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quinta-feira, janeiro 07, 2016

Fraqueza genuína

Às vezes apetecia-me ser capaz de odiar com a profundidade necessária à sensação de ódio. Tenho a impressão de não ter desenvolvido essa competência.

Sempre que me imagino a odiar alguém lá vem aquele bonequito do anjinho poisar-me no ombro a sussurrar-me no ouvido coisas que me impedem de sentir um genuíno ódio, tão necessário à higiene mental de qualquer cidadão ocidental contemporâneo. O diabito recolhe-se, amuado, e não diz mais nada.

Estarei tão amolecido que nunca ultrapassei a fase "bebé", no que diz respeito à capacidade barbuda de desejar enfiar um garfo no globo ocular de qualquer óbvio filho da puta? É triste.

Ensaio olhares matadores sobre o meu reflexo no espelho da casa de banho. Cerro os punhos, ranjo os dentes mas... nada. Na verdade sinto-me a derreter a frio, sinto uma inexplicável incapacidade para rachar o espelho de alto a baixo num gesto de fúria incontida, justificada e, acima de tudo, um gesto de fúria genuína. Sou fraco.

Eu gostava de ser capaz de matar, quereria ser capaz de estropiar, cegar, esventrar e cagar em cima dos cadáveres ainda fumegantes dos meus inimigos. Mas não, nada disto é real, nada disto obedece ao mínimo sentido lógico.

Sou um fraco.

Se não tenho cuidado ainda acabo a oferecer uma outra face a um gajo que me tenha espetado uma faca no fígado.

domingo, junho 21, 2015

As vozes

Sinto-me azedo. Devo estar estragado. As vozes dentro da minha cabeça querem comer-me os olhos. As vozes dentro da minha cabeça querem fazer-me cego. Mas eu quero continuar a ver e faço de contas que não as ouço.

As vozes dentro da minha cabeça não podem ter a certeza de que se fazem ouvir. Vou conseguindo manter o poder da visão. As vozes na minha cabeça estão agitadas. Falam umas por cima das outras. Já não sussurram. Agora todas falam alto, algumas gritam. Mas eu aguento a confusão e continuo a olhar para o mundo.

As vozes dentro da minha cabeça querem comer-me os olhos mas, estou em crer, as vozes não têm dentes. Na verdade querem assustar-me, fazer-me acreditar que não vejo. Mas ainda agora vi um bebé a sorrir e reparei que as nuvens eram tão brancas que o céu ganhou uma maravilhosa tonalidade de azul . 

terça-feira, maio 19, 2015

O Diabo é virtual

Nos últimos dias tenho-me abstido de visitar o Facebook. Não o faço por nenhuma razão em especial. Sinceramente, não sei porque me tenho mantido afastado da coisa. Penso que estou um pouco farto daquilo, mas não tenho a certeza que seja essa a verdadeira razão da minha ausência virtual.

Os "gosto" deixados ao acaso, como cócó de pássaro a cair do alto, os comentários com "stickers", os "smileys" por tudo e por nada, os amigos (penso que conheço todos os meus amigos do Facebook ou, pelo menos, sei quem são) a fazerem exactamente o mesmo que eu, como se fôssemos todos parte do mesmo corpo, tentáculos de um imenso polvo.

Estou a olhar o teclado e a pensar "também não há razão para seres tão radical... vai lá espreitar". Isto sou eu a tentar-me a mim próprio: Cristo e Demónio em simultâneo, a olhar o abismo sabendo que, vença quem vencer, mais tarde ou mais cedo vou acabar por ceder e atiro-me do penhasco abaixo, indo bater com os ossos no Facebook.

O Facebook é ciumento e não deixa grande margem para outras relações. Ou te dedicas a ele ou não te dedicas, não parece haver meio termo. Ou estás o tempo todo com a testa enfiada no écrã ou sentes tremuras e privação; os dedos saltam nas tuas mãos à procura das teclas, dos "stickers", dos "smileys", dos "gosto"... oh, os "gosto"... os teus dedos procuram o conforto das teclas.

Rai's parta esta coisa! O Diabo é virtual! (Entretanto já lá fui outra vez...)

terça-feira, maio 05, 2015

Frágil oportunidade (como a vida)

Esta nossa vida virtual deixa um rasto longo e mais pegajoso que o de uma lesma gigante. Nós morremos e continuamos a receber felicitações automáticas pelo nosso aniversário, ofertas de negócios irrecusáveis, oportunidades únicas para umas férias inesquecíveis no próximo verão. Mensagens brutalmente pujantes, a transbordar de felicidade e com promessas de um futuro muito, mas mesmo muito, melhor!

