidas: a blogosfera existe MESMO!
Vou querer ler.

quarta-feira, julho 25, 2012

Listas inúteis

Nesta época do ano é habitual aparecerem, publicadas um pouco por todo o lado, listas de livros recomendados para as leituras de Verão. Os jornais e as revistas não costumam perder a oportunidade de solicitar a diversas personalidades (umas mais públicas do que outras) que forneçam um rol de títulos que lhes pareçam interessantes.

E as figuras fazem-no, enviam os seus palpites, as suas listas, as mais das vezes inúteis, revelando os autores da sua preferência ou, pelo menos, da preferência de quem elabora a dita lista por elas.

É bom não esquecer que muitas destas figuras, precisamente porque são figuras públicas, não têm  tempo para ler e limitam-se a olhar os bonecos, de preferência bonecos onde apareçam elas próprias, a sorrir um daqueles sorrisos que até hà pouco tempo pareciam impossíveis de tão brancos, tão limpos e certinhos.

Como não sou uma figura pública e decido olimpicamente sobre o que aparece e não aparece neste blogue, resolvi fazer uma lista da minha lavra. Entre livros que li recentemente, o que estou a ler agora e os que gostaria de ler a seguir, aqui fica a dita cuja.

De há uns meses a esta parte, desde que li algures um artigo sobre "A Máquina de Fazer Espanhóis" de Valter Hugo Mãe (outrora valter hugo mãe) decidi-me a ler todos os seus romances. Assim fiz, são apenas 5. 4 deles fazem parte da minha lista, o outro nem por isso. Qual deixaria de fora? Compete-te a ti decidir, caro leitor, decide tu...

Entusiasmado com a excelência da escrita do amigo Hugo Mãe procurei manter o foco naqueles que são designados como "novíssimos" romancistas portugueses e virei-me para Gonçalo M. Tavares. Li "Aprender a rezar na era da técnica" e "Uma Viagem à Índia". O primeiro deixou-me de queixo caído, o segundo desorbitou-me.´Li ainda "Matteo perdeu o emprego" mas uma lâmpada de 100 watts tem dificuldade em impor o seu brilho perante uma fogueira de tal intensidade que se aproxima do incêndio.

Pelo meio tive oportunidade de ler o romance "Pais e filhos" de Ivan Turgenev, um exemplar daquela inacreditável onda literária russa do século XIX que nos deixa a pensar que, ali, não havia ninguém que não soubesse escrever na perfeição. Reli, por engano, "A música do acaso" de Paul Auster, livro muito adequado para qualquer ocasião do ano. Como se relê um livro por engano? Prefiro não responder.

Regressei à literatura lusitana através de "Fados e Desgarrados", um alucinante relato do que foi, não foi ou poderia ter sido a cidade de Lisboa nos distantes anos 80. É um romance do meu amigo (José Xavier) Ezequiel que me ofereceu um exemplar com dedicatória e tudo! Logo após, mais uma vez influenciado por um artigo de jornal, procurei Afonso Cruz e li o excelente "Jesus Cristo bebia cerveja". De momento estou em plena leitura de "Breviário das más inclinações" de José Riço Direitinho, outro dos tais novíssimos. Mais uma vez estou a dar o meu tempo por bem empregue.

Tenho na prateleira, à espera, dois romances de João Tordo que, ao que leio por todo o lado, é outro autor prometedor, inteligente e um narrador de primeira água. Estou aqui para ver!

A lista está quase completa. Falta apenas acrescentar "Os detectives selvagens" de Roberto Bolaño que ainda não tenho por perto. Mas esse fica para mais tarde, para depois das férias, que o livro tem aspecto de ser pesado e volumoso, difícil de transportar para a praia, que é o melhor lugar para não ler nada. Vá lá, quando muito sou capaz de ler o jornal.

terça-feira, novembro 29, 2011

Um português no Brasil

valter hugo mãe na Flip, Festa Literária Internacional de Parity (para ver melhor clicar aqui), no Brasil. este post é dedicado aos meus amigos brasileiros que me visitam aqui, no mundo virtual.

domingo, novembro 27, 2011

Não há acordo numa coisa destas!


