quinta-feira, março 30, 2006

Idade adulta

Há questões que surpreendem pela forma estranha como irrompem no nosso quotidiano pardacento. Estamos a dormir, catrapunfas! Somos confrontados com os limites que alguns eternos mafarricos pretendem descortinar na liberdade de expressão e de opinião que tantas queimadelas de cigarro custaram a certos cidadãos camaradas, somadas a longas noites sem sono nem dia seguinte.

Andamos para aqui convencidos que certos fantasmas passaram ao baú do esquecimento e, quando menos se espera, lá regressa o ensudecedor ruído agudo das grilhetas que arrastam penosamente, eternidade acima, eternidade abaixo.

Como se a liberdade de expressão pudesse ter limites! Que ideia abstrusa. A liberdade, para o ser, é infinita, mais infinita que o próprio Universo já que a existência deste depende daquela.

Aproxima-se a celebracão do 32º aniversário do 25 de Abril. A nossa democracia já não pode continuar a ser classificada como uma "jovem democracia" caraças! Quando atingirá a idade adulta? Já lá vai o tempo de espremer borbulhas ao espelho. E, no entanto, a nossa democracia continua com a tromba repleta de pústulas sebosas, vivendo ainda a expensas dos pais, incapaz de saír da casa deles e de tratar das borbulhas a preceito.

Temos de ser capazes de a entusiasmar a assumir-se. Chegou o tempo da idade adulta antes que, sem darmos por isso, saltemos directamente da adolescência para a velhice democrática. Uma Democracia com artrite e esclerose múltipla é a coisa menos conveniente que posso imaginar.

terça-feira, março 28, 2006

Lem

Li hoje a notícia da morte de Stanislaw Lem, o escritor polaco, aos 84 anos de idade.
É daquelas coisas que causam um ligeiro arrepio, uma certa tristeza. Apesar de estar longe de ser um perito na obra deste semi-louco, tenho como livros de referência Solaris e As Viagens de Ijon Tichy, ambos da sua autoria. Curiosamente tenho dois exemplares da edição portuguesa de Solaris dos Livros de Bolso Europa-América (cheguei a ter 3) e outros dois das Viagens..., edição da Caminho.
Isto porque sonhei (não sei se ainda sonho) adaptar partes ou a totalidade destas obras. Solaris daria uma peça de teatro grandiosa, fosse eu capaz de fazê-lo, e nas Viagens... há contos supreendentes que tanto poderiam ser adaptados aos palcos como a Banda Desenhada, o que quer que fosse!
Na notícia do Público (bem modesta, para ser franco) fala-se do pouco entusiasmo de Lem pelas duas adaptações cinematográficas de Solaris. A primeira do divino Tarkovsky, a segunda, bem mais recente, de Soderbergh com George Clooney no papel de Kris Kelvin, o torturado protagonista deste conto exemplar. Baseando-se apenas nas críticas, já que afirma não ter visto nenhum dos dois, Lem sugere que os cineastas estiveram longe de "ler" correctamente a profundidade de Solaris. Penso que tem razão e, caramba, mostra-me como seria atrevimento perigoso e pretensiosismo da minha parte avançar no interior dos meus sonhos ao ponto de tentar trazê-los à realidade envolvente. Cheguei mesmo a falar com Dinarte Branco neste projecto (o "meu" Kris Kelvin de eleição), mas a preguiça aliada a ataques esporádicos de hulmildade impediram-me de ir muito longe nos esforços produzidos.
Solaris é, a todos os títulos, recomendável. Talvez a tradução que possuo (traduzido da versão inglesa por Inês Busse, edição original de 1961, edição inglesa, Faber and Faber Ltd. de 1970 e portuguesa, da Europa América, de 1983) não seja a mais empolgante forma de abordar a obra incomparável de Lem.
O capítulo II, Os Solaristas, tem algumas das páginas mais absorventes que me recordo de ter lido em qualquer dos muitos livros de ficção científica (e não só) que devorei no final da minha adolescência. A ideia central de Solaris é simplesmente genial. Uma obra a ler, um autor a descobrir para quem não tem a felicidade de o conhecer ainda.
Que visitante me enviaria Solaris?

segunda-feira, março 27, 2006

Tulipas

Cá estão elas, as tulipas que trouxe da terra que as produz e exporta com toda a convicção. Comprei um sacalhão de bolbos num mercado flutuante em Amesterdão e pus alguns na terra, aqui mesmo, na varanda. Entretanto já as pétalas começaram a esmorecer, algumas já caíram. À falta de andorinhas foram elas quem me lembrou a Primavera.

Pronto, já fizeram o seu papel e preparam-se para irem fazer companhia ao gato preto. As amarelas já são uma recordação. As brancas florescem como Deus manda.
A natureza é uma coisa maravilhosa!