Melhor do que a morte? Promessa um tanto arriscada uma vez que a vida é coisa vagamente conhecida, já a morte...

Enfim, quando morrer gostaria de ser apagado da NET. Gostaria de ficar apenas na memória daqueles que realmente me conheceram, daqueles com quem me cruzei e dexei algum tipo de impressão ao longo da minha vida verdadeira.

Que me desculpem os amigos que conheço apenas por esta via mas: blogues fora, página no Facebook apagada, e-mail eliminado, etc. até ao mais completo olvido virtual. Haverá alguma empresa que se dedique a receber estas últimas vontades e se comprometa a levá-las a cabo?

Parece-me uma frágil oportunidade de negócio para jovens informáticos com espírito empreendedor. Frágil como a vida.

sexta-feira, abril 10, 2015

Idades

Não sei se acontece contigo, afectuoso leitor, talvez também te aconteça sentires-te estranho uma vez por outra. Talvez te aconteça sentir que és olhado com um misto de desdém e piedade por alguém que tu olhas com desdém e piedade. Seja como for, há ocasiões em que percebes que a imagem que estás a exportar não produz o efeito que desejarias ou, pelo menos, o efeito que esperavas produzir.

Da parte que me toca apercebo-me que à medida que aumenta em mim essa incómoda sensação desenvolvo também a capacidade de ignorar os sinais que os outros me enviam: "És maluco?"; "És estranho."; "És esquisito.", sinto-me como me sentia quando era um adolescente incompreendido pelo mundo. Oh, como é cruel o mundo!

Ah, paciente leitor, amigo leitor, agora já não fico desesperado com a crueldade alheia, com a crueldade do mundo, agora fico pior. Muito pior. Agora fico condescendente.

A insegurança da adolescência provocava em mim indignação; a segurança que me dá a idade adulta provoca em mim soberba condescendente. Sinceramente, leitor, não sei qual prefira.

Ser frágil ou ser forte? O que nos poderá valer, leitor adorado, é estarmos seguros de que há sempre outras opções embora nos queiram convencer que as coisas são a preto e branco. Ambos sabemos que isso é treta e que as opções não se limitam à sanidade ou à loucura.

quarta-feira, abril 08, 2015

Raiva

Raiva! Hoje tem sido um dia daqueles... penso que tenham sido as nuvens que me puseram assim. Tão cinzentas, escuras e pesadas, têm estado as nuvens todo o dia. A darem a impressão que o céu é um tecto e a cidade uma barraquita miserável que mal nos consegue proteger do mundo.

Raiva! Não sendo o céu a provocar em mim este sentimento tão pouco católico talvez tenham sido as pessoas. Hoje vi tanta gente que me pareceu excessiva, boçal, bruta e indiferente à boçalidade e à brutalidade. Posso ter sido eu (excessivo, bruto e boçal na minha observação) mas será impossível ter a certeza.

Seja como for: raiva! É um aperto no coração que mo leva para junto das tripas, um formigueiro na ponta dos dedos, uma leve náusea que me agita como uma brisa agita os juncos na beira do rio.

Suspiro. Raiva!

sexta-feira, março 27, 2015

Pudor

Há dias lixados: um gajo acorda com o estômago encolhido por uma espécie de náusea, uma coisa assim a dar para o esquisito. Uma náusea que até lhe é familiar mas, nessa precisa manhã, parece que não é aquela, parece que é outra náusea, outra angústia. Parece que sendo nossa, esta coisa é de uma outra pessoa.

De início não se percebe muito bem que porra é aquela. Uma angústia indefinida, um apertar do coração. Ainda que o sol brilhe num céu tão azul que parece tirado do genérico dos Simpsons, o apertão incomoda não se percebe bem nem onde nem porquê. Não faz sentido.

Depois começa-se a suspeitar que possa ser das botas. Muito calor para ter calçado aquelas merdas, uma em cada pata. Mas não, as botas que se lixem, já sei...! Dormi foi pouco. Mas até que nem é verdade. Ontem até te deitaste cedo e dormiste descansado (pelo menos é o que recordas do teu sono).

Então que raio de filha da putice é que te está a enrolar os miolos nos tomates, a deixar-te azedo e controverso?

Até te parece que estás a começar a perceber... já sabes! Mas tens pudor em falar nisso.

quarta-feira, fevereiro 11, 2015

Vai à vida monstro!

A sensação que fica é a de que o monstro cresceu tanto que já não há tratador que dê conta dele nem chicote que o atormente. O monstro cresceu tanto que não há alimento suficiente para o satisfazer, precisa de mais. Muito mais!