Já há uns dias que acabei a leitura de "o remorso de baltazar serapião" livro escrito pelo pulso poderoso de valter hugo mãe (é tudo assim, com letras minúsculas por vontade expressa do autor embora em "O filho de mil homens", a mais recente obra do dito cujo, as maiúsculas, ao que parece, tomem os lugares que lhes são devidos, graças a Deus Nosso Senhor).

Trata-se de um livro que dispensa em absoluto as discussões bizantinas que se vão mantendo a propósito do tão esgadanhado Acordo Ortográfico que por aí vai tentando deitar a cabeça fora das águas turvas onde ainda chafurda em aparente aflição.

Em o "remorso de baltazar serapião" a língua portuguesa é uma outra coisa que, sendo o que é, mais parece o que não pode ser, ou não fosse assim sonhada e melhor registada pelo autor de tão extrordinário relato. Ler este livro é um exercício de puro prazer.

Este livro mostra como a liberdade, na escrita tal qual no resto das coisas que compõem o mundo, é uma  maluca que nos faz ir para lá das fronteiras do óbvio e nos abre horizontes maravilhosos, assim sejamos capazes de a aceitar e com ela ir passear, onde quer que nos leve.

Disse o velho Saramago que este livro de valter hugo mãe era um tsunami na lígua portuguesa. Completamente de acordo. Leia-se um livro assim e esqueça-se a polémica absurda do Acordo Ortográfico. Escrever é muito mais do que aquilo que os xerifes da língua portuguesa são capazes de imaginar. Ah grande valter!

sábado, outubro 08, 2011

62





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Enriquecer ainda mais é um risco para todos
os ricos (como uma epidemia),
e tal só não ameaça também os pobres porque
acerca destes não é adequado utilizar a expressão
«ainda mais». E os pobres

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sendo como toda a gente sabe,
moralmente muito mais bem apetrechados
que os milionários, não querem enriquecer ainda mais,
querem apenas enriquecer a todo o custo,
pisando quem quer que passe
à sua frente. Os pobres não são bons, murmurava o meu
                                                                           [pai
têm é menos dinheiro para exercer a maldade.

in Uma Viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares, págs. 139/140

segunda-feira, setembro 05, 2011

Aprender a ir no comboio do romance

Ontem acabei de ler este "Aprender a rezar na Era da Técnica" de Gonçalo M. Tavares. Li-o com agrado e estranheza. Não é o 1º livro que leio deste autor mas, até agora, foi aquele que me deu vontade de escrever qualquer coisa sobre o que acabei de ler.

O facto de ser uma narrativa muito fragmentada e reflexiva a um nível quase incomodativo, transforma a leitura num constante exercício de aprendizagem. Aprendi a ler, aprendi a pensar com a ajuda daquilo que estava a ler, aprendi a ver, aprendi a fazer um grande número de coisas que já tinha aprendido anteriormente mas que agora aprendi outra vez. Só que de outra forma.

Aprendi isto "daquela" forma que é necessário aprender para poder entrar nos carris que orientam o comboio da narrativa deste romance. Sem pagar bilhete. Vai-se porque se quer ir. Com alguma sorte chega-se no preciso momento em que a personagem central abandona o palco.

Como digo, aprendi muita coisa mas não aprendi a rezar.

sábado, agosto 13, 2011

Um livro muito bom

Uma pessoa leva o tempo que leva a encontrar certas coisas que lhe parecem estar destinadas a ser encontradas. "a máquina de fazer espanhóis" é um livro que me faz imaginar que é assim, que há destino e que está escrito e pronto. Trata-se de um livro que já foi lido por milhares de pessoas e que eu estou agora a ler. Não é novidade para as pessoas que já o leram mas está a sê-lo para mim. E é uma coisa absolutamente deslumbrante. O autor é valter hugo mãe que assina e escreve assim mesmo, tudo com minúsculas. Uma personagem interessante. Parece-me.

sexta-feira, abril 22, 2011

Leituras



Tenho andado às voltas com Roberto Bolaño. Concluí a leitura de mais um livro da sua autoria "Os Dissabores do Verdadeiro Polícia", uma estranha obra que o malogrado escritor não chegou a concluir mas que acabou por ser compilada e organizada para edição, seguindo um conjunto de pistas e sinais mais ou menos decifráveis. É um livro estranho pois surgem diversas personagens de outros livros, principalmente de "2666", que mudam completamente de aspecto, nuns casos, ou são aqui completadas, através da narração de cenas que não foram descritas no livro anterior.