No meio de tudo isto há um pequeno mistério, para mim que sou um leigo em matéria de tulipas. Nos mercados de Amesterdão as mais caras são as tulipas americanas! Pois, serão as melhores ou uma cena assim, para haver diferença de preços. Ou sofrerão os holandeses da mesma maleita que nós (e, se calhar, todos os outros)? Será que aquilo que vem do outro lado do Atlântico tem outra qualidade? Em matéria de hamburgueres e frango frito não haverá grandes dúvidas. Agora no que diz respeito a tulipas... por esta não esperava! Ah, ganda Bush!!! As tuas tulipas dão-nos a volta à cabeça.

sábado, março 25, 2006

Chavalada

São como um bando de pardais à solta, como putos. O CDS, vulgo PP, é um partido de brincalhões, uma coisa de trazer por casa e levar de taxi. Agora deu-lhes para armar ao sério e o resultado tem sido do melhor (ou do pior, tanto faz).
Desde Pires de Lima (o 2º a contar da direita) vir afirmar que precisam de ser um partido mais sexy (!!!) ao Paulinho (o mais à direita) andar a rever a história num programa intitulado O Estado da Arte, na SIC Notícias, os rapazolas têm puxado da imaginação por forma a não desaparecerem do mapa mediático que, do político, começam a ser apagados.
O Paulinho anda mesmo a fazer o caminho que, imagina, irá conduzi-lo um dia à presidência da república portuguesa. Quando as galinhas tiverem dentes. Mas a fé de Paulinho na Virgem prevê a forte hipótese de um milagre...
Certamente que vai esperar pelo fim de Cavaco (não há presidente que não presida dois mandatos consecutivos) para depois arriscar meter o pé em ramo verde.
Já o partido que deixou para trás se comporta como uma família sem figura masculina que possa servir de referência (que me perdoem as mulheres deste país, especialmente a Zezinha do CDS) e anda tudo a desatinar sem querer assumir responsabilidades que possam ser maiores que a ambição de cada um.
São tão lindos.
O Telmito, o 2º a contar da esquerda, tem medo de continuar a ser ele próprio, pelo que dificilmente vai assumir ser algo mais do que o pouco que tem sido. O Lobo, o que está no meio, tem mais queda para pairar no ar, sem nunca tocar o chão, como os anjos da Guarda, não tanto como os anjos de Viseu.
Verdade, verdadinha, o partido destes chavalos está assim a modos que apagado do mundo real. No dia em que disputar umas legislativas sem a muleta do PSD vai ser o bom e o bonito. Ainda vão admitir o Manel Montério de regresso, para tirar umas bicas na sede do largo do Caldas.
Isto porque o lugar de mulher-a-dias já está ocupado. É de uma emigrante ilegal.

Palhaço Mau

Havia as categorias de palhaço rico e pobre e mais outras que desconheço por não ser um entendido nas artes circenses nem um pouco mais ou menos.

Apesar dessa falta de conhecimento não me custa nada identificar uma nova categoria de palhaço porque, infelizmente, não é personagem de ficção para arena e tenda, mas sim um ogre bem real e fedorento como um monte de bosta fresca pela manhã. É o palhaço mau.

O principal palhaço mau será o Joker, figadal adversário do Batman. Tem a vantagem de ser boneco desenhado e ter sido interpretado no cinema por Jack Nicholson em filme do inexcedível Tim Burton.

Temos entre nós a personificação de tudo o que um vilão de Banda Desenhada tem de caricatural. Mau, feio, estúpido, agressivo, megalómano e, acima de tudo, louco, completamente louco como nem o chapeleiro jamais conseguiu ser na imaginação fértil de Carrol.

Mesmo sem a foto aqui em cima, já o simpático leitor tinha percebido que me refiro ao demente presidente da região autónoma da Madeira. De imbecilidade em imbecilidade, resolveu agora dar tolerância de ponto no dia 24 de Abril, lá na ilha dele. Se não é provocação não sei que seja, admito que simples estupidez, vindo de quem vem. Mas até quando seremos obrigados a aguentar os despautérios desta espécie de foca bisonha?

Não houve, até hoje, presidente com tomates (senti-me tentado a escrever "colhões" dada a situação em análise, mas achei que seria demasiado forte e de mau gosto) que pusesse na ordem e respectivo lugar este velho armado em rapazola. O Sr. Silva, que até fez as pazes com o ogre (desculpa lá, Shreck!), já começou a levar com as escarretas dele em cima. Primeiro com a historieta da nomeação do Ministro da República, agora com estas patranhas em redor do 25 de Abril.

Assim como assim, Cavaco até cantou a Grândola a plenos pulmões durante a campanha eleitoral que desaguou no seu "entronamento" pomposo e cor-de-rosa (velho). Como pode suportar que o palhaço mau da Madeira venha com atoardas deste calibre?

Vai, Cavaco, mostra-nos de que pau és feito e põe-me esse palhaço no circo!

quarta-feira, março 22, 2006

Sonho de uma noite de Primavera

escultura em gesso de Anthony Gormley

Os homens do lixo lá levaram o cadáver do gato.
Os vizinhos, do outro lado da rua, voltaram a representar cenas desesperadas em plena calçada. Gritos, choro, cabeçadas violentas no tronco de uma árvore, mais gritos. Os estores subindo discretamente, cabeças despenteadas, mulheres de robe debruçadas, o espaço público transformado em palco, os prédios de apartamentos em suspeito anfiteatro.
Mas a performance daqueles artistas improvisados não foi convincente. Do meu lugar não tinha visão total sobre o espaço de cena, o som era deficiente, desisti. Fomos desistindo. O público retirou-se para o interior das respectivas cavernas particulares, com as janelinhas dos écrans a abrirem outras narrativas ao cérebro de cada um.
Comodamente sós.