Das duas uma: ou o monstro vai cair para o lado, a espernear e a morrer de fome ou vai sair da toca, esfomeado e esbaforido, saindo a correr com violência para ir procurar alimento noutras paragens.

Aqui já não há nada para ele comer.
Somos pouca carne e muito osso.

domingo, dezembro 14, 2014

É agora!

A coisa parece impossível de resolver. Aparentemente não haverá nada que se possa fazer para contrariar tão nefasta maré, estamos condenados.

O céu esconde-se, envergonhado, atrás de uma espessa cortina de nuvens mais cinzentas que a cinza, nuvens gordas, promessas de tempestade. Os pássaros voam rápido e baixo, piando de um modo que arrepia os mais corajosos e experimentados nos mistérios do oculto. Uma brisa gelada lembra-nos que temos uma ponta no nariz.

De súbito tudo pára. O vento pára, os pássaros param, as nuvens não mudam de forma nem se mexem no céu, petrificadas, o mar ficou sem ondulação, como se fosse um espelho gelado reflectindo o cinzento do céu, tornando o mundo todo cinzento. Cinzento. Um silêncio opressor abafa tudo. É agora!

quinta-feira, novembro 27, 2014

Dúvida existencial

Hoje vi uma mulher que levava um puto pequeno sentado num carrinho de compras e falava muito alto com outra mulher que a acompanhava. Não dei atenção ao que dizia, falava de qualquer coisa banal, não me lembro. Registei apenas o tom de voz e a aparência desorbitada da senhora, um certo ar de louca com um sorriso estampado no rosto.

O puto conduzia as operações. Quando a senhora ia virando o carrinho para a direita, travou subitamente e voltou com brusquidão à esquerda, alardeando o facto de ter sido o pequenote a orientá-la. A senhora não ria, não mostrava qualquer expressão particular que pudesse desvelar-lhe o estado de espírito. Mantinha, apenas, aquele sorriso estampado no rosto como se fosse resultado de alguma cirurgia plástica e ela vá sorrir assim para todo o sempre. E falava alto (talvez exagerasse se dissesse que a senhora berrava).

Mais tarde, quando seguia ao volante do meu carro, dei por mim a olhar um sinal vermelho e a pensar que aquela senhora tinha fortes probabilidades de ser aquilo a que chamamos maluca. Se assim fosse (a senhora maluca) e o puto filho dela...será a maluquice hereditária? Quero dizer, uma criança nasce maluca ou fica maluca pela convivência e contacto directo com malucos encartados?

Seja como for, o que me confortou nesta situação e me levou a registá-la aqui, foi ter pensado como é estranhamente bela a loucura e como lhe reconhecemos o direito à vida. O que seria deste mundo sem os biliões de malucos que nele habitam?

terça-feira, novembro 11, 2014

Noite e dia

O dia não acaba com a chegada da noite. Se tem 24 horas, dizer noite e dizer dia é coisa que faz pouco sentido. O relógio não se compadece com a luz. O relógio marca o tempo de forma implacável e o dia tem 24 horas. Nem mais nem menos um segundinho que seja.

Talvez estejamos precisados de uma outra palavra para significar esse espaço de 24 horas que o relógio marca e onde encaixamos as nossas existências independentemente da luz e da sombra, do calor, do frio, seja lá do que for! Tentamos organizar as nossas existências em função das 24 horas do relógio, é assim que acreditamos ser feitos e acreditamos fazer a vida.

O dia de 24 horas é uma coisa artificial; invenção humana. O dia tem a ver com a luz do sol e a chegada da lua. No dia de 24 horas não há lugar para o crepúsculo! Tenho saudades do tempo em que o dia era uma coisa viva.

quarta-feira, outubro 29, 2014

Dúvida existencial

Ir acordando todos os dias num lugar pacífico onde as regras vão sendo cumpridas com maior ou menor esforço desde que o sol brilhe lá no lugar dele.

Tomar banho de água quente, beber café com açúcar, ter a sorte de sair à rua de cabeça erguida sem precisar de procurar atiradores furtivos ou outras coisas explosivas que caiam do céu... será isto o Paraíso?

A mulher atarracada que sorri e dá os bons dias, o homenzinho gorducho que conta histórias insalubres por detrás do balcão e serve cafés, a rapariga elegante que passa como se os pés não tocassem o chão... serão anjos?

Estarei vivo ou serei apenas um fantasma? Fantasma no Paraíso.


segunda-feira, setembro 15, 2014

Romantismo

Para compreender melhor esta imagem procurar aqui 

Os artistas românticos tinham aquele jeito especial de ligar o estado de espírito dos seus heróis e personagens às condições climatéricas e meteorológicas que os envolviam. Personagem e cenário eram um só, o mundo sob o olhar de forças superiores, o homem joguete das forças cósmicas, ok, ok, a gente sabe.