Mais uma vez é o puro prazer da literatura que impele o leitor a deambular por estas páginas sem conclusão, nem moral da história,  nem horizonte para alcançar. Tal qual a vida! Sem tirar nem pôr.

Entretanto, entre um Bolaño e outro, fui lendo "As Aventuras de Robinson Crusoe", leitura que não fiz na minha adolescência, mais dedicada a Júlio Verne ou Mark Twain, só para dar dois exemplos e que hoje concluí.

Dificilmente poderia encontrar tão notável contraste. A obra de um escritor do século XVIII e a de um contemporâneo, lidas em paralelo, mostram bem a evidência de como o tempo e o lugar determinam o aspecto do objecto artístico.

Crusoe é uma narrativa em disparo de escopeta, sem paragens nem descrições minuciosas.As personagens distinguem-se pela ausência de grandes (ou pequenas) subtilezas psicológicas. É a aventura que conta, o puro fascínio pela capacidade de sobrevivência, a descoberta da força que nos mantém vivos nas mais adversas circunstâncias. Uma história em linha muito recta, uma narrativa com princípio meio e um fim a prometer novas façanhas. Um clássico, como me parece que serão os clássicos desta natureza.

Já Bolaño é um verdadeiro artista sem estilo definido, capaz de tocar uma série de instrumentos em simultâneo, criando uma narrativa repleta de texturas diferentes, deixando o leitor cair nuns buracos atrás de outros, armadilhando cada palavra, provocando explosões ineperadas e magníficas a cada passo.

Enfim, leituras! O prazer de ler é quase tão grande como o prazer de correr e saltar ou gritar a plenos pulmões. O que lerei agora? Estou a olhar ali para as duas edições que tenho do Dom Quixote de que nunca concluí a leitura.

quinta-feira, março 24, 2011

Labirinto em linha recta


Terminei a leitura de mais um livro de Roberto Bolaño. Quanto mais o leio mais me convenço que, quando for grande, quero ser como ele. Enquanto sou pequenino, pequenininho, como sou agora, deleito-me apenas com a contemplação das suas páginas, da sua literatura mais fluente que um rio outrora límpido, agora repleto de seres em permanente mutação devido a uma contaminação inesperada. Um rio mais poluído que todo o mundo em que morremos. A merda toda enfiada no leito de um rio magnífico que não pára de correr em direcção a um mar qualquer, mesmo sabendo que, quando nele desaguar, vai ser o bom e o bonito. Um rio consciente, uma coisa que não existe e que, no entanto, está aqui mesmo, à vista de todos os que tiverem olhos para o ver.

A Literatura Nazi nas Américas é água desse tal rio. Água que corre eternamente debaixo das mesmas pontes e lhes vai corroendo os pilares de sustentação, água imprópria para qualquer tipo de consumo, mas, ainda assim, água, fonte de estranhas formas de vida. Já tenho na mesinha de cabeceira Os Dissabores do Verdadeiro Polícia. Vou continuar a beber desta água enquanto nela vou nadando.

sábado, fevereiro 26, 2011

Nota breve

Depois de ter lido 2666 devorei Estrela Distante e estou em trânsito n'O Terceiro Reich. A escrita de Roberto Bolaño é uma das coisas mais entusiasmantes que ultimamente apareceram na minha existência. Como não há palavras para descrever a obra de Bolaño fico por aqui e digo-te apenas, caríssimo visitante, experimenta.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Ler


Acabei de ler o romance "Estrela Distante" de Roberto Bolaño. Se "2666" me tinha impressionado favoravelmente, com este 2º livro do autor chileno decidi ler tudo o que encontrar assinado por ele. O gajo escrevia de uma forma assombrosa. Quando leio Bolaño é como se estivesse a ler as coisas que gostaria de ter sido eu  a escrever, forma e conteúdo, e é perante a grandeza da sua escrita que compreendo como me falta arte e, sobretudo, como me falta vida. Resumindo, percebo como me falta tudo!