Tentei regressar a Jerusalém pela mão de Gonçalo M. Tavares mas não me apeteceu continuar a ler. Depois daquele pedaço de drama na calçada aquela literatura pareceu-me pouco.
Liguei o computador. Passeei um pouco, mas nada. Chatice.
A minha filha foi para a cama (terá sonhado com vizinhos cabeçudos a tentarem derrubar a floresta da Amazónia à marrada?)... tudo normal.
Lembrei-me das tulipas que plantámos num vaso da varanda! Fui vê-las e... caramba!!! O milagre dera-se entretanto. Sumptuosas, orgulhosas da sua beleza natural, lá estavam as flores, empertigadas até ao céu que só elas são capazes de alcançar.
Porra, como fora capaz de esquecê-las? A Primavera não chegara com a morte do gato à porta de minha casa, já ali estava, na varanda, só que eu, distraído pela morbidez quotidiana, nem reparara!!!
Quando chegar a casa vou fotografá-las para as mostrar ao mundo.

Terão os meus vizinhos tulipas amarelas na varanda?
Sonham os andróides com carneiros eléctricos?
Será que o gajo das cabeçadas chegou a partir a cabeça?

terça-feira, março 21, 2006

O Belo

A Virgem do Chanceler Rolin, óleo sobre madeira, 62x66cm pintado em 1435 por Jan van Eyck, mestre entre todos os mestres da pintura

Foi há uns anos atrás, não sei bem quando, talvez por esta altura do ano ou mais junto do Verão, a memória atraiçoa-me. Viajei até Paris. O Louvre foi um dos poisos obrigatórios da minha visita, claro.
Sempre sentira uma atracção especial pelas fotos de pinturas de Van Eyck. Desde o (suposto) auto-retrato com turbante vermelho, até ao espanto maravilhoso do casal Arnolfini, os meus olhos nunca se haviam cansado de tentar perceber. Daí que, enquanto secava na fila para entrar no grotesco museu parisiense, a minha mente tentava centrar-se num objectivo principal: procurar Van Eyck.
Assim fiz. Uma vez dentro do espaço do museu peguei numa planta, procurei a localização da "Virgem do Chanceler Rolin" e lá fui em passo apressado. Ignorando tudo à minha volta subi uma escada perdida até ao piso desejado.
Quando entrei na salinha onde repousa a obra de Van Eyck havia dois japoneses (ou seriam coreanos?) bastante baixos com o nariz quase colado ao vidro que protege o óleo nas tábuas. Ajeitei o olhar o melhor que pude entre o cabelo de um e o chapéuzito do outro e senti uma comoção profunda. Senti as lágrimas a dançarem-me nos olhos, carago!!!

É diferente. Não é como ver um filho pela primeira vez. Nem de longe, muito menos de perto. É outra coisa. É uma comoção tão forte que não vem de dentro de nós, vem de mais fundo, um corpo não pode conter uma sensação assim. Uma coisa daquelas leva um homem a suspeitar que possui uma alma.

Os japoneses lá descolaram mais as respectivas recém-descobertas alminhas de japonês. Eu fiquei ali, não me lembro como nem por quanto tempo (pode ter sido muito pouco ou muito muito, não sei nem isso tem o mínimo interesse). Senti-me mais humano. Quando consegui descolar também, sentia-me outra pessoa. Não aquela pessoa que sou hoje, agora. Sentia-me outra pessoa, diferente da que fora até ali mas cujas características, passados vários anos, foram transmutadas naquelas que possuo hoje, que possuo agorinha mesmo.

O mundo dá as voltas que dá e nós com ele. Depois de Paris visitei Londres e a National Gallery, fui apresentar os meus melhores cumprimentos ao "Casal Arnolfini" e admirar as voltas do turbante carmim, mas aquela sensação do Louvre já não era possível. Aquilo, sei-o hoje, só pode sentir-se uma vez.
"Aquilo" fora a Revelação de um certo género de Belo.
Fica a saudade. Dos japonesinhos e das lagrimitas bailarinas a chegarem-se-me ao abismo dos olhos.

segunda-feira, março 20, 2006

Primavera


Printemps,
Frühling,
Primavera,
Spring...
... diz o calendário que chegou hoje.
Não vi ainda as andorinhas. À porta da nossa casa encontrámos o gato da fotografia. Hirto e seco como um pedaço de cortiça. Sombria promessa do calor que está para vir, preto, ainda por cima. A coisa mais preta que o 1º dia da Primavera ns trouxe não foi uma puta de uma andorinha, não senhora! Foi aquele corpo de gato que o gato já lá não parece estar.
Não sei se, por estar morto, será jura de menor azar. Sei que incomoda olhá-lo. Está com um esgar retorcido a desgraçar-lhe a boca, como se suportasse uma dor profunda. Uma dor sem tempo nem nome nem nada mais que a morte, os olhos cerrados, a darem ênfase ao cadáver. Não o tirámos dali.
Talvez mais logo, quando passarem os gajos da recolha do lixo... será que o levam?
Como será a decomposição do bicho, ali, em plena calçada? Onde andam os insectos que se encarregam deste tipo de trabalhos? As formiguinhas diligentes ou outros que tais, onde andam?
Haverá algum puto marado que brinque com a morte daquele cadáver? Ainda lá estará, a morte? Talvez a gozar o fim da sétima vida do bicho. Terá sentido de humor, a morte?
Para primeiro dia de Primavera não está mal. Depois disto não vejo grandes possibilidades de encontrar coisa pior nos dias mais próximos.
Celebrar a Estação da Vida com uma ofertazinha macabra da Dona Morte é, apenas, inesperado. Não quer dizer mais nada que não seja isso mesmo: um gato morto.