Hoje é o 1º dia de trabalho mais a sério na escola. Embora ainda não haja aulas está a fazer-se a recepção aos alunos. Lá fora chove como já não me lembrava que pudesse chover. Chove a cântaros, chovem cães e gatos, o céu desaba sobre o espaço de recreio que, ao contrário do que seria de esperar num 1º dia de aulas, está completamente vazio. Ninguém no seu perfeito juízo iria meter a cabecinha de fora com um dilúvio desta magnitude.

Ora, se o mundo responde aos estados de espírito dos heróis (ou o contrário, também serve), então hoje há no universo humano uma tristeza de tal modo insuportável que obriga este mundo a chorar baba e ranho sobre si próprio. Deve haver tantos alunos e professores com o coração  destroçado por voltarem ao espaço escolar que o céu chora como uma Madalena arrependida.

Só pode ser isso! Esta é uma explicação perfeitamente plausível para esta chuvada inesperada.

domingo, agosto 17, 2014

Paradoxo

Já não tenho paciência para a bondade "standard" esse cancro idiota que grassa nas redes sociais. Irritam-me as frases bonitas que, dizendo tudo, soam vazias quando escritas nas "paredes" do Facebook e acabam por não significar nada.

Serei mau carácter, bicho-do-mato, uma merda qualquer; mas tanta bondade empacotada provoca-me vertigens terríveis. O Mundo, desde que é Mundo, está a desfazer-se em caca. Eu preferia acreditar nessa tais frases mas a verdade é que não sou capaz.

Esforço-me por ser bonzinho, sorrio, mostro os dentes amarelados pela nicotina e pela cafeína, sinto o coração fraquejar a cada batida mas a náusea instala-se quando me dizem coisas que soam vazias, plastificadas.

Mas, mas, mas... raio de coisa, esta dúvida, esta ânsia, esta falta de confiança na Humanidade. É que, no fundo da minha alma, estou apaixonado pela Humanidade. Amo-a mais do que a odeio e, no entanto, tenho-lhe um ódio de morte.

quarta-feira, junho 25, 2014

Manifesto escondido?

O caso tem todos os contornos de uma coisa infinitamente estúpida. Quem terá decidido que a obra "Portugal Enforcado", um trabalho escolar da autoria de um tal Élsio Menau, era merecedora de censura por parte do estado? Fazendo uma pesquisa breve na Net compreendemos tratar-se de um trabalho inofensivo e pueril.

O que me surpreende mais até é a nota de 18 valores com que o objecto acabou por ser avaliado. Eu sei que nessa avaliação está também considerada a dimensão conceptual da proposta plástica mas, tendo em conta a redundância da coisa, é precisamente por isso que me parece uma avaliação exagerada. Decerto os avaliadores estão lixados com a forma como o governo tem apertado o nó na garganta de cada um de nós, aqui representados por uma bandeira de algum modo colocada numa forca.

Decerto que não foi a discordância com a nota atribuída que levou um cidadão deste país a acusar de desrespeito ao símbolo nacional o "Portugal Enforcado" e, por arrasto, o seu autor. A motivação pidesca e rasteira de tal denúncia diz tudo o que haja a dizer sobre o seu autor.

Há, no entanto, uma possibilidade que ainda não foi considerada: e se o denunciante for um artista plástico (assumido ou que ainda não tenha compreendido a sua vocação artística) e a denúncia for a sua obra? E se este caricato caso de justiça não for mais do que um manifesto artístico escondido que reflecte sobre a vacuidade da justiça em Portugal? Se o artista pretender insinuar que os tribunais são uma das traves que sustentam a forca em que Portugal vai dependurado?

A Arte Conceptual leva-nos para territórios verdadeiramente selvagens.

sexta-feira, abril 18, 2014

Regresso e fuga

Tanto tempo sem escrever uma linha que fosse aqui, no 100 Cabeças! É a modorra da zumbisfera a inquinar-me a escrita.

Por alguma razão que me escapa dou por mim a teclar de novo nesta coisa. Poderia falar sobre os livros que li, os filmes que vi, as músicas que me impressionaram entretanto. Poderia tentar escrever algo vagamente inteligente acerca das viagens que fiz, das coisas que me encheram o olhar. Mas não.

Escrevo apenas por escrever, escrevo apenas para não deixar morrer esta centésima cabeça que me enfeita os ombros. Só isso, apenas isso. Coisa pouca e nada mais.