Diz o ditado que "não há bela sem senão"; e o senão nesta história de contornos felizardos é a edição que me foi oferecida no dia de Natal. A coisa saiu com a chancela da Teorema e além de uma capa assim a dar para o muito ranhoso tem um conjunto de gralhas e descuidos vários, capazes de irritar o mais santo dos leitores, pormenores que sugerem que a edição foi feita à pressa ou então com falta de tempo.

Nada que impeça a leitura deslumbrante de mais esta história negra como a noite escura, contada com um brilho capaz de ofuscar a luz do sol. Decerto exagero nos elogios, mas não faz mal, Bolaño merece o exagero.

sexta-feira, novembro 26, 2010

Um problema

O cartaz do filme


Estou com um grave problema. Comecei a ler "Expiação" de Ian McEwan, um dos autores que mais tenho lido nos últimos tempos e que admiro profundamente ao ponto de pretender ler todos os seus livros já editados em português. Então que raio de problema posso ter com "Expiação"? O meu problema chama-se FILME que, ainda por cima, vi duas vezes; uma no cinema outra em casa.

Não me lembro de outra ocasião em que tenha visto primeiro um filme e depois tenha lido o livro que lhe deu origem. O contrário já aconteceu uma vez ou outra e, nessas ocasiões, pude sempre concluir da extraordinária distância entre dois objectos que se debruçam sobre o mesmo tema recorrendo a diferentes formas de expressão artística. Normalmente parece-me que a Literatura vence o Cinema com bastante à vontade. Desta vez tenho um problema.

Logo na 1ª página fui assaltado pelas persongaens do filme. McEwan descreve a personagem e eu já estou a vê-la antes do fim da descrição e, pior que tudo, estou a comparar as dificuldades que os responsáveis pelo casting do filme tiveram para escolher as pessoas que correspondessem à imagem literária de McEwan.
E esta reflexão alastra para as cenas em si, para os ambientes, para a interioridade das personagens... caraças, o filme está a infectar-me a leitura com uma doença grave e deformadora tanto da pele quanto das entranhas do meu prazer na leitura.

A doença do meu prazer é de tal modo grave que pondero seriamente passar em falso a leitura de "Expiação" e dedicar-me a outra obra de McEwan uma vez que ainda me faltam duas ou três. Não sei, ainda não me decidi. Mas uma coisa eu garanto: muito dificilmente repitirei esta proeza. Adoro cinema mas, percebo agora, a leitura é-me bastante mais querida.

sábado, novembro 13, 2010

Uma citação


Tenho uma admiração especial por Jorge Luís Borges. Quando leio alguma coisa de todas as coisas admiráveis e maravilhosas que ele deixou é como se estivesse a ouvir a voz da Sabedoria. Essa voz soa-me gentil e poderosa, uma expressão contínua da beleza que as coisas do mundo encerram.
Deixo um excerto de Este Ofício de Poeta, um conjunto de lições exemplares e comoventes.

"Todas as vezes que mergulhei em livros de estética tive a sensação desconfortável de estar a ler livros de astrónomos que nunca olharam para as estrelas. O que quero dizer é que escrevem sobre poesia como se a poesia fosse uma tarefa e não o que realmente é: uma paixão e uma alegria.
(...) A poesia não nos é alheia - a poesia espreita, como veremos, a cada esquina. Pode saltar-nos em cima a qualquer momento.
Agora estamos prontos para caír numa confusão vulgar. Pensamos, por exemplo, que, se estudamos Hoemro, ou a Divina Comédia, ou Frei Luís de Léon, ou Macbeth, estamos a estudar poesia. Mas os livros são apenas ocasiões para a poesia.
Acho que Emerson escreveu algures que uma biblioteca é uma espécie de caverna mágica cheia de mortos. E esses mortos podem renascer, podem voltar à vida quando abrimos as suas páginas.
Por falar no Bispo Berkeley (o qual, deixem-me recordar-vos, foi um profeta da grandeza da América), lembro-me de que ele escreveu que o sabor da maçã não está na própria maçã - a maçã não se saboreia a si própria - nem na boca de quem a come. Rquer o contacto entre as duas. O mesmo sucede a um livro ou a uma colecção de livros, a uma biblioteca. Na verdade, o que é um livro em si? Um livro é um objecto físico num mundo de objectos físicos. É um conjunto de símbolos mortos. E então chega o leitor certo e as palavras - ou melhor, a poesia por trás das palavras, pois as palavras em si são meros símbolos - saltam para a vida e temos uma ressurreição da palavra."