sábado, março 18, 2006

Vergonha

Sinceramente, palavra de honra! Tenho tentado olhar para o novo Presidente da República com outros olhos que não estes, os que trago desde que me conheço.
A verdade é que nunca gostei do homem. Sempre o considerei um cêpo, sem cultura nem sentimentos de gente, uma espécie de coisa ruim que nos saíu em sorte num dia de azar infinito.
Mas, admito, tudo isto pode ser uma "questão de pele" capaz de gerar um preconceito inultrapassável por muitos anos que viva (eu ou ele, ou ambos os dois). Posso estar tão irritado com a vitória do senhor Silva que não sou capaz de ver como são belos os sentimentos que o animam nem saudáveis as ideias que (dizem) lhe dançam na cabeça mais uma valsa que uma dança macabra. Raios e coriscos, não sou capaz! Não consigo acreditar.

Continuo a vê-lo como um tipo cinzento, incapaz de um gesto criativo, de uma visão minimamente iluminada por uma velazinha que fosse, um pequeno sopro de inteligência. Nada!
Sou capaz, apenas, de vislumbrar um tipo mais vaidoso desde que foi eleito para o cargo actual e, por isso mesmo, ainda mais cego e inchado, convencido de que as coisas acontecem por serem inevitáveis e não por serem fruto do intelecto.
Na perspectiva cavaquista do universo, o homem existe para confirmar a existência de si próprio. A forma como os acontecimentos evoluem depende exclusivamente de uma vontade superior, extra-humana, uma espécie de super-divindade económica, um ser sem corpo nem substância que dita o destino da humanidade: a sua própria extinção graças à superioridade da boçalidade avarenta que governa o universo e o criou à sua imagem e semelhança.

Cavaco não é mais que um profeta de segunda linha desta besta travestida de divindade. Um daqueles que será surpreendido quando perceber que nem mesmo para ele haverá misericórdia quando o seu deus do dinheiro vier cobrar o que considerar que lhe é devido. Aí teremos outra vez aquela careta que Cavaco inventou quando lhe perguntaram o que pensava das declarações de Santana Lopes sobre a sua candidatura a Belém. A imagem perfeita do homem que nos irá representar no mundo.

Vergonha! Vergonhaça da grossa!!!!

sexta-feira, março 17, 2006

Uma fábula fatela

Foi há tanto tempo!
Foi?
Tenho uma vaga recordação. Houve um jornal Dinarmaquês que, afinal, era um pasquim de extrema direita, que quis mostrar aos muçulmanos como se pode blafesmar deste lado da barreira mais ou menos visível que separa os nossos mundos.
Mas a blasfémia é uma coisa perigosa pois nunca se sabe se deus terá ou não morrido. Pode estar apenas doente e de baixa ao trabalho ou próximo da idade de reforma e o melhor será ter cuidado e respeitinho.
Pelo menos o deus muçulmano parece ter ainda muita força na verga e manter aquele pessoalzinho todo debaixo de olho. Todo... quer dizer, quase todo, porque afinal de contas os gajos matam-se uns aos outros com uma fúria difícil de perceber para nós, infiéis blasfemos de um modo geral. E, se alguém deve ter vergonha, somos nós, por não acreditarmos que deus está vivo e de boa saúde, capaz de meter na ordem os que sairem da linha e não andarem direitinhos, como manda a lei.

Na verdade, verdadinha, a coisa caiu assim como que para os lados do esquecimento e só quem viu a sua embaixada queimada ou levou alguma calhoada no toutiço ainda se lembra do que terá causado tanta celeuma. A merda dos cartoons!

Manifestações, queimas de bandeiras e imprecações, o folclore mediático do costume, tudo tão vago e balofo como um sapo fumador que estoira numa nuvem de fumo sem ter tempo para contrair um cancro ou outra coisa que valha a pena, uma dessas coisas que provam como deus castiga os que se portam mal e dá prendinhas no Natal aos que se portaram bem.

Resumindo: queria apenas lembrar que não se deve provocar gratuitamente quem acredita em deus só porque deus teima em não dar provas da sua suposta existência (bem pelo contrário). Também não devemos pensar que a fúria muçulmana contra o jornaleco dinamarquês foi orquestrada por um maestro merdoso e com pouco jeito para segurar a batuta e muito menos devemos imaginar que houve exagero na forma como as notícias sobre este quase-acontecimento histórico foi tratado entre nós, porque a nossa imprensa reflecte a singeleza dos justos que caracteriza a nossa civilização bem como o nosso exemplar modo de vida.

Talvez tudo isto não tenha passado de uma fábula estúpida e fatela que acontece num tempo em que os animais ainda falam, só que nós não sabemos disso por não percebermos bem o que são animais. Nem o que é falar.

quinta-feira, março 16, 2006

Um cromo

Estou a ouvir a voz do líder do PSD (como é que o gajo se chama?) lá dentro, a saír da TV (Marques Mendes, como pude esquecer-me!?).
A voz vai caindo, monótona, sem chama nem convicção. Parece estar a dar um recado da mãe à vizinha do rés-do-chão. Se falhar alguma coisa ainda leva um estalo.
Lá vai falando, falando, falando, sempre naquele tom lamacento.