Escrevo e parece-me ouvir o eco do ruído das teclas a serem pressionadas pelos meus dedos roídos nas pontas, como se estivesse enfiado num corredor escuro e comprido, um corredor sem tempo nem memória, vazio e pouco limpo.

Paro a função. Não procuro imagem nem faço questão de terminar com elegância.

sexta-feira, maio 17, 2013

A Senhora

Cavaco e a sua Maria

Corria o ano de 2002 d.C. Nesses tempos longínquos em que alguns animais ainda falavam, era Paulo Portas ministro de Estado e da Defesa. Um petroleiro de nome "Prestige", sofreu um grave acidente provocando uma temível maré negra ao largo da costa portuguesa lá mais para as bandas do Norte. Durante alguns dias andámos com o credo na boca, se o crude desse à costa em território português... mas o petróleo derramado acabou por ir infernizar a vida aos nossos pobres irmãos galegos. As imagens que então nos chegaram eram dramáticas.

Paulo Portas acabou por confessar que acreditava que a salvação da costa portuguesa se devera a uma milagrosa intervenção de Nossa Senhora (recordar aqui). Esta perspectiva do nosso crónico governante mostrava a quem quisesse ver que Nossa Senhora, quando é preciso, tem tomates para lixar os galegos em benefício deste povo dócil que nós somos. É uma mulher de barba rija!

Veio-me esta fábula à memória quando vi na TV (confesso que com cara de parvo) o actual presidente de república em Portugal, o inefável Cavaco Silva, atribuir à mesmíssima Virgem o resultado favorável da 7ª avaliação da Troika às intenções dos nossos governantes actuais (ver e ouvir aqui).

Percebo agora que em situações de crise, com os governantes que o nosso povo elege, a solução que nos resta é encomendar a alma ao Criador ou a quem O represente, nem que seja por procuração. Valha-nos Nosso Senhor.

sexta-feira, maio 10, 2013

Conversas

Hoje não me apetecem as conversas fáceis. Já me farto de ouvir falar no governo, na economia, no desemprego, no capitalismo, dos meus ouvidos escorre crise, crise, criiiiiiiseee.

Intervalo.

Peço um intervalo: tréguas para recolher os mortos e tratar as fendas aos feridos. Chega de conversas fáceis, amanhã até pode haver mais, mas hoje não. Não me apetece.

São conversas fáceis aquelas em que dizendo o contrário se diz sempre o mesmo e a mesma coisa. Aquelas em que, quando determinado figurão vai abrir a boca sobre este assunto, já sabemos que vai falar asssssssim e, caso se refira àquele outro tema, dirá, simplesmente: assado!

Hoje apetecem-me conversas tolas. Conversas que podem não fazer sentido mas que tenham sumo e substância e nem precisam de ser daquelas conversas de fazer sorrir. Podem ser das outras.

Hoje sinto-me um Hércules do argumento, um Eusébio da palavra, capaz de fintar, surpreender e arrancar em força, como uma seta, directo ao coração do adversário. A minha vitória será nossa o que fará dela a mesma coisa que a derrota.

Hoje não me apetecem conversas fáceis, vamos a ver se não ficarei silencioso todo o santo dia. Mas há sempre a noite. Enquanto houver noite há esperança!

sexta-feira, fevereiro 22, 2013

Vazio

Era um miúdo impaciente por poder baptizar um desenho ou uma pintura qualquer que ainda não tinha feito com o título  de "sem título". Isso parecia-lhe excelente, sinal de uma  maturidade irreverente, algo digno do seu inocente desprezo pelas coisas do mundo.

Nunca compreendi porque é que uma obra sem título necessita de uma etiqueta a comprovar que o título não existe. Se não tem título não seria muito mais significativo ignorar o assunto? A ausência de etiqueta seria, a meu ver, suficientemente eloquente.

É que "sem título" é um título. Ainda por cima banal, talvez o mais repetido de todos os títulos.

terça-feira, janeiro 22, 2013

Diversidade biológica

Nunca haveria de ser capaz de reconhecer a sua incapacidade para ser feliz. Há pessoas assim, como aquele gajo, pessoas que são incapazes de sentir a felicidade. Depois há outras que, não sendo assim, são assado.

Muitas dessas pessoas (tal como um número considerável das outras) não seriam capazes de se enxergar nem que vivessem com um espelho pendurado na testa, a balançar-lhes à frente do nariz. Nem que vivessem dois mil anos com o espelho à frente do nariz.

Foi então que ele compreendeu que algumas pessoas são tristes assim e outras são felizes assado. Ou vice-versa.