páginas 8 e 9 na edição da Teorema.

sábado, outubro 02, 2010

Ritual



Ando a ler 2666, de Roberto Bolaño. A expressão "ando a ler" é quase exacta. É um calhamaço de mais de mil páginas que reúne cinco livros num só. É pesado e volumoso o que não facilita o manuseamento da coisa. Impossível de ler de um fôlego, difícil de ler em qualquer lugar. Na cama torce-me os pulsos, sobre uma mesa exige que pelo menos uma das mãos mantenha as páginas em posição de leitura. Todos os dias leio algumas páginas.

É lendo 2666 que tenho começado os meus dias nos últimos tempos. Ao acordar ponho os óculos, recolho aquele bloco de folhas que mais parece um tijolo e faço um café. Sento-me onde calha e cumpro este ritual passageiro de ler as páginas deslumbrantes de Bolaño.

Quando me perguntam sobre o que é ou de que trata o livro constato, com algum embaraço, que não tenho resposta adequada. Na verdade não sei sobre o que é ou do que trata este livro imenso. Sei apenas que é literatura e descubro com um certo espanto que um livro pode ser "apenas" isso: literatura.

Um dia destes chegarei ao fim da longa viagem através de 2666.  Já tenho outro livro em lista de espera; Expiação do meu muito admirado Ian McEwan mas sei que regressarei a Bolaño. É absolutamente necessário regressar a Bolaño.

domingo, junho 27, 2010

Libertação


Diz-se que os fantasmas ficam a pairar sobre o planeta Terra enquanto têm contas a ajustar com a sua existência carnal. Quando essas contas terminam, por ajustadas, a essência fantasmagórica encontra a sua porta para a Eternidade, ou lá para onde vogam essas quase-coisas, e desaparecem de vez. Para bem deles e nosso bem também, não sei porquê.

Nos últimos dias têm sido publicados, um pouco por todo o lado, textos de opinião sobre o falecido José Saramago.

Dos que vão sendo dados à estampa aqui, na lusa pátria, muitos são de uma agressividade extrema que, estou certo, muito teriam agradado ao escritor, se vivo fosse, e, não posso afirmá-lo, certamente vão ajudando o seu fantasma a entreter-se enquanto por aqui anda pairando.

Saramago abriu feridas profundas na sociedade portuguesa. Algumas foram cosidas à sovela ou simplesmente gangrenaram, outras, muito poucas, sararam sem deixar cicratiz que o olhar veja. Seja da igreja católica ou da intelectualidade mais descaída à direita, os remoques chovem como sapos sobre o fantasma do nobelizado escritor. Penso que nunca haverá paz definitiva nesta questão tão portuguesinha. Porque Saramago foi um milagre social, um neto de analfabetos que se tornou escritor de mérito, e porque nunca acreditou em milagres por lhes encontrar sempre uma explicação em acções humanas. Isto desagrada aos tais intelectuais de direita, todos eles mais ou menos princípes neste mundo merdoso por direito de nascimento e classe social, e desagrada aos padres da igreja, mais interessados em manter os mistérios no respectivo lugar sombrio do que permitir que se revelem sob a luz do entendimento humano.

Saramago foi um homem algo desatinado. Reconheço que entre as palavras e os actos nem sempre mostrou a coerência que faria dele um santo dos ateus. Proponho que nos concentremos cada vez mais na obra que deixou, que desfrutemos do prazer da leitura das páginas que escreveu, e vamos olvidando docemente os actos humanos por ele praticados, tão dados às fraquezas da carne e do espírito.
Quando formos capazes de o ler, apenas, o que não será pouco, o seu fantasma poderá, enfim, encontrar a tal luz, ou porta, ou que coisa seja, que o leve para além deste lado. Libertemos o fantasma.