Qual poderá ser a onda de semelhante personagem? O que o anima? De onde vem e para onde pensa dirigir-se? Gajos como ele fazem-me sempre pensar que tem de haver algo lá por trás, escondido onde não se pode ver nem saber... algum segredo sobre o combustível que põe o motor do desejo político a funcionar.


Não me parece que vá a lado nenhum.
Tem pinta de líder a prazo, cromo de queimar em fogo lento com requintes de malvadez.
Com um opositor deste calibre pode o Sócrates dormir descansado.

Será que não há mais ninguém com vontade de nos governar? Já não basta o novo presidente de todo o Portugal?
Se é dos partidos políticos que podemos esperar os futuros dirigentes ainda vamos ter de aturar muitos caretas alegres!

Nós... nem por isso.

quarta-feira, março 15, 2006

eDUCAÇÃO Artística

É de modas.
De vez em quando fala-se de educação (dispensa bem o "E") e pronto, é como abrir uma caixinha de Pandora.
Desta vez é de educação artística que se faz a conversa, por ter havido um encontro internacional sobre essa coisa que decorreu na Gulbenkian, durante uns dias.
Causa uma certa vertigem a quantidade de declarações de amor e etc. que se fazem nestas ocasiões. Que a arte é tão importante como as ciências, que o indivíduo é como se tivesse alma perneta caso não conheça os feitos dos grandes criadores artísticos, sei lá, é como se um rio tentasse saír todo de uma vez pela torneira do quintal da avó. Um perigo!
Lamentavelmente, quem se dedica ao ensino dessa coisa sabe bem que o problema é como a hidra da lenda do Hércules e já tem mais cabeças do que a floresta da Amazónia tem árvores.
Mas acho engraçado. Sempre gostei de palhaços, mesmo dos mauzitos, com pouca piada desde que tivessem nariz vermelho e falassem brasileiro com sotaque mexicano.

domingo, março 12, 2006

Amiga Frida

Hoje lá consegui visitar a amiga Frida, apesar de muitos outros estarem na mesma disposição e o fazerem também.
Confirmei as suspeitas de que ela estaria exactamente como a imaginara. Fraquinha, fraquinha, frágil como um fio de água a escorrer de uma torneira mal fechada. Demasiado fraca para suportar tanta esperança nela depositada.

Um bom negócio, esta casinha temporária onde se encontra a amiga Frida, de visita e esperando visitas. As pinturas expostas são, quase todas, de uma simplicidade amadora. Mal pintadas, desenhadas com dificuldade, as imagens alinham-se timidamente, ponteadas por fotografias para disfarçar a falta de consistência que tudo aquilo tem (ou não tem).

A coisa quase deu para o torto, dentro do meu coração, quando desemboquei na parte da casa onde prantaram três manequins do mais piroso que se poderia encontrar entre as coisass pirosas que o mercado tem para oferecer a clientes pirosos. Os bonecos vestidos com trajes que a amiga Frida poderia ter usado quando foi coisa vivente, enfrentavam uma encenação de uma espécie de enterro macabro com bonequinhos-esqueletos, como no filme de Eisenstein mas sem graça nenhuma por parecerem ter sido adquiridos na loja ao lado da outra, onde foram desencantar os manequins.

Esta exposição é fraca.
A obra de Frida Kahlo poderá permitir melhor do que isto, mas esta... o melhor é ir ver.
Por 5€ se entra e sai dali mais ou menos com a mesma carga de bagagem dentro da cabeça. Acrescenta pouco, eventualmente poderá mesmo retirar alguma coisa.

Não fosse o drama que a amiga Frida viveu e nos mostra de forma tão pueril e sincera e muitos haviam de reclamar o dinheiro de volta na bilheteira. Um flop, amiga Frida, estão a servir-se do teu sofrimento para te exporem como uma curiosidade, uma aberração de feira.

Talvez um dia te possa ver com melhor cara e outros olhos.

sábado, março 11, 2006

O regressado

Ele aí está de novo. Ex-Paulinho das Feiras, ex-Ministro da defesa, ex-líder do PP, ex-uma série de coisas que fazem dele coisa nenhuma. Uma espécie de camaleão-fantasma capaz de tirar o sono a muito boa gente e aconchegar os lençóis a muito sacana descarado.

Das suas acções e segredos (in) confessáveis há só um que eu daria tudo para conhecer. Não falo da forma como ele descobriu que foi a Virgem, dita Nossa Senhora de Fátima, quem intercedeu a favor das areias das praias portuguesas ao enviar o a maré negra do crude do Prestige para a costa galega. Isso não é segredo nenhum já que os iluminados falam frequentemente com seres de outros mundos, é um traço que os caracteriza e distingue dos comuns mortais.

Não. O que eu gostava mesmo de saber e conhecer eram as provas irrefutáveis da existência de armas de destruição massiva escondidas no Iraque. Lembram-se? O então ministro garantiu, jurou a pés juntos que tais provas não só existiam como eram um documento eloquente e arrepiante para a visão dos humanos mais puros e castos. Ele, um dos especiais da raça branca-católica-apostólica-romana, não tinha dúvidas portanto não restava espaço para dúvidas. O mundo ficou siderado e avançou destemido para a invasão do infernal Iraque convicto da justeza da acção. Portas tinha falado.

Até hoje continuamos à espera de, pelo menos, saber que provas eram aquelas. Ao que parece a coisa terá sido forjada e o Paulinho enganado na sua boa-fé. Ele e o seu companheiro da altura, o inefável Barroso. Estes dois idiotas úteis (acredito que tenham acreditado nas mentiras que Bush lhes colocou à frente do nariz) acabaram longe do Governo de Portugal.

Barroso lá está, no seu altarzinho de Bruxelas. Paulocas foi condecorado pelo Secretário de estado Rumsfeld, decerto como sinal de gratidão pelo suas tristes figuras sempre que se tratou de dizer "yes" ás políticas militares agressivas impostas pelos EUA.

Agora o homem está de volta. Entra de mansinho e com cara de mau como é costume. Vai desfiando banalidades num novo programa televisivo estranhamente intitulado "O Estado da Arte". Será que o Portas se reclama, agora, artista? Talvez até faça sentido já que a sua actuação na coisa pública se constitui como um verdadeiro "projecto" à maneira do artistas conceptuais.
Os episódios citados (a Virgem e o Desvio do Crude e As Provas Irrefutáveis) são pálidos exemplos do que este artista é capaz de criar.

Um dia destes ainda embrulha Cavaco Silva em papel de seda e manda-o para Vladivostoque, sem selo de correio e com a graça de Deus.
Amen.

quarta-feira, março 08, 2006

O Planeta dos Morcões


A nossa Democracia está em falta. O sistema político saído da Revolução de 1974 não foi capaz de criar condições propícias ao desenvolvimento efectivo da população portuguesa.
É evidente que as condições de vida globais da maioria dos portugueses são hoje muitíssimo melhores do que eram há 30 anos atrás. Já não há crianças descalças, de eterno monco a dançar-lhes nas arcadas do nariz, mendigando pelas ruas com esgotos a céu aberto (pois não?). Mas essa melhoria verificou-se, de um modo geral, entre a população europeia e com outra qualidade na maioria dos nossos parceiros da União. Isso parece, hoje, parte de um processo inevitável, um avanço quase automático do sistema capitalista mais ou menos travestido de Estado Providência, mais ou menos disfarçado de Socialismo Democrático, o que lhe quisermos chamar.

A nossa falta, a falha maior da nossa Democracia, está vergonhosamente retratada naquilo que fizemos ao nosso sistema de ensino. Na sofreguidão do combate ao modelo Salazar-fascista, baseado na crença de que os pobres de espírito serão felizes numa outra existência, uma vez que nesta, a felicidade já tem dono e foi comprada, convictos da bondade “Rousseauniana” da classe operária e do deslumbramento dos camponeses perante o esplendor das primeiras letras, os novíssimos pedagogos da nação lusitana atacaram a ignorância e o analfabetismo à pedrada e ao bofetão, sem subtileza nem inteligência nos processos. Os resultados são os que podemos constatar.

Ao longo destes 30 anos pós-revolução, a evolução das mentalidades foi, a bem dizer, mais uma distorção que uma evolução. Saídos de uma brutalidade rural e fundamentalista católica, os portugueses mergulharam de cabeça em pleno consumismo desenfreado com o Estado Providência a servir de almofada. Largámos Deus e o ditador de Santa Comba Dão para abraçarmos o capitalismo e a União Europeia. Sem tempo para pensar nem tempo para aprender. Basta ver, a título de exemplo, os níveis de endividamento e incapacidade económica para satisfazer compromissos assumidos por um número inacreditável de famílias portuguesas, para percebermos que anda por aí muita gente que não sabe usar uma máquina de calcular e muito menos sabe fazer contas ou planear com tino o seu quotidiano. Ninguém lhes ensinou ou estiveram distraídos nas aulas? Serão vítimas de professores de Matemática abstencionistas! Ou talvez a Escola tenha estado demasiado ocupada a explicar-lhes outras coisas, a prepará-los para longas carreiras académicas que acabaram quase sempre ao fim de 9 anos, para os mais perseverantes. Por muito que alarguemos a escolaridade obrigatória só poderemos daí retirar algum benefício se, primeiro, formos capazes de mostrar ao grosso da população qual o papel de uma escola.

Para o português comum a escola funciona mais como depósito para as suas crias do que local de aprendizagem. Isto porque, sendo reconhecidamente uma selva, Portugal aprende-se nas ruas, na falcatrua, na manhosice, aprende-se no golpe de baú que há-de ser a salvação do cidadão já que, a trabalhar honestamente, todos sabemos que ninguém enriquece. Há sempre a fezada do Totoloto… É triste, mas parece ser verdade. Os mais desfavorecidos pela “sorte” cobiçam os sinais exteriores de riqueza dos seus ídolos (esses sortudos) que enfeitam as capas das revistas e são capazes de tudo para parecerem ser aquilo que nunca serão.

Por um descapotável e um apartamento no centro podem (podemos) até vender a alma ao diabo. A prestações.

domingo, março 05, 2006

Importações

Easter Bunny meets The King, acrílico sobre papel 2005, RSXXI

Cada um tem o jejum que merece ou está disposto a guardar.
Os árabes devotos respeitam o Ramadão, católico que se preze faz da Quaresma ponto de muitíssima honra.

É por isso que o Carnaval, deste lado da Linha Invisível, se faz de excesso e delirium tremens. Os foliões deviam estar a precaver-se para a longa travessia quaresmal, como camelos alinhados na beira de um lago antes de um passeio no deserto. Mas não. Toda a gente sabe que os excessos carnavalescos são uma ínfima parte do regabofe infindável em que transformamos a nossa existência. Como diz a canção: "Carnaval é quando um homem quiser e não faz mal se for vestido de mulher!"

Como passam os nossos reflexos árabes pelo seu Ramadão? Como é o período de jejum do outro lado do espelho? Será tão rigoroso como parece quando vimos as imagens habituais do mundo islâmico? Tanta miséria e tanto sangue não deixam adivinhar grande folga prá folia.

Como será no Dubai?

Por cá nem os católicos são ainda o que já foram. Qual jejum qual caneco! É ver tudo a dar à dentola com uma fúria de marabunta desenfreada. Cozidos à portuguesa, feijoadas repletas de carne de porco, gordura a escorrer da panela e do canto da boca. A gula do costume.

Sinceramente tenho alguma dificuldade em enquadrar a figura do Coelhinho da Páscoa.
De onde vem aquele mostronço?
Um coelho que põe ovos? Que puta de aberração! Ainda por cima são ovos de chocolate.
Como querem que um gajo aguente os rigores do jejum quando nos oferecem a tentação assim, embrulhada num pele de coelhinho adorável?

Como já não sou católico desde antes da adolescência deixei de me preocupar com o fogo do Inferno e estou-me (ainda mais) a lixar para a Quaresma. Mas o coelho intriga-me.
É bom ou mau?
Põe os ovos ou tem contrato com a Kinder?
É diabólico?
Oferece as guloseimas à borla ou quer algo em troca?

Cá pra mim o bicho é tipo São Valentim ou mesmo coisa vinda das mesmas bandas de onde nos chegou o Haloween.Um daqueles produtos de importação para vender mais qualquer coisa ao pessoal, fazendo-nos crer que se trata de alguma tradição vadia que veio para ficar entre nós.

Grande treta de conversa...

Ainda tenho 1 sonho ou 2


Os Pop Dell'arte continuam a ser um fenómeno sem paralelo no universozinho da música portuguesa.
Sem querer esquecer ou desmerecer outras bandas interessantes (Mler If Dada, GNR, quem mais?) nem ignorar a grandeza incomensurável de José Afonso, continuo a deslumbrar-me com a sonoridade incomparável de João Peste, Sampayo e companhia.
A recente edição de uma colectânea da obra da banda veio reavivar as memórias. E aí estou eu aos saltos dentro do cérebro que me serve de habitação.
João Peste é, no universozinho dos meus heróis, uma espécie de divindade, um Pã assustador e tonitruante, pronto a sobressaltar o viajante na curva da esquina com a surpresa do seu sopro. Fica a minha admiração e o meu tributo.

sábado, março 04, 2006

Se...

E se a imagem que temos do Islão não for mais que um tremendo logro? Se por trás daqueles gajos enfurecidos e assustados com os castigos divinos houvesse um bairro repleto de famílias a passearem ao sol carrinhos com bébés redondinhos de chucha da Chicco entalada nos sorrisos?
E se os prédios que se vislumbram em fundo, para lá dos turbantes saltitantes, estiverem repletos de electrodomésticos made in Germany e brinquedos de plástico made in China, com donas de casa em avental absortas das coisas que fazem a vida, mergulhadas na trama de um novela indiana?
E se por trás da ignorância e do fanatismo religioso houver pessoas capazes de fazer o almoço sem estar a pensar na melhor maneira de fritar os miolos a um inimigo imaginário?
E se a imagem que recebemos do Outro, do Árabe, não fosse mais que uma construção falsa, ainda por cima insípida e falha de imaginação?
E se a imagem que temos de nós próprios fosse, também, produto artificial de uma sociedade tablóide?
E se, para cúmulo dos cúmulos, Deus, afinal, existisse e resolvesse vir pôr ordem nesta merda toda? Com uma bomba atómica em cada mão...

sexta-feira, março 03, 2006

Duas coisas


Primeira coisa: vi hoje (quantas vezes já vi eu esta merda?) um manifestante muçulmano na Índia dizendo que não queria Bush no seu país. Ele (o manifestante) e os seus amigos (outros como ele) são avessos à presença do Presidente americano porque é responsável pela morte de muitos muçulmanos. Grande novidade! A conversa do tal manifestante mais a responsabilidade do tal presidente nas tais mortes.
Gostava de ouvir a opinião do dito indiano relativamente à morte de muçulmanos no Iraque ás mãos de outros muçulmanos.

O repórter terá colocado esta questão ao afogueado manifestante? Decerto que ele estará tão indignado com a carnificina terrorista quanto eu ou o meu caro leitor. Mas ficamos na dúvida, na ignorância, ficamos apeados na distância que nos separa culturalmente e naquela que os meios de comunicação social vão cavando implacavelmente. O ódio (podemos falar de ódio?) que nutrimos uns pelos outros é alimentado da ignorância em que vivemos.

"O sono da razão engendra monstros" reza a gravura do imortal Goya. Pois engendra. Somos nós, adormecidos, com a pança cheia de coisa nenhuma.

Segunda coisa: Vejo-me e desejo-me para explicar aos meus alunos de História da Cultura e das Artes, 11º ano de escolaridade (por enquanto ainda não-obrigatória) conceitos básicos relacionados com o Cristianismo. A cagar e a tossir lá vamos avançando, como bois a lavrar terra com arado de madeira.

Entretanto (o programa da disciplina é longo e implacável) abordamos o capítulo relativo à "Europa sob o signo de Alá". A estranheza é semelhante. Os meus alunos estão mais ou menos a cagar-se para o assunto. E a tossir também.

É tudo a mesma coisa. Ignorância e indiferença. Os meus parcos conhecimentos sobre tão complexos períodos históricos revelam-se impotentes para despertar a curiosidade e alimentar o tão desejado espírito crítico que deveria germinar nas mentes da catraiada.

Nós consumimos. Os árabes são consumidos.

Entre uns e outros a caricatura de Deus.

quinta-feira, março 02, 2006

O que devíamos ensinar ás criancinhas

O endividamento acima das suas possibilidades económicas de uma percentagem significativa das famílias portuguesas mostra como, de um modo geral, o bom povo lusitano ainda não compreendeu as regras de funcionamento da sociedade de consumo.

A verdade, verdadinha, é que saltámos de uma ruralidade saloia e miserável para uma pós-modernidade igualmente saloia e igualmente miserável. 30 anos após o 25 de Abril e 500 reformas do ensino depois, esquecemo-nos de que a escola tem, também, a função de preparar os cidadãos para a vida activa, explicando-lhes as trivialidades da existência em sociedade.

Mas não, apostamos em querer ensinar tudo ás criancinhas, logo ali, desde a mais tenra idade (actualmente, o currículo do 7º ano de escolaridade tem 14 (!!!???) disciplinas diferentes!!!). Isso mostra como, na realidade, nos estamos a borrifar. Não queremos ensinar-lhes nada. Ainda por cima não temos tempo para estar com elas (com as criancinhas) e fazemos de conta que está tudo bem. As ruas já não são o que eram, os putos prantam-se defronte aos écrãs e encontram aí, na TV, na NET, nas consolas de jogos, o amigo que falta, o progenitor incansável, a avózinha simpática, o puto fatela que lhes deixa o nariz a pingar sangue depois de um tremendo soco na fachada.

Assim não vamos lá. As igrejas foram substituídas (para pior) pelos centros comerciais, o consumo é compulsivo, sem regra nem tino, como mostram os tais números sobre a falta de pagamento de avultadas quantias que levam as famílias a perder investimentos mal feitos, destapando contas por fazer, histórias de uma estupidez boçal reveladoras de uma falta de preparação incrível.

Os modelos sociais são os que existem através das capas das revistas, coisas do género Castelo Branco ou Lili Caneças. Tivemos um aviso sério quanto ao estado a que chegámos quando Santana Lopes alcançou a chefia do governo mas parecemos de novo entregues ao estado catatónico que nos caracteriza enquanto povo. É tempo de tentarmos poupar as criancinhas.

Uma sugestão: passemos They Live (Eles Vivem), de John Carpenter, nos jardins infantis em vez do Bambi e outras tretas do género. Temos de preparar as criancinhas para aprenderem a distinguir a verdade da realidade e isso com carácter de urgência.

A começar amanhã. (Amanhã é já hoje e amanhã hoje será ontem).

quarta-feira, março 01, 2006

Bed time for democracy*

Este gajo está a deixar a República Portuguesa à beira de um ataque de nervos.
Trapalhada sobre trapalhada, falta de personalidade gritante e uma dignidade semelhante à de um armário de cozinha, fazem dele um palhaço triste da nossa Democracia. O pior é que tende a arrastar o próprio sistema democrático para o registo bufo que vem pautando os anos que já leva à frente da Procuradoria Geral da República.

Alapado ao lugar que ocupa, não descola nem por nada deste mundo. Se tivesse um pingo de dignidade, há muito que se tinha posto na alheta. Os maus serviços prestados ao país serão recompensados com reforma e mordomias devidas aos titulares destes cargos, que as merecem independentemente da qualidade dos serviços prestados.

A historieta do "envelope 9" é mais uma grave machadada desferida na Democracia portuguesa. O processo tem sido conduzido com a habitual falta de frontalidade (há que dizê-lo, onde estava este gajo no 25 de Abril?) e, para encobrir a vergonhaça que é a Procuradoria orientada por este "senhor", põe-se de pantanas a liberdade de imprensa.

Com personagens destas em lugares determinantes para o bom funcionamento do sistema democrático temos uma imagem aproximada da qualidade da nossa democracia. 30 anos após o 25 de Abril seria de esperar um sistema político mais democrático e menos entregue ao cinzentismo intelectual dos titulares de cargos públicos.

Já vai sendo ridículo dizer que a nossa é "uma jovem democracia" a menos que aceitemos as teorias correntes que alargam até à velhice o período da adolescência. Afirmar que "é uma democracia consolidada" não passa de uma piada de mau gosto na qual Souto Moura é personagem principal. Daquelas que dizem as partes parvas da piada.

*Título de um álbum dos Dead Kennedys